HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS - OS IMIGRANTES
A colônia
judaica (3)
Beth Capelache de Carvalho
(texto), Equipe de A Tribuna (fotos)
Jovens e velhos judeus reúnem-se
na Beit Jacob
| Os
judeus radicados em Santos costumam reunir-se em clubes e associações,
como a Wiso, que é uma organização beneficente feminina
mundial, ligada à Unicef; e na Loja Shalon, uma das divisões
da Associação Beneficente e Cultural B'nai B'rit, entidade
de âmbito internacional. A Loja Shalon é uma espécie
de irmandade, que se empenha em manter as tradições judaicas,
fazer benemerência e defender os direitos humanos.
O Centro Cultural
Israelita Brasileiro reúne a colônia em torno de várias
atividades, inclusive numa barraca de praia, onde todos se reúnem
aos domingos, e onde só se fala iídiche. É a primeira
junto ao Canal 3, atrás da Concha Acústica. Há também
um grupo de danças folclóricas, o Rikut Yan, que ensaia todos
os sábados e se apresenta em festivais em várias cidades
do País. O Centro possui também um coral feminino, que tem
um repertório variado.
Mas é
na Sinagoga Beit Jacob que os judeus se encontram com mais freqüência,
na prática do culto e nas comemorações das principais
festas do calendário judaico. |
Grupo de
imigrantes, alunos e professores da Escola Israelita, que funcionava junto
à singagoga
Além
do Shabat, a sinagoga Beit Jacob abre para outras festas do calendário
judaico que são guardadas pela colônia santista. Para
os judeus, o ano começa no mês de tishirei, e sua primeira
festa é Rosh Hashaná, que é a cabeça do ano
(dias 1 e 2 de tishirei). Antes do Rosh Hashaná as pessoas
costumam fazer as pazes, se estiverem zangadas, pois acredita-se que nesta
data os judeus serão inscritos nos livros da Vida ou da Morte.
Na sinagoga, é tocado o shofar,
instrumento feito de chifre de carneiro, para lembrar o sacrifício
de Isac, filho de Abrahão (ao entregar o menino para o sacrifício,
Abrahão o liberou para a vida), e também a Torá (quando
os judeus receberam a Torá, tocou-se o shofar). Durante o
Rosh Hashaná é costume trocar cartões desejando shaná
tová (um ano bom), e comer um pedaço de maçã
mergulhda no mel.
O dia 10 de tishirei é
o dia mais importante da vida judaica - o Yom Kipur - chamado Dia do Perdão,
Dia do Jejum e Dia do Juízo Final. Se no Ano-Novo o judeu é
inscrito nos livros da Vida ou da Morte, no Yom Kipur ele é confirmado
em um desses livros. Os dez dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur
são reservados para que as pessoas reflitam sobre coisas boas e
más, e rezem para serem inscritas no Livro da Vida.
Durante todo o Yom Kipur a sinagoga
permanece aberta, e os fiéis, em jejum, fazem suas preces. Na véspera,
à tardinha, é feita uma refeição festiva, antes
que comece o jejum. À noite, com uma oração, o Kol
Nidrei, é permitido que todos os que se afastaram da comunidade
voltem aos ensinamentos divinos. No dia seguinte, é feita a confissão
dos pecados, uma cerimônia coletiva, uma das raras vezes em que os
judeus se ajoelham para a oração pelos finados. No fim do
dia, o toque do shofar anuncia que o jejum terminou.
Festa das cabanas - Dia 15
de tishirei começa a festa de Sucot, quando é lembrada
a fuga do Egito, quando os judeus moravam em cabanas. É uma festa
agrícola, e inclui a bênção ao leulav
(palma amarrada com mitra e salgueiro), e ao etrog (limão
cheiroso).
A festa de Sucot dura 7 dias, e na
última noite é comemorada a Simrrat Tora, ou Alegria da Torá.
Nesse dia termina a leitura periódica da Torá, e todos os
rolos são retirados da Arca Santa, onde se encontram, para que com
eles se faça a volta na sinagoga.
Hanucá - Essa festa,
no dia 25 do mês de kislev, comemora a vitória dos
macabeus e dos sírios, que entraram no templo de Beit Hamikdashi,
o limparam e reconstruíram, e deram início a uma festa de
inauguração, Hanucá. Diz a tradição
que quando eles entraram no templo ele estava em completa escuridão,
mas ficou iluminado por 8 dias, com óleo suficiente para apenas
1 dia. Por isso, durante o Hanucá é acesa a hanukiá,
candelabro com oito velas coloridas.
Purim - Purim é a festa
carnavalesca da vida judaica, e lembra o tempo em que os judeus viviam
em paz na Pérsia, sob o domínio do rei Assueiro. O primeiro-ministro
Haman, que os odiava, sorteia um dia para que sejam exterminados; o dia
14 de adar. Os judeus foram salvos pela rainha Ester e seu tio Mordechai,
e Haman foi enforcado na mesma forma que havia preparado para Mordechai.
É um dia de alegria, e costuma-se comer doces chamados "orelhas
de Haman". Na sinagoga, é lido o Livro de Ester.
Pessach - Durante sete dias,
para lembrar a escravidão no Egito e a libertação,
os judeus comemoram a Pessach, ou Páscoa. A história de Moisés,
das dez pragas do Egito (sangue, rãs, piolhos, animais selvagens,
peste, granizo, feridas, gafanhotos, trevas e morte dos primogênitos)
e da fuga pelo Mar Vermelho são lembradas nessa festa. Na primeira
e na segunda noite de Pessach é costume servir um jantar festivo
- seder - com um prato de maçã ralada com nozes, mel
e açúcar, para lembrar a lama com que os judeus fizeram tijolos
no Egito; e com o matsá (pão ázimo), para lembrar
que os judeus não tiveram tempo de esperar o pão fermentar
quando saíram do Egito.
Dias de Omer - Na segunda
noite de Pessach começa a contagem dos 49 dias de omer. No
princípio, esses dias eram alegres, mas quando Jerusalém
foi tomada pelos romanos, eles tornaram-se tristes, e não se pode
casar nem fazer festas. Um grupo de jovens revoltou-se contra os romanos,
mas fracassou e teve de retirar-se para cavernas, onde muitos morreram,
vitimados por uma epidemia. No dia 33 de omer essa epidemia acabou,
e a partir daí as festas e os casamentos estão liberados.
Sivam - Durante o mês
de sivam, é comemorada a Festa de Shavuot, sete semanas após
o Pessach. A sinagoga é enfeitada com flores e folhas, pois trata-se
de uma festa agrícola, e lê-se o Rolo de Ruth.
Ruth foi a primeira jovem não
judia que se converteu para seguir a religião de seu marido. Ela
disse, para sua sogra, uma frase que ficou gravada na tradição
judaica: "Sua fé é a minha fé, seu povo é o
meu povo, seu país é o meu país". Toda jovem que se
converter ao judaísmo deve chamar-se Ruth.
Iniciação -
Há ainda outras cerimônias que os judeus conservam, e que
fazem parte da iniciação da pessoa na religião. A
circuncisão é um dos princípios judeus baseados na
higiene: com o Bar Mitzvá, o menino de 13 anos de idade assume as
responsabilidades e os deveres de homem judeu perante Deus. Nesse dia,
ele sobe ao altar pela primeira vez, para a leitura da Torá, e ganha
o seu talit (xale) e o seu tfilin (caixinha de couro, com
orações). A menina, aos 12 anos, tem o seu Bar Mitzivá,
que é feito à noite, durante a festa de aniversário.
Kadish - Não há
um cemitério judeu em Santos, e os enterros são feitos em
São Paulo. Para os judeus, o kadish, cerimônia que
se segue à morte, é muito importante. As famílias
mais próximas guardam sete dias de rezas, chamados chivá,
e sentam-se em tamboretes ou no chão, para ficarem mais próximos
do morto. O caixão é simples, e o morto é envolvido
apenas com um lençol branco, simbolizando a igualdade de todos após
a morte. Todos os anos, no aniversário do falecimento - yor tsait
-, acende-se uma vela e reza-se em homenagem ao parente que morreu.
Fachada
da Beit Jacob, na Rua campos Sales
No kibutz, o ideal sionista
dos jovens
Bror
Chail, um dos mais famosos kibutz de Israel,
nas proximidades do Deserto de Neguev, foi criado por jovens judeus brasileiros,
entre eles o santista Bernardo Cymryng, que lá se chama Dov Tzanir,
e que chegou a ocupar a alta função de secretário
do primeiro-ministro Itzac Rabin, do Partido Trabalhista, antes que Beguin
subisse ao poder.
Orgulhoso, Jaime Cymryng, pai de
Bernardo, conta a história de seu filho, que hoje voltou às
suas antigas funções de ceramista, em Bror Chail, mas continua
sendo um dos mais conceituados líderes políticos de seu país.
Ele representa a nova geração de judeus, os idealistas que
abandonaram o exílio de seus pais e voltaram a Israel,
para realizar o seu ideal sionista.
O kibutz de Bror Chail praticamente
nasceu aqui no Brasil, em fazendas-modelo situadas em Jundiaí e
na divisa entre São Paulo e Rio de Janeiro, onde jovens descendentes
de judeus, pertencentes ao Movimento Sionista Brasileiro, eram treinados
para a vida em um kibutz. Eles seguiram primeiro para o kibutz
sul-americano, e depois, nas terras onde nasceu Sansão, implantaram
Bror Chail.
Com terra importada da Itália,
e levada de navio, o pântano transformou-se em terra produtiva e,
apesar das enormes dificuldades, hoje lá são empregados os
mais modernos métodos de agricultura e pecuária. Com igualdade
de direitos, homens e mulheres trabalham, semeiam, e também empunham
seus fuzis, quando é necessário defender o kibutz
dos ataques terroristas.
Isso motivou a criação
de creches-escola coletivas, onde uma só mulher - a metapélet
- atende com eficácia várias crianças. Aliás,
a palavra kibutz quer dizer coletivo e tudo lá é feito
para o conforto da Comunidade. O dirigente do kibutz tem os mesmos
deveres e direitos de todos, e faz o mesmo trabalho. Todos os dias, cada
um recebe a sua tarefa, embora muitos tenham empregos na cidade, de acordo
com suas aptidões.
Fazer aliá
- Quando Jaime Cymryng chegou ao Brasil, em 1928, tinha apenas 20 zlotes
(dinheiro polonês) no bolso, e trabalhou dois dias na Ford, de onde
foi despedido porque estava muito fraco, e não conseguia fazer todo
o serviço que lhe era atribuído. É que, com um ordenado
de 2.500 réis por dia, só era possível fazer uma refeição,
e o trabalho acabava sendo demais.
Depois de percorrer algumas cidades
de São Paulo, e de sofrer um acidente de ônibus, que o deixou
bastante ferido, ele conseguiu estabilizar-se em Santos, como mascate,
e pôde instalar a mulher e o filho, Bernardo, que desde cedo interessou-se
pela política e pelo sionismo. Logo Jaime teria de enfrentar a mesma
situação de outros judeus, cujos filhos decidiam fazer aliá,
isto é, seguir para Israel.
Quando acabou o colegial, Bernardo
entrou para a Organização Sionista, e foi um dos fundadores
do Movimento Juvenil Dror em Santos. Esclarecido sobre a história
de Israel, ele fazia palestras entre
os membros da colônia santista, enquanto juntava dinheiro para a
viagem, e foi com o primeiro garin (grupo) que saiu do porto de
Santos.
Hoje, afastado de sua função
no ministério, Bernardo Cymryng continua suas atividades políticas,
enquanto trabalha na fábrica da famosa cerâmica de Bror Chail,
exportada para todo o mundo. O kibutz que ajudou a fundar é
um dos mais famosos de Israel, e
tem uma escola para brasileiros, com currículo brasileiro e validade
no Brasil. O diretor dessa escola, Henrique Yampolsky Vampa, também
é santista.
Veja as partes [1]
e [2] desta matéria
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