| A campanha
da Abolição
[...]
Diante
do que se passava em Santos, onde a Câmara Municipal se conluiava
com os abolicionistas e proclamava a extinção do cativeiro
na cidade desde 1886, apelaram os poucos escravocratas locais para São
Paulo e Rio de Janeiro.
São
Paulo, entretanto, já estava completamente minado pela corrente
maçônica-republicana, a braços com as fugas da escravaria
promovidas por Antonio Bento, seus caifazes e o famoso Clube dos
Abolicionistas do Braz, não podendo por isso prestar atenção
às lamúrias dos prejudicados santistas, simples representantes
comerciais de fazendeiros do interior e negociantes da própria capital,
e não gente da terra; mas, o Rio de Janeiro atendeu às suas
queixas e o Ministério da Guerra, a pedido do chefe do Gabinete
de Ministros, destacou para Santos uma importante força militar,
embarcada num navio mercante que estava de partida para o Sul, valendo-se
da oportunidade para dar uma boa mostra do prestígio imperial, julgado
cambaleante.
O comandante
da tropa imperial era o Major Dom Joaquim Baltazar da Silveira, que trazia
a missão de pacificar a cidade (que diziam estar revolucionada)
e restabelecer os direitos de propriedade, ameaçados pelos revoltosos.
Deu-se aí
um fato edificante. Américo Martins dos Santos e Ricardo Pinto de
Oliveira, os dois amigos inseparáveis da Abolição
e da República, conseguiram licenças especiais da Saúde
e da Alfândega e foram para bordo do navio que acabara de fundear
ao largo do Estuário. Iam como espiões, para ter uma idéia
da força chegada e ver se sabiam algo da verdadeira intenção
do major comandante.
O navio, entretanto,
começara a deslocar-se e viera encostar na ponte
do Belmarco, pouco adiante da Casa do Trem.
Mal encostara ele na velha ponte, já os dois abolicionistas estavam
dentro do navio, olhando por ali e procurando descobrir o comandante da
tropa imperial. Poucos instantes haviam decorrido, quando alguém
deu uma palmada no ombro de Américo Martins, num alegre e amigo:
- Olá!...
Voltando-se
depressa o espião dos santistas, viu-se, com algum susto, diante
do procurado comandante. Pensou que ia ser preso, mas, pelo sorriso que
lhe abriu o garboso militar, viu Américo que não era nada
disso e julgou havê-lo reconhecido. O major estendia-lhe os braços,
chamando-o pelo nome:
- Américo
Martins, que diabo, já não me reconhece!...
Dom Joaquim
Baltazar da Silveira fora seu companheiro na velha Escola Militar da Praia
Vermelha (N.E.: situada na capital carioca,
junto ao atual acesso pelo bondinho para o Pão de Açúcar),
em 1871, pouco mais de quinze anos passados. Aquela barba cerrada, terminando
em pêra, que o major trazia, dificultara o reconhecimento pelo amigo.
Riram os dois. Só então o comandante da força imperial
ficou sabendo do verdadeiro motivo da sua vinda. Ele vinha mesmo era pegar
negro e proteger interesses de traficantes e senhores de escravos...
- Eu nunca
faria isso, Américo! O Exército do Brasil não pode
servir para esse fim.
Selou-se ali,
na simplicidade dramática da cena, assistida por Ricardo Pinto,
um solene compromisso. Se fosse verdade o que o amigo de Santos dizia,
o amigo do Rio de Janeiro, descendente da fidalguia colonial portuguesa,
não
só não faria mal algum aos abolicionistas como ainda os ajudaria
enquanto ali estivesse. Foi assim que, durante algum tempo, os arraiais
da Abolição santista e o Jabaquara
tiveram mais um apoio forte e decisivo, porque o abolicionista falara a
verdade.
Esse fato ecoou
bastante na sociedade da época, mesmo fora de Santos, reconhecendo
todos que a Abolição estava consumada diante da incapacidade
ou complacência da polícia e da visível simpatia do
Exército.
Depois de 27
de fevereiro de 1886, realizara-se no Fórum, da Praça
dos Andradas, a cerimônia da declaração da Lei
Saraiva, em audiência especial do Dr. Ledo Vega, juiz de Direito
da Comarca, declarando livres todos os escravos de mais de 60 anos. O caminho
estava aberto para a extinção total do cativeiro. Os proprietários
de escravos da cidade resolveram dar liberdade imediata a todos os seus
cativos, de qualquer idade, aplaudidos pela multidão que acorrera
à Praça dos Andradas e ao grande edifício da Justiça.
Naquele instante assentaram-se as bases da Sociedade "27 de Fevereiro",
com a finalidade de resgatar os últimos cativos do município
(de fora da área urbana) e dos que fosse possível resgatar
nos municípios vizinhos e no interior.
A 2 de março,
no salão do Júri e sob a presidência do Major Xavier
Pinheiro, era instalada a Sociedade, falando entre outros o Dr. Ledo Vega,
o advogado Heitor Peixoto, o jovem poeta Gastão Bousquet e o jornalista
e poeta João Guerra, que recitou uma poesia abolicionista de sua
lavra. A inauguração da sociedade teria lugar a 1 de março
do mesmo ano, no Teatro Guarani, perante uma
assistência de cerca de 2.000 pessoas, tendo como presidente Xavier
Pinheiro, como primeiro-secretário Joaquim Fernandes Pacheco, e
segundo, Antonio Augusto Bastos (o Totó Bastos), ficando outros
como vogais da nova entidade.
Santos lavava
as mãos, por assim dizer, do que se passava ainda em todo o Brasil,
onde apenas o Ceará apresentava aspecto semelhante de humanidade
e civismo. Jabaquara era, cada vez mais, um símbolo de liberdade
e um monumento ao direito das criaturas com seus milhares de negros alforriados
e felizes... A extinção da escravatura na terra santista
tinha três datas, bem diferentes da data oficial brasileira: 27 de
fevereiro - 2 de março - e 14 de março de 1886.
Dali por diante,
todo o trabalho dos abolicionistas de Santos consistiu em receber e proteger
os refugiados de serra-acima, dando-lhes ainda colocação
remunerada ou escápula para mais longe. E tal importância
assumiu a sua atuação, firmando e alicerçando a obra
abolicionista de Antonio Bento e de toda a Província, que, em princípios
de 1887, o Presidente de São Paulo telegrafava ao Governo Imperial,
no Rio de Janeiro, dizendo "não ser
mais possível conter a evasão dos escravos porque os soldados
haviam feito causa comum com os abolicionistas, favorecendo a passagem
dos fugitivos para a cidade de Santos" -,
significando, com isto, que Santos era a própria liberdade; consagrando
o seu grande papel na história da Abolição e demonstrando
ao Império a necessidade que havia de uma providência para
evitar a desmoralização total do Governo Imperial, com a
aplicação de um golpe inteligente e de simpatia, que lhe
reabilitasse o prestígio cada vez mais abalado
[55].
Esta é
a verdade dos fatos, mas esse golpe de simpatia e consolidação
do regime, que veio a 13 de maio de 1888, veio tarde demais e de forma
desastrada, pelas mãos de uma mulher, a inábil Princesa Regente,
precipitando, isso sim, a vitória da obra republicana. Veriam os
escravocratas, naquele gesto da Princesa, apenas o recuo, para eles inominável,
da monarquia, ante a pressão de uma corrente cuja força cada
vez mais aumentava, sem a menor consideração aos seus interesses
profundamente lesados.
Isso mesmo
afirmavam todos os republicanos paulistas, e o dr. Hipólito da Silva,
que foi um dos vultos da campanha em Santos e em São Paulo, diria
em artigo publicado em A Pátria de S. Paulo, a 25 de maio
de 1889: "Removida a pedra que nos obstruía
o caminho para a liberdade política, o espírito do povo expandiu-se
e grandes eleitorados, que apoiavam a monarquia, porque esta se baseava
na escravidão, declararam-se republicanos".
Palavras de
observador e sociólogo, e não apenas de um abolicionista
agindo sob a pressão dos seus próprios entusiasmos, visto
que a República ainda estava
a seis meses de distância, em princípio de gestação.
As palavras
de Hipólito da Silva tiveram sua grande confirmação
na célebre e conhecida passagem verificada na recepção
de gala, oferecida no Paço do Rio de Janeiro em comemoração
à Lei Áurea. Entrava a Princesa Isabel no grande salão
de festas e, ao beijar-lhe a mão o ex-chefe do Gabinete, Barão
de Cotegipe, disse-lhe a Princesa:
- Senhor Barão,
libertei uma raça!
Como resposta,
murmurou Cotegipe com um sorriso amável e respeitoso:
- Mas derrubastes
um trono, Augusta Princesa!...
De fato, a
Lei Áurea, mais do que a Questão Militar, que poderia ter
sido contornada, principalmente com a substituição do ministro
Ouro Preto e a anulação dos seus atos, foi a grande precipitadora
da República.
Em Santos,
como não podia deixar de ser, a lei da Princesa foi recebida com
festas e manifestações populares, salientando-se as visitas
em massa às casas dos principais vultos abolicionistas da cidade,
principalmente à do Barão de São Domingos, juiz em
Santos - que, como o falecido Ledo Vega, tanto auxiliara a ação
dos propagandistas -, e à do cidadão Francisco Martins dos
Santos, o ilustre santista que fora um dos precursores da campanha e um
dos seus melhores soldados em todo o tempo, onde falou o ardoroso Silva
Jardim, que, radiante, nem reparava mais nas próprias atitudes,
rompendo todos os negros em coro uma cantiga rude, sobre motivo e versos
do próprio Silva Jardim, que começava pelo estribilho:
-
Viva o Santo Antonio Bento - Viva o Santos
Garrafão
...um espetáculo
que jamais saiu da memória de quantos dele participaram.
Valem estas
festividades a transcrição do relato de uma das testemunhas
presenciais
[56]:
"A data de
13 de maio de 1888 foi recebida com a maior pompa possível. De cada
casa, soltavam ao ar centenas de foguetes. Os navios surtos no porto embandeiravam
os mastros, músicas percorriam as ruas; o povo entusiasmado dava
vivas à Lei Áurea. Da Vila Matias,
lá do quilombo de Pai Felipe, os libertos
vinham ao Largo do Carmo munidos de adufos
e atabaques dançar o samba, no qual os rapazes entravam também,
dançando com os pretos, na mais íntima cordialidade: saudava-se
a imprensa; de cada janela surgia um e discursava sobre o fato; Silva Jardim
fez nada mais nada menos do que uns 40 discursos e cada qual mais sublime.
"Em Santos
haviam-se organizado, desde o dia 11, inúmeras comissões,
cada uma incumbida da iluminação e ornamentação
de uma rua ou praça, estabelecendo-se uma comemoração
de oito ou dez dias seguidos, considerados feriados para o povo.
"À noite,
iluminação provisória em todas as casas, até
a mais pobre, constando essa iluminação de tigelinhas e lanternas
de papel; 'marche aux flambeaux'; discursos feitos por Martim Francisco
e outros.
"O comércio
concorria ajudando nas despesas; a loja Flor de Maio deu à comissão
organizadora da grande festa muita fazenda para bandeirolas, que se estendiam
em fios de barbante, desde a Rua de Santo Antonio
(atual do Comércio) até o largo da
Matriz (atual Praça da República),
continuando pela Rua da Alfândega (atual
Senador
Feijó), entrando na General Câmara, cercando as do Rosário
(hoje João Pessoa) e Amador Bueno e terminando
na de São Francisco.
"Em Santos,
nas lojas de fazendas, não havia mais ganga, sendo necessário
recorrer-se às lojas da capital, pois faltavam ainda muitas ruas
para serem embandeiradas.
"A companhia
do gás preparava arcos para iluminar todas as ruas. O Correio
de Santos ornamentou a frente do edifício com tigelinhas verde
e amarelo, e azul e branco. Ouvia-se música por todos os lados.
O Diário apresentou uma iluminação luxuosa;
no largo da Matriz foi levantado por Benedito Calixto
um soberbo arco-triunfal, tendo na frente os retratos do Visconde do Rio
Branco e Luiz Gama. Os postes, que serviam de amparo aos fios para os galhardetes,
tinham escudos nos quais se liam os nomes dos grandes abolicionistas.
"Isto tudo
se realizou nos dois primeiros dias subseqüentes ao 13 de maio. Depois
vieram os outros. No 3º dia, festas populares de todos os gêneros
se realizaram; no 4º rezou-se, em pleno Largo da Matriz, junto ao
arco triunfal, a missa campal celebrada pelo cônego Luiz Alves da
Silva. A praça estava apinhada, não havia mais um lugar,
e ali, diante do altar soberbamente adornado, crédulos e incrédulos,
impelidos todos pelo mesmo júbilo, curvavam os joelhos que se apoiavam
sobre débeis pétalas de rosas que atapetavam os paralelepípedos.
"Não
se distinguiam classes, tanto se ombreava o nobre com o plebeu; não
existiam mais rixas de imprensa; os seus representantes estavam todos juntos.
Fizeram-se representar, nesse ato, todos os cônsules, todas as escolas
de ambos os sexos. Finda a missa campal, o Dr. Éboli, duma das janelas
do Grande Hotel de Roma, de propriedade de Elias Caiafa, falou, em eloqüente
discurso, felicitando o Brasil por esse alto acontecimento. À tarde
desse dia, na mesma praça, lançou-se, diante de inúmeros
assistentes, a primeira pedra para a ereção do monumento
que deveria perpetuar a memória do Visconde do Rio Branco.
"No 5º
dia, todas as escolas e populares foram ao Convento do Carmo,
em visita ao túmulo de José Bonifácio,
o
Patriarca. Ali fez o discurso cronológico o eloqüente
tribuno Silva Jardim, e pela escola do sexo feminino,
regida pela Sra. Da. Maria Isabel Silvado, falou a menina Ana Constança
Ferreira.
"No 6º
dia, Quintino de Lacerda, o homem que fechou
a Câmara de Santos, foi condecorado, à noite, numa das
salas dum sobrado da Rua Xavier da Silveira, junto ao antigo Asilo de Órfãos.
Recebeu Quintino de Lacerda essa homenagem por ocasião de uma reunião
promovida pela comissão dos festejos, para dar-lhe o prêmio
que lhe cabia como um abolicionista fervoroso.
"O peito de
Quintino foi condecorado pelas mãos angélicas da menina Carula
Martins, filha do conceituado despachante geral Américo Martins
dos Santos. Quintino, comovido, quase sem poder falar, agradeceu em breves
palavras as tamanhas honras de que não
era merecedor.
"No 7º
dia foi colocada na casa onde nasceu José Bonifácio
a lápide comemorativa, entre as janelas do centro e junto à
cimalha. Fronteiro ao edifício, a multidão esperava romper-se
a gaze que encobria a inscrição histórica. Depois
de alguns discursos pronunciados por diversos oradores e que foram cobertos
de frenéticos aplausos, duas gentis mocinhas puxaram os cordões
da gaze, que, numa queda morosa, bipartindo-se vagarosamente, deixava ler
em letras de ouro, gravadas sobre finíssimo mármore, a inscrição
que todos conhecem: 'Esta é a casa
onde nasceu e morreu o Patriarca da Independência - José Bonifácio
de Andrada e Silva. Nasceu aos 13 de junho de 1763. Faleceu a 6 de abril
de 1838[57].
"No 8º
dia, saiu à rua um préstito com carros alegóricos,
nos quais figuravam senhoras e cavalheiros da alta roda santense, dando-se
durante o seu percurso a imponente batalha de flores. À noite falou
o Dr. Antonio Bento de Souza e Castro.
"Quem não
se preveniu de flores, recorria aos papéis de diversas cores, cortados
em pedacinhos, e com eles, com um punhado desses improvisados confettis
sarapintavam as cabeças loiras das gentis senhoras, os clacks
dos cavalheiros e o estrado dos carros luxuosamente adornados.
"Deram-se
outros festejos menos importantes, e o povo, cansado de divertimentos,
por fim procurava o trabalho quase que em geral interrompido por oito a
dez dias"
[58].
Ficou célebre
um discurso de Martim Francisco Filho, de fundo separatista, solenizando
a entrega de mimos a Quintino de Lacerda e Santos Garrafão, adquiridos
por subscrição pública. Nesse discurso, até
hoje recordado e há vários anos reimpresso em São
Paulo, disse o ilustre Andrada aos homenageados, entre outras considerações,
o seguinte:
"Soldados da
liberdade humana, defensores da igualdade do Direito, Quintino de Lacerda
e Santos Pereira, subchefes da recente cruzada que transpôs as muralhas
que cercavam e asilavam a escravidão!
"Quando, há
poucos meses, as levas de escravos, como rochedos soltos, vertiginosamente
rolavam por sobre esses contrafortes que amparam a Serra do Mar, e sofriam
caça como animais daninhos; quando - e os dias vão bem perto!
- os ministros, os capitães-do-mato, os presidentes de província,
os comandantes de batalhão, os delegados e chefes de Polícia
- tantos santos de variadas categorias, recém-vindos da libertadora
Damasco! - intimamente se orgulhavam dos tiroteios de Santo Amaro e da
espionagem de Cubatão; quando treze mil libertos eram reescravizados
em Campos; era nos vossos braços que a desventura encontrava conforto
e alívio; era nas vossas casas que se abrigava a cativa trazendo
dependurada às tetas secas a criancinha que chorava; era com a parcela
de vossas economias que se comprava o pão para o negro esfaimado,
cujo corpo, coberto de cicatrizes, atestava a passagem do chicote e a visita
do viramundo!
"O governo
queria matar, e matava; queria perseguir e perseguia; Santos Pereira e
Quintino de Lacerda queriam libertar, e libertavam; queriam salvar e salvavam.
Cada um, portanto, desempenhava a sua missão natural!
"Cessou, porém,
a luta. Chegou o dia inevitável da vitória. E o povo santista
resolve preceder o futuro no preparo da vossa apoteose, assim como precedeu
o Brasil inteiro na eficácia da campanha abolicionista
[59].
"Ele, por meu
intermédio, vos manda entregar estes modestos presentes. Aceitai-os
pela intenção que os acompanha; sabendo quanto é doída
a injustiça dos homens, quanto tem de teimosa a falsificação
da história, o povo santista protestou arrancar-vos do anonimato,
assim como arrancastes ao látego vibrante o escravo que gemia.
"Quintino de
Lacerda, recebe este relógio! Possa ele marcar tantas horas quantas
provas de atividade deste para alcançar a autonomia de tua raça.
Ele traz, por inscrição, a data da Lei pela qual trabalhaste
mais do que aqueles que a referendaram.
"Soletrando-a,
poderão os teus descendentes repetir mais tarde: - 'Meu
pai foi um negro que alvejou o pavilhão nacional, apagando de suas
dobras a mais nojenta das manchas'
"Santos Pereira,
português, recebe este relógio! Possa ele marcar tantos minutos
quantos foram os teus atos em prol da libertação dos escravos!
Ele traz inscrita a data da Lei que diz que não há mais cativos
em terra onde se fala a língua de Camões!
.....................................
"O triunfo
a que assistis, e onde vos compete notável papel, não é,
não há de ser o único conquistado pela vossa resolução.
O futuro é intérmino e as grandes aptidões são
também grandes compromissos. (Martim
Francisco profetizava, aqui, o advento republicano, como fruto da Abolição,
em reforço da propaganda política feita até então).
"Lembrai-vos
de que estais em Santos, centro produtor de luminosas conquistas. Aqui
nasceu Bartolomeu Lourenço que devassava
os ares, aqui nasceu José Bonifácio que orientou a Independência;
aqui nasceu a Província..."
[60].
Em S. Paulo
e no Rio de Janeiro não faltou quem se lembrasse do grande papel
desempenhado pela cidade de Santos, nas lutas da Abolição,
e várias individualidades, assim como alguns jornais se expressaram
elogiosamente a seu respeito. Dispensamo-nos de reproduzir tais elogios,
fazendo-o somente das palavras publicadas pelo Diário de Notícias
de S. Paulo (em seu número de 15 de maio de 1888), que tão
de perto acompanhara as atividades abolicionistas dos santistas. Ei-las:
[61]:
"Entendemos
cumprir um grato dever de patriotismo, hoje, que, como todo o país,
solenizamos o advento da Abolição da Escravatura, proclamada
pela Áurea Lei de 13 de maio de 1888, saudar com todo o entusiasmo
e efusão de alma a patriótica cidade de Santos.
"A imponente
capital marítima da Província de São Paulo, o berço
dos Andradas, bafejada pelas brisas do oceano, que também lhe beija
os pés, é digna de menção e de saudação
especiais no grande dia em que se soleniza a liberdade da Pátria.
"Santos foi
o primeiro município da Província de São Paulo que
proclamou a sua emancipação do trabalho escravo, assim como
foi ali que as primeiras turmas de escravos, que abandonavam em massa os
seus presídios, foram encontrar um generoso acolhimento, conforto,
agasalho e trabalho remunerado.
"A ínclita
cidade de Santos, fortificada por Deus com essa muralha que se chama Serra
do Mar, foi a praça forte do abolicionismo, onde primeiro tremulou
o pavilhão da Liberdade dos escravos na Província de S. Paulo!
"Assim, pois,
o Diário de Notícias saúda com júbilo
a cidade de Santos, a sua população, o seu denodado Partido
Abolicionista e a imprensa local, pelo grande fato que a enobrece e enche
de entusiasmo o povo brasileiro - a abolição geral da escravidão!
- Viva a Cidade de Santos!"
[...]
Notas:
[55]
O Visconde de Parnaíba já previa a queda do Império
e sugeria um dos meios de evitá-la, enquanto era tempo. A
Questão Militar ainda não se havia processado no seio do
Governo e talvez a Abolição, feita naquele instante, ainda
conseguisse salvá-lo. Ao invés disso, na hora oportuna, preferiu
o governo conferir uma chuva de títulos por todo o Brasil,
criando e promovendo barões e viscondes de última hora, com
a idéia de firmar o trono.
Assim surgiram
os novos barões de Abadia, de Aceguá, de Águas Claras,
de Aguiar Toledo, de Alagoas, de Aimoré, de Além Paraíba,
de Almeida Valim, de Alto Mearim, de Alvarenga (Visconde), de Amambaí,
de Anajaz, de Andaraí (Visconde), de Anhumas, de Arantes (Visconde),
de Araras, de Aratanha, de Arinos, de Assis Martins (Visconde), de Ataliba
Nogueira, de Beaurepaire Rohan (Visconde), de Benevente, da Bocaina, de
Bojuru, de Bom Conselho (Visconde), do Bonfim, do Bonito, de Cabo Frio
(Visconde), de Cabo Verde, de Cairari, de Cajuru, de Caldas (Visconde),
de Camaguan, de Cambuí, de Cametá, de Campinas, de Campo
Místico, de Carandaí (Visconde), de Casa Branca, de Casa
Forte, de Casalvasco, de Castelo Branco, de Catuama, de Cavalcanti, de
Caxangá, de Cimbres, de Conceição da Barra, de Contendas,
de Corumbá de Cristina, de Cruz Alta, de Cruzeiro (Visconde), de
Cunha Bueno, de Cururipe, e assim por diante em todas as letras e em todas
as Províncias, escolhidos a dedo, entre generais, bispos, agricultores
(fazendeiros), pecuaristas, políticos e homens públicos,
industriais, deputados e senadores, escritores e jornalistas, homens de
todas as profissões e atividades, atingindo a mais de 300 em pouco
tempo, que vinham somar-se aos anteriores.
Pensava assim
o Governo cimentar e consolidar o Império, pelas obrigações
que aqueles beneficiados assumiam e pela sua importância na vida
social brasileira. Puro engano, como se viu. Pouco mais tarde, ao verificar-se
a Abolição, já fora da oportunidade e como um golpe
psicológico tardio, os próprios barões prejudicados
se voltaram contra o Império, tornando-se até republicanos.
[56]
Carlos Victorino - Reminiscência - págs. 73 a 76.
[57]
Consta, afinal, com base num recenseamento, que o Patriarca não
nasceu ali e sim em frente, num prédio de seu pai, que talvez ainda
existisse naquele ano de 1888. O assunto presta-se a controvérsia.
Preferimos ficar com a tradição popular e da própria
família. Quanto à sua morte, todos sabem que ocorreu em Niterói
(São Domingos de Niterói), vindo seus restos, mais tarde,
para o Carmo de Santos.
[58]
Nunca houve em Santos tão grande comemoração. Observa-se
no quase exagero de tantos dias de festas e ausência do trabalho
que a sociedade e o povo comemoravam, assim, o exagero também e
a enormidade da sua própria luta, dos seus imensos sacrifícios
de tantos anos, terminados com vitória, e não apenas o ato
rápido, suave, sem esforço, da Princesa Isabel.
[59]
Martim Francisco - A Campanha Abolicionista - 1879/1888 - pgs. 264,
265, 273, 274, 275 e outras.
[60],[61]
As palavras de Martim Francisco, que, infelizmente, não era filho
de Santos, e do Diário de Notícias, um jornal de S.
Paulo, valem por uma História isenta de paixão ou excesso
regionaista, como absolutamente insuspeitas em relação ao
abolicionismo santista. |