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Francisco Martins dos Santos
A ferrovia não matou
instantaneamente o Caminho do Mar; matou, isso sim, o serviço de diligências, que o cidadão Alexandre José de Mello explorava,
levando-o à falência [1].
Como observou Almeida Nogueira, os fazendeiros e tropeiros, não podendo desfazer-se, de um
momento para outro, de suas tropas cargueiras - que representavam capitais consideráveis -, continuaram com seus serviços de
transporte de mercadorias, a preços muito baixos, fazendo, nos primeiros anos, bastante concorrência à Estrada de Ferro
Inglesa.

Cubatão em 1826
Imagem: tela pintada em 1922 por
Benedito Calixto de Jesus
E ainda em 1870 o presidente da Província, Antônio Cândido da Rocha, afirmava que o Caminho
do Mar não devia ser abandonado, apesar da existência da via férrea, não só porque representava um grande capital, como porque
também podia servir nos casos, então freqüentes, de acidentes no tráfego ferroviário.
A verdade, porém, é que o Caminho - como não podia deixar de ser, em face das condições do
transporte e da economia de tempo - foi sendo abandonado e esquecido. Em 1887, segundo o Relatório da Comissão de
Estatística, "não figurava mais entre as estradas provinciais, aparecendo, aí, apenas entre as de segunda classe: a
estrada de São Paulo a São Bernardo, na extensão de vinte e cinco quilômetros". Era uma tradição que se apagava, apenas vinte
anos após a inauguração da estrada de ferro.
Até a povoação de São Bernardo - outrora ponto de parada de negociantes, tropeiros e
carreiros - perdeu toda a sua animação comercial, o mesmo acontecendo com o arrabalde do Lavapés, em S. Paulo - passagem do
Caminho que vinha do litoral, e outrora próspero - que sofreu o impacto da via férrea. O seu movimento de viajantes e
cargueiros, a atividade das suas vendas e dos seus potreiros, que o viajante Junius, autor de Notas de Viagem, pôde
constatar em meados do século, já não mais existia em 1882, quando ele voltou a rever a cidade de S. Paulo, parecendo então
uma tapera abandonada.
Em alguns outros trechos do planalto ou da baixada - de conservação mais fácil ou de ruína
mais demorada - continuou o velho Caminho do Mar servindo, episodicamente, a alguns tropeiros e moradores humildes. Na serra é
que ele sofreu a maior decadência, desmantelando-se e arruinando-se ao impacto das enxurradas e temporais, destruído aqui e
ali pela queda das barreiras, de taludes, de grandes troncos e grandes rochas desprendidas da montanha e finalmente pela
invasão do mato bravo e da tiririca, consumido pela "Lima do tempo", como diria Pedro Taques.

Após descerem a Serra, as tropas
de burros paravam na Vila de Cubatão
Um dos pontos que mais sofreria com a decadência e o abandono do Caminho do
Mar seria Cubatão, onde como primeira conseqüência deixaria de existir a Barreira Fiscal com o seu "Rancho Grande" dos
tropeiros, e assim quase todos aqueles sítios e pequenas fazendas, que negociavam seus produtos (bananas, tangerinas, canas,
pinga e rapadura) com as tropas de passagem, para Santos ou para o planalto; toda aquela vida enfim, daquele ponto em que se
fizera a nova povoação em 1841, que se foi transferindo para junto da Estação da Estrada de Ferro, como uma sombra do que fora
[2].
NOTAS DO AUTOR:
[1] A Revista Comercial, de 10/7/1866, publicava o primeiro Edital da Justiça, contendo a
petição de Alexandre José de Mello. Ei-lo em parte:
| João Baptista da Silva Bueno, juiz comercial suplente n'esta cidade de
Santos etc. ... Faço saber aos que este edital virem que, por
parte de Alexandre José de Mello, negociante não matriculado, me foi apresentada a petição do teor seguinte: - Ilmo.
Sr. Juiz Comercial - Diz Alexandre José de Mello, residente à rua Áurea nº 18, desta cidade, com negócio de diligências e
animais de condução para o interior da província, e algumas especulações de compra e venda de gêneros, que, tendo-se
completamente paralisado o serviço das conduções desde que em fevereiro do corrente ano começou a funcionar a Estrada de
Ferro, e isto quando infelizmente acabava o suplicante de empatar capitais com a compra de alguns animais e diligências,
bem depressa achou-se em estado de não poder de pronto satisfazer seus débitos, principalmente depois que foi acionado por
um de seus credores, o capitão Gregócio Innocencio de Freitas, que com o aparato de uma penosa execução muito tem
prejudicado o crédito do suplicante. Verdade seja que procurou este todos os meios de solver seu débito, mas tais foram os
embaraços e escassez de recursos com que luta esta praça há tempos para cá, que baldados foram todos os seus esforços.
Ora, não convindo de modo algum ao suplicante prejudicar a seus credores e sendo ele verdadeiro negociante à face do
disposto no título décimo do Código Comercial, art. 20, parágrafo 3º do Regulam. n. 737 de 25/11/1850, e assentos do
Tribunal do Comércio da Corte, para acautelar o prejuízo dos mesmos credores e demonstrar boa-fé, vem o suplicante
apresentar-se neste juízo e pedir a V.S. se digne declarar aberta a sua falência etc. ... |
Seguia-se o despacho do juiz, decretando a falência do requerente a
contar do dia 4 daquele mês e ano, e convocando os credores, para o dia 13, às 10 horas da manhã. Assinava o escrivão Joaquim
Fernandes Pacheco, e em seguida o juiz João Baptista da Silva Bueno.
Não apenas Alexandre José de Mello sofrera o mal da Estrada de Ferro,
o italiano Luiz Massoja, que também explorava o serviço de diligências para S. Paulo, como extensão das linhas que explorava
para a Praia da Barra ("Diligências Guanabara") desde 23 de julho de 1864. Este não repetiu o caso do brasileiro, prejudicou
os seus acionistas e aos credores, fugindo para o Rio de Janeiro.
Outro prejudicado foi João Mariano de Campos Bagrinho, que explorava o
aluguel de animais para passeios locais e excursões a S. Paulo e interior. Só que este não faliu, e ainda continuou por algum
tempo com o seu negócio.
[2] O abandono do Cubatão antigo foi tão completo que toda a sua serra voltou a ser como há um
século, ponto de caçadas para a gente de Santos, ali para as bandas de Piaçagüera, passando pelo Perequê, antiga passagem do
Caminho do Mar, até atingir a Cova da Onça na Serra Velha, onde muito caçador criou fama.
Nós mesmos, que somos de 1903, ainda realizamos várias caçadas por
todo aquele costão da serra, para a esquerda (lado dos Areais) e para a direita, lado do Perequê e Piaçagüera, considerados
ainda grandes pontos de "macucos" e "jacutingas".
Com dezesseis anos de idade, nós vimos nascer, ali bem junto ao início
da rampa, a Fábrica de Papel (Companhia Santista de Papel, se bem nos lembramos), dirigida pelo engenheiro dr. Lindolfo de
Freitas, num lugar que outrora já fora bem povoado e plantado, e que não passava então de um bonito deserto, cheio de arvoredo
e de antigas fruteiras desnaturadas, muito longe da povoação, toda para além do rio e junto à Estação da Estrada de Ferro. |