HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS - VISITANTES Silva Jardim
fala no Teatro Guarany
 Abolicionista
começou em Santos a sua vida política
Com
um discurso no Teatro Guarany, o abolicionista
Antônio da Silva Jardim iniciou sua vida política, menos de
quatro meses antes da assinatura da Lei Áurea, que libertou os escravos
no Brasil. A história é contada na enciclopédia Grandes
Personagens da Nossa História (Editora Abril, São Paulo/SP,
1973):
 Ana Margarida,
Silva Jardim e o filho mais velho, Antônio Coleção
Artur Cerqueira, São Paulo/SP, in Grandes Personagens das Nossa
História
Silva Jardim
- 1860-1891
"7
horas da noite. Tinha rapidamente depositado um beijo sobre a fronte da
minha mulher, olhado em despedida os meninos, revisto um instante todo
o meu assunto e toda a situação, numa espécie de concentração
mental dissimulada, e saíra.
"Quando, um
quarto de hora depois, entramos alguns no Teatro Guarany, encontrei já
o espaçoso salão da platéia repleto de uma enorme
massa de todos os partidos, classes, posições, fortunas e
nacionalidades...
"Era a primeira
vez que me achava diante de um tão grande auditório. Uma
dezena de amigos estava comigo no palco, outros vinham alternadamente apresentar-me
seus cumprimentos.
"Quanto cheguei
à tribuna, e olhei a multidão, senti esse inexplicável
acanhamento que sente o homem diante da superioridade do povo que representa
a Pátria; é essa invasão insensível da alma
popular na alma do orador que estabelece a simpatia entre este e os ouvintes.
Fui recebido por uma chuva de aplausos, sem nenhum protesto; e enquanto
cada um se preparava para ouvir e o silêncio se fazia, senti-me suavemente
aquecer ao calor da animação popular, sem perder a serenidade
necessária para a sondagem contínua da impressão que
as palavras produziam, e para não cair em divagações
ou perder-me, esquecendo a filiação dos assuntos.
"E eis-me agora
só, diante de todo o público, tímido a princípio,
e aos poucos animando minha voz à proporção que sentia
o olhar geral de aprovação...
"Pouco a pouco,
o público se anima, anima-se o orador, e daí por diante segue-se
o discurso, durante horas, ora movimentado pela sátira, ora serenado
pela demonstração, ora exaltado pela apóstrofe; segue
coberto de interrupções, de aplausos entusiásticos,
de risos estrepitosos, que dificultavam a mesma exposição.
Levados pelo contágio, muitos monarquistas haviam rido à
vontade, acompanhando o combate e o ridículo às memas instituições
que diziam sustentar... Terminei, propondo a moção de apoio
ao ato dos vereadores de São Borja, e o protesto contra o ato do
governo imperial.
"Aplausos prolongados
tinham coberto a moção. A causa estava ganha, e o primeiro
meeting
republicano realizava-se sem que o trono se animasse à violência.
Estava tirada a prova real. Os republicanos podiam animar-se a um combate
mais ativo".
Santos, 28
de janeiro de 1888. Silva Jardim fizera sua estréia política.
 Caricatura
de Silva Jardim e, em primeiro plano, o Conde d'Eu, em campanha política Coleção
Afrânio da Silva Jardim, Rio de Janeiro/RJ, in Grandes Personagens
da Nossa História
Antônio
da Silva Jardim nasceu a 18 de agosto de 1860 no município de Capivari
(hoje Silva Jardim, Comarca de Rio Bonito, estado do Rio de Janeiro). Seu
pai, Gabriel Jardim, era professor primário e a família vivia
num pequeno sítio, em condições modestas. O menino
Tonico cresceu pequeno, magro, com aspecto doentio, conseqüência
de febres palustres que contraiu aos dois anos. Em troca, era conhecido
pela inteligência viva e aguda. Aos cinco anos aprendia as primeiras
letras, com o auxílio de um menino mais velho, aluno de seu pai.
Aos seis, lia, escrevia e passava horas estudando. Aos oito substituiu
o pai doente, dando aulas com "gravidade e eficiência", como então
se comentou.
(...) Com treze
anos, Antônio da Silva Jardim transferiu-se para Niterói e
requereu inscrição no Colegio Silva Pontes no Rio de Janeiro.
A viagem diária de casa ao colégio, utilizando a demorada
barca, esgotava-o, e a varíola acabou por atacar seu frágil
organismo. Enquanto se refazia, o colégio em que estudava fechou
e, autorizado por seu pai, mudou-se para o Rio, em 1874, matriculando-se
no Mosteiro de São Bento, onde estudava português, francês,
geografia e latim.
Como os estudantes
da época, vai morar numa república, e ingressa na
política através do jornalismo: com os colegas, redige um
jornal estudantil, o Labarum Litterario, e aí publica um
pequeno artigo sobre Tiradentes, no qual elogia a rebeldia contra o absolutismo.
Antônio tinha, então, quinze anos.
(...) Em 1877,
o pai envia-lhe 300.000 réis e, com essa quantia, Antônio
da Silva Jardim embarca para São Paulo para cursar a Faculdade de
Direito do Largo São Francisco.
(...) Silva
Jardim inicia uma grande atividade jornalística. Adere aos republicanos
e escreve, juntamente com Valentim Magalhães, Idéias de Moço;
depois redige, influenciado por Byron, O Grito na Treva; compõe
folhetins literários para a Tribuna Liberal; publica Bardos
da Inconfidência e Crítica de Escada Abaixo na
revista Direito e Letras; e um trabalho - Gente do Mosteiro
- no qual critica os costumes acadêmicos da época. Pouco a
pouco, ainda estudante, Silva Jardim vai se tornando uma figura conhecida
e polêmica.
(...) Conhece
(...) a família do Conselheiro Martim Francisco de Andrada, figuras
de grande destaque na sociedade paulistana. E é na família
liberal de Martim Francisco que Silva Jardim vai encontrar a que seria
sua esposa.
(...) Liga-se
a Luís Gama e José Leão, não apenas para pregar
idéias abolicionistas, mas para organizar, na prática, fugas
de escravos. (...) Em maio de 1883, casa-se com Ana Margarida. (...) Passa
a advogar, dedicando-se, principalmente, à causa dos escravos.
Em 1885 morre
seu sogro, Martim Francisco. O cunhado, Martim Francisco Júnior,
herda do pai um escritório de advocacia em Santos e convida Silva
Jardim para seu sócio. Transfere-se então para Santos.
- Desta
vez acertei na escolha do lugar e da profissão
- escreve ao pai.
Embora levando
uma vida modesta, Silva Jardim considera esse o período mais feliz
da vida. Residia numa pequena casa da Praça
Mauá, com a esposa, o filho e o cunhado. Aos domingos, visitava
Henrique Porchat, na ilha de sua propriedade. Às vezes, fazia conferências,
e nelas ia desenvolvendo suas idéias em prol da Abolição
de da República.
Certa feita,
participou de uma reunião republicana, e, como orador escolhido,
recordou dois nomes da Revolução Francesa: Danton e Condorcet.
Dias depois, a 14 de julho de 1887, nascia seu segundo filho, a quem chamou
de Danton Condorcet.
Sua participação
política e a defesa de uma ação republicana afastam-no
dos positivistas, meramente teóricos, chefiados em Santos por Miguel
Lemos, e que julgavam desnecessária a propaganda republicana.
(...) Em janeiro
de 1888, na Província do Rio Grande do Sul, a Câmara Municipal
de São Borja, diante das notícias de que o imperador havia
sido acometido de moléstia talvez incurável, propõe
que se aprove moção sugerindo um plebiscito nacional para
decidir quanto à conveniência da sucessão no trono
da Princesa Isabel, esposa do Conde d'Eu.
(...) O fato
tem enorme repercussão na Corte e nas províncias. Em São
Paulo e no Rio as câmaras municipais e assembléias provinciais
repetem a moção.
(...) Antônio
da Silva Jardim (...) resolve organizar um comício de desagravo
e solidariedade aos vereadores de São Borja. (...) Marca a data
de 28. Sabia que estava arriscando a vida, mas achava mais importante assumir
uma posição clara. Quando, diante das 2 mil pessoas reunidas
no Teatro Guarany, inicia seu discurso, sente que pode ir animando a voz
e as idéias, sob o olhar geral de aprovação.
Seu discurso
é violento: a pátria está em perigo. Analisa longamente
os Bragança e os Orléans. Passa em revista o estado de saúde
de Pedro II, o seu reinado e o de seu pai, a dinastia, o Conde d'Eu, o
liberalismo no ocidente e no Brasil, a personalidade da Princesa Isabel.
"A
Pátria - diz - está
ameaçada de perder o regime de liberdade pela usurpação
de um príncipe estrangeiro, expulso de sua terra, o sr. Conde d'Eu".
Mostra como as vicissitudes pessoais dos soberanos podem, em razão
do regime monárquico, pesar sobre toda a nação brasileira.
E pergunta, afinal: "Mas que tem a Pátria
com essas desgraças de família para sofrer-lhes eternamente
o peso e os destinos?"
A escravidão
também é alvo da oratória inflamada de Silva Jardim:
"Já
causa piedade e asco ver que ainda tratamos disso. Uma única lei
de emancipação resolveria: essa lei teria dois artigos: 1º
- fica abolida a escravidão no Brasil; 2º - pedimos perdão
ao mundo de não tê-lo feito há mais tempo".
Termina o discurso
propondo uma moção de apoio aos vereadores de São
Borja e de protesto contra a repressão do governo. Sua proposta
é recebida por uma torrente de aplausos.
O comício
de Santos repercutiu em todo o País. Não só modificou
o panorama da campanha republicana - seus defensores agora sentiam que
havia acolhida popular para suas idéias -, como também abalou
a vida de Silva Jardim. Definitivamente, era um homem que pertencia a uma
causa pública. Seu discurso é transcrito nos jornais republicanos
de São Paulo, Rio, Rio Grande do Sul e Pernambuco. O obscuro advogado
do fôro santista transforma-se numa figura de projeção
nacional. Tem apenas 28 anos mas passa a ser o orador mais solicitado nas
campanhas republicanas.
(...) Volta
a Santos e encontra a cidade fervendo em torno de mais um episódio
da chamada "questão militar". Um capitão-tenente da Marinha
fora preso e espancado pela polícia, que diziam estar sob o controle
pessoal do Conde d'Eu. Habilmente, Silva Jardim aproveita-se das contradições
existentes entre as próprias forças governamentais, para
novamente investir contra o regime: marca um comício para 5 de março,
data em que deveria estar no porto o encouraçado Bahia. Sobe
a bordo do navio de guerra e convence os marinheiros a aderir ao comício,
ao lado do povo e dos negros libertos.
(...) A 13
de maio é, finalmente, promulgada a lei de libertação
dos escravos. Em todo o País comemora-se o fato, Santos especialmente,
onde a população sempre ajudara a defender os negros que
fugiam para o Quilombo do Jabaquara.
Silva Jardim
associa-se às comemorações do júbilo popular,
mas, republicano, procura evitar o excessivo louvor à Princesa Isabel.
Para contrabalançar o entusiasmo dos libertos pela família
real, Silva Jardim compõe uns versinhos, que passam a ser cantados
pela população em festa nas ruas:
Isabel
não teve medo Assim é! Viva o senhor
João Alfredo Olaré! Acabou-se
a escravidão Assim é! Viva o Santos
Garrafão Olaré! A cousa segue
com tino Assim é! Viva Lacerda
Quintino Olaré! E foi sem
susto maior Assim é! Viva, pois,
nosso major!
Citando em seus
versos outros personagens da campanha abolicionista, Silva Jardim diminuía
o papel de Isabel: João Alfredo fora o ministro a propor à
regente a assinatura da lei; Santos Garrafão era a alcunha
de Santos Ferreira, velho batalhador abolicionista, muito conhecido em
Santos; Lacerda Quintino (N.E.: Quintino
de Lacerda) era o chefe do Quilombo Jabaquara,
e "nosso major" era o chefe da Polícia de Santos, que fôra
flexível no trato aos negros fugidos.
Da sacada do
Clube Republicano, Silva Jardim faz um discurso e mostra que a obra não
estava acabada: era preciso chegar à República. Os santistas
respondem com um estrondoso viva à República.
(...) Para
realizar sua campanha pela República, Silva Jardim dissolve a sociedade
com Martim Francisco e vende sua parte na banca de advogado por 500.000
réis.
(...) A 15
de novembro de 1889 é proclamada a República. Não
como previra Silva Jardim. E o Exército, que fizera a República,
não se sentia necessariamente comprometido com todos os líderes
civis que a haviam preparado. Silva Jardim, que se afastara do Partido
Republicano por propugnar uma participação mais popular e
direta durante a campanha, agora que a República está instalada,
vai sendo progressivamente alijado do processo político. (...) Desgastado
e desgostoso, Silva Jardim retira-se da vida política. Quer se aprofundar
nos estudos. Decide ir à Europa.
(...) No dia
1º de julho de 1891 está em Pompéia. Quer ver o Vesúvio
(...) estar em Pompéia e não ver o Vesúvio era coisa
que não passava pela cabeça de Silva Jardim e de Carneiro
de Mendonça. Ambos sobem.
(...) Aproximam-se
da borda da cratera. Nesse exato momento, manifesta-se o ponto crítico
da erupção, o solo sacode num tremor convulso, eles tentam
recuar. Carneiro de Mendonça consegue, mas o chão fende-se
por trás de Silva Jardim, que é tragado pela cratera do Vesúvio,
sem um grito, uma palavra, uma demonstração de medo (...).
 Valentim
Magalhães e Silva Jardim Coleção
Afrânio da Silva Jardim, Rio de Janeiro/RJ, in Grandes Personagens
da Nossa História
|
Na
sua edição especial de 15 de novembro de 1939, comemorativa
do cinqüentenário da Proclamação da República
- exemplar no acervo do historiador Waldir Rueda -, o jornal santista A
Tribuna publicou esta matéria (grafia atualizada nesta transcrição):
| Silva Jardim,
o apóstolo que a República esqueceu
Durwal Ferreira
(*)
|
"A
luta começa a tornar-se sombria, mais próxima do apostolado
possível do martírio, que do triunfo político; mas
isso não me preocupa. Toda a existência é cercada de
um certo conjunto de fatalidades; e antes morrer assim, mesmo sendo lapidado
como S. Estevam, como parecem pretender esses infiéis, do que inglória
e indignamente esticar a canela na burguesa pacatez de um estômago
bem conservado". Silva Jardim
|
Quem
com vagar, com o sentido de estudar os homens, as coisas e os fatos da
História Pátria, percorrer o evangelho pelo qual se aumenta
a soma de conhecimentos do Passado, queda-se pensativo, recalcando na flagrante
injustiça dos homens para com os homens.
Algures, ante
a ingratidão e o fanatismo de autores, sopitam a inquietação
do juízo parcial; outros, porém, dedicam-se abnegadamente
às fontes cristalinas dos arquivos, para a contestação
formal das inverdades e fazer surgir aos olhos públicos pessoas
e fatos para a veneração e culto dos pósteros.
Silva Jardim
- Antonio da Silva Jardim, nascido a 18 de agosto de 1860, filho do sr.
Gabriel da Silva Jardim e de d. Felismina Leopoldina de Mendonça
Jardim - foi uma das vítimas da indiferença de certos escritores
que se tornaram oficiais.
Entretanto,
era ele o pregador impoluto realçando e convencendo das virtudes
e bênçãos da República - República maculada
pelos adeptos de última hora e falsos republicanos, que fez Benjamin
Constant dizer esta frase lapidar: "Esta não
foi a República sonhada!".
Foi o Apóstolo,
na sua expressão concreta, indiferente ao perigo iminente de toda
campanha encetada e sempre na vanguarda, sendo alvo predileto dos fanáticos,
adversários, ferindo-se como o general Osório na frente da
tropa na guerra contra Solano Lopez, e não no regalo da retaguarda
mastigando bolachas como o conde D'Eu - candidato ao terceiro reinado por
morte ou abdicação de d. Pedro II.
A ardência
do entusiasmo emprestada à causa republicana não foi o quociente
da sua estuante juventude: porque moço morreu ele, aos trinta e
um anos de idade. Essa a impressão dos que não se detiveram
no estudo da personalidade vigorosa de Silva Jardim. Quando se decidiu
a fazer a propaganda de um novo regime, já o havia estudado em todos
os seus detalhes, não com os olhos de moço arrebatado, mas,
sim, convicto, inteiramente integrado da formosura e pureza da República.
Com a perfeição
indiscutível de sacerdote, saiu, ele, pelo país afora a proclamar
as excelsitudes do ideal republicando, fazendo essa peregrinação
totalmente a expensas próprias, causando-lhe situação
precária a que o partido e os correligionários, como recompensa,
voltaram-lhe as costas. E aí se vê a sublimidade do caráter
de Silva Jardim, que, sem dar a perceber o labéu dos fariseus, prossegue
na jornada com o mesmo sentimento, a mesma crença e o mesmo amor!
Examinando-se,
pois, perquirindo-se a obra e a sinceridade desse propagandista admirável,
duas prerrogativas lhe são concedidas pela imposição
da Justiça: profeta republicano, porque em 1888 declarou - "A
Revolução Brasileira está destinada à cidade
do Rio de Janeiro. E deve estar, pujante e vitoriosa em torno dos paços
ministeriais e do palácio de São Cristóvão,
no ano de 1889. O ano de 1889 vai ser para o Brasil o ano excepcional";
único fator moral e doutrinário da queda da Monarquia, porque
soube de modo categórico, convincente e altruístico concorrer
para a instituição da República na pátria brasileira,
"bastando dizer que em ato 13 de maio (88)
se tinham organizado uns sessenta clubes republicanos e desta data até
novembro de 89 organizaram-se uns oitenta".
|
"De
Santos, acompanhando o Conde D'Eu, através do Norte, arriscando
a vida, em propaganda libertária, um ano antes de 15 de Novembro,
saiu à aventura o apóstolo Silva Jardim, tendo, na minha
própria residência, em palestra calorosa, marcado a data exata
da proclamação da República, filha do Centro Democrático
Santista". Martins
Fontes
|
Santos, desde
o seu primórdio, fora sempre uma catedral de grandes ideais e de
grandes idealistas, sob cujo lema, sabiamente adotado pelo governo municipal,
interpreta a tradição do seu povo - Patriam Charitatem
et Libertatem Docui (À Pátria ensinei a liberdade e a
caridade). Abrigaria, também, mais um paladino que, aqui iniciando
a propagação republicana, haveria de revolucionar todo país,
contribuir, esmagadoramente, para o advento da República.
Esse Apóstolo
era Silva Jardim, casado com Anna Margarida - "tipo
de bondade, doçura, prudência, bom-senso e beleza, aliadas
a uma instrução pouco vugar e a uma educação
corretíssima", dissera, quando noivo,
em carta a seu pai e amigo - casado com Anna Margarida, uma das filhas
do dr. Martim Francisco de Andrada, célebre lente de direito eclesiástico
na Faculdade de São Paulo, e, na companhia deste, depois de bacharelado,
seguir carreira.
Falecido Martim
Francisco, seu filho, também Martim Francisco, advogado em Santos,
convidou o cunhado para juntos trabalharem. Aceito o oferecimento e aqui
chegado, Silva Jardim, ao mesmo tempo que advogava, mantinha um externato,
ao qual deu o nome de "José Bonifácio".
O país,
nessa época, estava abalado por sérias questões políticas.
Aumentou-lhe ainda mais infeliz iniciativa de um vereador de São
Borja (Rio Grande do Sul) - que se consultasse a Nação sobre
o sucessor de d. Pedro II por sua morte -, travando-se nas câmaras
de deputados as mais renhidas lutas partidárias, cada qual a defender
o que de justo e hostil emanava do político sul-riograndense.
Será
essa questão, esse ambiente propício a Silva Jardim para
se revelar, mais uma vez, ao povo, quando Francisco Lobo, radical republicano,
vai ao seu encontro e convida para realizar, no Teatro Guarany, uma conferência
política.
Ouvir-se-ia
a voz sonora de um clarim a repercutir na enorme extensão territorial
da Pátria; e as notas vibrando enérgicas, num ritmo marcial,
penetravam fundo na consciência de todos, como que a dizer: "Patrício!
Segue-me, para o teu bem e para o bem da tua Família; segue-me,
como seguiram os Apóstolos a Cristo, porque terás, assim,
Paz e Liberdade!".
Esse arauto
da República - clarim miraculoso - vai dar início à
jornada penosa e promissora, e não terá descanso, e lutará
contra a Monarquia, e fazendo não ouvir os sussurros inquietadores
do próprio partido atemorizado pela bravura, pelo estoicismo indômito
do apóstolo Silva Jardim.
Chegou, enfim,
o dia memorável - 28 de janeiro de 1888! O Teatro Guarany, pela
primeira vez, abre suas portas para a campanha republicana; pela vez primeira,
Silva Jardim marcha na pregação da reforma governativa. "Pátria
em perigo", que foi a conferência inicial, retratou fielmente o caráter
e a convicção vigorosos do seu autor, constituindo um acontecimento
nunca visto; o grupo destemido dos republicanos santistas aumentou consideravelmente
o número de seus componentes; São Paulo, Minas Gerais, Rio
de Janeiro e Estado do Rio disputavam a presença de Silva Jardim.
E para atender
a uns e outros, e para atender, mui especialmente, à causa que esposara,
segue viagem para Limeira, Campinas, todas as cidades hoje zona da Central
do Brasil, Estado do Rio, Rio de Janeiro, e vem para Minas Gerais.
Santos não
podia suportar tão longa ausência e clama pela sua presença;
quer ouvi-lo novamente. Desta cidade seguiria para o Norte também
ansioso de ouvir o ardoroso orador, atestar que ele era "sempre
entusiástico, sem jamais sair da argumentação teórica,
sem ofensa pessoal". E no dia 12 de junho
de 1889, a bordo do vapor Alagoas, tendo como companheiro de viagem
o conde D'Eu, este em missão de propaganda monárquica. De
nada valeram os rogos da família, dos amigos e dos correligionários,
expondo-lhe a série de perigos a que se arriscava. Nada temia, porque
a sua divisa era esta: "A morte para mim é
um acidente da vida".
Os verdadeiros
perigos iria enfrentá-los no Norte, e, como leve demonstração,
menciona-se o desembarque de Silva Jardim, na Bahia, onde a famigerada
"Guarda Negra" o esperava com instruções e ordens terminantes.
Ouçamos a palavra do próprio Silva Jardim - "Pela
ladeira do Taboão estavam colocadas grandes carroças com
achas de lenha, que barbaramente atiravam sobre nós. -
Onde está este Silva Jardim, que eu quero matá-lo -
gritava um mulato, no meio da turba, brandindo um punhal".
Nessa época
fazia individualmente a propaganda do ideal republicano, pois se afastara
do partido devido à timidez dos chefes que só sabiam aconselhar
"maior prudência e cautela nos meios
e processos a empregar".
Um dia, o povo
assiste grande movimento de tropas e a maioria dos militantes do partido
republicano fazia esta pergunta: - "Que há?".
Instantes após, uma única resposta: "A
República está proclamada!"
Onde andará
Silva Jardim? Esqueceram-se dele. Isto é, um só, um somente!
- lembra-se do Apóstolo, porque fora sincero e puro na batalha.
Esse é Benjamin Constant Botelho de Magalhães. A lembrança
todavia, se fez tarde.
Serenados um
pouco mais os ânimos, procede-se às eleições
da Constituinte, "nas quais Silva Jardim foi
votado em Minas, São Paulo, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro,
e que transorreram debaixo da compressão e do suborno os mais revoltantes,
vendo o seu nome, principalmente no seu Estado (Estado do Rio), preterido
e anulado pela avalanche de adesistas e forasteiros que a Ditadura canalizara".
Mal nascera
a República, já se achava corrompida. A desilusão
amargou profundamente aos verdadeiros republicanos. Silva Jardim retira-se
da Pátria, levando-a, entretanto, no coração. Exila-se
para a França e da sua capital, em carta a seu pai e amigo, datada
de 1 de janeiro de 1891, relata: "Acabo de
percorrer a Holanda e a Bélgica, vou continuar os meus cursos de
finanças e de estudos políticos na Escola Livre de Ciências
Políticas, a correção de meus discursos e do meu livro
de memórias e viagens, e os meus trabalhos sobre a política
brasileira, ao lado do que se refere à minha profissão".
Entregue, como
se viu, ao aperfeiçoamento da sua sempre invejada cultura, recebe,
dos seus patriotas distantes, a maior e a mais bela demonstração
de reconhecimento. Não pôde conter as lágrimas de alegria
"quando recebeu a célebre representação
do povo brasileiro, assinada por mais de três mil eleitores, na qual
se lhe rogava voltasse à Pátria, entregue já às
lutas da ambição política que em breve iria ensangüentá-la".
Silva Jardim reflete: "A Pátria em
perigo reclama os meus serviços: irei em sua defesa".
Prepara-se,
Silva Jardim, para regressar ao Brasil. Antes, porém, mostrou desejos
de apreciar o Vesúvio, e tanto se aproximou da cratera, no dia de
sua visita, que o teve como sepultura desde o dia 1 de julho de 1891. Dessa
trágica maneira desapareceu Silva Jardim, o Apóstolo que
a República esqueceu.
(*)
Do Centro de Cultura Paulo Gonçalves. Especial para A
Tribuna. |
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