 Igreja
e convento de Santo Antonio do Valongo antes da construção
da estrada de ferro e do desaparecimento do Ribeirão de São
Bento, em tela do pintor Benedito Calixto.
O tradicional
santuário do Valongo
J. Muniz
Jr. (*) Colaborador
"É
notável o desamor dos brasileiros pelos monumentos e tradições
de sua história. Nada se faz para preservá-los e conservá-los.
Ao contrário, como que há o propósito de desnaturá-los,
consumi-los e destruí-los". (Dr. Cyro Carneiro).
Já se
disse que os monumentos não representam somente as estátuas
ou marcos, mas tudo aquilo que possa representar o retrato de uma cidade:
os chafarizes, pontes, parques, palácios, fortificações,
mausoléus, igrejas, conjuntos arquitetônicos e/ou paisagísticos,
rochedos, ilhas e até árvores. Inclusive, os bens públicos
ou particulares vinculados a pessoas de importância histórica
ou artística, bem como os fatos marcantes da história de
uma cidade ou país.
Em Santos -
cidade quatro vezes centenária - ainda existem monumentos e redutos
históricos, como os restos do Outeiro de Santa
Catarina, as ruínas do Engenho dos Erasmos,
a Casa do Trem Bélico, o antigo Mosteiro
de São Bento (Museu de Arte Sacra), a Igreja
do Carmo e a Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat.
Embora alguns desses monumentos tenham merecido atenção das
autoridades ao longo dos anos, infelizmente outros permaneceram em completo
abandono, como a tradicional bica do Itororó,
que continua esquecida e mutilada, bem ali na subida do monte.
Releva notar
que, de uns tempos para cá, um outro relicário do passado
vem atravessando momentos difíceis devido ao tráfego pesado
nas suas imediações, abalando suas estruturas, e que poderá
desmoronar num futuro bem próximo, a exemplo do que já ocorreu
com outros antigos edifícios que desapareceram na poeira do tempo.
Trata-se do secular Santuário de Santo Antonio do Valongo, que se
destaca pela beleza de suas linhas arquitetônicas e que merece ser
preservado pela sua tradição histórica.
Altar
principal do Santuário do Valongo, com a imagem que os trabalhadores
da estrada de ferro não conseguiram remover em 1867 Foto: Prefeitura
Municipal de Santos/Decom
Tudo começou
em 1638, quando o custódio e prelado-maior de todos os conventos,
Frei Manuel de Santa Maria, recebeu uma representação da
Câmara e da população de Santos, pedindo a instalação
de um convento de sua Ordem na Vila. Interessado no assunto, o prelado-mor
desembarcou no porto local em janeiro de 1639, oriundo do Rio de Janeiro,
para ver pessoalmente os sítios indicados para erguer o convento
- escolhendo, então, parte das terras que se estendiam do Morro
do Desterro (atual São Bento) até o ancoradouro de canoas
(antigo Porto do Bispo), cedidas pelos seus proprietários,
Gonçalo e Fellipa Pereira.
Naqueles tempos,
o Valongo era um núcleo habitado pelas famílias mais abastadas
da Vila de Santos, que logo pôde contar com a importante moradia,
já que a primeira licença da autoridade monarquista foi outorgada
pelo capitão-geral do Estado do Brasil, general D. Fernando Mascarenhas
(Conde da Torre), em 6 de agosto daquele ano. Quanto à licença
eclesiástica, assinada pelo governador do Bispado, Pedro Homem Albernaz,
foi concedida a 17 de janeiro de 1640. Também foi eleito o superior,
Frei Pedro de São Paulo, bem como indicados os primeiros religiosos,
que desembarcaram em Santos naquele mesmo mês.
Logo foi levantada
uma moradia provisória no local escolhido, verificando-se, em julho
de 1641, o lançamento da pedra fundamental da Casa de Santo Antônio
da Vila de Santos, com celebração de missa solene num altar
improvisado.
Ainda com o
apoio da população da vila, foram iniciadas as obras do convento
definitivo e da igreja, obedecendo ao estilo em voga na época, com
o frontispício semelhante ao primitivo do Convento de Santo Antônio
do Rio de Janeiro, com alpendre e três janelas na parte superior,
além de frontão de puro barroco com linhas curvas e torre
lateral, inaugurada com missa solene celebrada em março de 1691.
O tempo passou
e, em 1829, o governo da Província pretendia abrir o caminho de
terra (estrada de barro) entre Cubatão da Serra e a Vila de Santos,
com terminal defronte do convento. Como a estrada devia atravessar parte
das terras do convento para chegar ao antigo Largo de Santo Antônio,
foi necessário ceder o terreno "para bem público". A partir
de 1834, o edifício também foi requisitado para a instalação
de um hospital.
Devido ainda
à precária situação do imóvel, os religiosos
também tiveram que vender parte do terreno que dava para a Rua dos
Cortumes (atual São Bento). E, em 1859, além das péssimas
condições do convento, havia a intenção de
se fazer outro terminal em sua área, uma vez que o "caminho de ferro"
entre o Planalto Paulista e o Litoral estava em pauta para ser executado.
Era o progresso que chegava.
Naquela época,
o astuto banqueiro e empresário Irineu Evangelista de Souza, que
havia inaugurado a primeira estrada de ferro do Brasil, estava empenhado
na construção de uma linha de ferro ligando o porto ao Interior
paulista (Santos a Jundiaí). O barão, que mantinha uma agência
do Banco Mauá na Cidade, buscou um acordo amigável, porém
sua proposta não foi aceita, resultando numa ação
judicial e num reajuste final entre as partes envolvidas, obrigando a Ordem
Terceira da Penitência a largar os direitos de propriedade sobre
o convento (lado do mar), em 1861. E, com a inauguração da
estrada de ferro a 8 de setembro de 1867, surgiu a estação
de trens no lugar do antigo convento.
Todavia, antes
da concretização do acordo, dizem que a empresa encarregada
da construção da ferrovia chegou a invadir a igreja, conforme
relato de João Luiz Promessa: "Quando estavam tentando retirar a
imagem de Santo Antônio do altar-mor, notavam os operários
que não havia força humana que o conseguisse e, depois de
tantos esforços, terminaram desistindo..."
"Esta notícia
correu logo pela Cidade e não demorou muito em rebentar um levante
do povo. Aglomerando-se muita gente no lugar do fenômeno, todos protestaram
em altos brados contra a pretensão do pessoal da Estrada, chegando
mesmo a haver um grande conflito". E que: "...o povo saiu vencedor em toda
a linha, tendo ficado no lugar a imagem de Santo Antônio e não
mais os operários da Estrada tocaram na igreja".
Atualmente,
o vetusto templo vem lutando contra um sério problema, que poderá
resultar em conseqüências desastrosas, por isso todos devem
cerrar fileiras ao lado do frei Rozântimo na campanha de preservaçãodo
secular monumento histórico da Cidade".
Imagem
de São Francisco, no pátio fronteiro à igreja do Valongo Foto: Carlos
Pimentel Mendes, 11/7/2000
Bibliografia:
Duclos,
Aadil J. - São Paulo e a sua Estrada de Ferro; revista Ferrovia,
São Paulo, janeiro de 1954.
Muniz
Jr., J. - Na Igreja do Valongo, Séculos de História,
jornal Cidade de Santos, 5/9/1982.
Promessa,
João Luiz - Reminiscências de Santos, 1930.
Röwer,
Basílio (Frei OFM) - O Convento de Sto. Antônio do Valongo,
Nicolini Gráfica, São Paulo, 1955.
Silva
Sobrinho, José da Costa e - Tricentenário da Fundação
do Convento do Valongo, jornal A Tribuna, 12/6/1940.
(*)
J. Muniz Jr. é jornalista, pesquisador de História e escritor. |