HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS - OS IMIGRANTES
A colônia
judaica (2)
Beth Capelache de Carvalho
(texto), Equipe de A Tribuna (fotos)
No começo, os mascates
Em
1925, uma grande leva de judeus veio para o Brasil, devido à Primeira
Guerra. A América do Norte estava fechada para imigrantes, e o Brasil
os recebia com boa vontade. Além disso, já havia um bom número
de pioneiros que mandavam à Europa boas notícias sobre a
vida que levavam aqui. Santos era o primeiro porto brasileiro de atracação
para os navios que chegavam da Europa, e além disso já possuía
algumas famílias judias instaladas com conforto. Por isso, muitos
ficaram aqui.
Foi quando chegou Yochin Heumann,
um judeu austríaco, hoje naturalizado brasileiro. Quando estourou
a Primeira Guerra, Yochin era segundo sargento do exército austríaco,
e lutou pela Áustria nas
trincheiras. Sua cidade, Tchernovich,
foi ocupada pelo exército da România,
e, ao dar baixa, Yochin resolveu procurar um bom lugar para viver.
Veio para Santos seguindo as recomendações
de um velho conhecido, o dr. H. Runes, que aliás foi o primeiro
médico judeu a instalar-se em Santos. Sua primeira dificuldade foi
adaptar-se ao clima, pois deixou a Áustria
com um frio de 36 graus abaixo de zero, e encontrou aqui a temperatura
beirando os 40 graus positivos. Na Alfândega, os funcionários
se encarregaram de mudar o seu nome para Joaquim, que está em seus
documentos e que usa até hoje.
Joaquim Heumann nasceu em 1898, no
dia 7 de outubro, quando, no calendário judaico, estava sendo comemorada
a festa da Alegria da Torá. Hoje tem 83 anos, está aposentado,
e suas duas filhas, brasileiras, santistas, trabalham como supervisoras
de ensino na Baixada. Sua vida no Brasil exemplifica bem o que se passou
com os imigrantes judeus que escolheram Santos como local de residência.
Seu primeiro emprego foi de vendedor
(klantele - cliente), como quase todos; depois, foi fornecedor de
estradas de ferro, e mais tarde teve uma loja de calçados (Casa
Universal) e uma loja de móveis. Enriqueceu e empobreceu pelo menos
duas vezes, tornou a estabilizar-se, mas nunca se afastou da comunidade
judaica, apesar de sentir-se integrado aos costumes da cidade e do País
que o adotou. Aposentado como fiscal de obras, é um dos mais antigos
representantes da comunidade em Santos.
Tradição no comércio
- Como Joaquim Heumann, a maior parte dos judeus imigrados dedicou-se ao
comércio. É que esta é uma das tradições
conservadas pela comunidade nos países em que se instala. Na Idade
Média, durante o período feudal, os judeus não tinham
o direito de possuir terras, por isso trabalhavam no comércio. Mais
tarde, quando os cristãos foram proibidos pela Igreja de emprestar
dinheiro a juros, eles passaram a explorar também esse tipo de negócio.
Não era costume guardar dinheiro em banco, e as constantes perseguições
os impediam de comprar terras ou juntar muitos objetos pessoais. Por isso,
guardavam dinheiro, que poderiam usar de imediato, em caso de necessidade.
Os judeus se afastaram, dessa maneira,
da terra e da agricultura, devido ao exílio. Mas suas leis, suas
orações e as festas de origem agrícola sugerem um
permanente desejo de retornar ao artesanato e ao trabalho na terra. E é
realmente isso que está acontecendo em Israel.
Mas aqui, no Brasil, a tradição faz lembrar o judeu comerciante
- primeiramente o mascate, depois o dono de loja e também o usurário,
explorador dos juros. Aos poucos, isso vai se tornando apenas lembrança.
"Chlaper" - Hoje, os
filhos de imigrantes judeus ocupam cargos em todos os setores da sociedade,
a maior parte possui diploma universitário, alguns estão
na política. Na Senador Feijó, as lojas de móveis,
no Centro e no Gonzaga,
o comércio variado preservam a tradição do judeu comerciante,
pioneiro da venda a prestação, hoje uma prática das
mais comuns no mercado nacional.
No começo haviam muitos mascates.
Eles batiam palmas nos portões das casas, para oferecer sua mercadoria,
por isso eram chamados chlaper (o que bate). Era uma das poucas
profissões que podiam levar adiante, mesmo com a dificuldade de
comunicação. Vendedor e freguês precisavam falar pausadamente,
para se entenderem, e são inúmeros os casos engraçados
de troca de palavras e desentendimentos, que os mais antigos da colônia
agora lembram com bom humor.
Os mascates percorriam as ruas da
Cidade e também os morros, e vendiam de tudo: roupas, sapatos, objetos
de cama e mesa, lingerie, tecidos, artigos importados. Sua eficiência
e pontualidade lhes valiam boa freguesia. Em caso de morte, por exemplo,
o mascate era capaz de conseguir, em poucas horas, um guarda-roupa completo
para o luto de seu freguês. Muitos donos de lojas começaram
como chlaper.
Benjamin
e Tauba estiveram em campos de concentração
Do passado, lembrança da
guerra e do exílio
Como
todos os lugares onde existe uma colônia judaica, Santos também
abrigou sobreviventes da perseguição nazista. Dos horrores
daqueles dias, todos os membros da comunidade têm terrível
lembrança, pois mesmo os que eram muito jovens na época sentiram
a angústia de seus pais, e dos amigos de seus pais, reunidos em
volta do rádio, à espera das listas de mortos e desaparecidos.
Cada carta que chegava à casa de um membro da comunidade era motivo
para tristes reuniões, quando eram divulgadas as notícias.
Todos perderam alguém na guerra.
Benjamin e Tauba Petrkovsky estiveram
lá. O casal de judeus, residente no Gonzaga,
ainda sofre com a lembrança dos campos de concentração
em que ambos viveram. Mas nenhum deles se recusa a falar do assunto, porque
acham importante que o mundo não se esqueça do que aconteceu,
e que as novas gerações de judeus saibam o que passaram seus
antepassados.
Os números 141.444 e 3.333,
tatuados em seus braços, são a marca dos campos de Auschwitz,
onde Benjamin passou cinco anos, Litva, Lotva, Estônia,
Riga e Studow, que Tauba percorreu
durante seis anos. Câmaras de gás, torturas físicas
e morais, fome, frio, separação entre familiares, doenças,
sujeira, piolhos, trabalhos forçados são experiências
que Tauba e Benjamin já narraram muitas vezes, para amigos, repórteres
e estudantes que os procuram com freqüência. Uma situação
que durou até 1945, quando a guerra acabou e Tauba fugiu do tut
lager (campo de concentração), com mais seis amigas.
Caminhando e pedindo comida, elas
percorreram uma parte da Alemanha
invadida pelos russos, até chegar à cidade de Benjamin, Idunska
Wola, para onde ele já havia voltado, depois da libertação.
As moças estavam fracas, Tauba pesava apenas 36 quilos, e o prefeito
da cidade resolveu ajudá-las, encaminhando-as para algumas casas
onde já estavam vivendo outros judeus.
Divididos em grupos, eles se ajudavam
mutuamente. Tauba era capaz de comer dois quilos de pão e tomar
quantidades enormes de sopa num só dia. Benjamin resolveu ajudá-la
a se recuperar, e nunca mais eles se separaram. No dia 9 de maio, quando
se comemorava a queda de Berlim, eles se casaram, sob a proteção
do prefeito, que providenciou o enxoval e uma festa que durou três
dias.
No Brasil - Benjamin não
encontrou mais nenhum de seus familiares, mas Tauba conseguiu localizar
um irmão na Rússia
e uma irmã no Brasil. Depois de morar sete anos na Polônia,
o casal conseguiu seguir para Israel,
onde teria ficado se Tauba, doente do coração, não
precisasse procurar um país onde pudesse ser operada. Depois de
dois anos de troca de correspondência com a irmã, que morava
em Santos, Tauba mudou-se para cá, e foi operada por um médico
santista, o dr. Domingues Pinto.
Apesar de tudo o que passaram, Benjamin
e Tauba Petrkovsky acham que tiveram sorte. Aqui eles vivem bem, têm
três netos (as duas filhas nasceram em Israel),
e sentem-se integrados na cidade e na comunidade judaica. Mas, é
claro, têm muita vontade de voltar a Israel.
Veja as partes [1]
e [3] desta matéria
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