A vida
do padre José de Anchieta serviu de tema para o painel, feito com
azulejos e tintas importados de Portugal Foto: Sílvio
Luiz, publicada com a matéria
CINQUENTENÁRIO Painel de
50 anos decora a Biquinha
Ele foi
pintado por Waldemar Sendin
Da Reportagem/Leitor
Repórter
Um
dos mais significativos trabalhos em azulejo da região está
completando 50 anos: é o painel da Biquinha, em São Vicente,
que retrata o Padre Anchieta catequizando os índios brasileiros.
O belo exemplar da arte em cerâmica é do artista Waldemar
Moral Sendin, que contou com a colaboração do irmão,
Armando Sendim, e da irmã Estrela.
Um dos pioneiros
desse tipo de arte no Brasil, Waldemar Moral Sendin faleceu há oito
anos; Armando Sendin, aos 72, tem seu ateliê e mora na Espanha.
Estrela, com
74, reside em Santos. Ela conta que o painel foi feito a pedido do prefeito
de São Vicente na época, Polidoro Bitencourt. "Ele foi visitar
uma exposição de Waldemar, no Parque
Balneário, e ficou maravilhado com o seu talento", conta.
Antes do painel
de Anchieta, havia na Biquinha uma obra em terracota,
do artista Domingos Savorelli. "Eu não me lembro quanto a prefeitura
pagou ao meu irmão, mas acho que foi algo em torno de mil cruzeiros.
Eu e o Armando posamos como modelos, para que o Waldemar tivesse uma idéia
de como posicionaria o padre Anchieta e os índios", revela.
O trabalho
foi realizado em um mês, já que a técnica não
é das mais fáceis. E, como no Brasil ainda não havia
tintas especiais, Waldemar mandou-as vir de Portugal, assim como os azulejos.
"Ele usou o policromado em sépia, uma cor muito bela, que ainda
não existia por aqui".
A qualidade
do serviço pode ser vista até hoje, pois não se deteriorou
com a ação do tempo. Durante o período das chuvas,
em janeiro, uma parte da Biquinha quase foi destruída, mas nada
aconteceu ao painel do Padre Anchieta.
"É uma
obra de arte importante, não só porque a Biquinha é
conhecida mundialmente, mas também devido à importância
histórica de São Vicente. Ao longo dos anos, ela vem sendo
retratada em cartões postais enviados aos mais diferentes países",
analisa Estrela.
O artista
- Waldemar Moral começou logo cedo nas artes, herdando do pai o
gosto pelas tintas. A família foi morar em Porto Alegre, o que incomodou
o jovem. Ele dizia que lá não havia ninguém que pudesse
ensiná-lo mais do que já sabia. Cedendo aos apelos do filho,
o pai trouxe a família para Santos, para que Waldemar pudesse estudar
em São Paulo. Ele se formou em Arquitetura pela Faculdade de Belas
Artes.
Logo pegou
gosto pelo trabalho com cerâmica, sendo um dos primeiros no Brasil
a dominar a técnica. Armando Moral Sendin também foi infestado
pelo vírus da arte, mas preferiu a pintura de quadros, embora tivesse
se formado em Filosofia e Letras e se pós-graduado na Sorbone.
"Fui a única
que não seguiu a trilha. Eu organizava o ateliê, em São
Paulo, pois eles eram muito descuidados. Me dou melhor com a agulha e a
linha", justifica Estrela.
A técnica
- A arte da cerâmica, dizem os entendidos, nasceu no Oriente, há
vários séculos, e os árabes foram um dos seus cultuadores.
Mais tarde, chegou à Europa, notadamente em Portugal, Espanha e
França. Foram os colonizadores portugueses que a trouxeram para
o Brasil. Era comum decorar a fachada dos imóveis com azulejos.
O nome vem do fato de a maioria das peças, na época, ser
azul.
A técnica
utilizada por Waldemar seguia todo um processo. Primeiro ele fazia um croqui,
em papel, do que iria desenhar. Os azulejos eram colocados em uma prancheta
de madeira e, com o lápis, ele esboçava o desenho. O passo
seguinte era a pintura com uma tinta especial de cerâmica sem esmalte.
Os azulejos, numerados, eram colocados no forno à temperatura de
750 graus. Depois era só montar a imagem na seqüência
da numeração. O cozimento dá brilho à pintura
e a torna indelével.
Joseph
Anchieta foi reitor do Colégio de São Vicente, evangelizador
da Capitania de Martim Afonso, dramaturgo e herói, informa a placa
que fica ao lado do painel da Biquinha. |