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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - Colônia lusa
A cidade dos portugueses (4)

Jornal de 1944 destaca a participação lusa no desenvolvimento santista
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Texto publicado na edição especial comemorativa do cinqüentenário do jornal santista A Tribuna (exemplar no acervo do historiador Waldir Rueda), em 26 de março de 1944 (grafia atualizada nesta transcrição):
 


Imagem: reprodução parcial da matéria original

Homenagem da A Tribuna à laboriosa colônia portuguesa

[...]


Membros destacados da colônia - Uma plêiade de honrados e dignos cidadãos portugueses aqui desenvolve atualmente sua atividade laboriosa, contribuindo para o progresso da cidade, auxiliando não só as coletividades originárias da colônia como todas as nossas instituições em geral, incorporando-se a todos os movimentos de caráter social ou de civismo.

Bernardino Pereira Leite - Elemento de destaque na colônia, nela exerce definida influência. Seu trabalho de arregimentação e união dos portugueses tornou-se notável com a campanha de reerguimento da Sociedade União Portuguesa, imprimindo-lhe finalidade de assistência e fazendo-a motivo de justo orgulho da colônia.

Espírito culto, as preocupantes lides do comércio e da indústria, em que militou com assinalado êxito, não impediram que dedicasse particular carinho às letras, escrevendo uma interessante novela e outros trabalhos apreciados pelo estilo elegante, pela linguagem escorreita e pela profundidade de seus conceitos. Incansável estudioso, ocupa merecidamente uma cadeira no Instituto Histórico e Geográfico de Santos.

Comendador Joaquim Inácio da Fonseca Saraiva - Antes de seguir para São Paulo, onde se fixou no comércio de livraria, como proprietário da Livraria e Editora Acadêmica, o comendador Joaquim Inácio da Fonseca Saraiva, hoje figura de relevo nos círculos sociais de São Paulo, particularmente estimado nos meios estudantis, viveu alguns anos em Santos e aqui desenvolveu intensa atividade social. Emprestou desvelada colaboração à Beneficência Portuguesa e ao Real Centro Português, ocupando cargos diretivos em ambas as instituições. No Real Centro, de que foi um dos sócios iniciadores, exerceu cargos nas diretorias de 1895, 1900, 1903, 1904 e 1905.

Francisco Bento de Carvalho - Um dos vultos mais influentes da colônia portuguesa de Santos, tem prestado às instituições de caridade locais vultosa colaboração, contemplando não só as associações de iniciativa lusa, como todas as coletividades filantrópicas em geral. Ainda recentemente, fez a todas elas donativos valiosos, que se elevam a um total de mais de uma centena de milhares de cruzeiros.

Mercê de sua invulgar capacidade de trabalho e larga visão comercial, tornou-se um dos mais destacados elementos do alto comércio atacadista e importador de Santos, onde se encontra desde 1887.

O governo português distinguiu-o com o grau de Grande Oficial da Ordem da Benemerência.

Entre as casas de caridade de Santos a que emprestou dedicada colaboração figura a Irmandade da Santa Casa da Misericórdia. Como testamenteiro e inventariante dos bens deixados por José Cabalero, e legados àquela instituição, empenhou-se em renhido pleito judiciário, no qual reivindicou e conseguiu que a Casa de Braz Cubas fosse neles empossada, valores àquele tempo estimados em mais de mil contos de réis.

Apaixonado apreciador da arte, vem desde longos anos coligindo verdadeiras preciosidades artísticas em sua residência, sendo além disso possuidor de uma raríssima e valiosa coleção numismática.

Marinho da Câmara Leite - Elemento de destaque no comércio local, participou de importantes organizações mercantis. Exerceu as funções de agente do Lloyd Brasileiro. Desempenhou o cargo de vice-cônsul de Portugal. A sua cooperação às instituições portuguesas em geral foi das mais apreciáveis. Atualmente, está retirado da vida comercial para se dedicar à agricultura, possuindo uma fazenda no interior do Estado.

Comendador Aristides Cabrera Corrêa da Cunha - Nome dos mais estimados não só no seio da colônia portuguesa como na sociedade santista e paulistana em geral, desfruta entre nós de merecido prestígio. Chefe de uma das mais importantes organizações comerciais do Estado, sua ação nos meios sociais é das mais destacadas.

Sócio do Rotary Clube de Santos, pertencendo aos quadros sociais e tendo ocupado cargos nas diretorias de diversas instituições de caridade, esportivas e culturais de Santos. Foi distingüido pelo governo brasileiro com a comenda da Ordem do Cruzeiro do Sul.

Na impossibilidade de fazer referência especial a todos eles, citaremos aqui mais alguns nomes que no momento nos ocorrem, nas pessoas dos quais rendemos nossa homenagem a toda a colônia lusa: dr. Tomás Alvim, ora residindo no Rio de Janeiro, mas que aqui exerceu destacada atividade forense; drs. F. Dourado, médico, e M. F. Dourado, dentista; Alberto Plácido de Sousa Santos, Ismael Alberto de Sousa, Manoel Golegã de Sousa Santos, Vitor Soalheiro, Antônio Domingues Pinto, A. D. Mirandeira, Horácio Reis, Luiz Couceiro, José Luís Antunes, José Bento de Carvalho, Carlos Herdade, José Martins Simões, Domingos Cândido da Silveira, Clídio Pereira de Carvalho, Alberto Pimenta, Gaspar Lopes Martins, Antônio Marques Bento de Sousa, Antônio Ferreira Lage, Narciso Ferreira Lage, Manoel Azevedo Azevedo Lage, Antônio Lourenço Gomes, Benjamim Alves dos Santos e Antônio Inácio Serra.

Um precioso informador - Com o propósito de obter informações sobre as personalidades portuguesas que, nas últimas décadas, aqui viveram e aqui desempenharam sua atividade, influindo para o desenvolvimento da cidade, procuramos ouvir o sr. Agostinho Maria da Rocha, cidadão que desfruta de geral conceito e apreço não só no seio da colônia como nos círculos sociais de Santos.

Muito trabalhou em favor das instituições portuguesas de Santos, principalmente a Beneficência e o Real Centro.

O referido cavalheiro vive em Santos há mais de 66 anos, para cá tendo vindo com pouco mais de 11 anos. Aqui viveu sempre, aqui trabalhou com afã, tornando-se merecedor da estima e admiração de todos, mercê de sua retidão de caráter e de seu espírito de justiça e integridade moral.

Memória privilegiada, conserva bem viva a lembrança de quase todas as pessoas com quem conviveu no decurso de sua já longa existência. Grandemente relacionado, tornou-se um conhecedor profundo da vida de Santos desde a sua infância. Foi, por isso, para nós, um informador precioso. A ele devemos uma grande parte dos dados seguintes que podemos apresentar à curiosidade dos nossos leitores, pelo que aqui lhe deixamos consignado o nosso agradecimento, sem antes deixarmos de atender ao seu insistente pedido, de rogar escusas pelos possíveis equívocos ou inevitáveis omissões em que haja involuntariamente incorrido.


[...]

Sobre um dos portugueses citados, o comendador Francisco Bento de Carvalho, a antiga revista mensal santista Flama publicou, na página 32 da edição de maio de 1944 (ano XXIII, nº 5):


Flagrante apanhado na residência do sr. Francisco Bento de Carvalho, quando o sr. Benedito Gonçalves, provedor da Santa Casa da Misericórdia, lhe fazia entrega da medalha de ouro, comemorativa do cinqüentenário do prestante cidadão na Irmandade de Braz Cubas
Foto e legenda publicadas com a matéria

COMENDADOR FRANCISCO BENTO DE CARVALHO - A data de 3 de junho assinala o natalício do sr. Francisco Bento de Carvalho, uma das figuras mais respeitáveis da cidade. Durante quase sessenta anos dedicou-se esse vulto, respeitável pela idade, pelo caráter e pelos atos de benemerência, à vida comercial. E da sua passagem pelas lides a que deu toda a sua atividade empreendedora e inteligente, ficou um rasto inapagável, registrando e exalçando o velho conceito de probidade da praça de Santos.

Francisco Bento de Carvalho é bem o padrão desses homens de rija têmpera, de um proceder só, imutável nas suas convicções e nos seus métodos de tratar e cumprir, sem tergiversar jamais.

Geralmente, conhece-se esse homem que se engrandeceu pelo trabalho, pela perseverança e pela força de vontade inamoldável a qualquer obstáculo, pelo que ele foi no comércio, granjeando fama de honestidade insuspeitável e pela ação caritativa tão à feição do seu hábito de ocultar o que faz como preceitua a virtude cristã.

Conhecem-lhe os mais íntimos, no entanto, outras características, sendo digna de ser posta em destaque a de esteta. Porque foi sempre um esteta esse homem sóbrio, a quem o trabalho não tirou a predileção pela arte. O seu solar é uma mostra admirável do senso equilibrado das suas faculdades de julgar e apreciar. Não há ali modernices extravagantes, nem gritantes exposições. Há, todavia, um patrimônio valioso de arte verdadeira, desde os quadros raros de pintores de raça às peças do mobiliário que à primeira vista denunciam gosto apurado e sensibilidade invulgar.

Homem de método para tudo, afeito ao trabalho, que varava pelas madrugadas mas que era sempre o primeiro a chegar ao escritório para começar o dia comum, em labor de mais de meio século, não dava azo a exterioridade da sua vida para que se julgasse das qualidades de espírito que o colocam entre os mais famosos colecionadores artísticos, não apenas da cidade, mas do Brasil.

Um dia se escreverá, com acerto, do septuagenário que hoje evoca o nosso respeito pelo passado sem rugas e pela virtude da bondade, um capítulo à parte que lhe evidencia as qualidades de esteta. Mas esteta de um sentido profundo que o faz julgador de si próprio, consciência perfeita do mérito de ajuizar a preferir. Foi assim para com os objetos e para com os homens. Para com as artes e para com as amizades, que soube escolher sempre, transformando em culto essa virtude excelsa da amizade verdadeira, que nem a algidez dos túmulos lhe arrefece no coração - candeia sempre acesa a alumiar o altar das suas venerações.

Flama presta a sua homenagem a essa figura tão respeitável quanto querida pela passagem da sua data natalícia.

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