| Capítulo III
A primeira siderúrgica marítima brasileira e o complexo de fertilizantes de Piaçagüera (os anos 60 e 70)
3.5 - Censos industrial e demográfico
Devemos sublinhar, nesse momento, que a maior parte dos investimentos industriais
direcionados para Cubatão, no período de 1951 a 1977, não foram aleatórios, mas constituíram investimentos planejados pelo Governo Federal,
aplicados diretamente pelo Estado na produção industrial ou orientando e auxiliando os investimentos da iniciativa privada nacional ou estrangeira.
A Refinaria Presidente Bernardes e o Oleoduto Santos-São Paulo, por exemplo, estavam incluídos no Plano SALTE, da segunda metade dos anos quarenta.
Já o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek contemplava
Cubatão em cinco setores: 1 - energia elétrica (Meta 1): ampliação da Usina Henry Borden em 390.000 KW; 2 - refino de petróleo (Meta 5): elevação da
capacidade de refino da Refinaria Presidente Bernardes para 95 mil barris diários; 3 - petroquímica (Meta 5): conclusão da unidade de recuperação de
eteno da RPBC, com capacidade de 17.000 toneladas diárias; 4 - fertilizantes (Meta 18): conclusão da Fábrica de Fertilizantes da Petrobras
[86]; 5 - siderurgia (Meta 19): apoio do BNDE na construção da Companhia Siderúrgica
Paulista (Brasil, 1958) [87].

Centro de Cubatão, em 1973
Foto: livro O Caminho do Mar - subsídios para a história de Cubatão, de Inez
Garbuio Peralta,
ed. Prefeitura Municipal de Cubatão, 1973 (1ª edição)
Nos anos sessenta, o Programa de Ação Econômica do
Governo (PAEG) para o período de 1964/1966, previa a criação de novas unidades na Refinaria Presidente Bernardes (Reforma Catalítica, Extração de
Benzeno e Pirólise de Etano) e o incremento dos setores petroquímicos [88] e
de fertilizantes [89]. Entre os maiores investimentos industriais previstos
para o período estava a indústria siderúrgica, seguida pela indústria química (incluindo fertilizantes) (Brasil, 1965).
Quanto ao Programa Estratégico de Desenvolvimento, que compreendia os anos de 1968 a
1970, Cubatão era beneficiado pelo projeto de modernização da RPBC (visando o processamento do petróleo extraído do campo de Carmópolis) e a
ampliação de algumas de suas unidades (para atender parte da estrutura de mercado da região centro-sul). O Programa também previa a ampliação da
Fábrica de Asfalto, visando atender o crescimento da demanda de asfalto no Brasil (Brasil, 1968).
Já nos anos setenta, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (1975/1979) contemplava o
incremento de insumos básicos produzidos em Cubatão, como os produtos siderúrgicos, petroquímicos e fertilizantes (incluindo suas matérias-primas),
numa preferência clara pela empresa nacional. O ponto inovador desse plano era o item referente à preservação do meio-ambiente. No entanto, a
mensagem do Governo Federal era bem clara sobre esse assunto: não iria sacrificar o desenvolvimento industrial em função do avanço da poluição
(Brasil, 1974).
Assim, contando com a ajuda desses programas governamentais, entraram em
operação no município de Cubatão, entre 1955 e 1977, 22 empresas industriais dos mais variados portes [90].
Nenhuma delas encerrou suas atividades antes dos anos noventa. A única alteração que merece ser destacada foi a anexação da Fábrica de Fertilizantes
pela Ultrafértil.
Quanto às indústrias pioneiras, a antiga Cia. de Anilinas e Produtos
Químicos encerrou suas operações em 1965. Desta forma, Cubatão termina os anos setenta com 24 empresas industriais instaladas dentro de seus limites
[91].
Pela Tabela 15, podemos
constatar que até 1970, o Pólo Industrial de Cubatão era constituído, basicamente, por empresas estatais e transnacionais
[92]. Os três maiores complexos industriais (Refinaria, Cosipa e Ultrafértil) pertenciam ao Governo
Federal, enquanto todas as indústrias químicas, ditas dinâmicas, eram de origem estrangeira (Estireno, Copebrás, Alba, Union Carbide, Carbocloro,
Clorogil/Rhodia e Liquid Carbonic) [93].
Além das indústrias químicas, cabia também ao controle estrangeiro a Usina
Henry Borden (pertencente à gigante de energia Light and Power) e a Cimento Santa Rita. Ao capital privado nacional restavam apenas a pequena
Costa Moniz, a média Cia. de Anilinas e a grande Cia. Santista, remanescentes da primeira fase industrial do município [94].
|
TABELA 15
Indústrias em operação no município de Cubatão
no ano de 1980
|
|
Ano do início
das operações
|
Indústrias
|
Origem do capital
|
|
1912
|
Costa Moniz |
Privado Nacional |
|
1922
|
Cia. Santista de Papel |
Privado Nacional |
|
1926
|
Usina Henry Borden |
Estrangeiro |
|
1955
|
Refinaria Presidente Bernardes |
Estatal Federal |
|
1957
|
Cia. Brasileira de Estireno |
Estrangeiro |
|
1957
|
Alba |
Estrangeiro |
|
1958
|
Union Carbide do Brasil |
Estrangeiro |
|
1958
|
Copebrás |
Estrangeiro |
|
1963
|
Cosipa |
Estatal Federal |
|
1964
|
Carbocloro |
Estrangeiro |
|
1966
|
Clorogil/Rhodia |
Estrangeiro |
|
1968
|
Cimento Santa Rita |
Estrangeiro |
|
1970
|
Liquid Carbonic |
Estrangeiro |
|
1970
|
Ultrafértil |
Estatal Federal |
|
1971
|
Engeclor |
Privado Nacional |
|
1972
|
Fertilizantes União |
Privado Nacional |
|
1972
|
Liquid Química |
Estrangeiro |
|
1973
|
Engebasa |
Privado Nacional |
|
1974
|
Hidromar |
Privado Nacional |
|
1975
|
Petrocoque |
Estatal Federal |
|
1975
|
IAP |
Privado Nacional |
|
1976
|
Gespa |
Privado Nacional |
|
1977
|
Manah |
Privado Nacional |
|
1977
|
Adubos Trevo |
Privado Nacional |
O capital nacional privado só entrou, realmente, nesta segunda fase da
história industrial cubatense, durante a década de 70, com as indústrias de fertilizantes nitrogenados e fosfatados [95].
Embora tenham acrescentado um grande volume ao produto industrial da cidade, o predomínio da quantidade produzida continuou sendo das empresas
estatais e transnacionais (Tabela 16).
|
TABELA 16
Participação percentual das maiores indústrias
na
produção física do Pólo Industrial de Cubatão - 1971/1979
|
|
Indústrias
|
1971
|
1972
|
1973
|
1975
|
1976
|
1977
|
1978
|
1979
|
| RPBC |
68,0
|
64,0
|
60,2
|
72,5
|
62,9
|
48,1
|
47,8
|
43,2
|
| Cosipa |
12,3
|
14,3
|
12,7
|
8,7
|
13,0
|
18,5
|
13,3
|
15,2
|
| Ultrafértil |
5,2
|
5,7
|
7,2
|
6,8
|
8,2
|
13,5
|
13,6
|
12,5
|
| Santa Rita |
4,2
|
3,9
|
3,8
|
2,0
|
1,8
|
1,4
|
1,6
|
2,3
|
| Copebrás |
4,0
|
4,7
|
5,1
|
3,7
|
7,6
|
7,2
|
6,6
|
6,7
|
| Carbocloro |
2,8
|
2,6
|
3,1
|
1,4
|
1,8
|
1,5
|
1,7
|
1,6
|
| União |
--
|
1,2
|
3,9
|
1,3
|
0,3
|
3,0
|
2,8
|
3,5
|
| Manah |
--
|
--
|
--
|
--
|
0,1
|
0,3
|
3,2
|
3,8
|
| IAP |
--
|
--
|
--
|
1,0
|
0,9
|
1,6
|
2,3
|
4,0
|
|
Fonte: PMC (1976,1981)
Obs.: A produção da Ultrafértil inclui a produção da Fábrica de Fertilizantes (Petroquisa). |
Apesar do bom desempenho do pólo cubatense nos anos setenta, quatro projetos
industriais foram abortados. Três fábricas de fertilizantes (Pinhal, Quimbrasil e Granutec) tiverem seus projetos suspensos, mesmo depois de terem
comprado seus terrenos em Cubatão.
O pior caso foi o da Bayer do Brasil, indústria química transnacional, que interrompeu
a construção de sua fábrica em Piaçagüera, quando as obras de construção civil já estavam em ritmo acelerado. Ainda hoje podem ser vistas as ruínas
de suas construções. O motivo desses projetos cancelados pode ser encontrado no abandono do II PND pelo Governo Federal, que cortou linhas de
crédito para novos projetos (Lessa, 1998).
Neste momento, deve-se esclarecer que nem todas estas indústrias eram de
grande porte, como muitas vezes é assinalado na imprensa e mesmo em teses acadêmicas [96].
Podemos dividir as indústrias de Cubatão, no final dos anos 70, em três grupos (pequena, média e grande), conforme o indicador que se queira
utilizar.
Na Tabela 16, relacionamos as maiores indústrias cubatenses
pela sua produção física. Nota-se que, em 1971, havia duas grandes indústrias: a RPBC e a Cosipa, que representavam 80,3% da produção física (em
toneladas) de todo o Pólo Industrial. No grupo das médias, estavam as novatas Ultrafértil e Cimento Santa Rita, além da antiga petroquímica
Copebrás. Já na classificação de pequenas estavam todas as outras indústrias, inclusive as petroquímicas.
Quando saímos de 1971 e vamos para o final da década (1979), percebemos que essa
divisão de grandeza se altera. Como grande indústrias aparecem agora três empresas: RPBC, Cosipa e Ultrafértil, que representavam 70,9% da produção
física total. Como médias, tínhamos a Copebrás e as novas indústrias de fertilizantes (IAP, Manah, União e Trevo). As petroquímicas continuavam
fazendo parte das pequenas indústrias.
Essa classificação das empresas se modifica quando relacionamos as indústrias pelo
valor de sua produção (Tabela 17). Observamos que a RPBC, apesar de manter a liderança, tem sua margem percentual reduzida,
pois sua produção física representava uma percentagem maior no Pólo do que o valor de sua produção. Esse fato é explicado pelo valor da produção das
indústrias ditas petroquímicas (entre elas, a Estireno, Alba, Carbide e Petrocoque), que têm percentuais maiores no valor da produção do que na
produção física, demonstrando que seus produtos possuem um valor agregado maior que os da RPBC.
|
TABELA 17
Participação percentual das maiores indústrias
no valor da produção do Pólo Industrial de Cubatão - 1971/1979
|
|
Indústrias
|
1971
|
Indústrias
|
1975
|
Indústrias
|
1979
|
| 1 - RPBC |
62,3
|
1 - RPBC |
53,9
|
1 - RPBC |
42,0
|
| 2 - Cosipa |
19,7
|
2 - Cosipa |
19,8
|
2 - Cosipa |
25,6
|
| 3 - Ultrafértil |
3,8
|
3 - Ultrafértil |
9,8
|
3 - Ultrafértil |
11,0
|
| 4 - Copebrás |
2,9
|
4 - Copebrás |
4,5
|
4 - Copebrás |
6,4
|
| 5 - Santista Papel |
2,4
|
5 - Estireno |
2,5
|
5 - Estireno |
2,0
|
| 6 - Carbide |
2,1
|
6 - Carbide |
2,4
|
6 - Trevo |
1,9
|
| 7 - Alba |
1,4
|
7 - Santista Papel |
1,9
|
7 - Carbide |
1,8
|
| 8 - Estireno |
1,3
|
8 - Carbocloro |
1,1
|
8 - IAP |
1,6
|
| 9 - Santa Rita |
1,1
|
9 - Alba |
1,0
|
9 - Carbocloro |
1,3
|
| 10 - Carbocloro |
0,9
|
10 - União |
1,0
|
10 - Manah |
1,1
|
|
Fonte: PMC (1976, 1981)
Obs.: A produção da Ultrafértil inclui a produção da Fábrica de Fertilizantes (Petroquisa). |
O mesmo acontece em relação às
indústrias de fertilizantes. Enquanto quatro dessas indústrias (Manah, IAP, Trevo e União) representavam, em 1979, 12,4% da produção física do Pólo,
seu valor de produção era de somente 4,9%. Já as quatro indústrias petroquímicas (Estireno, Alba, Carbide e Petrocoque), embora tenham apenas 2,2%
da produção física, possuíam, neste mesmo ano, 4,9% do valor da produção total do Pólo [97].
NOTAS:
[86] "A
fábrica de fertilizantes construída pela Petrobrás, em Cubatão, que deverá entrar em produção regular em 1958, representa um investimento já
realizado de Cr$ 950 milhões. A fábrica necessita ainda de algum equipamento adicional, já em aquisição, no valor de US$ 800 mil"
(Brasil, 1958:106).
[87] "Assim
é que novas iniciativas, como a Cosipa e a Usiminas, são imprescindíveis e estão sendo decisivamente ativadas para prevenir uma escassez de chapas e
tiras largas no próximo decênio" (Brasil, 1958:118).
[88] "A
indústria química vem-se desenvolvendo de forma acentuada nos últimos anos, não obstante a carência de algumas matérias-primas indispensáveis, como
o enxofre e o gás natural, e a insuficiência da produção de outros, como a soda cáustica e o carboneto de sódio (...)
"O esforço de produção inicial, feito pela Petrobrás e por algumas empresas
particulares, resultou em várias unidades produtivas em pleno funcionamento, mas que, dimensionadas para um mercado menor, atualmente só atendem a
pequena fração da procura. Por isso, assume grande importância a execução de um programa prioritário de expansão da indústria petroquímica que
permita não só a redução das importações, como também a utilização de subprodutos e matérias-primas básicas.
"A política econômica do setor da indústria química consistirá em: a) estímulo à
iniciativa privada nos ramos da indústria química e petroquímica substitutiva de importações; b) expansão da fábrica de matérias-primas pela
Petrobrás, a fim de proporcionar abastecimento às unidades petroquímicas" (Brasil, 1965:194/196).
[89] "As
importações, que em 1963 somaram 28 milhões de dólares, cobrem toda a oferta de potássicos e mais da metade dos nitrogenados e fosfatados. Cumpre,
portanto, apoiar as iniciativas que visem a desenvolver a produção nacional. O governo vem acompanhando, na produção de nitrogenados, o projeto da
C.S.N., além de dois outros originados de estudos da Petrobrás, em Cubatão e Salvador, baseados na utilização de gás natural"
(Brasil, 1965:196/197).
[90] "O
conjunto analisado é, na sua quase totalidade, constituído por indústrias grandes e dinâmicas. Representam uma fase nova da economia do Brasil: não
são mais simplesmente indústrias de substituição. São, quase todas, indústrias de bens de produção, indústrias de matéria-prima, altamente equipadas
de forte poder germinativo e portanto capazes de participar ativamente de um processo de crescimento econômico" (Goldenstein,
1972:313).
Para Suzigan (1992:89), "a estrutura da indústria
brasileira foi substancialmente ampliada e aprofundada entre meados dos anos 50 e fins da década de 70 (...) O padrão de desenvolvimento
caracterizava-se pela liderança das indústrias metalmecânicas e químicas. Os segmentos mais dinâmicos eram os de bens duráveis de consumo e bens de
capital, que ‘puxavam’ o crescimento dos respectivos setores fornecedores de insumos".
[91] Desde o início de sua
emancipação política (1949), Cubatão concedia isenção de impostos às indústrias que se instalassem no município. A primeira lei, nesse sentido, foi
a n.º 21, de setembro de 1949, que concedia isenção de impostos às indústrias que fossem instaladas dentro de três anos.
A única empresa que se instalou nessa fase foi a Refinaria, mas ela não atendia a
todos os requisitos. Ou seja, nenhuma empresa foi favorecida pela lei. Entre 1972 e 1975, novas leis são editadas dando isenções a novas indústrias.
Mesmo assim, apenas uma empresa, a IAP, conseguiu isenção (Peralta, 1979:217/218).
[92] "No
tripé em que se baseou a industrialização brasileira desde meados dos anos 50, formado pelas empresas do Estado, do capital privado e do capital
estrangeiro, a estas últimas coube compartilhar com as empresas estatais o papel de principal protagonista. Sua participação direta na produção
manufatureira não constitui por certo uma novidade histórica [vide a própria Light em Cubatão], mas intensificou-se notavelmente a partir da época
mencionada" (Serra, 1998:84).
[93] "Domina
a paisagem os setores produtivos estatais, considerando-se, especialmente, a Refinaria Presidente Bernardes da Petrobras e a Cosipa. A figura do
Estado aparece como a entidade acima de Cubatão e que a domina" (Damiani,1984:17).
[94] Dessa maneira,
é correta a afirmação de que "Cubatão retrata a situação do país no que concerne aos capitais:
as empresas são estatais ou subsidiárias de sociedades estrangeiras. É fácil concluir que isto decorre do pouco capital de que dispõe a iniciativa
particular" (Goldenstein, 1972:200).
Rattner (1972, 117) vai na mesma linha: "Em resumo, uma
das conseqüências desta ‘industrialização por substituição de importações’, realizada sob o impacto de acontecimentos externos, foi a tendência
progressiva para o afastamento dos empresários das atividades industriais, seja através do desvio de recursos para outras áreas e setores da
atividade econômica, à procura de maior e mais rápida lucratividade, seja pelo ingresso nos setores-chave da economia mundial, do capital estatal e
dos estrangeiros".
[95] O II PND, de meados
dos anos setenta, tinha entre seus objetivos fortalecer a empresa nacional: "Vimos como o Estado ciosamente buscou com o II PND executar uma
Estratégia gradualista de recuperação da hegemonia do capital nacional" (Lessa, 1998:291).
[96] Assim, deve ser vista
com cautela a afirmação de Goldenstein (1972:201): "Não são indústrias que nasceram pequenas e depois cresceram. Constituem, com exceção das
antigas, empreendimentos grandes e modernos, baseados em tecnologias modernas. Os capitais estrangeiros foram atraídos pela oportunidade de
ingressar – em geral com atividade pioneira no país – num gênero de indústria que já desenvolviam com êxito em seus países de origem".
[97] Note-se que não
estamos incluindo a Copebrás nessa soma, pois, além de ser uma indústria petroquímica, é também uma indústria de fertilizantes, tendo grande
produção física quanto monetária. |