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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - INCLINADOS...
Prédios inclinam mais que Pisa... e caem! (2)

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Devido às características do subsolo santista e à imprevidência de alguns construtores, muitos edifícios sofreram fortes recalques, ao ponto de inclinarem mais que a famosa torre italiana da cidade de Pisa. Os procedimentos para a recuperação desses prédios inclinados, aliás, foram estudados pelos técnicos italianos encarregados de recuperar aquela torre medieval européia. Outros prédios nem chegaram a se inclinar: desabaram durante a construção.

Em 1977, a forte inclinação observada no edifício Excelsior, na confluência das avenidas Bartolomeu de Gusmão e Siqueira Campos (canal 4), chegou a causar a interdição do prédio, só liberado mais de um ano depois, como noticiou o editor de Novo Milênio, atuando então no jornal santista A Tribuna, na edição de 4 de agosto de 1978:

Imagem: reprodução

Excelsior já habitado

Quatro famílias já passaram a noite no Edifício Excelsior, ontem liberado para habitação em conseqüência da liminar concedida pelo Fórum santista ao mandado de segurança impetrado pelos condôminos. Diversos condôminos também já estiveram ontem no prédio para uma vistoria nos apartamentos e para o início de pequenos reparos, devendo pelo menos mais duas famílias se instalarem no Excelsior hoje e várias outras, nos próximos dias. Na portaria do prédio foi afixada cópia do certificado expedido pelo escrivão Jandyr Pinto, confirmando a liminar concedida pelo juiz Mozar Costa de Oliveira. Um porteiro controla a entrada de pessoas no prédio e tem ordem de impedir a entrada da imprensa no local.

Entretanto, os condôminos se mostram contentes e até aliviados pela volta aos apartamentos, como conta Palmira Cramer, parente do síndico do prédio, e que esteve no local para vistoriar o apartamento. Ela ficou morando com os filhos na Rua Teixeira de Freitas, em um imóvel próprio destes.

O síndico Emílio Cramer explica que em parte esse alívio se deve ao fato de os contratos de aluguel que os moradores haviam feito, durante o tempo em que o prédio esteve interditado, já terem vencido, e todos aguardavam alguma solução - desinterdição, ou não, do Excelsior - para decidirem pela renovação ou rescisão dos contratos de aluguel. Cramer disse ainda que a maioria dos condôminos soube da notícia pelos jornais, e assim muitos ainda não tomaram conhecimento do fato - grande parcela reside em outras cidades, atualmente.

Aproximadamente 30 por cento dos apartamentos eram habitados antes da interdição - ocorrida em junho de 1977 -, dos quais cerca de 10 eram alugados. O restante dos imóveis pertence a pessoas residentes em São Paulo e em outras cidades, as quais costumavam utilizar os apartamentos nos fins de semana e temporadas de férias.

As lojas também voltarão a funcionar, e o síndico tem conhecimento de vários negócios pendentes e outros realizados ainda no tempo da interdição, e vários interessados já o procuraram para alugá-las. Agora, com a grade metálica que rodeia o prédio, acredita o síndico que haverá uma revalorização das lojas, pois a segurança é maior durante a noite (além da grade, há vigias como garantia contra roubos), e de dia os portões ficarão abertos para o público, que, na opinião do síndico, certamente contará com estabelecimentos comerciais mais requintados.

Entretanto, só haverá uma revalorização geral do prédio com o passar do tempo, conforme se for percebendo que o Excelsior voltou a ter estabilidade. Quanto ao edifício-garagem que estava sendo construído, atrás do Excelsior, teve seu contrato de obras suspenso, estando o serviço parado.

Emílio Cramer voltou na noite de ontem a sugerir que a Prefeitura montasse um órgão de consultas técnicas de engenharia, para atender a casos como o do Excelsior e de outros edifícios cuja situação atual é muito mais grave que a de seu prédio à época da interdição. A própria Prodesan - que é cliente da Consultrix - poderia montar esse departamento, para uso seu, da Prefeitura e mesmo de terceiros - no mesmo sistema da Usina de Asfalto e do Centro de Processamento de Dados. Lembra ele que há 10 anos não se falava em recalque de fundações na Cidade. Hoje, inúmeros prédios estão em situações semelhantes às do Excelsior, e daqui a alguns anos talvez inúmeros outros enfrentem esse problema.

Emílio Cramer já fez essa sugestão ao prefeito Antônio Manoel de Carvalho, mas este teria alegado falta de verbas. "Mas - continua ele -, há necessidade desse departamento, e há que se enfrentar o problema de verbas, ainda que as consultas sejam cobradas dos condôminos. Há que se corrigir a quase forçada omissão do setor de fiscalização, não o condenando, mas dando-lhe equipamento para poder executar esse serviço. É preciso ver que para uma empresa do ramo elaborar um laudo técnico necessita ter em mãos dados sobre a obra, desde as sondagens do solo para a construção do imóvel até o momento da peritagem. E ninguém melhor para ter esses dados do que a própria Prefeitura".

A liminar concedida pelo juiz Mozar Costa Oliveira, desinterditando o prédio, tem caráter provisório, já que a desinterdição definitiva só poderá ocorrer dentro de aproximadamente 40 dias. O chefe do Executivo tem 10 dias, a contar da notificação judicial, para apresentar sua defesa, e o processo de desinterdição continuará ocorrendo até ser proferida a sentença final pelo juiz. O prefeito Antônio Manoel de Carvalho não chegou a comentar a sentença, por se encontrar ausente da Cidade.

Uma das análises mais antigas sobre o tema dos prédios inclinados da orla praiana santista foi publicada pelo jornal Folha de São Paulo, em 5 de abril de 1987:


O prédio maior, localizado em Santos, pende para um lado
Foto: José Esteves, publicada com a matéria

Prédios em Santos entortam como a torre de Pisa

Da Reportagem Local

"Antes a gente subia três degraus para chegar ao prédio, agora desce o mesmo tanto", reclama Paulo Roberto Flores, proprietário de um ateliê no térreo do edifício Excelsior, em Santos (85 km a Sudeste de São Paulo, no litoral), que sofreu forte inclinação, a exemplo da torre de Pisa, na Itália. "Tive o maior trabalho para pendurar os quadros".

No mesmo Excelsior, a professora de arte aposentada, Luíza de Castro, garante, no entanto, que não precisou acertar um quadro na parede. "A vida aqui é normalíssima". O vizinho do ateliê também parece não ver problema e, numa demonstração de bom-humor, anuncia na placa: Choperia Torto.

O drama do edifício Excelsior, que entortou cerca de um metro em cinco anos, começa no solo de Santos, mas não é nenhuma novidade para os santistas ou turistas habituados a passear pelos jardins da orla. A Prefeitura não possui números, mas basta um olhar da praia em direção à linha de edifícios para ver que é grande o número de prédios da região, especialmente no Boqueirão e no Embaré, que sofreram algum tipo de inclinação.

O mais flagrante é o edifício Núncio Malzoni, bem próximo ao Excelsior, no Boqueirão, mas há muitos outros exemplos, como o do Conjunto Jardim do Atlântico. Os moradores ou não gostam de falar a respeito ou garantem que já se acostumaram e não percebem mais que a mesa precisa de calços e o carrinho de chá às vezes escapa e corre até a parede.

Já na época de sua inauguração, em 1970, o Excelsior começou a apresentar o que os técnicos chamam de recalque - um problema causado pela formação do solo de Santos, só comparável ao de Amsterdã, capital da Holanda. Os dois só perdem, segundo os técnicos, para o da Cidade do México, localizada na cratera de um vulcão que, ao se extinguir, formou um dos solos mais moles do mundo.

Em Santos, há na superfície do solo uma camada de areia de cerca de dez metros, bastante rígida, onde se assenta grande parte das fundações dos edifícios. Mas a areia é seguida de outra camada de argila, ainda moderna em termos geológicos, que cede sob a pressão do peso das muitas edificações. Segundo o professor titular do Departamento de Estruturas e Fundações da Escola Politécnica, Victor Froillano de Mello, o solo santista repete uma formação comum a quase todo o litoral brasileiro - em maior ou menor grau, que depende de a faixa litorânea se encontrar ou não diante de mar aberto. A calmaria do mar diante de baías ou em praias protegidas por ilhas acentua o problema, já que em mar aberto a velocidade das ondas só permite depositar areia, bem mais sólida que a argila.

Desvalorização - O engenheiro Reinaldo Tuzzolo, chefe da Divisão de Obras Particulares da Prefeitura de Santos, acredita, no entanto, que os prédios não oferecem perigo. A questão é mais estética e de desconforto, diz, apoiado pelo secretário de Obras e Serviços Públicos, Manuel Gomes da Silva. Somente o atual código de obras, aprovado em julho do ano passado, prevê fundações mais profundas para prédios com mais de doze andares, o que impediria o processo de recalque. De fato, a inclinação dos prédios já construídos não preocupa particularmente os encarregados pela sua fiscalização. "Só fazemos um acompanhamento à distância. Os fiscais são os próprios moradores", diz Tuzzolo, para quem o processo de recalque é muito lento e tende a se estabilizar em cerca de dez anos.

No entanto, o professor Victor de Mello, também consultor do grupo Studio Geotécnico Italiano, de Milão, encarregado pelo governo da Itália de realizar estudo para impedir que a torre de Pisa caia, tem opinião diferente. Segundo ele, os prédios mais antigos - da década de 50 - ainda não interromperam o processo de recalque. Mello diz que "quando as coisas são muito lentas, a natureza vai se acomodando", mas, de qualquer forma, afirma que está "absolutamente certo" de que, com o tempo, alguns dos prédios santistas chegarão a um estado de "pré-ruína". Se cairão, depende do controle exercido pelos condomínios.

A advogada Carminda Iglesias Monteiro Peres, mulher do síndico do Excelsior, diz que o condomínio, a exemplo de outros prédios santistas, manda realizar medições a cada ano e as duas últimas revelaram a estabilidade do recalque. Mas ela afirma ter dúvidas a respeito, pois os pontos de medição foram destruídos há alguns anos. De qualquer forma, a situação não é muito preocupante, afirma, já que o Excelsior passou por obras de reforço no final da década de 70, quando foi evacuado, por mais de dois anos, por medida de segurança. Segundo a advogada, que já defendeu na Justiça causas semelhantes, a construtora é responsável pelas despesas de reforço de fundação até cinco (N.E.: ...anos...) após o habite-se. Depois disso, os encargos correm por conta do condomínio.

Operação pioneira - São Paulo também tem seus exemplos de recalques, como o ocorrido no edifício Copam, na avenida Ipiranga, no centro, que exigiu obras de reforço. Mas um deles, hoje considerado um exemplo clássico, acabou se tornando um sucesso tecnológico internacional. Já no final da construção da sede da Companhia Paulista de Seguros, em 1942, na rua Líbero Badaró, no centro, o prédio, de 26 andares, começou a apresentar uma inclinação considerável e ameaçadora num dos lados. As sondagens realizadas no terreno não haviam detectado diferenças no solo e uma construção ao lado provocou escorregamento imprevisto no terreno.

Para salvar o edifício, foi adotada "a solução mais sofisticada para a época", declara o engenheiro Armando Negreiros Caputo, da empresa Franki, encarregada das fundações, e também professor de Mecânica do Solo e Fundações da Universidade Santa Úrsula, no Rio. Foi preciso congelar o solo, transformando-o em rocha sólida até que as fundações fossem reforçadas. O prédio foi, então, devolvido a seu prumo através de macacos hidráulicos, numa operação que levou cerca de um ano.


Na Av. Bartolomeu de Gusmão, em frente à praia santista do Boqueirão,
o edifício Núncio Malzoni (à direita) também se inclina
Foto: José Esteves publicada com a matéria

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