| Em Cubatão
foi "assignada" a libertação dos escravos
Carta
dos libertos da Estação do Paty, município de Vassouras,
R.J., de 19 de abril de 1889 a Ruy Barbosa. Documento manuscrito, existente
na Casa de Ruy Barbosa, Rio de Janeiro, cuja cópia xerox foi doada
por Mons. Manoel Pestana, ao Arquivo Histórico de Cubatão.
Ruy Barbosa
(1840-1923), parlamentar, jurisconsulto e escritor e jornalista esteve,
como é sabido, solidário com o movimento abolicionista. Na
carreira política que se prolongou, do final do Império até
sua morte, na 1ª República, brilhou graças à
cultura invulgar e viva inteligência. Antes mesmo de entrar para
a política, já se tornara conhecido por causa da atividade
jornalística.
Dentro da campanha
abolicionista, redigiu a Lei Saraiva de 29 de janeiro de 1880, sendo membro
da Câmara dos Deputados do Império, onde ficou até
1884. Escreveu, também, o parecer concedendo alforria aos escravos
sexagenários, em 1884. Em 1888 deixou o Partido Liberal e aderiu
à idéia republicana.
No ano seguinte,
recebeu uma carta dos libertos da Estação do Paty, pedindo-lhe
"o auxílio da inspirada pena" para que o fundo de emancipação
dos escravos revertesse em favor da educação de seus filhos.
É interessante
o modo de pensar dos ex-escravos. Nada gratos ao Império, atribuem
a Lei de 13 de Maio à força do povo. Querem os partidários
da República, "que é liberdade, igualdade e fraternidade",
o que mostra a penetração das idéias revolucionárias
francesas, no meio dos antigos escravos.
É curioso
afirmarem que a libertação partira do povo que forçara
sua decretação pela Coroa e pelo Parlamento "e que em Cubatão
foi assinada a nossa liberdade".
Supomos que
deva ser uma referência ao sentimento de liberdade que devia empolgar
os escravos fugidos, ao chegarem a Cubatão, então porta da
terra da liberdade: Santos. Essa referência pode ser também
uma tentativa, talvez inconsciente, de apontar a ação dos
escravos para conseguir sua liberdade.
|
| Ao grande
cidadão Ruy Barbosa.
Comissionados
pelos nossos companheiros, libertos de várias fazendas próximas
a estação do Paty, município de Vassouras para obtermos
do governo Imperial educação e instrução para
os nosos filhos, dirigimo-nos à Va. Excia. pedindo o auxílio
da invejável ilustração e do grande talento de Va.
Excia., verdadeiro defensor do povo e que d'entre os jornalistas foi o
único que assumiu posição definida e digna, em face
dos acontecimentos, que vieram enlutar nossos corações de
patriotas.
A lei de
28 de setembro de 1871 foi burlada e nunca posta em execução
quanto a parte que tratava da educação dos ingênuos.
Nossos filhos
jazem imersos em profundas trevas. É preciso esclarece-los e guiá-los
por meio da instrução. A escravidão foi sempre o sustentáculo
do trono n'este vasto e querido país agora que a lei de 13 de Maio
de 1888 aboliu-a, querem os ministros d'"A Rainha" fazerem dos libertos,
nossos inconscientes companheiros, base para o levantamento do alicerce
do 3º reinado.
Os libertos
do Paty do Alferes, por nós representados protestam contra o meio
indecente de que o governo quer lançar mão e declaram aproveitando
esta ocasião, que não aderem a semelhante conluio e que até
agora sugado pelo governo do Império querem educação
e instrução que a Lei de 28 de setembro de 1871, lhes concedeu.
O governo
continua a cobrar o imposto de 5% adicionaes, justo é que esse imposto
decretado para o fundo d'emancipação dos escravos reverta
para a educação dos filhos dos libertos.
É
para pedir o auxílio da inspirada penna de Va. Excia., que tanto
influiu para a nossa emancipação, que nos dirigimos a Va.
Excia.
Comprehendemos
perfeitamente que a libertação partiu do povo que forçou
a coroa e o parlamento a decreta-la e que em Cubatão foi assignada
a nossa liberdade e por isso não levantaremos nossas armas contra
os nossos irmãos, embora aconselhados pelos áulicos do paço,
outrora nossos maiores algozes.
Para fugir
do grande perigo em que corremos por falta de instrução,
vimos pedi-la para nossos filhos e para que eles não ergam mão
assassina, para abater aqueles que querem a República, que é
a liberdade, igualdade e fraternidade.
Estação
do Paty, 19 de abril de 1889
A
Comissão de Libertos Quintiliano
Avellar (preto) Ambrósio
Teixeira João
Gomes Batista Francisco
de Salles Avellar José
dos Santos Pereira Ricardo
Leopoldino de Almeida Sergio
Barboza dos Santos
|