| A campanha
da Abolição
[...]
Entre
1880 e 1881 apareciam as primeiras forças jovens, reforçando
ou substituindo as velhas, reavivando o movimento e acentuando a vitória.
Um conspirador
destemeroso surgira entre os novos elementos, como uma das melhores esperanças
na luta final contra o cativeiro; era Américo Martins dos Santos
(a nossa suspeição é nimiamente circunstancial e está
perfeitamente ressalvada pelo testemunho da época, pelo depoimento
pessoal do citado e pela verdade dos fatos). Moço fortíssimo,
de 28 anos, ex-cadete da Escola Militar, descendente de importante e tradicional
família santista, irmão mais jovem de um dos iniciadores
do movimento - Francisco Martins dos Santos - e decidido a todas as situações,
integrou-se Américo Martins na corrente de que participavam todos
os seus, congregando desde logo os seus companheiros e amigos, principalmente
Ricardo Pinto de Oliveira, Geraldo Leite da Fonseca, Guilherme Souto e
mais alguns, para um movimento mais acentuado, de efeitos mais profundos
e palpáveis.
Marcaria 1881
o aparecimento da fortíssima e numerosa legião de verdadeiros
combatentes da mocidade abolicionista. É aí que se trama
a fundação e criação do Jabaquara. Por iniciativa
de Américo Martins e Xavier Pinheiro, realizou-se em fins daquele
ano uma grande reunião em casa de Francisco Martins dos Santos,
na antiga Quadra Mauá (depois Praça José Bonifácio
"o Moço"), uma chácara antiga, considerada "o seio de Abraão"
dos recém-chegados, sem emprego e sem dinheiro para pagamento de
hospedagens, e nessa reunião tornaram parte: Xavier Pinheiro, Américo
Martins e seu irmão Francisco, Guilherme Souto, Geraldo Leite, Júlio
Backeuser, Santos Pereira (o Santos Garrafão), Ricardo Pinto
de Oliveira, Júlio Maurício, Constantino de Mesquita, Joaquim
Fernandes Pacheco, Teófilo de Arruda Mendes, José Ignácio
da Glória, Afonso Veridiano, Antonio Augusto Bastos, Luiz de Matos
e outros entusiastas do movimento.
Tornou-se célebre
essa reunião, porque nela foi resolvida a criação
de um reduto, espécie de quilombo, onde se reunissem todos os escravos
subtraídos à escravidão, por grosso, antes de se cogitar
dos seus empregos. Ali seria o refúgio geral, defendido e armado,
ao invés de se ocultarem os fujões nos quintais e porões
das casas amigas, com inúmeros e compreensíveis inconvenientes.
Feita a coleta
inicial entre os participantes da reunião, completou-se o total
ali apurado com as importâncias subscritas pelos demais adeptos que
o desejaram, incluindo firmas do alto comércio, e, em seguida, eliminado
o óbice financeiro, procedeu-se à escolha do ponto onde deveria
ser fundado e estabelecido o reduto, que tão respeitável
lugar ocuparia na históira da Abolição paulista e
brasileira.
Atrás
das terras de Matias Costa e Benjamin Fontana, ainda em estado primitivo,
cobertas de matos e cortadas de riachos, havia uma extensão de várzea
trançada apenas de lírios, tibuquinas, cambarás e
outras arbustivas comuns, para onde se ia ainda pelo caminho que existia
ao lado da Santa Casa da Misericórdia, hoje demolida, subindo a
lombada do morro, bifurcado no alto, seguindo um braço para a casa
de Benjamin Fontana e para o sítio de Geraldo Leite da Fonseca [36],
descendo o outro para o Jabaquara. Era o único caminho para lá.
Naquele ponto
seriam, em breve, recolhidos todos os negros até então ocultos
nas casas particulares e os outros que apareciam de fora, até formarem
um núcleo numeroso e respeitável. Precisavam porém
de um chefe, à altura da responsabilidade, que os mantivesse em
ordem e disciplina e os dominasse em seus ímpetos naturais, porque
chegava a fase heróica do movimento e tornava-se necessária
uma ação planejada, conjunta e definitiva, sem preocupações
dessa ordem.
Foi Américo
Martins quem lembrou um nome: Quintino de Lacerda! E quem era esse Quintino?
Muitos o conheciam e todos apoiaram a lembrança. Américo
Martins não o conhecia apenas da casa dos republicanos Antonio e
Joaquim de Lacerda Franco [37]:
era também seu compadre, pois lhe batizara um filho havia alguns
anos, e assim prontificou-se a ir pedir ao amigo Lacerda Franco o concurso
do seu ex-cozinheiro e homem de cnfiança, que continuava a viver
em sua casa.
Quintino, por
sua vez, aceitou o convite, e já no dia seguinte se apresentava
no Jabaquara, orgulhoso de sua nova missão e satisfeito por ter
de enfrentar perigos, como era de sua índole, empossando-se com
alguma solenidade, e diante dos pretos reunidos, comandante do reduto livre,
que a própria polícia, sempre chefiada por maçons
e abolicionistas, apoiava secretamente.
Num abrir
e fechar de olhos, estavam armados duzentos homens no quilombo santista
[38].
Ao cabo de um ano, em 1882, já contava o Jabaquara mais de quinhentos
indivíduos: homens, mulheres, moços, velhos e crianças,
vigiados por atalaias do morro, onde se levantava o posto avançado
e sempre alerta de Geraldo Leite, o ardoroso despachante da Alfândega
local.
Os generais
eram os chefes do movimento, mas o comandante do reduto era Quintino de
Lacerda, o fortíssimo e bravo negro sergipano. As reuniões
mais secretas a respeito do quilombo santista eram realizadas ora na fábrica
de cal de Xavier Pinheiro, no extremo do Paquetá, mais ou menos
próxima do atual escritório da Companhia Docas, ora na Farmácia
de Teófilo Mendes, ora na chácara de Geraldo Leite, do alto
do morro, e algumas vezes na casa de Quintino de Lacerda, a cavaleiro do
Jabaquara, na encosta Sul do Monte Serrate,
de onde o sergipano vigiava o seu quilombo a salvo de surpresas.
A 24 de agosto
de 1882, uma grave notícia abalava os arraiais abolicionistas, numa
repetição da fatalidade de 1874: morrera Luiz Gama, o grande
negro, o sucessor de Xavier da Silveira, o condutor supremo do movimento
paulista. Ficaria faltando desde então o chefe agitador, a força
realizadora do advogado paladino, mas estava escrito que assim não
seria, e aí - como um milagre de determinação da Providência
- surgiu a figura de Antonio Bento (Antonio Bento de Souza e Castro), advogado
também, ex-conservador, ex-promotor público e juiz municipal
em São Paulo.
Antonio Bento
convertera-se, inesperadamente, em favor da campanha. Acompanhara ele,
silenciosamente, no dia 25 de agosto, o enterro do colega, mas, no instante
da despedida, quando o sacerdote murmurava as últimas palavras do
"Requiescat" perante a multidão presente à necrópole,
Antonio Bento sentiu, no fundo da alma, viva revolta contra a sua própria
atitude; tocou-se da chama divina, ouviu a voz daqueles milhares de infelizes
que ele mesmo atacara na promotoria, que ajudara a prender ou a voltar
para o ergástulo, ou que condenara como juiz, e cujo sangue empapava
as terras generosas de São Paulo, enchendo de horror todos os recantos
da Província, onde o "bacalhau", o "viramundo" e a
"gargalheira" eram os símbolos máximos da perversidade
humana na exploração dos semelhantes.
Compreendeu
num segundo o que não compreendera durante anos, o heroísmo
daquele homem que se findara assim, sem ter quem continuasse a sua obra,
deixando uma raça inteira na orfandade, e aí, ante o espanto
dos circunstantes, estendeu as mãos sobre o corpo do apóstolo
negro, jurando solenemente, em voz alta, que "a campanha abolicionista
deveria prosseguir até a vitória final; que ela não
podia findar com aquela morte, e que, dali por diante, ele, Antonio Bento
de Souza e Castro, seria o seu porta-bandeira"
[39].
Santos inteira
exultou com a notícia sobre o novo chefe da ação,
e não se enganou, porque, desde aí, a vitória pronunciou-se
cada vez mais nítida, levada pela mão firme, segura, tenaz,
do seu terceiro chefe provincial.
Tempos depois,
Antonio Bento visitava a cidade de Santos, percorrendo as casas dos chefes
locais e o reduto fortificado do Jabaquara, convencendo-se, então,
de que "se achava diante do ponto alto e confiante da campanha"
[40].
Combinou-se,
nesta ocasião, que, oportunamente, alguns homens de Quintino de
Lacerda fossem acampar na raiz da serra, junto a Cubatão,
e no alto, perto de São Bernardo, junto à antiga fazenda
do "Ponto Alto", no lugar chamado Zanzalá,
a fim de receber os negros fugitivos através das matas e disputar,
se tanto fosse preciso, aos capitães-do-mato, a posse dos seus perseguidos.
Tal providência visava a completar o trabalho dos "caifazes"
do próprio Antonio Bento, que, conseguindo a fuga em massa das fazendas
do interior, encaminhavam os fugitivos para a Serra do Mar, ao ponto onde
os guias valentes de Santos deviam conduzi-los a salvo para a liberdade
do Jabaquara.
Quintino exultou
com a perspectiva de luta, e, algumas semanas depois, já seguia
ele, pelas primeiras vezes, com um grupo regular de negros decididos, para
os pontos determinados da serra de Cubatão, deixando em Santos a
outra parte da gente necessária à guarda do reduto. Daí,
pelo tempo adiante, surgia de vez em vez, pela estrada ou em canoas pelo
lagamar
de Caneú, uma escolta do chefe negro, trazendo dez, vinte e
até mais escravos famintos e seminus, recebidos junto à raiz
da serra ou junto às matas do Zanzalá. Contava-se, então,
a respeito de Quintino, várias e verdadeiras façanhas, que
ele somente confirmava com um riso rasgado e sem palavras e ainda desculpando-se
de fazer tão pouco. Em suas saídas, Pai Felipe, o rei negro,
experiente e ainda válido para as lutas, fazia-lhe as vezes no quilombo
santista.
Quadro
pintado em 1922 por Benedito Calixto mostra como seria Cubatão em
1826, vendo-se
a ponte coberta Tela conservada
no Museu Paulista, em São Paulo/SP
Quando começou
a descida maior de escravos de serra-acima, o governo mandava, vez ou outra,
guarnecer com escolta a ponte do Casqueiro,
impedindo ou tentando impedir o caminho, mas nem sempre os soldados se
desincumbiam de sua missão, porque muitos dos cabos e sargentos
destacados para tal serviço fingiam não ver os fugitivos,
desculpando assim seu ato amigo e disfarçadamente abolicionista.
De outras vezes, avisados a tempo, os homens desciam da serra, embarcavam
em canoas em Cubatão, vindo ter a Santos por água, contornando
a dificuldade.
Um dos poucos
autores de Santos que escreveram sobre a Abolição santista
[41]
refere uma passagem característica da campanha, em que figuravam,
como personagens principais, um sargento mandado a guarnecer a famosa ponte
contra a passagem dos fujões do planalto e o negro Adão.
"Pai Adão", como o chamaram sempre nos círculos do Jabaquara,
que foi no refúgio santista um grande assistente de Quintino de
Lacerda, na chefia das quilombadas. Essa passagem ele a termina com as
seguintes descrições:
"Depois de
longos dias de penosa marcha por péssimos e intérminos caminhos,
homens, mulheres, velhos e crianças, famintos, cansados, enfraquecidos,
esfarrapados, esses míseros componentes da mísera caravana,
descida a serra de Paranapiacaba, tendo à frente o Adão,
qual outro Moisés, caminhavam da Ponte do Casqueiro, braço
de mar que precisavam atravessar para chegar a Santos, a cidade abolicionista
por excelência, e daí ao Jabaquara, bairro da mesma cidade,
refúgio de fugitivos, onde descansariam, para depois tomar cada
um o seu rumo.
"Ora, a ponte
estava guardada por uma força da polícia, com ordens terminantes
para os não deixar passar, para os prender mesmo e os recambiar
para os ergástulos dos fazendeiros.
"Comandava
a força um ex-sargento do Exército, correto e bravo militar
[42].
"Disfarçados
em pescadores, havia ali, no rio Casqueiro, gente vinda de Santos em uma
flotilha abolicionista, composta de embarcações miúdas,
de diversas espécies, gente pronta para oferecer seus serviços
aos pacíficos retirantes.
"O comandante
dos soldados deixou que os negros se aproximassem da ponte. Então,
a toque de corneta, formou a tropa, fez calar baionetas e bradou forte
aos tímidos e apavorados fugitivos:
"- 'Façam
alto! Porque por esta ponte não passa nenhum negro fugido! As ordens
que tenho serão cumpridas!...'
"O Adão
julgou tudo perdido... Notou, todavia, que o comandante continuou a falar,
de modo estranho, como quem falava consigo mesmo, mas de maneira a não
poder ser ouvido pelos seus comandados e por toda gente, dizendo: '-
Ali no rio estão muitos botes e canoas, nos quais pode passar todo
mundo que quiser'. O resto não é
preciso ser narrado.
"De fato, pela
ponte não passara ninguém, conforme ordem recebida pelo sargento:
passaram todos por baixo dela, e nessa mesma noite o reduto livre de Jabaquara
contava mais duzentos ou trezentos negros arrancados ao eito.
"E cenas como
esta eram comuns então."
Outro autor
doméstico que depôs larga e verificamente sobre o assunto,
pois que vivera a mesma época e os mesmos fatos, convivendo com
as principais figuras do movimento, foi Carlos Victorino, em suas memórias,
que reproduzimos em diversos trechos [43]:
"Num dos recantos
da Vila Matias existia o 'quilombo' chefiado por Pai Felipe, um
preto já velho, mas de um tino aguçado, comandando com muita
prudência o 'seu povo'. Nesse 'quilombo', embrenhado
numa porção de mato e habilmente coberto de vistas perseguidoras,
fizera Felipe o acampamento de sua gente que trabalhava no corte de madeira
para lenha e construção, e na indústria de chapéus
de palha.
"Pai Felipe,
aos domingos, franqueava o seu 'quilombo' aos rapazes e homens conhecidos
como abolicionistas, tratando-os com esmerada cortesia e contando das fazendas
coisas do arco da velha, coisas de fazer arrepiar os cabelos!
"Enquanto ele
fazia narrações, a 'sua gente' dançava o samba
no terreiro, ao som do 'tambaque', pandeiro e chocalho, a cuja cadência,
mulatinhas ainda novas e crioulos robustos, bamboleavam o corpo, meneavam
as cadeiras, picavam com o pé, fazendo um círculo vagaroso
até encontrarem-se os pares que se esbarravam numa proposital umbigada
certeira, cheia, fazendo o corpo dar meia volta.
"Esta dança
selvagem era acompanhada de cânticos nos quais a última sílaba
da rima prolongava-se muito, repercutindo nas matas.
"Parava de
súbito o 'tambaque', cessava a dança e, com permissão
de Pai Felipe, era distribuído o 'quentão'. Descansavam
um momento para começar a dança, com os mesmos jogos, com
as mesmas cantigas, prolongando-se este divertimento até a noite,
mormente se havia luar.
"Então
era sublime quando as pessoas, que procuravam a distração
naquele ponto da cidade, ouviam, logo ao entrar na vila, o eco sonoro dessas
cantigas, vindo do fundo das matas, semelhando o gemido duma dor que mais
tarde se reverteria em júbilo, pois tudo isso, toda essa agitação
em prol dos oprimidos, não era mais que o labor de um parto que
deveria dar à luz a Lei Áurea, entregando ao Brasil não
um ente, mas todos os entes completamente libertos e que, até o
dia 12 de maio de 1888, estorciam-se na opressão terrível
da escravidão.
"Não
era só na Vila Matias que existiam refugiados, esses homens escravos.
Numa dependência do Monte Serrate, tínhamos o Jabaquara, lugar
protegido por Quintino de Lacerda, que também fora escravo e, agora
liberto, dava conforto àqueles que eram ainda o que ele fora em
passados tempos [44].
"Pois bem:
Pai Felipe, em seu 'quilombo'; Quintino, no Jabaquara; e Santos
Pereira, na cidade, eram os baluartes protetores dos foragidos das violências
do tronco e outros instrumentos de martírio usados nas fazendas
de café [45].
"Por sua vez,
esses homens tinham ao seu lado a proteção de Santos em peso,
que não se cansava de promover tudo quanto fosse em proveito da
propaganda abolicionista; tanto que altos personagens do abolicionismo,
vendo na terra dos Andradas o acolhimento que deram à causa, protegiam
os santenses, como José do Patrocínio, que honra Santos com
a sua visita, realizando no Teatro Guarani uma conferência, na qual
distribuiu a diversos escravos as cartas de liberdade, e isso debaixo de
uma das mais retumbantes ovações que já se presenciou,
tal era o entusiasmo por tão sublime causa, e a admiração
ao nobre orador.
"O espetáculo,
o grande espetáculo social, ou por outra, a grande lição
dos escravocratas dada por José do Patrocínio em pleno tablado
do 'Guarani', diante de inúmeros espectadores, deu mais impulso,
agitou mais violentamente a guerra travada contra o escravismo.
"Diante, pois,
desses espectadores, José do Patrocínio, depois de falar
por espaço de uma hora e meia, chamava, prevenido de uma lista,
pelos nomes daqueles que deveriam receber a carta de liberdade.
"Ao chamado,
aparecia, saindo dum 'bastidor', uma crioula, de cabeça baixa
envergonhada ante a multidão, e ante o seu papel na sociedade -
o de escrava!
"José
do Patrocínio, com fraternal amor, orgulhoso de seu nobre encargo,
entregava à crioula a carta e não admitia que ela se curvasse
para beijar-lhe a mão; abraçava-a de leve e apertava-lhe
a mão na mais viva expressão de igualdade. Esta cena era
coberta de aplausos prolongados, que coroavam o ato.
"A liberta,
equívoca, não sabia se ficava no tablado ou se tornava aos
'bastidores', esperava uma ordem; julgava-se ainda uma escrava!
"Seguia-se
outro chamado, aparecia outro escravo, repetindo-se a mesma cena. E, assim,
montou a dez o número de libertos nessa noite, ante mil olhares,
retumbantes aplausos e júbilo geral.
"José
do Patrocínio, vitoriado, retirou-se do teatro às 11 horas
da noite, hora em que terminava a parte da grande obra pela qual seu coração
puramente democrata sempre pulsou: a Liberdade.
"Após
Patrocínio, Santos recebeu o ilustre Dr. Cândido Barata Ribeiro,
que, no mesmo Teatro Guarani, também realizou uma conferência
sobre dois temas, ao mesmo tempo: Abolição e República".
Dois portugueses
surgiram nessa altura, desempenhando um grande papel na campanha santista:
Luiz de Matos, um nome ligado à vida da cidade, onde residiu talvez
30 anos, homem de espírito liberal, que prestou a esta campanha,
como à da República, serviços inestimáveis,
assistindo também instituições ou movimentos humanitários,
o progresso, a literatura, a arte e a ciência locais, colaborando
ativamente na Cidade de Santos e no Diário de Santos(N.E.:
não confundir com jornais homônimos surgidos durante o século
XX e também extintos) ao lado de Artur
Bastos, Vicente de Carvalho, Leo D'Afonseca, Júlio Ribeiro, Silvério
Fontes, Alberto Souza, o dedicado Ferreira de Menezes e outros paladinos
do movimento.
O segundo era
José Teodoro dos Santos Pereira, vulgarmente alcunhado o Santos
Garrafão, por ser grande, grosso e ventrudo, em contraste com
o irmão, o Santos Alfaiate ou Santos Botija, conhecido
depois como tipo de rua e alcoólatra inveterado.
José
Teodoro, o Santos Garrafão, chegou a ser considerado a maior
figura popular da Abolição. Tomado de verdadeiro fervor pela
causa dos negros, desvelou-se em atenções e serviços
à gente do Jabaquara, fornecendo-lhe comida, roupas, medicamentos
e socorros de toda ordem, obtidos por ele das firmas comerciais e das famílias,
que amparavam a grande causa.
Santos Garrafão
afeiçoou-se grandemente a Quintino de Lacerda, admirando a bravura
do negro sergipano, levando essa admiração aos maiores sacrifícios,
demonstrados em trabalho ativo, em dinheiro e em tudo que se fazia mister
conseguir para os seus socorridos e comandados ingressados na cidadela
santista. Ele foi, sem dúvida, o grande personificador da alma popular,
personificação magnífica daquele proletariado integrado
na santidade da causa redentora, que se privava do alimento e do conforto,
tantas vezes, para socorrer os escravos recolhidos à "Terra Prometida",
à "Canaã", como diziam os poetas do movimento.
Tornaram-se
célebres os seus bilhetes, enviados aos abolicionistas financiadores
da campanha, para obtenção de recursos urgentes, e que começavam
quase sempre com estas palavras: "- Amigo
fulano. Tenho tantos rolos de fumo para seguir etc.".
Esses rolos
de fumo eram os negros arrancados aos potentados, recém-chegados
a Santos - os quais, pela importância dos respectivos senhores, convinha
que fossem remetidos para outras províncias ou mesmo para o exterior,
a fim de escaparem definitivamente à procura dos donos. Nestas
ocasiões, funcionava sempre, em articulação com o
português Geraldo Leite da Fonseca, ligado a uma companhia de navegação,
que recebia os escravos em seus vapores, em falso engajamento ou em viagem
clandestina para fora do País.
Santos Garrafão
vivia maritalmente com uma preta, a Brandina, figura extremamente popular,
afamada cozinheira, que possuía uma pensão na rua Setentrional,
e que foi uma verdadeira mãe para os seus irmãos de cor,
assistindo-os em todas as necessidades, secundando eficientemente o grande
trabalho do português.
Esse homem,
a quem por certo ainda se devem as homenagens oficiais que até hoje
não lhe foram prestadas, era quem punha em movimento os médicos
da cidade, para visitas e consultas, receitas e custeio de aviamentos em
farmácias, em favor dos escravos e dos recolhidos ao Jabaquara.
A Santa Casa, então, vivia cheia dos fregueses gratuitos, que o
Santos
Garrafão levava, nos casos mais simples ou nos de mais urgência,
e ainda com recomendações do provedor, que não era
outro senão aquele benemérito João Octávio
dos Santos, um dos iniciadores e um dos grandes financiadores do movimento
abolicionista, que, providencialmente, dirigiu o Hospital e a Irmandade
durante 14 anos, de 1882 a 1896.
Por tudo isso,
pela existência desses homens e do Jabaquara e pela quase unanimidade
abolicionista da sociedade santista àquela altura, já não
se viam mais nos jornais aqueles anúncios e noticias de anos atrás,
publicados pela Revista Commercial, comunicando fugas de escravos
e prometendo gratificações a quem os entregasse de volta,
oferecendo negras paridas para amas-de-leite, a tantos mil réis
por dia de aluguel, ou negros sadios para qualquer serviço, a 400,
500, 600 mil réis e até mais, como animais à venda.
Dos abolicionistas
de São Paulo, recebia Santos Pereira, muito amiúde, telegramas
aparentemente ininteligíveis e cartas disfarçadas, onde lhe
comunicavam a descida de algum escravo ou de alguma leva numerosa
para Santos, partindo quase sempre dele a comunicação aos
chefes do movimento, para as necessárias providências quanto
a recursos, quanto às canoas de prontidão, no Casqueiro ou
em Cubatão, ou ainda quanto à movimentação
da tropa de choque de Quintino de Lacerda.
[...]
Notas:
[36]
A chácara de Geraldo Leite, assim chamada, era propriedade de Maneco
Forjaz, seu parente, e nela havia várias negras velhas, ali custodiadas
pelo grande abolicionista. Além dessa chácara, possuía
Geraldo Leite o Sítio do Icanhema, na Ilha de Santo Amaro, ao lado
e nas cabeceiras do riozinho Icanhema, onde ocultava também diversos
escravos fugidos e os sustentava.
[37]
Os amigos tratavam os dois irmãos, com intimidade, por Totó
e Nhô Quim; Antônio tornou-se na República o
notável senador Lacerda Franco.
[38]Quilombo
como vocábulo tinha sua origem numa voz africana:
Quilombo
ou Kilumbu, de origem árabe-hebraica, que queria dizer: "Lugar
de gente sempre alerta, ou de prontidão", isto é, perseguida,
buscada, ameaçada, e por isso mesmo sempre em defesa. Era uma reprodução
dos "Lombos cingidos" do Oriente, que se deitavam vestidos para
melhor atender ao primeiro sinal de alerta. O elemento hebraico Ki
significa "quem".
O grande Quilombo
de Santos, formado pela altura de 1780, era situado na serra que ficou
com esse nome, ao fim da várzea de Cabraiaquara, onde corria o rio
de Cabraiaquara, desde então também chamado "rio do Quilombo".
Esse grande Quilombo abrangia os grandes morros Cabeça
do Negro e Jaguareguava, cuja entrada era pela Bertioga, pelo
rio Itapanhaú, razão por que a sua história se acha
incluída na própria história daquele distrito e subprefeitura
de Santos (N.E. que no final do século
XX se tornou cidade autônoma).
Seu último
chefe, após as destruições e chacinas sofridas em
1835, 1836, 1837 e 1838, foi "Pai Felipe", o rei negro, trazido
para o Jabaquara logo em 1882, e mantido em lugar de honra fora da alçada
de Quintino de Lacerda.
[39]
"São Paulo e a sua evolução" - pág.
34 - Conferência pelo dr. Alexandre Marcondes Filho.
[40]
Palavras de Antônio Bento a alguns chefes abolicionistas de Santos
que depuseram a respeito.
[41]
Castan, em "Cenas da Abolição" - 1921.
[42]
Dele só ficou o prenome. Era o Sargento Fiúza, que abandonara
o exército espontaneamente, e depois ingressara na polícia.
[43]
Carlos Victorino - "Reminiscências", págs. 64 a 67.
[44]
Como se vê, Carlos Victorino destacava um quilombo de Vila Matias,
sob o comando de Pai Felipe, e outro do Jabaquara, às ordens de
Quintino de Lacerda, o que não é perfeito. Já explicamos,
linhas atrás, por que razão Pai Felipe vivia em lugar separado,
eximido da direção e comando geral de Quintino de Lacerda.
Era africano e fora rei.
[45]
Não só nas fazendas de café sofriam os cativos. Sofriam
mais, talvez, nos sítios diversos, de menores recursos, nos engenhos
de açúcar e aguardente, nas lavras, nos armazéns e
trapiches e nos ambientes domésticos em que eles eram para tudo,
no interior e no litoral. |