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SANTOS DE ANTIGAMENTE - PINACOTECA - LIVROS
Memórias do Casarão Branco (10)

Clique na imagem para ir ao índice deste livroHerança da época áurea das exportações de café pelo porto santista, e uma das primeiras casas não-geminadas de Santos, a edificação que desde o final do século XX abriga a Pinacoteca Benedito Calixto, e foi tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Santos (Condepasa) foi por várias décadas propriedade da família Pires.

Sua história foi contada pela escritora Edith Pires Gonçalves Dias, nesta obra publicada em 1999 e depois reeditada, com 130 páginas, impressa pela Mazzeo Gráfica e Editora Ltda., de Santos/SP. O livro foi composto e editado por Sonia S. Silveira, com capa de Carmem Silvia de Paula Cabral, revisão de Manuel Leopoldo Rodriguez Montero e contracapas de Orlando de Barros Pires e Maria Isabel Pires Isique. A autorização para esta primeira edição eletrônica foi dada pela autora a Novo Milênio, em 30 de julho de 2010. Páginas 111 a 129:

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Memórias do Casarão Branco

Edith Pires Gonçalves Dias

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EPÍSTOLAS

Aos 16 de fevereiro de 1986, recebi o seguinte ofício:

"Prezada Senhora.

Por indicação do sr. Luiz Cândido Martins, V. Sa. foi indicada para constituir a 'Comissão de Restauração' de nossa Fundação.

A diretoria, por deliberação unânime, aceitou referida indicação e agradece a colaboração de V. Sa. aceitando essa participação.

Reforço nossos agradecimentos pela atenção que nos for dispensada.

Atenciosamente

Darcy de Barros

Diretor presidente"

Bastante sensibilizada por essa indicação, passei a colaborar, fornecendo fotografias e esclarecendo sobre detalhes que deixavam dúvidas. Foi gratificante para mim freqüentar a casa que tanto amava, cuja recuperação representava para mim uma vitória da luta que eu enfrentara, no sentido de ver salvo o casarão branco.

Cada vez que ali entrava, parecia-me sentir a presença espiritual de meus pais, aplaudindo o que eu fazia, gratos a todos que se empenhavam em fazer ressuscitar a casa que tanto tinham amado.

No dia em que Lydia Federici recebeu o título de Cidadã Santista, tive a oportunidade de conversar com o prefeito Justo e muito falamos sobre o casarão. Pediu-me que fizesse um histórico da casa, que ele desconhecia. Fiz o que me pediu, anexei uma carta em que agradecia muito por ter salvo o casarão branco.

Logo depois, recebi dele uma carta manuscrita, que guardo com grande carinho e que transcrevo, por julgá-la de grande importância para a história do casarão:

"Edith

Recebi sua prezada carta, detalhando a história do 'casarão branco". Quero também informá-la da história da sua solução.

Quando assumi o cargo de prefeito, não tinha dinheiro nem para comprar papel para uso da máquina administrativa; mesmo assim determinei ao secretário do Jurídico que tomasse providências, pois queria a incorporação do casarão aos bens do município. Chamei os herdeiros e resolvemos o assunto amigavelmente, pagando em prestações. Incorporado o imóvel ao patrimônio do município, vieram ofertas vultuosas para a sua venda. Eu não tinha dinheiro - estava em sérias dificuldades -, sendo vaiado em toda cidade. A venda do casarão me aliviava muito as finanças. Recusei todas as ofertas.

Nomeei comissão para dar destinação ao imóvel. Nada consegui, pois a referida comissão estava interessada em fazer política e reuniões infindáveis.

Além disso, me atacavam diariamente pelos jornais. Resolvi destituir a comissão. Falei com o sr. Carlos Klein e Roberto Santini, que entenderam perfeitamente minhas ponderações. A eles, devo muito, pois me protegeram das críticas dos desocupados.

Como tinha a intenção de eternizar o casarão e livrá-lo da política, criei a Fundação Benedicto Calixto. Forneci materiais e homens - coisa que faço até hoje.

Passei momentos difíceis, mas salvei o casarão. Estou feliz e gratificado. Não foi necessário perder o imenso patrimônio. Quando puder, agradeça ao Roberto Santini  ao sr. Carlos Klein. FOram e são os meus grandes aliados.

Muitíssimo grato

Justo

16-10-88

Nota: O histórico enviado estou encaminhando à Diretoria da Pinacoteca. Justo.

Atendendo ao seu pedido, enviei as seguintes cartas aos senhores Carlos Klein e Roberto Santini, ambas em 27 de outubro de 1998:

"Ilmo. Senhor

Roberto Santini

Minhas saudações

No dia em que Lydia Federici recebeu o título de cidadã santista, tive a oportunidade de conversar com o nosso prefeito, dr. Oswaldo Justo. Não podia deixar de manifestar-lhe a minha gratidão por ter salvo o 'casarão branco'. Ele mostrou-se satisfeito em saber que eu era filha do homem que por duas vezes foi o seu proprietário, responsável pela beleza que, felizmente, vem sendo restaurada em sua originalidade.

Pediu-me que lhe enviasse um histórico sobre esse reconhecido monumento de arquitetura. Eu o fiz com muito amor e carinho, anexando algumas xerox de fotografias de seu mobiliário. Pedi ao Carlos Klein, a quem eu emprestara duas fotos, uma da construção primitiva, a outra depois de reformada, para copiá-las para o arquivo do seu jornal, que mandasse o Justo, dois exemplares.

Recebi, bastante sensibilizada, uma carta do próprio punho do senhor prefeito, agradecendo o que eu tão prontamente enviara, bem como narrando a luta em que se empenhou para vencer a pressão exercida sobre ele, no sentido de derrubar o casarão para ali ser feito um conjunto de prédios. Outros detalhes já me haviam sido dados no decorrer da nossa conversa na Câmara.

Fiquei então sabendo que você e o Carlos foram os seus grandes aliados, e isso só pode aumentar, ainda mais, a minha admiração por vocês, e pelo jornal que tão bem conduzem. Ele pediu-me que agradecesse a vocês, como pode ver pela xerox de sua carta. Mesmo que não fosse um pedido do Justo, o fato de sabê-lo um dos responsáveis pela preservação daquela casa onde cresci, a minha consciência impor-me-ia esse dever: - agradecer em nome dos Pires, essa atitude que beneficiou a nossa cidade e seu povo.

Você talvez não se lembre do meu pai, Francisco da Costa Pires, desaparecido há 31 anos, mas o sr. Giusfredo deve recordar-se daquele que tantas vezes escreveu artigos sobre café, no seu jornal, com o pseudônimo de 'um observador imparcial'. O seu lema foi 'Servir', e sua vida um sacerdócio do bem. Não era santista, mas amou essa cidade como se o fosse.

Era um benemérito de todas as atividades de assistência. A Tribuna de 16 de março de 1928 - nº 352 - Ano XXXIV, publicou em sua primeira página, com sua fotografia, uma notícia relatando uma das mais belas ações. Foi quando houve a tragédia do Monte Serrat atingindo a Santa Casa de Misericórdia. Ele saiu às ruas angariando donativos para aquele hospital, conseguindo a elevada quantia de 1.326:761 contos de réis.

Por ser um homem de grande honestidade é que por duas vezes se desfez da casa que tanto amava, durante crises financeiras no comércio cafeeiro, podendo dessa maneira saldar as dívidas e manter a dignidade de seu nome sempre respeitado.

Compreende agora, prezado Roberto, o porquê de meu devotamento ao casarão branco? Ele foi para mim a grande escola da vida. Nele conheci uma época de esplendor, porém sem luxo, uma vez que meus pais sempre foram criaturas de grande simplicidade e avessos à ostentação. Nele pude conhecer a fibra de um homem que enfrentou os reveses da vida com extraordinária coragem, recuperando-se sempre através do trabalho exercido com capacidade, inteligência e sobretudo, com honestidade.

Perdoa-me alongar-me tanto, mas como disse ao prefeito Justo, para mim é apaixonante falar do cassarão e reportar-me à figura inesquecível do meu saudoso pai. Deixo aqui registrada a minha eterna gratidão pelo seu gesto nobre, defendendo o patrimônio dessa cidade que tanto amo, e muito mais ainda, desde que recebi o honroso título de cidadã santista em 12 p.p.

Que Deus o abençoe e a todos os seus.

Fraternalmente subscrevo-me,

Edith Pires Gonçalves Dias".

"Meu prezado amigo Carlos

Que a paz de Cristo esteja com você e os seus.

Como já lhe contei pelo telefone, depois do pedido que o prefeito Justo me fez, para que lhe enviasse um histórico detalhado do casarão branco, o que atendi prontamente, recebi dele essa carta cuja xerox remeto a você. Outros detalhes da sua luta pela salvação do mesmo, já me havia dado no decorrer de nossa amistosa conversa na Câmara.

Pela sua carta é que fiquei sabendo da importância da intervenção sua e do Roberto, para que a novela do casarão tivesse um 'final feliz'.

Ele me pede em sua carta, que muito me sensibilizou, que agradeça a vocês dois. Já escrevi ao Roberto e agora a você.

Fico lhe devendo mais esse grande bem. Minha dívida está se tornando infinita... por favor, não pense em me cobrar em OTNs...

Deus o abençoe por mais essa boa ação que vem reforçar, ainda mais, o conceito que eu e o Cyro temos de você. Uma pessoa que luta, apóia e assume todas as causas nobres e justas.

Receba por meu intermédio o reconhecimento de toda a família Pires, por ter colaborado para que a casa da qual temos as mais gratas recordações não fosse sacrificada pela ambição de uns poucos que não hesitam em destruir magníficas construções em nome de um progresso que em nada nos favorece. Apenas apaga o que há de belo em nosso mundo.

Sem mais, envio um fraternal abraço meu e do Cyro.

Edith."

Os santistas acompanhavam, com carinho e entusiasmo, a recuperação do casarão. E a cada novidade que surgia, as expectativas se tornavam mais entusiasmadas.

Quando chegou o momento de se restaurar a pintura interna, foi lembrado o nome da renomada artista plástica Nazareth Motta Leite, a quem caberia recompor a pintura dos tetos e barras, o que exigia arte, paciência e dedicação.

Ela escolheu os seus auxiliares, entre eles sua filha Maria Cristina, que segue o mesmo iluminado caminho percorrido por sua mãe.

Quando a encontrava em cima dos andaimes, montados para que pudesse trabalhar, comovia-me muito.

Não era apenas a sabedoria que comandava o seu trabalho. Ela o fazia com amor, e só se satisfazia quando, misturando as tintas, chegava à cor exata.

A restauração do grande salão de refeições levou 100 dias para ser concluída.

O nome de Nazareth está perpetuado na placa de bronze que foi justamente colocada nas dependências da Pinacoteca Benedicto Calixto.

OS ÚLTIMOS PERCALÇOS

Sentíamos grande entusiasmo em face do desenvolvimento dos trabalhos de recuperação do casarão. Não obstante, nova preocupação se fez presente.

Na edição de 21 de junho de 1990, A Tribuna publicou uma notícia que soou como a explosão de uma bomba, balando os anseios de milhares de corações. Sua manchete: "Pinacoteca pode ser transformada em museu".

Na reunião da Câmara Municipal, na noite desse mesmo dia, seria submetido à votação o projeto de lei de autoria do vereador Gilberto Tayfour, com a pretensão de revogar a lei nº 154/86, que autorizava a Prefeitura a instituir a Pinacoteca. O imóvel que estava sendo restaurado para sediá-la, pela nova lei, passaria a abrigar o Museu Pelé.

Aliás, numa primeira votação, ele fora aprovado. E mesmo que fosse aprovado em segunda votação, seria vetado pela prefeita Telma de Souza, que, desde que assumira a Prefeitura, vinha dando à restauração do casarão o mesmo apoio dado pelo seu antecessor.

Como a maioria dos santistas, também considero justa a instalação de um museu, perpetuando para a posteridade o precioso acervo que nos fala das glórias do atleta do século, Edson Arantes do Nascimento, o nosso querido Pelé.

Mas não desalojando a Pinacoteca. Muitos outros espaços poderão sediar o Museu Pelé, com a dignidade que merece. Afinal, esporte e cultura fazem parte da tradição de um povo.

Sentia-me como a criança de quem se tirava o sorvete que saboreava. Era absolutamente injusto e desumano tirar, da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, aquilo que ela conquistara de uma forma tão bonita, com aprovação de toda a cidade.

No dia seguinte, o jornal voltava ao assunto com a seguinte manchete: - "Câmara rejeita extinção da pinacoteca".

O que mais impressionou foi o fato da rejeição ter ocorrido por unanimidade. Até mesmo o autor do projeto votou contra. É evidente que ele se deixara levar por um entusiasmo momentâneo, refletiu acertadamente e voltou atrás. Ficou assentado, nessa reunião, que seria procurado um outro local para o Museu Pelé.

Ainda nessa mesma edição do jornal era publicada a opinião de várias pessoas que participam ativamente da cultura em nossa cidade, todas contrárias à mudança no destino do casarão.

Foram eles: Reinaldo Martins, secretário municipal de Cultura; Roberto Mário Santini, diretor-presidente de A Tribuna; o ex-prefeito Oswaldo Justo; Nazareth Motta Leite, presidente do Museu de Arte Sacra; e Paulo Wolf, diretor do centro Cultural Brasil-Estados Unidos.

Passado o susto, defini o fato como um "acidente de percurso", que deveria ser esquecido. Não resta dúvida que foi mais um dos obstáculos superados.

Em 12 de julho do mesmo ano, A Tribuna anunciava que os trabalhos seriam reiniciados, depois de sofrer uma paralisação por falta de recursos.

Um grande caminho já fora percorrido com o trabalho de recuperação da estrutura, drenagem, reconstituição de jardins e vitrais. Estes foram refeitos pela mesma firma especializado, a Casa Conrado, de São Paulo, que havia confeccionado os originais, quando papai procedeu à reforma no início da década de 20. Interessante destacar que o atual diretor desse serviço é filho do que fez os vitrais naquela reforma. Ele seguiu o ofício do pai e tornou-se tão competente quanto ele.

A restauração do casarão continuava sendo um grande desafio. Só mesmo com muito amor à causa que abraçaram, as pessoas que compunham a Fundação Benedicto Calixto venciam as adversidades e prosseguiam entusiasticamente no seu trabalho.

Chegaram a marcar datas para a sua inauguração, adiadas pela absoluta impossibilidade de levá-la a efeito. Os últimos detalhes eram os mais difíceis, e tudo deveria ser perfeito para que o evento tivesse a merecida glória.

A beleza da construção renascia em sua originalidade e todos procuravam afastar a lembrança desagradável de seus temos sombrios, da decadência que viveu.

Por mais que elogiemos a perseverança, a tenacidade, a competência de Darcy de Barros, ao longo do extenuante trabalho de recuperação do famoso casarão branco, certamente não seremos absolutamente justos.

Repito aqui as palavras de minha querida amiga Nazareth da Motta Leite, capacitada a definir a sua pessoa. Ela assim se expressou: -"Ele é o mecenas da Fundação, a pinacoteca existe graças ao seu empenho".

De minha parte, cabe dizer: -"Obrigada, Darcy, por devolver, totalmente renovado, esse casarão que faz parte do meu patrimônio afetivo".

PINACOTECA INAUGURADA

A ansiedade tomava conta do meu coração e do coração de todos que acompanhavam, com carinho e interesse, a restauração do casarão. Parecia que toda Santos se encontrava no mesmo estado de criança que espera a chegada de Papai Noel.

Com minhas idas constantes ao casarão, meu entusiasmo crescia a cada dia. E minha gratidão também. Os preparativos para a inauguração estavam sendo feitos com grande empenho, pois seria um acontecimento marcante na história da cidade. Seria o testemunho de que grandes lutas podem ser vencidas, se confiarmos na ajuda de Deus e em nossas possibilidades.

O vice-presidente do Conselho da Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto, Paulo Bueno Wolf, tomou a iniciativa de reunir as obras do grande pintor, para que pudessem ser apreciadas pelo público que comparecesse à solenidade de inauguração. Além das que já faziam parte do acervo da Pinacoteca, outras obras foram cedidas por colecionadores particulares, para maior brilho da referida exposição.

A inauguração da Pinacoteca foi noticiada até mesmo em jornais de São Paulo, provando que o interesse pela mesma transpunha as fronteiras de nossa cidade. Finalmente é marcada a data de 4 de abril de 1992, para a realização da esperada solenidade. No dia 3, sexta-feira, o jornal A Tribuna publicava extensa reportagem feita pela jornalista Ineide Souza Di Renzo com o título: -"Casarão Branco retoma o tempo de esplendor".

Num bonito texto, ela faz uma retrospectiva dos fatos mais importantes, desde a desapropriação do imóvel pelo ex-prefeito Carlos Caldeira Filho, em outubro de 1979. Reporta-se ainda ao histórico do casarão, desde suas construção no início do século. No dia seguinte, essa mesma jornalista escrevia um artigo intitulado: -"Dia de festa para a cidade". Nele, ela ressalta a luta de três administrações para levar avante o projeto de preservar o monumento de arquitetura representado pelo casarão branco.

Na primeira, Carlos Caldeira Filho deu o primeiro passo, a desapropriação. Na segunda, Oswaldo Justo conseguiu o acordo com os herdeiros litigiosos e recebeu a imissão de posse, para que a Prefeitura pudesse exercer o direito de propriedade e iniciar a reforma. Na terceira, Telma de Souza finaliza a reforma e, com a colaboração da Prodesan, organiza a festividade com a merecida pompa.

A prefeita Telma destacou a atuação de Darcy de Barros. Segundo ela, ele poderia ter desistido quando se deparou com os problemas de ordem financeira, críticas e cobranças. Falou de sua perseverança e da confiança que colocou em seus auxiliares, e que o levou à vitória. O jornal falava ainda da programação preparada, e que contaria com a apresentação da Orquestra de Cordas de Tatuí.

Em frente ao casarão, foi armado um palco para acomodar a orquestra e, também, apresentar o conjunto de seresta Primas e Bordões.

Ainda nessa edição, era publicada a entrevista com o ex-prefeito Oswaldo Justo que, entre as considerações que fez sobre o grande acontecimento, declarou: -"É o resgate da importância da obra de Calixto, permitindo à população o livre acesso a tão magnífico acervo".

Mais adiante, diz: -"A recuperação e adaptação do imóvel foram planejadas e desenvolvidas em conjunto com parcelas expressivas do empresariado, a quem devem ser creditados os méritos dessa extraordinária e fundamental conquista da comunidade santista".

Relembrou as dificuldades enfrentadas para liquidar o débito contraído com herdeiros litigiosos e a luta para conseguir a desocupação do imóvel pelas famílias residentes.

Disse do minucioso trabalho de levantamento das obras de Calixto e das providências tomadas para que elas recebessem os reparos necessários, uma vez que algumas estavam danificadas.

Temos de convir que o ex-prefeito Oswaldo Justo teve uma participação importante na preservação do imóvel e na instalação da Pinacoteca Benedicto Calixto. Não se poderia esperar outra coisa de uma criatura como ele, dono de vontade férrea e extraordinária determinação.

Nesse mesmo dia, o jornal me concedia espaço para a publicação do artigo "Gratidão e Saudade". Era meu coração que se transportava para aquela página e se derramava em alegria e reconhecimento. Nele eu falava do meu amor pelo casarão, que nada tem de possessivo, ele transcende ao que é material. "É algo maravilhoso que está vinculado à minha alma". Sim. É alguma coisa difícil de ser compreendida, se não for sentida.

Foi também a oportunidade de agradecer a todos que tiveram grande responsabilidade na preservação e recuperação do casarão. Pude também fazer justiça a meu pai, uma criatura extraordinária, que tinha como bandeira amar ao próximo como a si mesmo.

O jornal O Estado de São Paulo, em edição também do dia 4, faz um relato completo sobre o casarão, ilustrado com fotos externa e interna.

A inauguração estava marcada para as 17 horas, mas recebi uma comunicação muito atenciosa, para que os membros da família Pires ali estivessem às 15 horas. Assim o fizemos. Fomos recebidos pelo Alcindo Gonçalves, presidente da Prodesan. Ele nos levou a conhecer todo o prédio, para que pudéssemos avaliar o seu renascer.

Eu já estava familiarizada com sua nova imagem, mas meus irmãos Orlando e a saudosa Beatriz ficaram emocionados com o que viam. O Alcindo ofereceu, a cada um, o exemplar do livro Casa das Artes, em magnífica encadernação, ilustrado com fotografias e desenhos de grande interesse, para quem quisesse fazer um paralelo entre a ruína e a recuperação.

O texto foi produzido pela jornalista Maria das Dores Martins da Silva, a Madô, com quem mantive um grato convívio, fornecendo-lhe subsídios para seu precioso trabalho. Ao folheá-lo, fiquei bastante emocionada, pois ali estava eu, presente de alma e coração.

Cada pessoa recebeu uma cartela dobrada em três. Na capa o seguinte: -"Santos restaura sua história. Pinacoteca Benedicto Calixto." E ainda uma comovente frase: -"Eu participei da inauguração, dia 4 de abril de 1992". Desdobrando a cartela, uma foto da casa, e algumas de suas partes internas mais ricas. Um texto subscrito pela prefeita Telma de Souza, e um breve histórico. Em tudo, notei o amor e o carinho que norteou os que prepararam a grande solenidade.

Terminada a nossa visita, passamos novamente para o lado de fora do imóvel, e aguardamos a chegada da prefeita Telma de Souza, que procederia à inauguração. Em seu discurso, emocionei-me quando ela disse que queria descer as escadas do casarão, como se fosse uma das noivas Pires, passagem que eu descrevera no meu artigo.

Na notícia publicada por A Tribuna, na segunda-feira, dia 6, está a foto do momento em que a prefeita Telma de Souza e Darcy de Barros desatam a fita, sob o olhar comovido de Paulo Viriato Corrêa da Costa. Estava sendo entregue ao público santista o merecido espaço cultural.

Usaram a palavra também nesse momento de tanta emoção, Alcindo Gonçalves, Darcy de Barros e Paulo Viriato Corrêa da Costa.

Esse espaço, com que os santistas foram presenteados, vem cumprindo a sua missão de divulgar a Arte. Têm sido inúmeras as exposições de grandes nomes da Pintura e também da Escultura. O Casarão vem sendo palco de apresentações musicais e de lançamentos de livros.

Em clima de paz e tranqüilidade, ali respiramos Arte. Ali nos sentimos felizes de poder apreciar tanta beleza, de nos afinarmos com os grandes valores que, cultivando a arte, colaboram para nosso engrandecimento, aumentando nossos conhecimentos e nos fazendo compreender que a cultura é base fundamental para o desenvolvimento de um povo.

A cultura é realmente uma das características de melhor qualidade de vida. A arte nos espiritualiza e nos aproxima de Deus.

EPÍLOGO

E assim, meus amigos, chego ao fim desse despretensioso livro, cuja finalidade é perpetuar a história do casarão branco.

Da enorme família dos Pires, estamos reduzidos a três: eu, Orlando e Maria Isabel, a Beca.

Uma força muito grande me impeliu a escrever esta história. Quero que nossos descendentes a conheçam. Imagino que meus bisnetos ainda lerão este livro e certamente dirão:

-"Como a bisa Edith era uma romântica!"

Não me envergonho por ser uma romântica. Sinto-me feliz por guardar com tanto carinho as lembranças do passado. Que seria de nós se não as conservássemos? Seríamos como árvores sem raízes, que não resistem à menor tempestade! Seríamos como casas mal construídas, que podem ruir a qualquer momento.

A história do casarão branco é o romance da minha vida. O que ele representou para mim, enquanto propriedade de nossa família, o que ele representa hoje, como valioso patrimônio desta abençoada Santos, jamais será esquecido.

Muitos se surpreendem, por ver que tenho arquivadas todas as notícias que saíam nos jornais, desde que começou a triste novela do casarão branco, que finalmente teve um final feliz.

Amor se prova, não é? Isso tudo, aliado a este livro, que ora passa a ser conhecido por todos, é a grande prova de amor que lhes ofereço.

Fim


FAMÍIA PIRES, TRÊS GERAÇÕES

Patriarca: Francisco da Costa Pires

Matriarca: Zulmira de Barros Pires

 

1- Jorge de Barros Pires

1ª união: Leonor de Azevedo Pires

Filhos: Jorge - Otávio - Rubens - Gilda - Elza - Leonor Zulmira - Estela Judith

2ª união: Dinalva Vargas Pires

Filho: Jorge Luiz

 

2- Arnaldo de Barros Pires

1ª união: Sylvia Sandall Pires

Filhos: Arnaldo - Helena

2ª união: Beatriz Sandall Pires

Filhos: Sylvio - Rosemary - Vera Helena

 

3- Odete de Barros Pires (Moreira)

Cônjuge: Gil Paulo Moreira

Filhos: Francisco Guilherme - José Carlos - Luiz Carlos- Heloíza

 

4- Beatriz de Barros Pires (Lacerda)

Cônjuge: Clóvis Galvão de Moura Lacerda

Filhos: Lúcia - Milton Paulo - Paulo Eduardo

 

5 - Eliza de Barros Pires (Castro)

Cônjuge: Cherubim Camargo Castro

Filhos: Cherubim - Maria Elisa - Ivo - Henrique

 

6 - Valentina de Barros Pires (Martins)

Cônjuge: Otávio Martins

Filhos: Célia - Marina - Diva

 

7- Maria Isabel de Barros Pires (Isique)

Cônjuge: Waldomiro Isique

Filhos: Ana Maria - Manoel

 

8- Sylvia de Barros Pires (Faria de Paula)

Cônjuge: Oswaldo Faria de Paula

Filhos: Sylvia - Ercília - Maria Cândida - Alice - Oswaldo - Gabriel -

Francisco Roberto

 

9- Francisco de Barros Pires

Cônjuge: Nayr Del Nero Pires

Filhos: Ana Maria - Sérgio Luiz - Vera Lúcia - Luiz Antônio

 

10- Olavo de Barros Pires

Cônjuge: Velsia Souza Pires

Filhos: Regina Marta - Carlos Eduardo - Luiz Roberto

 

11- Orlando de Barros Pires

1ª união: Mary de Lourdes Las Casas Pires

Filhos: Orlando - José Roberto

2ª união: Edina de Barros Pires

 

12- Edith de Barros Pires (Gonçalves Dias)

Cônjuge: Cyro Gonçalves Dias

Filhos: Ciro Júnior - Vera Sílvia

 

Mais três gerações (a recensear)

Bisnetos, Trinetos e Tetranetos

PINACOTECA BENEDICTO CALIXTO

Mantenedora: Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto

 

Funcionamento:

Abertura ao público

De terça-feira a domingo, das 14 às 19 horas

 

Diretoria Executiva:

Presidente - Roberto Mário Santini

1º Vice-presidente - Milton Teixeira

2º vice-presidente - Emanuel Leon Sztanjbok

 

Diretores Sem Pasta:

Ewaldo Bolivar de Souza Pinto

Manuel Pacheco Dias Marcelino

Marli Nunes de Souza

Mirka Providello

 

Conselho de Administração:

Presidente - Nelson Oly Varella

Vice-presidente - Omar Laino

 

Membros:

Alvaro Marques Canoilas

Darcy de Barros

Eduardo Carvalhaes Junior

Franco Pagani

João Afonso Ribeiro Maia

João Bento de Carvalho

Newton José Martins

Orival da Cruz

Paulo Augusto Bueno Wolf (in memoriam)

Paulo José de Azevedo Bonavides

Paulo Viriato Corrêa da Costa

Reinaldo Sergio Marino

Rubens da Silva

Terezinha Maria Calçada Bastos

 

Administração:

Diretora executiva - Marli Nunes de Souza

Oficial administrativa - Danielle Feijó Ferreira.

O casal Pires com parte da família

Foto publicada na página 125 do livro