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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - Raul Soares - DL
O navio-prisão (5-B)

Clique na imagem para voltar ao índice desta sérieUma das páginas negras da história santista

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Série de matérias publicadas no jornal santista Diário do Litoral, relembrando a história do navio-prisão e provocando para que o tema seja debatido na Comissão da Verdade instituída neste ano para a apuração dos fatos relativos ao regime militar implantado no Brasil a partir de 1964. Esta matéria foi publicada na edição de segunda-feira, 22 de outubro de 2012, páginas 8 e 9:

Imagem: reprodução das páginas com a matéria

NAVIO-PRISÃO: DEMOCRACIA À DERIVA
Médico diz que, infelizmente, a Comissão da Verdade chegou muito tarde ao Brasil

Perseguido e preso pela ditadura militar, médico Thomas Maack teve que fugir do País e buscar exílio nos Estados Unidos. Nessa segunda parte da reportagem, ele conta o seu drama e de sua família com a prisão no navio Raul Soares, a fuga do Brasil e o exílio em Nova Iorque

Repórter: Francisco Aloise

Nova Iorque, Estados Unidos, 13h06 de 25 de setembro de 2012. Santos, Brasil, 14h06. Pela tela do computador nos deparamos com um senhor de 77 anos, que se emociona ao falar dos episódios de sua prisão, de seu confinamento no navio-prisão Raul Soares, dos sonhos interrompidos, da vida quase destruída, dos sindicalistas que atendeu e das vidas que ajudou a salvar. A voz, entretanto, é firme.

A primeira pergunta que respondeu foi sobre a Comissão da Verdade, recentemente criada pelo Governo Federal, para apurar crimes de torturas e violências contra presos durante a ditadura militar. "Infelizmente, para muitos presos, a Comissão da Verdade veio muito tarde. Tarde demais para os que morreram sabendo que foram vítimas da ditadura militar e não viram essa verdade ser apurada, mas temos que admitir, antes tarde do que nunca".

Ao ser indagado se havia se recuperado do golpe sofrido há 48 anos, o cientista foi enfático: "Fiquei destruído. Eu e minha família, mas consegui refazer a vida, só que longe do Brasil. Para operários do porto era mais fácil refazer a vida, recomeçar do zero, pelas oportunidades que eram mais favoráveis do que para um jovem médico que se especializou em pesquisas. Em Nova Iorque tive que, primeiro, me adaptar, para depois ir evoluindo graças ao meu trabalho, à minha capacidade e também à sorte, pois com menos de 40 anos de idade já era professor universitário titular em Medicina".

Ele diz que fica ofendido quando alguns colegas, talvez por inveja de seu sucesso, perguntam se ele teria o mesmo sucesso se tivesse ficado no Brasil, ou seja, se não tivesse se exilado em Nova Iorque, considerada a Capital do Mundo. "Fico ofendido, pois vários colegas brasileiros são conhecidos no mundo todo. Ninguém pergunta: Você trocaria quatro meses no navio-prisão para permanecer no Brasil e tentar sucesso aqui? A comparação que fazem com os Estados Unidos é uma desculpa pobre para quem não acredita na minha capacidade em evoluir caso permanecesse no Brasil, mas quando deixei o País, apesar de jovem, já fazia sucesso com pesquisa médica".

Um sonho: ser brasileiro – De nacionalidade alemã, o médico diz que saiu do País aos 29 anos de idade, deixando sonhos e projetos e uma vontade grande de obter a nacionalidade brasileira, sonho que ainda acalenta, mas que acha difícil de se concretizar, por estar radicado e morando nos Estados Unidos, mas não impossível. "Se o Governo quiser, será um grande prazer. Basta refazer meu processo de naturalização", diz Maack, que hoje é um cidadão americano naturalizado e um dos maiores nomes da Medicina mundial em pesquisas.

Entretanto, diz se considerar brasileiro e um autêntico paulistano, mas de coração corintiano, time do qual é torcedor desde sua infância na Capital Paulista. "Me considero um típico cidadão de São Paulo, pois apesar de ter nascido na Alemanha, vim para o Brasil com 1 ano de idade, pois meus pais emigraram para o Brasil em 1936, fugindo do regime nazista. Tanto que nem sei falar alemão. Portanto, toda minha infância, adolescência, juventude e parte da vida adulta foram vividas em São Paulo, onde também me casei com a brasileira Isa e onde nasceu minha primeira filha, Maísa", justifica.

E prossegue: "Foi na Capital Paulista que estudei, cursei a Faculdade de Medicina, me formei e iniciei minha carreira em Ciência. Posso dizer que moro em Nova Iorque, me refugiei nos Estados Unidos, mas meu coração permaneceu em São Paulo".

O início – Em abril deste ano, ao fazer a reportagem lembrando os 48 anos da chegada do Raul Soares ao Porto de Santos, o DL tentou localizar o médico. Foram feitas pesquisas e, para nossa surpresa, ficou constatado que ele havia estado há pouco tempo no Brasil, mais precisamente na Universidade de Campinas (Unicamp), ministrando cursos.

A editoria Sindical e Previdência Social do DL entrou em contato com a Unicamp, tentando obter uma entrevista com o médico. Mas, ele já havia retornado aos Estados Unidos. Deixamos nosso e-mail e dias depois, ao saber que tratava-se de um jornal de Santos, o médico pediu que a universidade entrasse em contato com a redação, autorizando o fornecimento de seu e-mail para a realização da entrevista.

No primeiro contato, em abril, Thomas Maack disse que havia lido as reportagens sobre o navio-prisão publicadas pelo Diário do Litoral no dia 24 daquele mês, e fez elogios à iniciativa do jornal. "É importante sempre lembrar esse lado triste da história para que fatos como esse sejam conhecidos por novas gerações e para que a história não seja esquecida e muito menos repetida". E mencionou: "É um dever para mim ajudar a lembrar os eventos da repressão de 1964, como uma lição para que a ditadura não se repita".

Marcamos um horário para uma entrevista pelo Skype. Acertamos a data e a partir de então foram vários contatos que resultaram nessa reportagem e numa homenagem que lhe será prestada durante sessão na Câmara de Santos, por iniciativa do vereador Marcus De Rosis (PMDB).


Thomas Maack, na tela do computador, em entrevista ao Diário do Litoral
Foto publicada com a matéria

Expulso do País – "Quando saí do Brasil, em dezembro de 1964, e me exilei nos Estados Unidos, achei que voltaria em breve para obter a cidadania brasileira e retomar minha vida interrompida pela prisão, mas o regime militar durou longos 21 anos, sem contar que fui expulso do País por decreto do Governo Militar".

Assim que o processo de expulsão do País foi revogado em fins de 1978, voltei ao Brasil, principalmente para visitar os meus pais, já agora envelhecidos e doentes. Com a anistia, em 1979, tentei a volta definitiva ao país, obtendo uma licença-prêmio da Cornell para trabalhar um ano na Divisão de Nefrologia da Escola Paulista de Medicina a convite do seu chefe de disciplina, o saudoso professor Oswaldo Luiz Ramos.

"Eu havia treinado diversos professores dessa Divisão em meu laboratório na Cornell nos EUA. Na Divisão de Nefrologia fiz pesquisa e treinei cientistas-médicos. Na ocasião também recebi o grau de Doutor em Nefrologia pela Escola Paulista de Medicina em 1980".

De alguns anos para cá, ele afirma que tem vindo com mais frequência ao Brasil para compromissos profissionais.

Prisão foi no prédio da USP – Em 1964, o País vivia tempos turbulentos da Ditadura Militar. Quem se opunha ao Governo e ao Regime era preso. Bastava uma desconfiança para que agentes do extinto Departamento de Ordem Pública e Social (Dops) recebessem incumbências militares para efetuar prisões.

No dia 8 de junho daquele ano, esses agentes, acompanhados por militares à paisana, invadiram o prédio da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), para prender o médico sob acusação de subversão. "Eu estava em meu laboratório quando isso ocorreu, pois era auxiliar de ensino no Departamento de Fisiologia", conta o médico, que por alguns instantes não consegue esconder a emoção da lembrança, e isto é visível mesmo através da tela do computador.

Ele informa que teve intensa atividade política e estudantil. Como universitário, ajudou a fundar a União Nacional dos Estudantes em Medicina (Unem). "A minha atividade política, como a de muitos da minha geração, era dirigida para a emancipação econômica do País e pela luta contra injustiças econômicas e sociais em geral".

O médico diz que como estudante e docente participou ativamente na luta pela autonomia universitária, substituição do serviço militar obrigatório por atividade médica compulsória em regiões carentes de médicos no Brasil e abolição do trote de calouros para protegê-los contra humilhações e violências praticadas por veteranos.

 

"É importante sempre lembrar esse lado triste da história para que fatos como esse sejam conhecidos por novas gerações e para que a história não seja esquecida e muito menos repetida"

 

Levado ao navio-prisão, foi trancafiado numa cela inundada

O médico relata ao DL como foi sua chegada ao navio-prisão e as constantes ameaças que recebia. "Após alguns dias preso, o coronel Alvim decidiu quebrar o meu silêncio, mandando-me para o navio-prisão Raul Soares, ancorado no Porto de Santos. Essa decisão não foi comunicada à minha família, que ficou por algumas semanas incerta de onde estava. O coronel Alvim deu ordens estritas de manter a minha incomunicabilidade até poucos dias antes da desativação do Raul Soares, em fins de outubro. Não podia sequer receber as visitas de minha esposa Isa e de minha filha Maísa. Os interrogatórios continuavam no navio com uma frequência algo menor do que em Quitaúna, mas as ameaças de prender a minha esposa continuavam a ser parte constante desses interrogatórios.

"No Raul Soares, fiquei isolado dos outros prisioneiros numa cabine individual, sendo também proibido de me comunicar com outros presos quando no convés do navio. A intenção foi a de me punir com isolamento absoluto, com o objetivo de quebrar o meu silêncio. Quando cheguei ao navio, fui colocado numa cela inundada. A água não permitia que dormisse na parte de baixo do beliche, só na parte de cima. Fiquei, a princípio, assustado com aquele ambiente.

"O meu isolamento teve que ser quebrado porque o navio não tinha um único médico e contava com dezenas de prisioneiros políticos, muitos deles idosos e doentes e abrigados em péssimas condições no porão do navio. Eu era constantemente chamado para tratar emergências (febres altas, tuberculose ativa, desidratação, distúrbios gastrointestinais, tentativa de suicídio, quadros psicóticos agudos, convulsão epiléptica, foram algumas das emergências que atendi). Assim, como 'médico do navio', consegui quebrar o meu isolamento e me comunicava com os outros prisioneiros.

"Também tratei de guardas da polícia marítima de Santos, fuzileiros navais que guardavam prisioneiros e mesmo oficiais da Marinha que comandavam o navio-prisão.

"Devo dizer, todavia, que as condições para atendimento de doentes eram tão precárias no navio, que quase nada podia fazer. Isso, aliado, a bem da verdade, à minha relativa inexperiência, já que eu tinha me formado somente 2,5 anos antes de ser preso e desde a minha formatura eu tinha me dedicado mais à pesquisa e vida acadêmica do que à prática médica.

"Quando o caso era grave ou o prisioneiro era muito idoso, eu ameaçava o comandante do navio que se ele não transferisse o doente para um hospital em Santos, eu não podia mais me responsabilizar. Assim, consegui, de acordo com o coletivo de prisioneiros do navio, retirar do navio alguns prisioneiros idosos e doentes. Isso pode ter salvo algumas vidas, do que me orgulho".

Fuga para Nova Iorque – Com a desativação do navio-prisão, em 23 de outubro de 1964, Thomas Maack foi levado para a Cadeia do Palácio da Polícia, no Centro de Santos. O médico conta: "Todavia, a minha prisão não terminou. Fui transferido, juntamente com outros prisioneiros, para a cadeia do Palácio da Polícia em Santos. Éramos 8 prisioneiros numa cela de uns poucos metros quadrados com latrina aberta e condições péssimas de higiene e alimentação. Os interrogatórios cessaram completamente e eu podia receber visitas semanais da esposa e mesmo de colegas de trabalho. Fui libertado por força de um habeas-corpus do Supremo Tribunal Federal no dia 15 de dezembro de 1964, após cerca de 7 meses de prisão. A minha foi a prisão política mais prolongada de um docente universitário em São Paulo em 1964".

Expulsão do Brasil e o exílio – Dr. Thomas Maack relembra seus últimos dias no Brasil antes da fuga e exílio nos Estados Unidos. "Aparentemente, os militares não se inteiraram imediatamente de que eu tinha sido libertado. Assim que o fizeram, decretaram nova prisão preventiva. Não houve alternativa, a não ser se esconder e depois sair do País com a esposa e a filha. Minha liberdade e carreira profissional, assim como as da minha esposa, talvez mesmo as nossas vidas, estariam seriamente ameaçadas se nós tivéssemos ficado no Brasil, o que foi confirmado pelas repetidas ordens de prisão preventiva e os diversos IPM (N. E.: Inquérito Policial-Militar) e processos instaurados em diversas instâncias militares.

"Apesar de todas as alegações contidas nos IPM, e a minha longa prisão, em grande parte em isolamento e em condições degradantes, fui absolvido em todos os julgamentos resultantes desses IPM na 2ª Auditoria de Guerra e no Superior Tribunal Militar. Finalmente, o que impossibilitou de todo minha volta ao País, antes da anistia de 1979, mesmo em caráter temporário, foi o inquérito instaurado para minha expulsão do Brasil, quando eu já estava há muito tempo nos Estados Unidos".

E conclui: "Fugi para São Paulo, onde fiquei refugiado na casa de um amigo, e de lá iniciei fuga para o exílio. Minha intenção era me exilar no Canadá, porém o destino não quis dessa forma e, fugindo com minha família, de São Paulo para Curitiba e de lá via Paraguai para o Canadá, por um fato inexplicável, acabei nos Estados Unidos. Ainda guardo até hoje a minha passagem aérea para Montreal (Canadá), que é para onde eu deveria ter ido com minha família".


Raul Soares, o navio da repressão e as histórias de torturas a presos políticos e sindicalistas
Foto publicada com a matéria

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