| A campanha
da Abolição
[...]
Encerrando
o histórico da Abolição, propriamente dito, reproduzimos
a seguir uma série de depoimentos, considerados importantes, que
confirmam, com a autoridade dos depoentes, a veracidade dos nossos próprios
relatos:
DEPOIMENTO
DE ANTONIO AUGUSTO BASTOS [62]:
"A história
do abolicionismo em Santos ainda está por fazer. Os verdadeiros
heróis dessa campanha ainda são desconhecidos desta geração.
Quem é que hoje sabe quem eram Santos Garrafão, Eugênio
Wansuít, Quintino de Lacerda e major Xavier
Pinheiro?
"Entretanto,
esses obscuros homens do povo eram a alma da grande cruzada da libertação
dos escravos em São Paulo. Santos Garrafão sacrificou
tudo o que possuía. Os gêneros de sua casa de negócio
sustentaram por muito tempo os escravos fugidos, acoutados no Jabaquara,
acabando ele por sair pelas ruas da cidade, angariando gêneros e
roupas para essa gente.
"Quintino de
Lacerda, ex-cozinheiro do atual senador Lacerda Franco - o Totó
Lacerda, já nesse tempo um dos chefes republicanos -, era o
encarregado de governar o quilombo do Jabaquara
e o fazia de forma a manter perfeitamente a disciplina em seus domínios.
No Jabaquara se acoutavam alguns milhares de
foragidos. A polícia e os célebres capitães-do-mato
nunca se atraveram a transpor os domínios de Quintino de Lacerda,
para de lá arrancar os foragidos.
"Eugênio
Wansuít era um mulato pernóstico, falando muito, fazendo
a propaganda no seio do povo com muito proveito.
"Em uma conferência
que Campos Sales fez no Teatro Rink, Eugênio Wansuít lembrou-se
de advertir ao fogoso orador republicano que precisava ser coerente, que
um republicano não podia ser senhor de escravos. Silva
Jardim, tomando a palavra, secundou a Wansuít, o que deu em
resultado Campos Sales tomar o compromisso de libertar os escravos, recebendo
uma grande ovação, uma verdadeira apoteose.
"Eram assim
os abolicionistas de Santos, convictos e abnegados.
"O major Xavier
Pinheiro não era um homem do povo, era mesmo um dos chefes do Partido
Liberal, mas vivia com os moços, era o chefe revolucionário
dos abolicionistas de Santos. Por iniciativa do major Pinheiro fundou-se
a Sociedade Abolicionista, a 27 de Fevereiro.
"Da sua diretoria
faziam parte o major Pinheiro, Joaquim Fernandes Pacheco e Antonio Augusto
Bastos, como presidente, 1º e 2º secretários.
"No Paquetá,
na residência do presidente, se faziam reuniões diárias,
onde discutiam com entusiasmo o problema da Abolição. Em
um sotão de um sobrado do largo do Carmo se reuniam os revolucionários
para combinarem a fuga de escravos e o seu transporte para outras províncias
e para o estrangeiro.
"Antonio Rosa,
escravo da família Xavier de Morais, foi enviado para os Estados
Unidos, e de lá, meses depois, escreveu aos senhores amável
cartão, pondo os seus préstimos à sua disposição.
"A 27 de Fevereiro
manteve-se sempre em atividade, durante a campanha abolicionista, prestando
grandes serviços ao movimento, de acordo com Antonio Bento, o organizador
da fuga em massa dos escravos das fazendas, que se dirigiam para Santos
em busca do Jabaquara.
"A tragédia
da Serra do Cubatão entre uma leva de escravos fugidos e a polícia,
cantada nos belos versos de Vicente de Carvalho, é um dos episódios
extraordinários do abolicionismo e precipitou o desfecho do problema
que terminou com esse 13 de maio, uma das belas páginas da nossa
história.
"A imprensa
de Santos era toda abolicionista e com o Diário de Santos
não dava tréguas aos escravocratas. A mocidade desse tempo
mantinha jornais e sociedades abolicionistas, salientando-se O Piratiny,
dirigido por Guilherme de Melo e Antonio Augusto Bastos. Era o órgão
dos vermelhos, sendo um dos colaboradores Vicente de Carvalho. A Evolução,
de Silvério Fontes; A Procelária de Júlio Ribeiro,
A
Idéia Nova de Constantino Mesquita, e outros, batiam-se pela
libertação imediata dos escravos.
"Santos, enfim,
era o Canaã dos escravos e aqui eles encontravam a liberdade, mesmo
contra os senhores e os governos".
DEPOIMENTO
DE AMÉRICO MARTINS DOS SANTOS [63]:
"Quintino de
Lacerda foi um negro valente, o dominador do Jabaquara. Prezo-me de o ter
descoberto, de lhe ter dado a mão, e, hoje, de venerar a sua memória.
Orgulho-me de ter sido um dos contribuintes, o maior e mais devotado, para
a manutenção do Jabaquara, e o meu amor por aquele reduto
de liberdade era compreendido pelos quilombolas defendidos por Quintino
de Lacerda, que sentiam por mim a maior simpatia.
"Quintino
de Lacerda possuía um cavalo branco e nele subia a serra, à
noite, para encontrar partidas de negros fugidos, que vinham em demanda
do quilombo do Jabaquara. Às vezes, sem que eu esperasse, ele aparecia
em minha casa, altas horas da noite, em busca de recursos para depois subir
a serra e socorrer os fugitivos, que chegavam quase nus e famintos [64].
"Muitas vezes,
ele, com sua gente, enfrentou na estrada de São Paulo os capitães-do-mato
que pretendiam prender os fugitivos, e Quintino, que era valente como as
armas, os fazia fugir, para não serem trucidados.
"As informações
sobre a chegada de levas de fugitivos nós as tínhamos dos
valentes abolicionistas de São Paulo, nossos amigos, Antonio Bento
e João Cândido Martins, sócios que eram, donos da Drogaria
Baruel, à Rua de São Bento, centro de todo o movimento da
Abolição.
"Uma vez, o
governo mandou para aqui um batalhão de engenheiros chefiado pelo
major Dom Joaquim Baltazar da Silveira, engenheiro, e que veio com o propósito
de arrasar o Jabaquara, por ocasião da descida de grandes levas
de escravos que abandonavam as fazendas para se refugiarem em Santos.
"Seríamos
destruídos daquele vez. Maz o major Joaquim Baltazar da Silveira
tinha sido meu colega na Escola Militar e eu fui logo para bordo com a
idéia de dissuadí-lo de tal intento. Fui bem sucedido. Dom
Joaquim, que só então soube do que vinha fazer, reconheceu-me
e resolveu não só deixar de arrasar o Jabaquara, mas ainda
proteger os quilombolas, dizendo que nós podíamos ficar descansados,
contando com ele.
"Assim, o Jabaquara
ficou em paz; o refúgio dos escravos, que usavam a palavra Santos
como sinônimo de Liberdade, continuou amparado por Quintino
de Lacerda e pelos demais abolicionistas, que eram muitos, entre eles figuras
interessantes como o Santos Garrafão, e cavalheiros da sociedade
daquele tempo, como Ricardo Pinto de Oliveira, Teófilo de Arruda
Mendes, Manoel Francisco de Araújo Viana, Xavier Pinheiro e tantos
outros.
"Uns contribuíam
com dinheiro próprio, outros angariavam donativos e gêneros,
e outros ainda recolhiam os pretos em suas casas e sítios, dando-lhes
trabalho e renda.
"Tenho a satisfação
de lembrar, agora, que fui eu a comprar um trem de carroças, pela
quantia de 14 contos, que ofereci a Quintino de Lacerda, para que ele pudesse
trabalhar, ganhar algum dinheiro, e continuar sendo útil à
causa, contribuindo para a manutenção do Jabaquara.
"Dom Joaquim
Baltazar da Silveira é um nome que ainda há de ser um generoso
símbolo".
DEPOIMENTO
DE JÚLIO CONCEIÇÃO [65]:
"Quando se
falar em Abolição no Brasil, não se poderá
deixar de dizer que ela foi obra exclusivamente popular e principalmente
paulista.
"Quem assistiu
ao espetáculo soberbo do abolicionismo em São Paulo e Santos
não poderá pensar de modo diferente, porque jamais esquecerá
as cenas desenroladas em torno do ideal de libertação.
"Ninguém
deve esquecer que, em princípios de 1887, o Presidente da Província,
Queiroz Telez, traduzindo a importância da obra libertadora dos paulistas
e a desmoralização em que se achava o Poder Público
perante a sociedade, por incapaz de reprimir a desobediência geral
à lei em toda a Província, mas especialmente em Santos e
S. Paulo, telegrafava para o Governo do Rio de Janeiro que
não era mais possível conter a evasão dos escravos
na Província, porque os soldados haviam feito causa comum com os
abolicionistas, favorecendo a passagem dos fugitivos para a Cidade de Santos.
- Tal comunicação causou extraordinário alarme ao
Governo, inspirando à Princesa D. Isabel a decretação
da liberdade geral dos cativos. Este é um fato rigorosamente histórico,
que diz bem claro onde nasceu verdadeiramente a Abolição.
"Participante
que fui da gloriosa campanha, orgulho-me de haver concorrido com serviços
materiais e morais e auxílios pecuniários, para a vitória
do ideal comum, ao lado de inolvidáveis trabalhadores da causa,
ao lado de Santos Garrafão, o português José
Teodoro dos Santos Pereira, grande e destemido elemento da Abolição
em Santos, o qual tinha seu pequeno escritório em espaço
que lhe cedi em meu próprio escritório comercial na Rua
de Santo Antonio, então sob a razão social de Júlio
Conceição & Melo, sendo por isso testemunha das grandes
ações do valente paladino da liberdade dos cativos.
"Santos
Garrafão se dedicou também, um ano depois, à salvação
pública, na calamidade do ano seguinte, a febre amarela de 1889.
Ele vivia maritalmente com a preta Brandina, afamada cozinheira que dirigia
uma casa de pasto de propriedade de ambos, onde hoje é a Praça
da República, na antiga Rua Setentrional,
muito procurada por toda gente daqui e de fora, a qual se tornou o braço
direito de Garrafão e de todos os cabos abolicionistas,
no socorro aos negros, aos quais fornecia comida, fumo e remédios,
olhando por todos eles como uma verdadeira mãe.
"Nessa ocasião
privei com muitos vultos da campanha memorável, entre os quais reputo
necessário salientar as figuras principais de Quintino de Lacerda,
o comandante de Jabaquara, Geraldo Leite da Fonseca, despachante de Augusto
Leubá & Cia., e parece que sócio dessa firma, que representava
uma companhia francesa de vapores, um bravo na acepção do
vocábulo; Américo Martins dos Santos, um batalhador dedicado
desta campanha e da campanha da República; Ricardo Pinto de Oliveira,
professor e despachante da Alfândega;
Guilherme Souto, honradísimo negociante que até foi à
falência, entregando a própria cama em que dormia para pagamento
de sua dívida; o ilustre Martim Francisco, Júlio Ribeiro,
o filólogo, ambos jornalistas das duas campanhas; Carlos Escobar,
Afonso Veridiano, José Ignácio da Glória, com grandes
serviços em São Vicente, o Cel. José Lopes, Dr. Lobo
Viana, Dr. Silvério Fontes, Dr. Sóter de Araújo, Júlio
Backeuser, Juca Leite, irmão de Geraldo Leite, Vicente de Carvalho,
Antonio Augusto Bastos, José André do Sacramento Macuco,
Antonio Carlos da Silva Teles, Henrique Porchat, Teófilo de Arruda
Mendes, Antonio do Amaral Rocha, João Guerra, Joaquim Fernandes
Pacheco, Francisco Martins dos Santos Júnior, e os eminentes Silva
Jardim e Rubim César, como outros ainda, que seria longo enumerar.
"Todos nós
trabalhávamos de acordo e em conjugação de esforços
com Antonio Bento, Feliciano Bicudo e outros chefes abolicionistas de São
Paulo, os quais encaminhavam para Santos todos os escravos subtraídos
às chácaras e fazendas da capital e do interior, obra entregue
aos famosos caifazes, cujo trabalho ninguém poderá
esquecer na distribuição dos merecimentos dessa fase histórica
do Brasil, grandes trabalhadores, como foram, nas cidades e nos sertões,
que trabalhando, ora desassombradamente, ora sob mil artifícios,
vencendo preuízos e cansaços, ajudaram a libertar, em alguns
anos de luta e com grande antecipação da Lei Áurea,
mais de 200.000 escravos da Província, a ponto de se poder e dever
dizer, como já disse, que a Abolição não foi
obra da Princesa Isabel, nem dos seus titulares do Rio de Janeiro, como
ingratamente se comemora, e sim do povo abnegado de algumas províncias,
mais especialmente do povo de São Paulo.
"Que outros
contem os pormenores do grande movimento em Santos, e terá a História
a confirmação das minhas palavras.
"Santos foi
o baluarte máximo da Abolição, o eixo de todo o movimento
popular que venceu políticas e governos, e tem sido esquecida por
quantos têm escrito sobre Abolição no Brasil, não
recebendo pelo menos o destaque a que tem direito, na distribuição
dos merecimentos da memorável campanha, e, na minha opinião,
nela, os negros de todo o atual Estado de São Paulo e, em sua falta,
os governos deviam levantar, no chão sagrado do Jabaquara, um monumento
de glorificação a Santos, a Libertadora [66]".
DEPOIMENTO
DO PROFESSOR CARLOS ESCOBAR [67]:
"Para mim é
fora de dúvida que os fatores da Abolição foram as
idéias próprias aos tempos modernos, a proibição
do tráfico negro, a Lei do Ventre Livre, o fundo de emancipação,
a desorganização do trabalho agrícola, o apostolado
popular, a recusa do Exército em pegar negros fugidos.
"A Princesa,
não obstante o respeito que nos merece, como o gabinete João
Alfredo, entrou nessa coisa qual Pilatos no Credo. O Sr. Teixeira Mendes,
o maior filósofo brasileiro e o coração mais puro
que conheci até agora, provou que a Abolição foi conquista
popular, como a Independência tinha sido antes obra de José
Bonifácio, explorando a vaidade de D. Pedro.
"Recordo-me
perfeitamente que o meu eminente amigo Sr. Júlio Conceição
pôs ao serviço do movimento abolicionista a sua mocidade vigorosa,
a sua inteligência esclarecida, a sua bolsa caridosa. Quantas vezes,
ao lado de Quintino de Lacerda, de Santos Garrafão e de outros
abolicionistas fomos receber os seus ponderosos conselhos.
"Assisti, na
Capital, às prisões de Bicudo e de José Maria. Fui
ao Consistório da Igreja dos Remédios, na Tipografia da Redenção,
nessa tarde sombria, por ordem do Dr. Antonio Bento, compor o protesto
contra essas prisões injustas, o qual foi profusamente distribuído
à noitinha. Nesse Consistório realizei diversas conferências
presididas pelo venerando chefe abolicionista.
"Estive em
Moji-Mirim, onde realizei uma conferência abolicionista promovida
pelos Drs. José Oscar de Araújo Cintra e Alexandre Coelho,
no salão da Câmara Municipal, quando o Conde de Parnaíba
enviou para aquela cidade um forte contingente destinado a deter a marcha
de escravos que abandonavam as fazendas.
"Em Campinas,
assíduo colaborador do jornal de Henrique Barcelos, valente abolicionista,
assisti à intervenção do capitão Colatino,
parece-me que hoje general, mandando espaldeirar os abolicionistas. Estive
no meio do povo na célebre noite do quebra-lampiões,
em que resistimos à tropa desse capitão, dispersa no seio
da massa, para nos espancar.
"Vi senhores
embarcando escravos na estação daquela cidade e empregados
da Paulista dando agasalhos aos fugitivos até nos vagões
de carga.
"Antonio Bento
tinha partidários por toda parte. Eram humildes trabalhadores e
opulentos proprietários. As mulheres, os velhos, os jovens, enriqueciam
as hostes abolicionistas.
"Mas a página
brilhante da Abolição foi escrita em Santos, onde era um
crime ser escravocrata, e toda a população rejubilava-se
de proteger os fugitivos, com Júlio Conceição à
frente.
"É uma
nota de que nos devemos lembrar. Muito antes do Dr. Antonio Bento, numa
reunião de libertos e de estudantes, na qual tomei parte, ficou
deliberada a desorganização do trabalho agrícola,
pela fuga dos escravos. Mas, só o grande Dr. Antonio Bento teve
a subida honra de executar esse programa, pelo menos dois anos depois dessa
reunião.
"Colaborei
na Redenção até os seus últimos dias e conheço
toda a trama para o assassinato do grande chefe abolicionista. Procurava-se
com todo afinco o escritor da secção De casaca e sem casaca,
com chapéu e sem chapéu.
"Na libertação
dos escravos do Ceará, foi Santos que concorreu com o maior óbolo
para abrigar os fugitivos, que já se tinham desviado para a Província
de São Paulo, e devem existir nos arquivos de Quintino de Lacerda
as provas desse fato [68]".
DEPOIMENTO
DO CORONEL FELICIANO BICUDO [69]:
"Não
fui propriamente um abolicionista santista, porque, saindo de Santos no
ano de 1875, passei quase todo o tempo da grande e generosa campanha entregando-me
inteiramente a ela, mas sempre apoiado no baluarte libertador que era para
todos nós esta importante cidade litorânea, expressão
legítima do abolicionismo generalizado, denodado, persistente e
vitorioso.
"Santos era
o rumo dos infelizes que nós conseguíamos arrancar ao cativeiro,
conquistando-os nas cidades, nos sítios ou nas fazendas, de qualquer
maneira e contra qualquer risco. Ficávamos satisfeitos quando os
púnhamos a caminho do Jabaquara, o famoso reduto santista, e, quando
sabíamos que os escravos subtraídos tocavam as raias do município
do litoral, deixávamos de pensar neles, para pensar em novos infelizes,
porque aqueles já estavam então entregues à própria
liberdade, sintetizada pela terra santista.
"Em São
Paulo, na generosa e grande São Paulo de José Bonifácio
(o Moço), Dr. Fernandes Coelho, Cândido de Carvalho, Antonio
de Paiva, Luiz Gama, Antonio Bento, Antonio Paciência, Manoel da
Rosa Silveira, Vicente Éboli, Carlos Garcia, Antonio Batista Ebekem,
João Joaquim do Nascimento, Roque de Carvalho, Roberto Nelsen, Hipólito
da Silva e tantos grandes abolicionistas, cujos nomes não deviam
morrer na gratidão do povo, fui o fundador e presidente do famoso
Clube dos Abolicionistas do Braz, que tantas estripulias fez em São
Paulo e tantos escravos libertou em situações as mais diversas
e muitas vezes dramáticas.
"Companheiro
de João Ferreira Granja e José Vila Maria, vultos de muito
nome na São Paulo Abolicionista daquele tempo, fui, com eles, vítima
da mesma prisão, em conseqüência de um furto de escravos
que fizemos numa importantíssima chácara da Capital, quando
se achava a família entretida com uma festa íntima, se não
me falha a memória. Nessa ocasião, deixamos a importante
família sem um criado sequer para servi-la, porque todos eram escravos
e nós os encaminhamos para Santos, sob mil artifícios. Fomos,
por isso, presos e processados.
"Vila Maria
e Granja conseguiram, depois de algum tempo, escapar ao processo e deixar
a prisão; eu, porém, só consegui desvencilhar-me da
polícia, após uma série de circunstâncias, em
que, disfarçado de tropeiro, até tive que refugiar-me em
Santos, e após ter, algum tempo depois, respondido a júri,
no qual fui unanimemente absolvido. Tive aí o oferecimento profisisonal
de inúmeros advogados de São Paulo, mas só me utilizei
dos eminentes drs. Fernandes Coelho e Joaquim José Vieira de Carvalho,
conhecidos jurisconsultos, sendo este último santista [70].
"Lembro-me,
também, de que um dia recebi de Santos um telegrama sem assinatura
e somente com estas palavras: Encomenda
segue hoje trem 10, espere estação.
"Surpreendido
mas desconfiado de que algo de anormal seria, convidei um meu vizinho,
grande e decidido abolicionista, membro do Clube do Braz, em cujo bairro
morávamos, e fomos ambos para a pequena estação.
"A chegada
do trem, tive a felicidade de ver, junto a um latagão espanhol,
conhecidíssima preta de Santos, e percebi, imediatamente, que a
encomenda
era aquela.
"Tomamos ambos
o mesmo vagão em que viajavam o senhor e a escrava, e, ao chegar
à Luz, enquanto o meu companheiro, homem forte também, fingia
um tropeção, caindo sobre o espanhol e atrapalhando-o por
momentos, eu tomava a preta pela mão e saía com ela, rapidamente,
vagão a fora, passando entre dois policiais que guarneciam a saída
da estação e que nos ficaram a olhar, aturdidamente, sem
poderem compreender a cena de primeira vista. Num ápice meti a escrava
num dos carros da Luz - sendo justo que diga-se de passagem, todos os cocheiros
de São Paulo eram abolicionistas e exerceram na campanha relevantíssimo
papel - e, duas horas depois, já a tinha escondida num pequeno subterrâneo
que fizera em minha casa para esse fim, cuja entrada ficava por baixo de
uma grande arca onde guardávamos coisas velhas e objetos de família.
"Antonio Bento
soube desse fato mais tarde e gabou muito a habilidade do raptor, mas só
soube que fora eu esse raptor no primeiro encontro que tivemos.
"Pela preta
subtraída, foi que soube que o telegrama recebido era do Santos
Garrafão, a grande figura popular da cidade de Santos, que a
avisara do que ia fazer, aconselhando-a a se fazer vista por mim na estação
do Braz e a obedecer a todos os meus sinais ou atos em seu favor.
"Assim como
eu, muito trabalharam centenas de abolicionistas em São Paulo, sendo
justo lembrar os caifazes e os cometas, os chamados caixeiros
viajantes, que, no interior, simulando visitas comerciais, aproximavam-se
dos escravos pertencentes aos comerciantes visados, com sacrifício
dos seus próprios interesses, combinando, com eles, a fuga em massa
para Santos.
"Tal foi a
atividade dos paulistas numa época em que era crime a proteção
ao cativo, e, assim, Santos e São Paulo foram os realizadores da
Abolição; nenhum governo, como nenhuma lei ou polícia
seria capaz de impedir o grande trabalho libertador das duas cidades, que
precipitavam a decretação da Lei Áurea, sob pena de
breve e absoluta desmoralização do Governo Provincial e conseqüentemente
Imperial, nessa questão importantíssima.
"Como o Tratado
de 1750 veio dar ao Brasil os limites já dados ao País pelos
Bandeirantes, ratificando apenas o que já fora feito, a Lei de 13
de maio de 1888 apenas fez isso também, ratificou o que já
estava e o que vinha sendo feito contra todas as leis e disposições
do Governo, e assim como ninguém pode tirar aos Bandeirantes a glória
de realizadores da expansão territorial brasileira, ninguém
poderá roubar também aos abolicionistas, especialmente aos
da antiga Província de São Paulo, a glória da Abolição
no Brasil".
DEPOIMENTO
DE JOÃO SALERMO [71]:
"A propósito
da propaganda abolicionista, recordo-me, dentre outros, dos abolicionistas
João José Teixeira, proprietário do Diário
de Santos, Aprígio Carlos de Macedo, jornalista e professor
público (que com sua esposa Da. Joana Machado, também professora,
inauguraram as escolas no prédio construído pelos então
Viscondes de Embaré e Vergueiro, à Rua 2 de Dezembro, em
que funcionava até pouco tempo o Grupo Escolar Olavo Bilac) [72],
Dr. Antonio da Silva Jardim, Dr. João Galeão Carvalhal, Dr.
Martim Francisco, João Guerra, além dos republicanos Henrique
Porchat, João Bernardino de Lima, Joaquim Manoel Alves Lima, Guilherme
Souto, Américo Martins dos Santos, Francisco Martins dos Santos
(este Liberal), e, na rapaziada: Gastão Bousquet, Alberto
Souza, Constantino Mesquita, Antonio Augusto Bastos, Leopoldo de Freitas,
Joaquim Montenegro e tantos outros.
"Existia uma
associação de abolicionistas sob a denominação
de 27 de Fevereiro, data esta em que, em 1886, foram libertados os últimos
escravos existentes em Santos, e, em homenagem ao fato, foi dada a denominação
a uma via pública, hoje substituída por Conselheiro Saraiva,
autor da lei que libertava os sexagenários.
"O caminho
para o Jabaquara era por trás da Santa Casa,
encontrando-se à subida da montanha a chácara de Benjamin
Fontana e à esquerda do morro o caminho para o Monte
Serrate, e no prosseguimento do caminho a estrada era estreita e tortuosa,
com destino ao Jabaquara, Canaã dos escravos acolhidos por Quintino
de Lacerda. Antes de lá chegar existia um sítio de propriedade
de Geraldo Leite da Fonseca, despachante da Alfândega, trabalhando
na Casa Augusto, Leubá & Cia.".
DEPOIMENTO
DO DR. EVARISTO DE MORAIS [73]:
"Ao movimento
abolicionista em S. Paulo está intimamente ligada a existência
do famoso Quilombo do Jabaquara, na cidade de Santos, para onde, em regra,
convergiam todos os evadidos das senzalas das vizinhanças.
"Antes, porém,
de dedicarmos algumas linhas àquela verdadeira instituição
abolicionista, cumpre não esquecer a Serra do Cubatão,
a cavaleiro de Santos, caminho mais ou menos seguro para o trânsito
dos que demandavam o citado quilombo.
"Celebrizou-se
Cubatão, nos últimos anos de luta, porque era impenetrável
à polícia paulista, sempre receosa de possíveis surpresas
e emboscadas dos quilombolas.
"A propósito
de Cubatão, ocorre-nos uma espécie de visão profética
de Castro Alves. Quando ele, em São
Paulo, supunha terminar o poema Os Escravos, comunicava ao seu amigo
e cunhado Augusto Guimarães, na Bahia:
"Devo dizer-te
que os meus Escravos estão prontos. Sabes como acaba o poema?
Devo a São Paulo esta inspiração. Acabam no alto da
Serra de Cubatão, ao romper da alvorada sobre a América.
É um canto do futuro, o canto da esperança [74].
"No começo
de 1888, desciam os quilombolas de Cubatão, quase francamente
a Santos, uns voltando para a Serrra, outros dirigindo-se definitivamente
para o Jabaquara. O número total deles subia, talvez, a dez mil.
"Em Santos,
a população lhes era acolhedora, e, em geral, as autoridades
não se preocupavam com a sua existência mesmo no centro da
cidade, fato observado pelo próprio chefe de polícia provincial
e transmitido ao Presidente (N.E. presidente
da província, cargo eqüivalente ao do atual governador estadual).
Efeitos inevitáveis da contemporânea reviravolta de Antonio
Prado e da atitude conseqüente da maioria dos proprietários
rurais.
"Era figura
central do movimento um preto sergipano, ex-escravo da firma Lacerda &
Irmãos, por nome Quintino. Tomara o nome dos seus ex-senhores, que,
aliás, o tiveram em grande estima: ficara sendo Quintino de Lacerda[75].
"Durante a
presidência do Barão de Parnaíba e do Conselheiro Rodrigues
Alves, surgiram pretensões de cercar a serra e capturar os escravos,
que ali se haviam refugiado, mas nunca se chegou a tentar essa arriscada
empresa.
"Muito haveria,
se nos sobrasse espaço, para recordar acerca desse destemido e generoso
chefe do Quilombo do Jabaquara, de quem Gastão Bousquet - um dos
bons trabalhadores em Santos, pela causa dos escravos - disse que era 'um
herói abençoado'.
"Efetivamente,
ele exprimia o traço de união entre a cidade hospitaleira
e os fugidos do eito. Sua simpatia, sua dignidade pessoal, sua coragem,
davam-lhe o suficiente prestígio para manter no respeito e no trabalho
aquelas centenas de criaturas cheias de justificados ódios, de insofridas
ambições, de anseios de toda ordem.
"Chegou a ser,
na expressão de Silva Jardim, que bem o conheceu, 'uma
garantia da ordem para a cidade', pois exercia
o cargo de inspetor do seu quarteirão (era Quintino, por seu turno,
grande admirador de Silva Jardim, cujo nome escolheu para título
de um batalhão patriótico, por ocasião da Revolta
da Armada).
"Auxiliar valoroso
de Quintino foi o português Santos Garrafão, intermediário
do Quilombo e da Praça de Santos, onde o comércio era todo
pelos escravos (seria imperdoável esquecer aqui o nome de Júlio
Conceição, que, ao movimento abolicionista em Santos, prestou
serviços de destaque, merecendo, por issto mesmo, homenagens da
Confederação Abolicionista, a competente aferidora das atividades
úteis ao mesmo movimento).
"Prestimosa
testemunha de todo o movimento popular abolicionsita de S. Paulo, nos últimos
tempos (testemunha que nele exerceu salientíssimo papel) forneceu-nos
as notas que se seguem, além de outras já por nós
utilizadas.
"Onde, porém,
o abolicionismo dominou todas as consciências, numa impressionante
unanimidade de opiniões, foi na cidade de Santos. Desde que um escravo
conseguia pisar as ruas daquele porto, era de fato homem livre, e, de mais
a mais, encontrava emprego remunierador para seus braços.
"Na cidade
de Santos guiavam o movimento popular Quintino de Lacerda e Santos Garrafão,
fundadores do Quilombo do Jabaquara [76],
Júlio Maurício e Vanssuitem, antigo sargento do exército[77].
Nos grupos proletários, estes eram figuras estimadíssimas.
"Henrique
Porchat, rico proprietário e industrial, nunca mediu seus esforços
para libertar cativos. Tornou-se ele, posteriormente, a mais preponderante
influência republicana naquela cidade [78].
"Xavier Pinheiro,
intransigente adversário da República, foi sempre um abolicionista
intemerato e útil. Dono de caieiras, lá acoutou muitos fugitivos.
"Dois influentes
republicanos da propaganda levaram todo o seu partido em Santos para o
abolicionismo: Américo Martins dos Santos e Guilherme Souto.
"O poeta Vicente
de Carvalho, desde mocinho, se entusiasmou pela santa causa. Formado
em Direito, abriu sua banca de advogado na cidade de seu berço,
ao mesmo tmempo que negociava em sacos de aniagem. Na oficina de sua indústria
asilou perseguidos. Sua enorme inteligência constituía o elemento
intelectual de maior fulgor que o abolicionismo contava em Santos[79].
"Citei apenas
os nomes que, de pronto, me ocorrem. Lembrar todos seria fazer o recenseamento
da população, porque seria impossível descobrir entre
os santistas um escravocrata [80].
"É São
Bernardo uma vila situada nas base da Serra do Mar, entre Santos e São
Paulo, ponto de passagem quase obrigatório para os que, do interior,
demandavam o solo livre de Santos. Os companheiros que ali favoreceram
nossas empresas foram o Dr. Luiz Flaker, o professor normalista Lindolfo
e o coronel João Teco" (aqui termina
a informação da testemunha do movimento, prestada a Evaristo
de Morais).
"Servindo-nos
dos jornais da época, da tradição oral e dos dois
relatórios, façamos sucinta narração das ocorrências,
que tamanhos sobressaltos motivaram.
"Os escravos,
sem haver cometido qualquer atentado pessoal ou contra a propriedade, saíram
de Capivari, e, como se dirigissem para Santos, tiveram de atravessar Itu.
Seu número passava já de 100.
"No entanto,
fora ao seu encontro uma pequena força policial, fiada, provavelmente,
na antiga passividade dos escravos.
"Sem embargo
da intervenção da força, os retirantes, sempre
com rumo a Santos, seguiam pela estrada velha, quando próximo à
Vila de Santo Amaro, nas vizinhanças de São Paulo, se deu
o embate com outra força (esta da cavalaria) que o governo mandara
ao seu encalço. Sucedeu que os soldados tinham inutilizadas as clavinas
em razão da chuva. Atacaram, pois, os pretos, a arma branca e patas
de cavalo.
"O encontro
foi muito sério. Morreram um soldado e um preto (fatos posteriores
vieram demonstrar dois equívocos no jornal paulista: os escravos
não eram somente de uma fazenda e o seu número era superior)[81].
"O governo
paulista, apavorado, ao mesmo tempo que pedia ao governo central auxílio
de tropa de linha, expedia ao encontro dos retirantes uma força
de 60 praças, sob o comando do tenente-coronel (capitão do
Exército) Canto e Melo. O chefe de polícia, em pessoa, acompanhava
a força.
"Já
então se sabia em São Paulo que os pretos reagiam contra
os soldados gritando:
"-
Liberdade ou morte! Viva a Liberdade! Aqui ninguém se rende, preferimos
morrer!...
"Afinal as
autoridades desistiram da ofensiva. Adotaram novo plano: cercar os retirantes
na fralda de Cubatão, caminho de Santos, tomando ali posição
defensiva.
"Não
logrou êxito a estratégia. Pelos matos, sorrateiramente, os
escapos ao cativeiro lograram atingir a que era sua almejada Canaã,
o alto daquela serra de onde, a pouco e pouco, desceram em grande número
para Santos".
Encerramos
com este depoimento o histórico do movimento da Abolição
na cidade de Santos, com todas as suas ligações e articulações,
no tempo e no espaço, isto é, na área cronológica
(1823 a 1888 - de José Bonifácio à Princesa Isabel)
e na área geográfica (Santos - Província de São
Paulo - Brasil).
[...]
Notas:
[62]O
Estado de S. Paulo - Inquérito histórico sobre a Abolição
entre os abolicionistas vivos - 1926.
[63]O
Estado de S. Paulo - Inquérito histórico sobre a Abolição
entre os abolicionistas vivos - Coleção de 1926.
[64]
Américo Martins comprometeu quase totalmente a boa fortuna que então
possuía, chegando mesmo a dificuldades, mais tarde, em conseqüência
do gasto excessivo que fizera nas duas campanhas.
[65]
Depoimento escrito e enviado ao autor desta obra, em 5 de janeiro de 1937,
e já publicado anteriormente no Diário, de Santos.
[66]
Sempre pensado e falado, jamais foi levado a efeito este monumento à
mais bela e mais rica de todas as páginas históricas da cidade.
Na Comissão
do Plano da Cidade, existe trabalho produzido pelo autor desta obra, a
convite da mesma Comissão e como representante do Instituto Histórico
e Geográfico de Santos, com a idéia da praça a ser
criada em frente à saída do túnel, em pleno coração
do antigo Jabaquara, na bonita avenida que lá existe agora; da praça
e do monumento à Abolição a ser levantado nela.
A sugestão
foi aceita e incluída na planta que faz parte do Plano da Cidade,
a ser obedecido pela Diretoria de Obras e pela de Serviços Públicos.
Entretanto... até agora nada, embora já possuamos os monumentos
ao pescador, ao remador, e, decerto, muito breve, ao tenista, ao pugilista
e ao jogador de futebol... como reflexos da mentalidade dominante.
[67]
Depoimento igualmente publicado no jornal O Diário, de Santos,
e fornecido depois ao autor desta obra, pelo próprio depoente, que
se encontrava no momento em casa de Júlio Conceição,
no famoso Parque Indígena, hoje desaparecido.
[68]
É muito importante esta revelação de Carlos Escobar,
o primeiro diretor da Escola Barnabé e grande propugnador da sua
criação, defendendo a aplicação do legado Barnabé
Francisco Vaz de Carvalhaes. Santos estava em toda parte, lutando pela
Abolição.
[69]
Depoimento entregue pessoalmente ao autor desta obra pelo depoente em casa
da família Jocelyn Traindade, que era a casa de sua filha e de seus
netos, no ano 1936 e ainda em vida de Jocelyn.
Foi nos braços
deste grande abolicionista que morreu, em 1874, vitimado pela febre amarela,
o precursor Xavier da Silveira.
[70]
Este Joaquim José Vieira de Carvalho, defensor de Feliciano Bicudo,
era filho do outro advogado de igual nome, que, em 1839, era presidente
da Câmara Municipal de Santos e presidiu à solenidade e às
festas da elevação de Santos à categoria de Cidade.
Nesta família nasceria o grande Arnaldo Vieira de Carvalho, cirurgião
afamado e fundador da Faculdade de Medicina de S. Paulo.
[71]
O capitão João Salermo era um dos chefes de secção
e diretores da Prefeitura Municipal de Santos. Seu depoimento nos foi entregue
pessoalmente, em fins de 1936.
[72]
Hoje, no lugar, funciona a Caixa Econômica Estadual (N.E.:
informação de 1986, data da republicação da
História
de Santos).
[73]
Pedimos a Evaristo de Morais um depoimento sobre a Abolição,
na parte referente a Santos e S. Paulo. Foi isto em meados de 1936. Em
resposta enviou-nos o grande criminalista, orador e historiador, esta transcrição
do seu próprio livro A Campanha Abolicionista, declarando
que considerássemos aquela transcrição o seu depoimento
pessoal, pois não poderia fazer melhor, a não ser com muito
vagar. Trata-se, é fácil reconhecer, de um grande depoimento,
que se completaria com os dizeres de sua longa carta de 25 de junho de
1938, apreciando a primeira edição desta obra e, principalmente,
o nosso capítulo sobre a Abolição, na qual, modestamente,
confessava "ter aprendido
muito num assunto que pensava conhecer bastante e que, em verdade, conhecia
bem pouco", o que para nós era uma
consagração.
[74]
A epopéia santista da Abolição proporcionou matéria
e insipiração a escritores, historiadores e poetas. Quanto
aos poetas maiores, aí está a confissão de Castro
Alves, em relação aos seus Escravos. Vicente de Carvalho
tem outra confissão semelhante em seu Fugindo ao Cativeiro,
cuja
inspiração evidente é o Jabaquara, objetivo principal
das fugas em masssa e dos fujões.
[75]
Era isto comum entre os escravos e ex-escravos, talvez em todo o Brasil,
por gratidão e preito de admiração aos bons amos,
senhores e ex-senhores. Muito pesquisador cometeu enganos em conseqüência
disso. Ainda há pouco tempo um historiógrafo de Santos tomava
Antonio Martins dos Santos, ex-escravo, pelo capitão Antônio
Martins dos Santos, seu ex-senhor, ex-deputado provincial, ex-presidente
da Câmara de Santos e conselheiro da Província de S. Paulo...
[76]
Quintino de Lacerda e Santos Garrafão não foram os fundadores
do Jabaquara. Os fatos estão bem esclarecidos neste capítulo.
Júlio Maurício e Wansuit trambém não eram orientadores
do povo, no sentido aqui dado à sua atuação; eram
sim grandes colaboradores dos chefes do movimento popular e social.
[77]
Wansuit e não Vanssuitem, não fora sargento do Exército
e sim Imperial marinheiro. Houve engano do informante de Evaristo de Morais.
Um filho de Wansuit - Eugênio Wansuit -, antigo campeão de
futebol, era valente e forte como o pai.
[78]
Sempre houve muita confusão entre Henrique Porchat (Henry Porchat),
o pai, que era belga (N.E.:
citado
pelo pesquisador Olao Rodrigues como sendo suíço, de
Genebra), e Henrique Porchat, o filho, que
era muito jovem na campanha da Abolição e da República,
e já nascido em Santos. É preciso cuidado no trato destas
duas figuras. O filho formava entre os moços dos dois movimentos.
Xavier Pinheiro podia ser pai dele, pela idade.
[79]
Há evidente exagero ou erro de observação de parte
do informante de Evaristo de Moraes, com grave injustiça aos numerosos
e fulgurantes talentos, às grandes e até notáveis
inteligências e culturas militantes na campanha, como Silva Jardim,
Martim Francisco, Júlio Ribeiro, Rubim César, Gastão
Bousquet, emílio Ruéde, Alberto Souza, Alexandre Martins
Rodrigues, Augusto Fomm, Luiz Ernesto Xavier, Carlos Escobar, Sílvério
Fontes, João Guerra, Sacramento Macuco, Manoel Maria Tourinho, Sóter
de Araújo, Cunha Moreira e outros ainda; vários deles conhecidíssimos,
apenas alguns menos conhecidos dos nossos dias; todos, porém, de
alto gabarito intelectual cultural e moral, formando mesmo uma admirável
e rara constelação de valores do gênero, o que
não deixava de ser uma das características valiosas do movimento
e uma das razões da sua força, considerada a época
em que ele se desenrolava, sabido que contava também com a força
econômica e financeira, em conjugação.
[80]
Outro exagero do informante. Em Santos nem tudo foi "mar de rosas" até
1886. Houve, até então, muitos Conservadores, que, por disciplina
política e tradição, se mantiveram escravocratas até
ali. Negociantes, traficantes e agiotas, proletários e burgueses
continuaram escravocratas até então. Naquela altura é
que houve, por diversas razões, a unanimidade, quase absoluta, da
população, no sentido da Abolição, coroando
um longo, sacrificado e custoso trabalho dos abolicionistas de todos os
tipos e de todas as idades.
[81]
Eram mais de 300 quando contornaram S. Paulo, a caminho de Santos. |