| A campanha
da Abolição
[...]
A
reação popular, o movimento abolicionista propriamente dito,
só teria início em Santos e São Paulo, após
o término da Guerra com o Paraguai, em 1870.
Desde que se
fundara em São Paulo, em 1868, o Partido Liberal-Radical, onde se
enfileiravam inicialmente Rangel Pestana, Limpo de Abreu, Xavier da Silveira,
os dois Ottoni, Felício dos Santos e outros abolicionistas-republicanos
- precedendo a Campos Sales, Prudente de Morais, Bernardino de Campos,
Francisco Glicério e tantos mais que a ele se filiariam depois,
e cuja voz transmitia-se ao público pela Opinião Liberal,
cumprindo o seu programa de ação, onde constava, debaixo
da máscara pacífica, a campanha por todos os meios em prol
da substituição do braço escravo pelo braço
livre -, apareceram os primeiros sintomas de reação popular,
de vontade abolicionista da massa, prognosticando luta e triunfo.
Em Santos apareciam
os precursores da Abolição popular. Dona Francisca Amália
de Assis Faria iniciara o custodeamento dos primeiros negros fugidos, transformando
o quintal da sua casa num verdadeiro pequeno quilombo, e dela partiram
os primeiros convites a outras damas santistas para fazerem o mesmo.
Dentro em
pouco, em conseqüência da atividade abolicionista feminina,
orçavam por centenas as reclamações feitas às
autoridades pelos donos de escravos, contra o acoutamento dos fujões,
realizado pelas melhores famílias da cidade, tipo de abolicionismo
que dificultava as providências, já de si lentas e mais de
aparência das mesmas autoridades. Assim se subtraíram os primeiros
escravos às ignomínias do cativeiro, dentro da cidade de
Santos, salvando-se das torturas do retorno aos senhores e dos capitães-de-mato
[31].
O coração
da mulher santista, é preciso que se diga, foi o primeiro a gritar,
não apenas em Santos mas no Brasil, a declaração de
guerra ao escravismo e o início da fase de ação, proclamando,
com o seu exemplo, a necessidade da luta pela extinção do
bárbaro e retrógrado regime social.
Naquele mesmo
ano de 1870, outra santista fundava em São Paulo a primeira sociedade
libertadora, uma sociedade feminina, destinada a promover alforrias de
cativos; era D. Ana Benvinda Bueno de Andrada, esposa do Conselheiro Martim
Francisco Ribeiro de Andrada, o santista que por acaso nascera em Mussidan,
na França; filha de Antonio Manoel da Silva Bueno, homem ilustre,
natural de Santos que tivera assento nas Cortes Constituintes de Lisboa,
em 1821, e que se refugiara na Inglaterra com os demais deputados brasileiros,
cuja assinatura fora negada à ignominiosa Constituição
dos portugueses.
Dona Ana Benvinda
Bueno de Andrada foi a fundadora e primeira presidenta da A Emancipadora,
sociedade especializada em "libertação de escravas moças",
e um dos cobradores das mensalidades sociais foi seu filho, o então
menino e depois eminente político republicano, Dr. Bueno de Andrada.
No início
dessa segunda fase, apenas alguns vultos de Santos apareciam como forças
ativas e organizadoras da corrente idealista, solidificando o grande ideal
de solidariedade humana: Xavier da Silveira, Francisco Martins dos Santos,
Dr. Alexandre Martins Rodrigues, Joaquim Xavier Pinheiro e João
Octávio dos Santos.
Xavier da Silveira
pontificava na capital, como precursor de Gama e Antonio Bento, onde zurzia
os escravocratas com a candência do seu verbo poderoso e a elegância
da sua proteção ao cativo. Foi ele quem primeiro aconselhou,
precedendo a todos os apóstolos da idéia, a fuga em massa
dos sítios, das fazendas e das propriedades urbanas, levando seu
entusiasmo ao ponto de aconselhar aos cativos a reação física
violenta contra os senhores e os capitães-de-mato, defendendo-os
depois perante o júri, dessas violências cometidas, à
luz do Direito. Contaram-se por centenas os casos entregues ao seu cuidado
e as liberdades conseguidas por ele através de cenas muitas vezes
dramáticas.
O próprio
Luiz Gama sintetizou a ação de Xavier da Silveira, anos depois,
nestas palavras: "Enquanto Xavier da Silveira
viveu, a luz vinha de Santos, porque ele era o porta-bandeira da Abolição
na Província de S. Paulo e nós todos esperávamos sempre
a palavra de ordem que vinha dele". (SIC).
Como em sua
terra o sentimento popular apresentava melhor e mais generalizada tendência
abolicionista, Silveira encaminhava os fujões aos seus amigos e
parentes daqui, pedindo-lhes que os conservassem em custódia por
algum tempo, até que obtivessem as respectivas alforrias; e foi
tal a dedicação do grande tribuno e poeta pela raça
oprimida, que, ao primeiro fracasso sofrido no júri paulistano em
defesa dos seus constituintes gratuitos, ele abandonou-o para nunca mais
voltar às suas barras, e o seu arrebatamento desse instante ficou
na história com as palavras ditas ao negro condenado e aos jurados
que o condenaram:
"Sê
infeliz! Cumpre o teu destino angustioso e funesto, pária deserdado
de toda proteção social! Sê infeliz! A tua defesa foi
feita - se houve nela sombras, foram devidas à imensa noite de minha
própria nihilidade intelectual; se houve luzes, foram devidas às
chamas da caridade em que me abraso! Senhores jurados!
(disse num imenso grito, voltando-se para os julgadores). Eu
nunca mais voltarei ao júri de São Paulo!..."
De fato, Xavier
da Silveira nunca mais tornou ao tribunal popular da capital; voltou definitivamente
para Santos, sua terra, onde fundou o matutino A Imprensa, naquele
ano de 1871, com capital de José Ignácio da Glória,
e aí, durante três anos, os últimos que lhe restavam
de vida, foi o paladino do abolicionismo ativo, pugnando ainda mais violentamente
pela liberdade do negro que, na guerra do Paraguai, se nivelara ao branco,
vivendo as mesmas horas trágicas, dignificando-se dentro dos mesmos
heroísmos, conquistando a um tal preço os direitos sagrados
das criaturas [32].
Xavier da Silveira
e A Imprensa formaram um só bloco, tornando-se, ambos, a
base angular da grande campanha paulista que devia vencer em 88. Sua grande
voz clamou sempre pela igualdade dos homens, como chamara pela liberdade
de consciência na famosa questão Canganelli, surgida contemporaneamente,
secundando Rui e Saldanha Marinho no lançamento da semente que deveria
germinar pelo tempo adiante, dando origem à renovação
mental, cultural e social de sua Pátria.
Companheiro
do Silveirinha na luta que se iniciava era Francisco Martins dos Santos,
cabeça da intelectualidade santista de então; cidadão
prestante, escritor vigoroso, possuidor de vasta cultura, ligado pelo casamento
à família Andrada, ponto de partida de todas as iniciativas
locais, membro de várias organizações religiosas e
um dos veneráveis da Maçonaria em sua terra. Foi ele um grande
secundador de Xavier da Silveira, aconselhando o abolicionismo como fórmula
evolucionista, como necessidade social mais do que um simples dever de
humanidade e altruísmo, como condição primeira do
republicanismo, acoutando desde então, em sua chácara e nas
casas e sítios dos seus inúmeros amigos e parentes, uma legião
de escravos, procurando sempre generalizar aquela prática e o movimento
popular em favor da raça oprimida.
Por seu intermédio,
toda a corrente católica santista se encaminhou para o campo da
Abolição, fazendo causa comum com a corrente maçônica,
tornando possível a unanimidade verificada pouco mais tarde entre
todas as classes e camadas sociais santistas, e, assim, a própria
vitória que coroou o movimento em Santos, antes mesmo que a Abolição
oficial se fizesse em todo o Império. Sua qualidade de administrador
das Rendas da Província dava-lhe um realce de autoridade capaz de
influir no ânimo dos mais timoratos (num tempo em que isso era muito
importante), induzindo-os a trabalhar secreta ou declaradamente pela libertação
dos escravos de toda a Província.
O dr. Alexandre
Martins Rodrigues, outro grande abolicionista da primeira hora, fora juiz
municipal durante muitos anos em Santos, ao tempo da guerra com o Paraguai,
e era chefe também de numerosa e ilustre família, a cuja
sombra se desenvolveram os primeiros passos redentores dos cativos. Presidente
da Câmara Municipal, de 1877 a 1880, intelectual extremamente culto
e de alta mentalidade, jurista, liberal por princípio, foi um dos
bons organizadores do movimento deflagrado com a sua respeitabilidade e
o seu conceito, que atingiam dois setores importantes: o policial e o judiciário.
Seu apoio trouxera
a adesão de outro santista não menos respeitável,
o dr. Luiz Ernesto Xavier, que ocupara o juizado municipal em sua substituição,
e que se tornou como ele um fervoroso adepto da liberdade total dos cativos.
Quando veio para Santos o dr. Garcia Redondo, mandado pelo Governo Imperial
para fiscalizar e superintender os serviços de reformas e reconstrução
da Alfândega, em 1876, Alexandre Rodrigues
a ele se juntou, tornando-se ambos, no Diário de Santos e
no Comércio de Santos, verdadeiros gaganélis da campanha
iniciada por Xavier da Silveira.
Foi nessa época
que os seus esforços encontraram a grande cooperação
de Augusto Fomm e do grupo idealista formado por Hipólito da Silva,
padre Francisco Gonçalves Barroso, Sacramento Macuco e Antonio
Manoel Fernandes, grupo este que, em 1877, fundou O Raio, impetuoso
órgão de combate que tanto influiu na preparação
do espírito popular, naqueles primeiros anos de após-guerra.
O dr. Alexandre
Martins Rodrigues, que já fora uma vez despojado do cargo de juiz,
por força de suas idéias liberais e republicanas, chegou
depois a ter também sua posse no cargo de vereador municipal impedida
pelo Governo Provincial, que, contrariando o desejo do eleitorado livre,
ordenara à situação conservadora santista a utilização
de um processo político anterior, de forma a evitar que ele fizesse
parte da Câmara - o que não o impediu, entretanto, de que,
por seu grande conceito e seu grande valor, fosse eleito e fosse feito
Presidente da mesma Câmara, de 1877 a 1880.
Outro grande
entre os primeiros foi Joaquim Xavier Pinheiro, opulento proprietário
da caieira (fábrica de cal de sambaqui) do Paquetá,
no extremo da rua dos Quartéis (hoje
Xavier da Silveira), chefe liberal de largo acatamento, camarista a contar
da legislatura de 1877. Além do acoutamento proporcionado inicialmente
aos negros em seus sítios do Quilombo, tornou-se depois, na quadra
final de campanha, um dos maiores cooperadores, financiando, com outros
companheiros, diversos empreendimentos e o reduto livre do Jabaquara.
Afirmaram na
época, com desdouro para Xavier Pinheiro, que ele se aproveitara
dos escravos recolhidos em seus sítios, nos últimos anos
da campanha, empregando-os nos rudes trabalhos da lavoura e da coleta do
material calcário, nada lhes pagando em troca, violando assim as
próprias combinações estabelecidas entre os chefes
abolicionistas. Se o fez, o que não ficou provado, ele decerto o
teria feito para ressarcir-se dos prejuízos verificados com a sua
colaboração nas despesas da campanha, como viagens, alimentação
dos refugiados de Jabaquara, compra de alforrias, custeio de ações
juidiciais e outras de aparecimento constante, e isso, embora mal feito,
não lhe tira, porém, o mérito de haver sido um notável
abolicionista ativo, nem impede que a História o aponte como um
dos responsáveis pela Abolição popular na Província
de São Paulo.
João
Octávio dos Santos, também um dos grandes iniciadores do
movimento, era santista como Xavier da Silveira e Alexandre Martins Rodrigues
e um dos mais abastados negociantes da cidade, político considerado
e chefe liberal, camarista desde 1866 que devia ser presidente da Câmara
em 1883, benfeitor social, futuro criador do Instituto Escolástica
Rosa, ao qual legaria quase toda a sua fortuna. Foi um dos financiadores
das grandes despesas abolicionistas e um dos broquéis da própria
Abolição em sua terra, pela notoriedade e respeitabilidade
da sua figura social.
Esses foram
os precursores. A mocidade violenta da última quadra ainda estava
em embrião, crescendo, para levar ao triunfo definitivo o estandarte
da grande causa popular.
Em 1874 desaparecia
tragicamente sacrificado pela peste o campeão Xavier da Silveira.
Morria com apenas 34 anos de idade, em sua casa dos Quartéis, o
bairro que se tornara famoso nas lutas sanguinolentas
contra o Valongo. Com o seu desaparecimento
tão prematuro e inesperado, parecia periclitar a grande causa do
povo, parecia ficar na orfandade toda uma raça sofredora.
Surgiu então,
em plena evidência, o vulto generoso de Luiz Gama, que, vendido como
escravo na Bahia, pelo próprio pai, chegara um dia a Santos, seguindo
para São Paulo, onde, ao fim de algum tempo, pôde sentar praça,
passando depois a escrivão de polícia, a tipógrafo,
a estudante de Direito e finalmente a advogado eminente, companheiro de
banca do jurisconsulto santista Dr. Antonio Carlos Ribeiro de Andrada (o
II), tornando-se afamado tribuno, poeta, jornaista e novo campeão
da causa em favor da sua gente, substituindo a Xavier da Silveira.
Luiz Gama fez
ainda com mais violência, talvez, o que fizera o Silveirinha, mantendo
a chama viva do entusiasmo entre as hostes cada vez mais numerosas do abolicionismo
militante, mas não teve também o prazer de assistir ao triunfo
da causa, e de ver que, ainda depois de 1882, até final da campanha,
"a palavra de ordem", a que se referira falando do tribuno santista desaparecido
antes dele, continuara a partir de Santos, porque Santos era o alicerce
de todo o novo edifício social e moral em construção,
e porque nela é que ficaria o Jabaquara, expressão máxima
de abolicionismo no Brasil, retrato vivo da própria Liberdade sonhada
pela raça sofredora.
Contam-se
coisas formidáveis, já bastante divulgadas, a respeito do
advogado negro, mas um dos fatos marcantes da sua vida foi aquele ocorrido
em Santos, por ocasião do barulhento inventário do ricaço
português, o comendador Ferreira Neto, vereador à Câmara
Municipal, que construíra o grande edifício
do Largo Monte Alegre, fronteiro à Estação
da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, em dois lances, exageradamente
grande para a época, na esperança de ver nele instalado o
governo da Província [33].
No inventário
daquele homem de estranho progressismo constavam mais de cem escravos negros,
deixados como herança aos seus descendentes. Tomando a defesa dos
infelizes tornados objetos ou simples coisas, Luiz Gama, contendendo na
tribuna do júri com o renomado orador que era José Bonifácio
"o Moço" [34],
à força de argumentos jurídicos conseguiu vencê-lo,
tornando livres a todos os seus gratuitos constituintes, apesar de ser
o eminente paulista um dos maiores tribunos parlamentares e juristas do
Império e de haver contra os seus protegidos a sombra da ordem vigente
e o peso de interesses facilmente compreensíveis [35].
Veio de casos
assim e de outros de idêntica solução a sua grande
fama de apóstolo, fundando-se o seu renome de profissional em sua
real capacidade de jurista e orador.
Fazendo de
Santos o seu ponto de apoio, Luiz Gama foi em São Paulo o grande
alento da causa, já entrando em sua fase decisiva, sob um entusiasmo
cada vez maior do povo, como verdadeira revolução social
organizada.
O movimento
abolicionista continuou naquela marcha durante alguns anos, assistindo-se,
aqui e ali, ao repontar de uma força nova, mais um jornal, mais
uma adesão de firma ou nome, mais um fato alvissareiro, mais uma
vitória, mais fugas em massa, e a continuação do trabalho
desprendido, entusiástico, crescente, do povo paulista.
[...]
Notas:
[31]
Para vergonha do Império, esses capitães-de-mato eram criaturas
do Estado, tomavam posse oficial dos cargos, para desempenho de
sua função especializada, um misto de polícia
e cão de caça: pegar negro fugido e restituí-lo ao
senhor, usando para isso dos processos que entendesse em relação
à vítima.
[32]
Durante a guerra contra o Paraguai, o negro, como propriedade normal e
indiscutível do branco, era mandado a eito para os campos de batalha,
e quando o senhor comum queria livrar um filho dos riscos daquela guerra,
que durou cinco anos, oferecia um ou dois negros em seu lugar, o que era
sempre aceito.
[33]
Era o que contavam, talvez pilheriando, tal o vulto da construção,
afirmando que alguns deputados provinciais e o próprio Presidente
haviam prometido a transferência do governo para Santos, caso ele
se dispussesse a construir um edifício capaz de comportar todas
as Secretarias. Santistas idosos ainda contavam isso em 1930.
[34]
Evaristo de Moraes - "A Campanha Abolicionista", pág. 259.
[35]
Na época talvez houvesse uma explicação para a defesa
do ilustre Andrada; hoje, diante da vida e da fama do aureolado descendente
do Patriarca, aquela intervenção de José Bonifácio
"O Moço" contra os 100 infelizes, é verdadeiramente incompreensível,
estranha, inaceitável. O curioso é que Luiz Gama representava,
de algum modo, a banca de outro Andrada, o mestre Antônio Carlos.
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