| A campanha
da Abolição
[...]
A
Abolição, não somente afastando da civilização
brasileira a nódoa moral-social do cativeiro, mas também
evitando ou limitando a continuidade de uma participação
étnica, sincera e realmente indesejável, causadora de tantos
males sociais ao Brasil, permitiu, ao mesmo tempo, a reabilitação
de um grande grupo humano pela liberdade e pela igualdade, e, ainda, a
renovação da agricultura nacional e a melhora de todos os
seus índices, pela adoção ampla e sistemática
do trabalho livre, digno e superiormente produtivo, pela instituição
oficial
das correntes imigratórias.
Por sua vez,
a República, afastando do País
a estagnação agrícola e industrial em que o império
o mantivera - quer pelos processos, quer pelo tipo de trabalhador, quer
pela centralização excessiva da administração
pública, da política, e do Poder em suma, que atrofiava as
províncias e, conseqüentemente, as comunas, atingindo todos
os setores -, desarrolhou o progresso geral, resolveu problemas diversos
de âmbito provincial e municipal, libertando as idéias, as
iniciativas públicas e privadas e a capacidade improvisadora dos
brasileiros, socializando a riqueza, construindo um novo Brasil.
E não
poderíamos, ainda que o quiséssemos, destacar e isolar um
movimento do outro, tal o sincronismo em que ambos funcionaram a partir
de 1870, vividos e acionados pela mesma gente, dinamizados pelos mesmos
homens, rematados pelo mesmo espírito.
José
Bonifácio de Andrada e Silva, o Velho Óleo
de A. Godói, na Câmara Municipal de Santos/SP
Quis
mesmo o Destino que a Santos coubesse, por intermédio de um santista
ilustríssimo, a primeira prova pública de abolicionismo prático.
José Bonifácio, em sua chácara dos Outeirinhos, libertava
os seus escravos logo ao princípio de 1820, proclamando a necessidade
de equipará-los aos brancos e de substituí-los pelo braço
livre. "Nenhum problema, em seu entender,
devia ser resolvido com maior presteza. Desde que chegara da Europa, vira
com toda lucidez os males horríveis do trabalho servil, as misérias
da sociedade de senhores e escravos que se formara, inumana, injusta, imoral,
corrompida e corruptora", como cita o ilustre
Octavio Tarquínio de Sousa - "E pretendera
logo, no Sítio dos Outeirinhos, em Santos, dar ele mesmo uma prova
de que se poderia fazer alguma coisa no Brasil sem escravos e sem senzalas".
Pouco depois,
naquele mesmo ano de 1820, escrevia ele a Tomás Antonio de Vila
Nova Portugal, o grande ministro de D. João que o fizera vir do
Reino para realizar a Revolução da Independência: "Já
estou feito lavrador de quatro costados e já cultivo, ut prisco
gens mortalium, com as próprias mãos a minha horta",
e, mais adiante: "...trabalho de dia e de
noite e tudo isto com gente livre e alugada, sem precisar de escravatura
que detesto e querendo dar a esta gente o exemplo do que devem fazer, para
se pouparem, para o futuro, as grandes infelicidades que ameaçam
aos vindouros do Brasil" [24].
Dois anos e
pouco mais tarde, em outubro de 1822, logo após a Independência
- obra sua, conforme previra o ministro Tomás Vila Nova Portugal
mandando-o vir de Lisboa -, escrevia José Bonifácio a Caldeira
Brant, em Londres, pedindo-lhe que conseguisse trabalhadores rurais ingleses,
para estabelecê-los no Brasil. Já a 26 de dezembro, providenciando
o que lhe determinara José Bonifácio, o embaixador e futuro
Marquês de Barbacena dirigia uma carta a Antonio V. Meireles Sobrinho,
residente em Liverpool:
"Desejando
o Exmo. Sr. José Bonifácio de Andrada convencer aos seus
compatriotas por um exemplo prático que a cultura por braços
livres é muito mais vantajosa do que a de escravos africanos, me
tem encarregado de mandar-lhe ao menos 600 cultivadores ingleses e com
a maior brevidade possível".
A 16 de janeiro
de 1823, Caldeira Brant comunicava ao Ministro do Império e dos
Estrangeiros, "em cumprimento das ordens recebidas", a partida de cinqüenta
trabalhadores pelo navio Lawpin - e, dois meses depois, em nova
carta, aludia ao embarque de mais duzentos [25].
Consumava-se
a grande sementeira, extraordinariamente humana e patriótica do
"Patriarca", que, pouco depois, neste último ano (1823), rematando
o que fizera como cidadão, entregava como político e parlamentar,
à consideração da Assembléia Constituinte do
Império, a sua famosa "Representação sobre a Escravatura",
peça magnífica, onde a capacidade de um homem e a dignidade
de um cidadão revelavam toda a miséria social já produzida
pelo escravismo, e todas as desgraças que ela devia ainda proporcionar
ao novo país em formação, sugerindo, porém,
os meios de extingui-la, sem choque para a economia particular, sem síncope
para a nação [26].
Sua autoridade
no caso era absoluta, pois que suas palavras condiziam inteiramente com
o seu pensamento e com a sua ação, para não dizer
com o seu sentimento, porque ele não agia como coração
naquele caso, mas como cérebro.
Durante a elaboração
daquele monumento de fraternidade, de mentalidade e de cultura, parece
ter-se inspirado o "Patriarca" no exemplo vivo de sua própria terra
natal, pequena vila então, de 4.700 habitantes, dos quais 2.000
eram escravos e 2.700 livres, e que sofria terrivelmente as conseqüências
do mal combatido, pagando-o com a apresentação, rigorosamente
demográfica, de 1.400 mestiços, mulatos, cafusos e caribocas
entre as duas populações, quase a terça parte de ambas,
motivo indiscutível, por força da organização
e das leis do Império, do seu atraso material, higiênico e
social de então.
Apesar de não
combater somente o estado social brasileiro, estagnado e mórbido,
decadente pela mestiçagem avultante e escrava, mas de apresentar
também as medidas de previdência e aplicação
necessárias à extinção do escravismo sem choque
imediato para o capital, seu projeto caiu, diante da barreira intransponível
do sistema político, da desumanidade e dos interesses em jogo, que
empolgavam o próprio Clero, cujo reino, segundo afirmava, não
era deste mundo...
José
Bonifácio vencera a política de dois reinos, por assim dizer,
fazendo de um deles uma Nação soberana, de caminhos livres
à frente, e promissores, mas não pôde vencer o egoísmo
de uma sociedade que comerciava os seus semelhantes, descansava sobre o
seu cansaço e se degradava, degradando o Brasil.
Isso, talvez,
mais do que outro qualquer fator, concorreu para a queda do sábio
universalista. Recearam que as "idéias malucas" do homem que voltara
de Portugal para fazer a independência de seu povo fizessem também
a independência de uma casta e a desgraça da plutocracia e
da clerocracia dominantes, onde se situava, exatamente, o Partido Português
[27].
As palavras
do grande santista ainda hoje causariam rebuliço e desencadeariam
sobre sua cabeça tempestades de ódio e rancores; calcule-se
o seu efeito naquele tempo, naquele ano, naquele recinto, naquele meio:
"Mas, como
poderá haver uma Constituição liberal e duradoura
em um país continuamente habitado por uma multidão imensa
de escravos e inimigos?
...........................................
"É tempo,
e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro
e carniceiro, é tempo também que vamos acabando gradualmente
até os últimos vestígios da escravidão entre
nós, para que venhamos a formar em poucas gerações
uma Nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente
livres, respeitáveis e felizes. É da maior necessidade ir
acabando tanta heterogeneidade física e civil; cuidemos desde já
em combinar sabidamente tantos elementos discordes e contrários,
e em amalgamar tantos metais diversos, para que saia um todo homogêneo
e compacto, que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova
convulsão política.
...........................................
"Que educação
podem ter as famílias que se servem destes entes infelizes, sem
honra nem religião? De escravas que se prostituem ao primeiro que
as procura? Tudo porém se compensa nesta vida; nós tiranizamos
os escravos e os reduzimos a brutos animais, e eles nos inoculam toda a
sua imoralidade, e todos os seus vícios.
...........................................
"Qual é
a religião que temos, apesar da beleza e santidade do Evangelho
que dizemos seguir? A nossa Religião é, pela mor parte, um
sistema de superstições e de abusos anti-sociais; o nosso
Clero, em muita parte ignorante e corrompido, é o primeiro que se
serve de escravos e os acumula para enriquecer pelo comércio, pela
agricultura, e para formar, muitas vezes, das desgraçadas escravas,
um harém turco [28].
...........................................
"Senhores, quando
me emprego nestas tristes considerações, quase que perco
de todo as esperanças de ver o nosso Brasil um dia regenerado e
feliz, pois que se me antolha, que a ordem das vicissitudes humanas está
de todo invertida no Brasil. O luxo e a corrupção nasceram
entre nós antes da civilização e da indústria;
e qual será a causa principal de um fenômeno tão espantoso?
A escravidão, senhores, a escravidão, porque o homem que
conta com os jornais (N.E.: palavra usada
no sentido de jornadas de trabalho)
de seus escravos vive na indolência, e a indolência traz todos
os vícios após si.
...........................................
"As artes não
se melhoram; as máquinas que poupam braços, pela abundância
extrema de escravos nas povoações grandes, são desprezadas.
...........................................
"A lavoura do
Brasil, feita por escravos boçais e preguiçosos, não
dá os lucros com que homens ignorantes e fantasiosos se iludem.
...........................................
"Mas direis, talvez,
que se favorecerdes a liberdade dos escravos, será atacar a propriedade.
Não vos iludais, senhores; a propriedade foi sancionada para bem
de todos, e qual é o bem que tira o escravo de perder todos os seus
direitos naturais, e se tornar de pessoa a coisa na frase dos jurisconsultos?
Não é pois o direito de propriedade que querem defender,
é o direito da força, pois que o homem, não podendo
ser coisa, não pode ser objeto de propriedade.
...........................................
"Se a lei deve
defender a propriedade, muito mais deve defender a liberdade pessoal de
homens, que não pode ser propriedade de ninguém, sem atacar
os direitos da Providência que fez os homens livres e não
escravos; sem atacar a ordem das Sociedades, que é a execução
estrita de todos os deveres prescritos pela Natureza, pela Religião
e pela sã Política. Ora, a execução de todas
estas obrigações é o que constitui a virtude; e toda
legislação, e todo Governo (qualquer que seja a sua forma)
que a não tiver por base, é como a estátua de Nabucodonozor,
que uma pedra desprendida da montanha derribou pelos pés; é
um edifício fundado em areia solta, que a mais pequena borrasca
abate e desmorona".
A "Representação
sobre a Escravatura", de José Bonifácio, é uma
dessa peças evangélicas, que devia ser lida por todo o povo
do Brasil, ensinada e decorada nas escolas, como supremo ensinamento. Ela
retrata fielmente uma época e prevê males que haveriam de
durar mais de cem anos, visto que ainda pagamos, de certo modo, as conseqüências
do egoísmo, do atraso, da maldade e dos vícios da sociedade
imperial, em maioria, e da recusa da proposta andradina. É fácil
compreender. Mas, os Constituintes da primeira Assembléia brasileira,
com exceção da representação de São
Paulo, rechaçaram violentamente o monumento de civilização
que lhes oferecia o sábio santista. Eles refletiam e representavam
os grandes interesses escravocratas de todas as regiões brasileiras...
A 12 de novembro
de 1823, com a dissolução da Assembléia Constituinte,
José Bonifácio, Martim Francisco e Antonio Carlos foram presos,
apesar das imunidades tradicionais dos parlamentares, e, em seguida, deportados
para a França, no Luconia, um lugre abandonado havia muito
na Guanabara, propositadamente escolhido para que afundasse durante o longo
percurso!
As palavras,
a "Representação" e o sacrifício do Andrada,
entretanto, se não serviram ao Brasil, caíram como boas sementes
no campo fértil de sua Província natal, e aí germinaram.
Desde aquela hora, a substituição do braço escravo
pelo braço livre entrou a constituir um problema paulista, sempre
sob estudo e consideração.
Fale a História.
Em 1824, tinham início as primeiras tentativas de Nicolau Vergueiro,
o grande português naturalizado, que seria figura eminente do Império.
Vergueiro foi o primeiro socializador da agricultura no Brasil, com a sua
sociedade de imigração e colonização [29].
Em fevereiro
de 1827 chegariam a Santos os primeiros colonos alemães, a bordo
da Maria, uma galera holandesa. Em fevereiro de 1829 seria constituída
a Colônia "Santo Amaro", junto à capital (N.E.:
capital paulista), e alguns anos depois formava-se
a Colônia de Ibicaba, em continuação às tentativas
de Vergueiro - demonstração viva do abolicionismo pacífico
pregado, proposto e aconselhado pelo Patriarca, que haveria de tornar São
Paulo a primeira e mais rica Província do Brasil, apesar da centralização
política e administrativa exercida pelo Império, que nomeava
os presidentes das Províncias, os deputados gerais e os senadores,
cerceando a economia e as finanças das unidades a seu talante, subordinando-as
às suas preferências.
A importação
do homem branco e livre desenvolveu-se em escala cada vez mais ampla. Entre
1829 e 1840, muitos foram os núcleos coloniais-imigratórios
criados e formados em diversos pontos do futuro Estado. Em 1847 formava-se
a "Colônia Vergueiro", em 1852 organizavam-se as de "Sete Quedas"
e "Tapera" em Campinas, a de "Morro Grande" em Jundiaí, as de "Santa
Bárbara" e "Morro Azul" em Limeira, a "São Joaquim" em Jundiaí,
a "Lagoa" em Ubatuba, e a de "Morro Grande" em Rio Claro.
De 1854 a 1857,
fundavam-se mais as de "Boa Vista", "Santo Antonio", "São José",
"Tatu", "Dores", "Cresciumal", "Cauvitinga", "Florence", "Nova Granada",
"Getubá", "Independência', "Pouso Alegre", "Angélica",
"Boa Esperança", "Laranjal", "Capitão Diniz", "Nova Lousã",
e outras muitas, em todos os pontos cardeais da Província, somando
um total de 60.000 colonos europeus trazidos em dez anos, sangue novo e
limpo injetado às artérias esvaídas do espectro provincial,
que iniciava novas povoações, futuras cidades, e começava
a criar o grande Estado de hoje, que não se fez grande por acaso
mas apenas por isso, porque ouviu a voz da sabedoria e acordou primeiro
e por si, caminhando à frente, pela mão da iniciativa particular.
Reagiram assim
os verdadeiros paulistas da lavoura, contra o regime desumano do trabalho
forçado, a que ridiculamente tentou dar remédio a pobre Lei
de 7 de novembro de 1831, nada conseguindo senão salvar as aparências,
porque não correspondia a um anseio coletivo e a uma vontade nacional.
Nenhuma lei
no mundo foi mesmo tão ridicularizada como essa do governo brasileiro,
que extinguia o tráfico, substituída mais tarde por outra
do mesmo valor, bastando para isso que se diga que, nos quinze anos seguintes
à sua decretação, entraram em todo o Brasil nada menos
de 300 mil escravos africanos, contrabandeados [30].
[... ]
 Desembarque
de um grupo de italianos no porto de Santos em 1875 Foto: livro
Cem
anos de colonização italiana no ABC, de Roberto
Botacini e Maria Silene, 1ª edição, 1976, Editora Combrig,
Ribeirão Pires/SP
Notas:
[24]
A doação do Sítio dos Outeirinhos a José Bonifácio
fora feita pela Câmara de Santos a 22 de julho de 1820, a requerimento
do mesmo Andrada, e correspondia a quase todo o antigo "Campo" ou "Pasto
do Macuco" de trinta ou quarenta anos depois.
Cinco anos mais tarde, já cumprido o exílio, José
Bonifácio, escrevendo ao amigo Conselheiro Drummond, em 14 de novembro
de 1825, dizia: "O que
agora só desejo é ir acabar os meus cansados dias, de jaleco
e bombachas, nos meus outeirinhos".
[25]
Octavio Tarquínio de Sousa - "História dos Fundadores
do Império do Brasil" - Rio, 1960, vol. I, págs. 247/248.
[26]
A libertação gradativa, a iniciar-se em 1824, proposta pelo
grande Andrada, teria proporcionado ao Brasil a extinção
total da escravatura pela altura de 1880, totalmente substituída
pelo trabalhador livre e quase todo estrangeiro (português, espanhol,
italiano e alemão principalmente), sem choque, sem luta, sem prejuízos,
e talvez até sem mudança de regime político, mas principalmente
sem empobrecimento repentino e síncope econômico-financeira
de províncias (estados) como as do Rio de Janeiro, Espírito
Santo, Bahia, Pernambuco e outras, que só por força da Lei
Áurea, e em 1888, abriram mão dos seus escravos, sem que
possuíssem uma retaguarda, sem que se premunissem para o caso de
uma súbita cessação de rendas e riquezas.
[27]
A razão do alarma produzido pelo exemplo e pela Representação
do grande Andrada é compreensível. Tollenare (L.F. Tollenare),
francês comprador de algodão, em suas "Notas Dominicais",
com observações feitas no Recife, em 1817, declara que, na
capital de Pernambuco, naquele ano, o aluguel de um negro ordinário,
sem ofício, que só podia oferecer a força dos seus
braços (e portanto dos inferiores), cujo preço de aquisição
era de 650 a 700 francos, rendia de 36 a 40% líquidos, ao patrão,
ao fim de cada ano. Mas havia negras lavadeiras, vendeiras nas ruas, costureiras,
e outras, que entregavam aos seus donos 6 francos por semana, enquanto
os artífices, criados e outros de emprego semelhante, rendiam de
7 a 8 francos semanais - "livre de comida e sustento" -, o que representava
uma renda "líquida", em qualquer dos casos, de 5 a 50% ao ano (visto
que as mulheres custavam menos). "Mas
a renda é quase vitalícia, sobretudo se o escravo é
homem", dizia Tollenare, e "um
homem que possui, na cidade, uns vinte bons negros, pode viver muito à
vontade".
O caso brasileiro,
ou geral, não era diferente. Calcule-se a "audácia"
e a "temeridade" de José Bonifácio...
[28]
Em Santos, o próprio irmão do Patriarca, o famoso padre Patrício,
pai de inúmeros filhos, era um grande exemplo disso... Outro exemplo
local era o padre João Cardoso - pai, mais tarde, do Barão
de Paranapiacaba...
Os frades do
Carmo,
em Santos, certa vez, iam vender ou arrendar, só de uma feita,
mais de 40 escravos, provocando com isso uma trovoada de protestos na cidade.
Suas inúmeras propriedades rurais eram "tocadas" pelos negros.
A prática era geral entre eles.
[29]
Naquele mesmo ano de 1824, o santista e companheiro dos Andradas, José
Feliciano Fernandes Pinheiro, futuro Visconde de
São Leopoldo, dava liberdade a 300 escravos do Núcleo
Colonial "São Leopoldo", no Rio Grande do Sul, pertencente ao Governo,
dando início ali a uma povoação, que seria a futura
cidade de São Leopoldo.
[30]
Pelo relatório do Ministério da Agricultura de 1884, existiam
na Província de S. Paulo, naquele ano, 173.267 escravos. Em 1888,
quando se extinguiu a escravatura, pela Lei de 13 de maio, havia na mesma
Província apenas 40.000 cativos. Vê-se aí a grande
obra abolicionista de S. Paulo, precedendo a decretação das
leis. Em quatro anos haviam sido libertados 133.000 infelizes, com substituição
adequada, por europeus, brancos e livres, nos trabalhos agrícolas.
Antes disso,
porém, em conseqüência da iniciativa particular, de 1830
a 1884, tinham os paulistas dado liberdade a mais de 300.000 negros, substituindo-os
igualmente pelo colono estrangeiro.
Enquanto São
Paulo libertava os seus escravos, substituindo-os, como trabalhadores livres
e a soldo em outros trabalhos, o Brasil (por outras Províncias)
continuava a importar escravos africanos, insistindo no erro, enchendo-se
de suas doenças e de suas misérias orgânicas e morais. |