 PRIMEIRO
HOTEL DE GUARUJÁ: A fotografia de Gaensly e Lindermam, recolhida
por Boris Kossoy, mostra o primeiro hotel, construído em madeira
com peças importadas dos Estados Unidos, em 1892, por Elias Fausto
Pacheco Jordão. Foi destruído por um incêndio, em fins
de 1897. Observar a linha do trem no primeiro plano e os chalés
ao fundo. O hotel dava ao local a aparência de cenário de
filme de faroeste. Do lado direito ficava o cassino. Fonte: Kossoy,
Boris: Álbum de Fotografias do Estado de São Paulo - 1892;
São Paulo, CBPO/Kosmos, 1984.
Um Grande
Hotel, um cassino, uma igreja, uma linha férrea e a estação.
Várias casas de madeira, construídas com pinho da Geórgia,
toda uma cidade importada dos Estados Unidos. Assim começou Guarujá,
há quase cem anos
O HOTEL
DE LA PLAGE - GUARUJÁ: Após o incêndio do primeiro
hotel, em seu lugar foi construído um outro, de alvenaria, bem mais
seguro mas com pouco encanto. O cassino, o jardim, a estação
e os chalés permaneceram com a mesma aparência. Cartão
postal - acervo da Biblioteca Nacional-RJ.
Guarujá
e Faroeste. Quem se lembra?
Por Nestor
Goulart Reis Filho (*)
O
Guarujá tem quase 100 anos e no começo tinha aparência
dos cenários de filmes de faroeste. Mas quem se lembra disso?
Talvez ainda
exista no centro de Guarujá alguma velha casa de madeira. Há
vinte ou trinta anos eram mais comuns. Foram construídas há
exatamente 98 anos (N.E.: portanto, em 1892). Eram parte de um plano de
urbanização, organizado pela Companhia Balneária da
Ilha de Santo Amaro. A empresa foi constituída pelo grupo econômico
ligado à firma Prado, Chaves e Cia., sob a liderança do conselheiro
Antonio Prado, de seu cunhado Elias Chaves, e seus parentes e amigos, quase
todos grandes produtores de café e empresários urbanos de
sucesso.
Em 1892, o
grupo decidiu organizar um conjunto turístico, no local onde hoje
se encontra o centro da cidade do Guarujá. Criaram a Companhia Balneária,
sob a presidência de Elias Fausto Pacheco Jordão, que era
o gerente da firma Prado, Chaves.
Elias Fausto
formou-se em Engenharia Civil nos Estados Unidos pela Universidade de Cornell,
em 1874. Trabalhou na Companhia Paulista de Estradas de Ferro e na Companhia
Ituana. Ao assumir a presidência da Companhia Balneária, elaborou
um plano que reproduzia, em grande parte, os projetos das cidades novas
norte-americanas das regiões pioneiras e, de modo especial, alguns
empreendimentos turísticos mais sofisticados, da região de
Rhode Island.
O plano do
empreendimento turístico do Guarujá incluía um grande
hotel, um loteamento, a construção de 46 casas residenciais
e a construção de uma linha férrea, que fazia a ligação
da vila com o canal do porto de Santos, em frente ao terminal da São
Paulo Railway.
Para obter
um resultado rápido no seu empreendimento e lhe conferir um aspecto
festivo, de arquitetura pouco formal, Pacheco Jordão importou todas
as construções dos Estados Unidos, para serem aqui montadas.
Eram edifícios construídos com peças de madeira, pinho
da Geórgia, com o estilo dos chalés que estava em uso, naquela
época.
Além
das 46 casas, havia o hotel, uma igreja, um cassino e uma pequena estação.
Eram ruas inteiras de construções importadas em pedaços
e montadas no local. De início, até mesmo os gradis de fecho
dos terrenos e os portões eram de madeira, com feição
estrangeira. Quem percorresse o Guarujá daqueles tempos, poderia
se acreditar no Oeste americano.
As casas tinham
partes das estruturas de madeira aparentes e cobertura com telhas tipo
Marselha. As paredes eram arrematadas com tábuas horizontais. Os
chalés apareciam como novidades e eram registrados nos cartões
postais.
O hotel, com
dois andares e mansardas, tinha cinqüenta quartos, além dos
salões, barbeiro e sala de leitura. Na frente era cercado por uma
gigantesca varanda, também de dois pavimentos, e possuía
na parte mais alta três mirantes em três torres. Teria cerca
de 16 metros de largura por 64 de comprimento. Tinha um corpo transversal,
de comprimento equivalente, que se alongava para o fundo, a partir da parte
central da fachada. Pelo que mostram as fotografias, essa parte não
dispunha de varandas. Contrastava portanto com o corpo da frente, no qual
os gradis das varandas, os ornatos de fecho das mansardas e os arremates
de madeira recortada dos beirais davam impressão festiva.
Os chalés,
com dois pavimentos e mansardas, eram em geral de grandes proporções,
o que justificou seu aproveitamento continuado em épocas posteriores.
Em um prazo
extremamente curto e de forma simultânea, foi realizado o trabalho
de implantação urbanística, a encomenda das construções
em madeira e a construção da ferrovia. Esta era uma pequena
linha férrea de bitola estreita, que na época era chamada
de "tramway" (N.E.: bonde, como depois ficou conhecido no Brasil) a vapor.
A estação era uma pequena plataforma, coberta com madeira,
à vista do Grande Hotel. A linha partia de Itapema, em frente à
estação terminal da São Paulo Railway, no Valongo,
em Santos, sendo a travessia feita por duas lanchas, denominadas Cidade
de Santos e Cidade de São Paulo.
A ferrovia
foi inaugurada em 2 de setembro de 1893. Para a solenidade, foi organizada
uma caravana, com o presidente do Estado e o bispo de São Paulo,
que saiu da Capital em um trem especial, que partiu às 11 horas
e chegou às 13h30.
 OS CHALÉS
DO GUARUJÁ: As ruas eram todas construídas com casas de madeira
importadas da Geórgia. A fotografia mostra a igreja e os chalés.-
acervo da Biblioteca Nacional-RJ.
Segundo Stiel
(1), seguiram em bondes especiais para o cais em frente
à Alfândega, onde tomaram o vapor Cidade de São
Paulo, atravessando o estuário. Em Itapema, participaram da
viagem inaugural do trem, até o Grande Hotel.
Ao redor da
estação existia um jardim, à borda da praia, que foi
sendo ampliado com o tempo. Parte dele ainda existe no mesmo local.
Ao lado do
hotel, em pavilhão de madeira, existiu o cassino, com cerca de 20
metros de frente. Era cercado por uma varanda larga, como a do hotel, para
a qual abriam portas tipo veneziana. Na parte central do telhado de quatro
águas, tinha duas pequenas torres.
Nas proximidades,
segundo informa Pedro Luís Pereira de Souza (2),
havia um modesto balneário onde se alugavam "os competentes calções".
O esporte da natação por certo não estava muito em
moda; os freqüentadores chegavam desprevenidos ou só punham
seus calções à beira da praia.
No início
foi instalada uma usina elétrica, movida a vapor, que fornecia luz
para o hotel e o cassino, para os chalés e para a iluminação
pública. O fornecimento de energia era interrompido às 23
horas, como em um colégio interno.
Em 1897 o velho
hotel de madeira foi destruído por um incêndio. Em seu lugar
foi construído um pequeno pavilhão de alvenaria de tijolos.
Esse pavilhão, ao contrário do anterior, era bem pouco elegante.
Tinha apenas dois pavimentos. O telhado era escondido por uma platibanda
recortada com ameias, como uma construção militar de gosto
duvidoso. Tinha dois corpos separados, na parte superior, e um pequeno
alpendre, na entrada, que contrastava pela sua modéstia com a majestade
do velho edifício de madeira do primeiro hotel. Funcionou até
1910, quando foi demolido.
Nessa época,
o conselheiro Antonio Prado, então na presidência da Companhia
Prado Chaves, vendeu o conjunto de Guarujá para um grupo econômico,
representado pelo grande aventureiro das finanças internacionais,
Percival Farquhar. Em 1911 a nova empresa, Companhia Guarujá, contratou
o Escritório Técnico Ramos de Azevedo, que construiu no mesmo
local um hotel de maiores proporções, com cerca de duzentos
e vinte apartamentos. O Grand Hôtel de la Plage foi inaugurado em
1912 e era composto de quatro grandes edifícios, alguns com três
e outros com quatro andares. Era servido por elevadores e os apartamentos
dispunham de terraços, dos quais se desfrutava a bela paisagem sobre
o mar. Tinham, já nessa época, água quente e fria,
aparelhos telefônicos em cada apartamento, e todas as instalações
de luxo que se usava na época.
Junto ao antigo
jardim, foi construído um pavilhão para banhistas. Havia
cem cabines, sem contar as cabines móveis, um local para exercícios
de ginástica sueca e duas piscinas de água doce, provavelmente
para abrigar os mais tímidos. Ao fundo, junto às áreas
ainda florestadas, foram construídos dois parques, um em terreno
plano, com um quilômetro de comprimento, um jardim zoológico
e algumas áreas para prática de esportes e outro em uma colina,
chamado Parque Miramar, para permitir uma visão geral da paisagem,
a trezentos metros de altura, como um belvedere.
UM
CHALÉ DO GUARUJÁ: A Companhia Balneária do Guarujá
importou os chalés desmontados. Construiu algumas dezenas de casas
e edifícios de uso público. O presidente da empresa, Pacheco
Jordão, havia estudado engenharia nos Estados Unidos e recriou aqui
um cenário americano. Fotografia de J. Marques Pereira -
Coleção de postais Dr. Elyseo de Oliveira Belchior.
Em 1918 foi
instalado o sistema de ferry-boat. O uso generalizado de automóveis,
em Santos e em São Paulo, impunha uma modernização,
que acolhesse o novo meio de transporte privado. Essa inovação
se tornou importante a partir de 1920, com as melhorias realizadas por
Rudge Ramos no Caminho do Mar e principalmente a partir de 1926, quando
foram concluídos os trabalhos de pavimentação do trecho
da Serra de Paranapiacaba. A partir dessa época, tornou-se mais
importante o transporte rodoviário do que o da pequena ferrovia.
Com a conclusão
das obras da Via Anchieta, em 1947, tornaram-se mais comuns as viagens
de automóveis e ônibus entre São Paulo e Santos e São
Paulo e Guarujá. No mesmo período, desenvolveu-se o sistema
de lotação, organizado por táxis, entre São
Paulo e Guarujá. A proibição do jogo, em 1946, provocou
o fechamento do cassino, mas a abertura da via Anchieta, no ano seguinte,
abriu novas perspectivas para o desenvolvimento imobiliário da área
e compensou largamente o município de suas perdas.
Em 1959 foi
interrompida a atividade da ferrovia do Guarujá. A pequena locomotiva
virou monumento da cidade, mas os chalés foram desaparecendo um
a um, para dar lugar a prédios de apartamentos.
Há quem
acredite que as restrições impostas à ação
empresarial, durante o Império, criaram uma classe dominante voltada
exclusiva e voluntariamente para as atividades produtivas do setor rural.
Mas, pelo menos no Estado de São Paulo, essa imagem merece alguma
revisão.
Logo nos primeiros
anos do regime republicano, levantadas as interdições e restrições
oficiais, os grupos econômicos paulistas, de mais larga tradição
no setor rural, voltaram-se, com extrema agilidade, para todas as frentes
capazes de oferecer compensações financeiras. E suas realizações,
nesses setores, revelaram segurança e maturidade, que se comprovam
pelos resultados práticos e pelo sucesso financeiro. Esse é
o caso do empreendimento turístico do Guarujá. Alguns membros
do mesmo grupo realizaram tempos mais tarde um projeto semelhante, em Poços
de Caldas. Mas essa já é uma outra história.
(*)
Nestor Goulart Reis Filho é arquiteto, sociólogo e professor
titular da Universidade de São Paulo (USP)/Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo (FAU).
O GRAND
HÔTEL DE LA PLAGE: O terceiro hotel construído no Guarujá
foi concluído em 1912 por Ramos de Azevedo. Nessa época o
local pertencia a uma emprea ligada a Percival Farquhar. Essa obra foi
demolida por volta de 1950. Cartão postal - acervo da Biblioteca
Nacional-RJ.
NOTAS:
(1)
Stiel, Waldemar C. - História dos Transportes Coletivos em São
Paulo.
(2)
Souza, Pedro Luiz Pereira de - Meus 50 anos na Companhia Prado Chaves,
S.L.S., ED., 1950, p.71. |