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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - PAGU
Patrícia Galvão (11-B)

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Continuação do artigo publicado no jornal diário santista A Tribuna, edição de 9 de junho de 2010, páginas A-1, A-2 (editorial), D-1 a D-3 (seção Galeria):


Imagem: reprodução parcial da página D-2 original

Pagu, 100 anos

Gustavo Klein

Da Redação

Ela foi grande. Foi enorme, na verdade. Tem seu nome registrado na história da cultura e da política brasileiras e muito mais na santista. Mas, até por conta disso, levou uma vida atormentada, cheia de culpa, perseguida, desassossegada. Era uma dessas pessoas obviamente à frente de seu tempo. E faz tempo: há exatos 100 anos nascia Patrícia Galvão, a Pagu, jornalista, escritora, militante política e artística cuja relação com a cidade de Santos se deu durante toda a vida, encerrada prematuramente, aos 52 anos, em 1962.

Essa personalidade inquieta é objeto de estudos de Lúcia Maria Teixeira Furlani (mestre e doutora em Psicologia da Educação e presidente da Universidade Santa Cecília) há, pelo menos, 23 anos. Para o novo livro, Viva Pagu (Editora Unisanta e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), ela reuniu milhares de fotos e documentos até agora inéditos, incluindo cartas, artigos de jornais, livros e até registros do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), que investigou a moça por sua atividade política até 20 anos após sua morte. Sobre o livro e esta personagem de vida incrível, Lúcia concedeu a seguinte entrevista, com exclusividade.


Lúcia Teixeira Furlani, autora da foto-biografia Viva Pagu, livro que reúne milhares de fotos e documentos da intensa vida de Patrícia Galvão

Foto: Irandy Ribas, publicada com a matéria

Até agora se pensava que a relação de Pagu com Santos se deu apenas no fim da vida, o que seu novo livro desmente. Pagu, então, freqüentava a Cidade desde criança?

Pois é. Santos esteve presente nos momentos mais importantes de sua vida. Ela freqüentava a Cidade desde muito pequena, com a família. Fazia a travessia do canal a nado, ela nadava muito bem.

A beleza de Pagu, tão comentada, já era patente na infância?

Era bela. Chegou a participar de um concurso fotográfico da Fox Filmes, quando era bem jovem. Por isso é comum vermos fotos muito posadas, comuns na época. Mesmo período em que ela teve seu primeiro namorado, aos 11 anos, um galã da época, mais velho do que ela.

E Santos volta a aparecer quando ela se casa?

Quando era pouco mais do que uma adolescente ela se casa com Valdemar Belisário, um pintor que morava nos fundos da casa da Tarsila do Amaral. Mas esse casamento, na verdade, era um plano arquitetado por Tarsila, Oswald de Andrade e Pagu para que ela conseguisse fugir de casa e da educação rígida de seus pais. Tarsila só não sabia do envolvimento de Pagu com Oswald. Então, logo após o casamento, se dá a troca: no alto da estrada, a Pagu continua com o Oswald em um carro, em direção a Santos, e o noivo volta a São Paulo, até meio surpreso com a situação criada. Pagu e Oswald, então, passam a lua-de-mel em uma pensão no bairro do Gonzaga.


Geraldo Ferraz e Pagu quando falavam ao repórter do jornal Diário da Noite, 24/1/1945.

Foto dos Diários Associados - Fotógrafo Chico

Foto publicada com a matéria

A relação com o porto também é forte...

É sempre daqui que ela parte para suas viagens. Como a que faz para a Argentina, um pouco depois do nascimento do filho Rudá, e a que faz para a Rússia e a China, mais tarde.

Quando ela morou em Santos pela primeira vez?

Pagu morou no bairro do Boqueirão na década de 30. Em 1931, ela aluga um quartinho em um chalé no 367 da Avenida dos Bancários, na Ponta da Praia, de uma viúva portuguesa, a dona Maria. Ela se referia ao lugar como meu quartinho cheio de chuva. Tinha uma máquina de escrever e uma máquina de costura, da dona Maria. Em 1932, ela vai morar na Ilha das Palmas, em um quarto também de dona Maria, onde fazia os boletins do Socorro Vermelho e também costurava as roupas dos pescadores do lugar. Ao mesmo tempo, menina que era, brincava com as crianças, filhas dos pescadores. Anos mais tarde, Pagu escreveu duas crônicas - publicadas em A Tribuna - em que revela ter sido esse o período mais feliz de sua vida, em que ela tinha fé.

Dona Maria se torna um personagem importante em sua biografia...

Pois é, se tornou inclusive personagem do livro do Oswald, A Escada Vermelha. Houve um episódio curioso. O fato é que dona Maria não tinha a menor idéia das atividades daquela moça angelical, bonita e educada, para quem alugava o quarto, e muito menos que era uma pessoa procurada pela polícia. Em um momento de fuga, ela passa correndo por sua casa e pede ao sobrinho da Maria, Oswaldo, que guarde sua bolsa. Curioso como qualquer criança, ele abre a bolsa e encontra, dentro, um revólver. Mostra para a tia, que se assusta muito. Ao abrir o quarto para limpar, tem a surpresa, ao encontrá-lo cheio de panfletos vermelhos. Fica muito assustada e esconde tudo aquilo no forro da casa, com medo de ser incriminada. A polícia, depois, ao revistar o quarto, nada encontra. Dona Maria vem a ser avó do biólogo santista Luis Alonso Ferreira, do Museu do Mar.


Imagem: reprodução da página D-3 original

PAGU E O FILHO RUDÁ

A relação de Pagu com o primeiro filho é, também, um ponto controverso de sua biografia. Fala-se, até, em abandono. Como se deu isso?

Três meses depois do nascimento do Rudá, ela parte para Buenos Aires, desgostosa especialmente com as aventuras extraconjugais do Oswald, que sempre foi muito galanteador. A saudade do filho era enorme e em uma das cartas que Pagu escreve para Oswald, durante essa viagem, fica claro que a esperança dela era que o marido fosse se encontrar com ela na capital argentina. Não foi, então, como se imagina, um abandono. Nas cartas que ela manda de lá é recorrente a saudade do filho e também do Oswald.

Essa preocupação aparece também em outras viagens?

Sempre. Quando vai para Rússia, China, e Estados Unidos também havia um plano inicial de Oswald e Rudá se encontrarem com ela, coisa que não aconteceu por conta dos problemas financeiros que já assombravam Oswald.

Sempre viveu atormentada pela culpa que essa distância provocava, então...

Não só por conta das viagens, mas também das prisões. As cartas são constantes e pungentes, demonstrando a angústia da separação.

A MILITÂNCIA POLÍTICA

Faz sentido dizer que Pagu abraçou o comunismo com uma paixão que beirava a fé religiosa?

É bem isso. Para ela, o comunismo era algo relacionado à fé, quase religiosa. Ela achava que, por intermédio do partido, poderia transformar o mundo. Ela tinha 19 anos nessa época, havia acabado de sair da casa da família, teve uma desilusão amorosa no casamento e abraçou a ideologia política como uma possibilidade de guinada.

Foi em Santos que Pagu teve seu primeiro contato com o comunismo?

Na primeira vez que ela morou em Santos, na década de 30, passou a freqüentar as primeiras reuniões do Partido Comunista. Era membro do Socorro Vermelho, uma entidade do Partido que fazia socorro aos grevistas, onde ela atuava como segurança. Aqui ela conheceu o estivador Herculano de Souza, que foi decisivo em sua conversão ideológica. Ela mora com ele e com outra membro do Partido, Maria, na Rua Teixeira de Freitas, durante um bom período. A morte de Herculano chocou Pagu profundamente. Foi em Santos, em um confronto na Praça da República. Ele morreu em seu colo.

Como era a relação de Pagu, uma intelectual vinda de família tradicional, com o Partidão?

Não era boa, por incrível que pareça. O Partido desconfiava de Pagu, desconfiava dos intelectuais. As exigências eram enormes, com missões difíceis de serem atendidas. Por exemplo, a exigência de cortar qualquer relação com o filho e com Oswald, que seriam ligações burguesas. E ela, em seu idealismo até ingênuo, seguiu todas as ordens sem questionar. Chegou a ficar de guarda três dias e três noites seguidas, sem dormir e sem saber manusear uma arma. Era coisa de fé, mesmo.

E ainda assim era vista com desconfiança?

Não apenas desconfiavam. As ironias eram constantes e também cruéis. Diziam que a saudade que Pagu tinha do filho era um sentimentalismo burguês que não cabia no partido.

Dentro das atividades do Partido Comunista seu nome era Pagu também?

Não, ela tinha vários pseudônimos e em alguns cadernos que resgatamos, treina as assinaturas de seus nomes paralelos. Era uma exigência do Partido que ela não usasse o nome verdadeiro. Pagu chegou a escrever um romance proletário, Parque Industrial, o primeiro brasileiro, sob o pseudônimo Mara Lobo. É uma apologia ao Partido, até excessivo nos jargões. Em outra fase, já com Geraldo Ferraz e após passar anos na prisão e rever seus conceitos, escreve um romance que nega o primeiro, uma crítica contundente, um escancaramento pelo que vivenciou e que a decepcionou absolutamente.


"Apesar de bem separado da mamãe que não tem a menor notícia de você, não sei nem se você lê o que escrevo. O que sei é que você compreenderia bem (...) Não tenho você aqui, não tenho perto de mim teu sorriso inteligente nem estou ouvindo as histórias que você conta (...) Mamãezinha está numa prisão, mas continua com uma liberdade que ninguém pode desviar: a confiança de ter um dia junto dela (... ) Por tua vida, filhinho, lembrança da mamãe"

(Trecho de uma carta escrita no presídio do Paraíso, em 6 de dezembro de 1936)

Imagens: reproduções, publicadas com a matéria

AS VIAGENS

Por que Pagu foi para Buenos Aires?

Essa viagem, que ela faz como Embaixatriz da Antropofagia, do Movimento Modernista, tem como objetivo declamar poemas e se encontrar com um grupo de poetas que incluía o Jorge Luis Borges. Também há um mito de que ela se encontrou com Luís Carlos Prestes nessa viagem. Esse era realmente um dos objetivos, mas Pagu não conseguiu encontrá-lo.

Ela faz, logo depois, uma volta ao mundo, até para fugir da perseguição política no Brasil. Quando e como foi essa viagem?

Ela começa a volta ao mundo em 1933 e há várias cartas que documentam esse trajeto. Vai como jornalista e envia matérias para o Brasil. O elo era o Geraldo Ferraz, bem antes do casamento dos dois. Então, ao contrário do que se imagina, a ligação dos dois é bem anterior ao casamento. Durante a viagem, é sempre ajudada pelo poeta e embaixador Raul Bopp, que lhe deu o apelido de Pagu. Ele facilita sua entrada em vários lugares. Dizem que ele era um apaixonado por ela.

Por onde foi a volta ao mundo?

O objetivo inicial era viajar apenas à Rússia, para conhecer o que ela considerava o modelo ideal de sociedade. Passa, antes, pela Manchúria e também pelos Estados Unidos. Nos EUA, entrevista um diretor de cinema que lhe pergunta o que ela estava fazendo ali se poderia ser uma estrela de cinema, graças à sua beleza e graça.

É na Manchúria que ela consegue sementes de soja e traz para o Brasil?

Ela conhece, lá, o último imperador da China, Pu-Yi (que é retratado no filme O Último Imperador, de Bernardo Bertolucci, ganhador do Oscar de Melhor Filme). Ela presencia a coroação dele e, inclusive, manda uma carta ao Bopp bem engraçada, dizendo que "a imprensa brasileira foi dignamente representada na coroação do imperador chinês". Por conta da amizade dela com o imperador, consegue as primeiras sementes de soja, que ela manda para a Embaixada Brasileira e de lá para o Brasil. Essas sementes foram as precursoras da cultura da soja por aqui.

E a viagem à Rússia?

Ela se decepcionou muito com o que encontrou. Escreve, inclusive, um cartão postal ao Oswald dizendo que via muita pobreza nas ruas da Rússia, crianças pedindo esmolas enquanto os burocratas do Partido viviam em hotéis cheios de luxo. Viu que o discurso era um e a prática, outra.

Da Rússia volta ao Brasil?

Não, vai a Paris. E mora por lá. E, apesar desse desencanto, ainda permanece militando no comunismo por lá. Participa de reuniões e se torna aluna de grandes nomes marxistas e também filósofos. Em Paris, mora na casa de Benjamin Perrett, que era casado com uma cantora brasileira, Elsie Houston, e por intermédio dele conhece figuras importantes como Jean-Paul Sartre e Clevel. Começa, então, a se afastar do comunismo em si, já que eles também eram críticos do regime. Vai para uma outra linha, mais socialista.

A JORNALISTA E AS ARTES

Apesar das muitas facetas, Pagu foi essencialmente jornalista, não?

Sempre foi jornalista e escritora e documentava tudo o que vivia, de uma maneira própria da época. Sempre irônica, cômica, debochada com tudo, com a vida e até com ela mesma. Seu surgimento já se deu escrevendo, na Revista de Antropofagia em sua segunda fase (era muito nova na época da Semana de Arte Moderna), ao lado de Oswald de Andrade, Raul Bopp, Geraldo Ferraz e da Tarsila do Amaral.

É verdade que ela chegou a entrevistar Freud?

Sim, durante a viagem de navio, em 1933, para a China, quando fez a volta ao mundo. O encontro foi por acaso, nesse navio, e ela conseguiu uma entrevista. Freud a influenciou muito, e também ao Modernismo. Uma certa ligação permaneceu, mais tarde. Ela traduziu diversos artigos dele para jornais da época.

Pagu escreveu apenas romances políticos ou fez também ficção?

Escreveu histórias de suspense, acredita? Foi para a revista Detetive, que era dirigida por ninguém menos que Nelson Rodrigues. Nessa revista ela usava, também, um pseudônimo, King Shelter.

E como foi a vida de Pagu em Santos, já com Geraldo Ferraz e em A Tribuna?

Uma vida, como sempre foi, cheia de experiências. Passa a se dedicar às artes, como no início da vida. Deixa a política um pouco de lado e refuta o apelido Pagu. Ela chefiou o departamento de Artes de A Tribuna e deixou herança fundamental para a Cidade. Criou a Associação dos Jornalistas Profissionais de Santos, incentivou o teatro na Cidade e foi a responsável pelo lançamento de um então jovem e desconhecido artista: Plínio Marcos. Foi por iniciativa dela, também, que foi construído o Teatro Municipal Braz Cubas.

Imagem: reprodução parcial da página D-3

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