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NA LIBERDADE - Inês e Helena são, provavelmente, as únicas filhas vivas do
ex-escravo Anísio José da Costa. No lugar onde nasceram e moram até hoje, o Embaré, elas relembram históricas contadas pelo pai
Foto: Luiz Fernando
Menezes, publicada com a matéria
HISTÓRIA
Inês e Helena, livres da escravidão
No Embaré, vivem as duas únicas filhas do
ex-escravo e ensacador Anísio José da costa, o Maninho
Thiago Macedo
Da Redação
A
pele negra, os olhos escuros, os rostos marcados por uma vida dura. Os passos de uma são firmes, os da outra estão trôpegos, as
lembranças de um tempo que era bom - apesar de tudo - ainda estão na memória. Os carnavais, a vida sem carros, sem prédios, sem
violência. A imagem do pai. Um negro. Forte. que trabalhou até os 108 anos de idade. Um negro que foi escravo, lavrador e
ensacador de café. Um negro que teve seu corpo marcado a ferro quente por seu dono. Que foi preso por grilhões. Que reconstruiu
a sua vida na liberdade.
Hoje, Helena da Costa está com 83 anos. Sua irmã, Inês, tem 84. As duas são as
únicas filhas vivas do negro Anísio, conhecido como Maninho. Elas vivem no mesmo lugar desde que nasceram. O lugar conquistado
por seu pai, quando a Rua da Liberdade, no Embaré, ainda era apenas mato. E provavelmente são as únicas filhas de escravo ainda
vivas na Cidade.
As irmãs sempre trabalharam em casas de famílias. O primeiro emprego de Inês
foi aos 7 anos. Nunca deixou de trabalhar. Sempre gostou de passear, conversar, namorar. "Se pudesse, namoraria até hoje".
Casou-se três vezes, teve 10 filhos. Agora, sofre com problemas de saúde. Helena ainda está firme. Caminha todos os dias, criou
vários filhos de outras famílias. Nunca sobrou tempo para cuidar dos seus. Não teve filhos. Não se casou.
Na face das irmãs, as marcas deixadas pela vida de batalha. Batalha que o pai
travou por 110 anos. Maninho morreu em 1940, com um século e 10 anos de vida. Mas antes, aos 90 anos, se casou com dona
Brasília, que tinha 25 anos. Maninho era viúvo e já tinha três filhos. Maninho teve mais sete com dona Brasília. Duas delas são
Helena e Inês, que antes chamavam-se Serena (Helena) e Idê (Inês). Os nomes foram modificados pelo padre pois dizia que eram
pagãos.
| Número |
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120
anos atrás, no dia 13 de
maio de 1888, foi concretizada legalmente a abolição da escravatura no Brasil |
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No livro de registro do Sindicato dos Ensacadores, o nome de Maninho aparece
em 1935. Aos 105 anos de idade, o negro ex-escravo ainda carregava sacas de café no Porto de Santos. Trabalhava em uma empresa
chamada Procópio Carvalho S/A.
No dia de sua morte, a casinha simples no Embaré estava lotada. As pessoas
queriam ver o homem que, com um século de vida, ainda trabalhava como um jovem. A Tribuna acompanhou o velório e, na
edição do dia 25 de abril de 1940, publicou: "Morreu, anteontem, o macróbio Anísio José da costa. Cento e dez anos de vida teve
esse homem!" Homem que considerava princesa Isabel uma santa. QUe sabia tocar violão e por vezes contava aos filhos como era a
vida de escravo.
Maninho não tinha religião. Acreditava em Deus, mas não seguia os preceitos da
Igreja Católica. As filhas não lembram muito bem, mas dizem que o pai carregava uma estrela de Davi no pescoço. No dia de sua
morte, foi um frade que encomendou o seu corpo.
Quando o marido morreu, dona Brasília tinha cerca de 45 anos, ainda viveu por
mais 55 anos. Viveu filhos e netos crescerem. Agora, a família de Maninho é muito grande. As suas filhas não sabem bem quantos,
só que são muitos. Muitos descendentes de um escravo que constituiu uma nova família aos 90 anos de idade.
Inês e Helena nasceram livres. Não têm donos. São filhas de um homem vítima de
uma das maiores insanidades do ser humano: a escravidão.
As duas sabem bem o que é trabalho duro. Sabem bem que a escravidão acabou.
Sabem que são livres. Sabem que "ainda há muito preconceito". E prezam a liberdade da mesma forma que seu pai, um dia, buscou.

Com 84 e 83 anos, Inês e Helena moram na Rua da Liberdade e guardam lembranças
das histórias contadas pelo pai, que viveu 110 anos
Foto: Luiz Fernando
Menezes, publicada com a matéria |
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Escravidão no Brasil
A escravidão no Brasil durou até 13 de maio de
1888, quando Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Antes disso, o movimento abolicionista havia conseguido várias conquistas. A
primeira delas foi em 1850. Nesse ano, o tráfico negreiro foi extinto. Duas décadas depois, em 1871, foi declarada a Lei do
Ventre Livre. Com a instituição dessa lei, os filhos de escravos que nascessem daquele momento em diante eram livres. Três anos
antes da abolição, em 1885, também foi aprovada a Lei dos Sexagenários. Os negros com mais de 65 anos ficavam livres. Até que em
1888 foi assinada a Lei Áurea.

Em 25 de abril de 1940, A Tribuna noticiou a morte de Anísio José da
Costa,
ocorrida dois dias
antes
Foto-reprodução,
publicada com a matéria |