| A campanha
da Abolição
INTRODUÇÃO
Tão
importante se nos afigura o trato do problema do negro no Brasil e particularmente
em Santos que, descrevendo o movimento generoso da Abolição,
reconhecemos de nosso dever, nesta nova edição da nossa História,
trazer ao conhecimento do grande público estudioso detalhes recuados
e quase totalmente desconhecidos, em nossos dias, das origens do mesmo
problema, e que no entanto estão profundamente ligados à
sociografia brasileira.
De fato, se
existiu entre nós um movimento de Abolição, existiu
a massa negra, e existindo esta massa sociogênica, que em nosso país
chegou a orçar (em estado de pureza) por três milhões
de indivíduos aproximadamente, necessário se torna que conheçamos
o processo de transferência e difusão e, mais do que o processo,
o tipo de composição, da mesma massa transferida e difusa,
para a necessária compreensão dos fenômenos históricos
e sociais verificados e conseqüentes, atingindo não somente
o campo étnico mas também o econômico, o religioso,
o musical, o coreográfico e o folclórico.
Nossa intenção
é servir aos sociólogos e aos que estudam esses campos, em
conjunto, ou isoladamente, e só isso justifica a presente introdução
produzida para abertura deste capítulo, na qual nos valeremos muito
da ciência e da pesquisa alheias, dos ensinamentos daqueles que mais
e melhor estudaram os fatos distantes das transferências africanas
para o Brasil, naqueles seus detalhes mais desconhecidos.
***
Desde o princípio
do século VIII, os árabes (muçulmanos) haviam tomado
todo o Norte africano (mahgrib
ou mahgreb), dominando as mais bravas nações berberes, como
ponto de partida para o domínio total ou quase total do chamado
continente
negro.
Após
a execução do plano principal, que os levara a fazer do Norte
da África o trampolim da conquista do Mediterrâneo,
das ilhas, do extremo da península
itálica e de toda a península ibérica (Espanha
e Lusitânia) - onde por muitos
séculos permaneceriam como senhores -, trataram os árabes
das algaras, que ao tropel dos seus zenetas e amazigues, ao soar
arrepelado dos alboques e analfis, deviam reduzir, por todo o século
VIII e depois pelo IX, a um total domínio, em verdade barbaresco,
as regiões e os povos mais distantes e mais interiores do grande
continente, até onde os levasse a sua sanha guerreira e exploradora
de escravos [1],
apoiados nisso pela bolsa judaica, sempre cheia e sempre voltada à
mercancia, até mesmo a humana.
O primeiro
comércio de cativos, segundo os melhores autores, foi exercido por
eles em meados do século VII, continuado depois, pelos séculos
a seguir.
Ao entrar do
século XVI, perdidos os domínios europeus de tantas centúrias,
e abertos novos campos de negócio à mercadoria humana, com
o povoamento das colônias espanholas e portuguesas das três
Américas, acentuou-se o movimento das algaras árabes, preadoras
de escravos, em todo o coração africano, onde os portugueses,
principalmente, tentavam fixar-se, ampliando suas conquistas anteriores.
Àquela
altura, tribos negras de várias regiões já se haviam
muçulmanizado, pela força ou por conveniência, tornando-se
tributárias pacíficas dos dominadores de tantos séculos,
evitando o próprio extermínio.
O tráfico
tornara-se uma organização, dirigida por muçulmanos
e judeus, que, desde muito, procuravam valorizar o homem destinado à
venda no mercado internacional, dando-lhe uma educação relativa,
uma religião (monoteísta) e ensinamentos profissionais diversos,
que o habilitariam a sofrer menos, desviando-o do futuro eito comum, do
viramundo, do bacalhau, da pargalheira, e, principalmente, dos porões
infectos, e tantas vezes fatais, dos navios negreiros.
Começava
na própria África a preparação de castas
negras que deveriam surgir, mais tarde, nos Estados
Unidos da América, nas Antilhas
e no Brasil. Surgiam os malés e muçulmis, principalmente
entre ussás, cabindas, mandingas e nagôs, como negros de classe
e preço; separavam-se os iorubanos [2]
caçados
como bichos, nas mesmas algaras assassinas dos séculos anteriores,
compondo a multidão anônima que se destinava aos porões
dos negreiros e aos mais baixos e mais brutos ofícios de todos os
ergástulos coletivos.
Nos últimos
lustros do século XVI, os cenários e as cenas eram esses,
a coincidir com a organização da Companhia Geral do Comércio
no Brasil, detentora do privilégio do tráfico, e, conseqüentemente,
com o aumento das importações brasileiras. Data mesmo
da organização daquela Companhia o comércio em massa
(por atacado) da criatura humana, que tivera a desgraça de ser negra,
dirigida a força da corrente traficante, principalmente, para a
Bahia e Pernambuco, com elevada porcentagem (seja dito de passagem) daqueles
malés
e muçulmis, concentrados em Lagos,
na
Guiné portuguesa, ao fundo
da grande baía de Benin (5
graus ao Norte da Linha do Equador).
Vejamos agora
os mesmos fatos descritos por dois mestres desaparecidos: José Maria
dos Santos e Nina Rodrigues [3]:
"Para bem compreender
o fecundo mas tão doloroso fenômeno das migrações
africanas para as terras do Novo Mundo, é preciso saber e recordar
que elas coincidiram, no tempo, com a invasão da África
Equatorial pelas hordas maometanas providas de armas de fogo. À
pressão feroz e destruidora da catequese islamita, de inspiração
muçulmana, cujas vagas sucessivas se formavam no Alto
Egito e na Tripolitânia,
ruíram grandes nações e povos inteiros desapareceram.
Ainda no último
quartel do século XIX, a resistência mais tenaz oferecida
à penetração colonial de ingleses e franceses no centro
da África proveio de ordens religiosas, no gênero dos Senussya,
monopolizadores do tráfico de escravos por velha concessão
dos padixás de Constantinopla.
Durante três séculos, os habitantes da África Equatorial
viveram no terror das caravanas de catequese.
Aquelas populações,
ainda presas a uma concepção mitológica do universo
e servidas por uma indústria militar que não ultrapassava
as armas de arremesso e os escudos de vime ou de couro de hipopótamos,
viam os expedicionários do Crescente surgir de surpresa em suas
terras. Passado o irresistível primeiro contato da mosquetaria,
era necessário, debaixo do fumo das habitações incendiadas
e sobre o solo umedecido pelo sangue dos primeiros sacrificados, optar
por uma das três hipóteses: converter-se imediatamente à
nova religião, entregar o pescoço à cimitarra, ou
partir em cativeiro. Formava-se assim, como um inenarrável rosário
de agonias, a longa e sinistra enfiada das gargalheiras, que, semanas depois,
vinha, na costa do Atlântico, encher os porões dos navios
negreiros, a troco de moeda, de armas ou de munições diversas."
Os traficantes
portugueses, espanhóis ou de qualquer outra procedência européia,
não tinham forças para, no sertão, penetrar o bastante
a uma grande e proveitosa presa. Pelo menos por muito tempo foram as razzias
mouras, mais ou menos religiosas, mas sempre depredadoras e escravagistas,
as suas principais fornecedoras. O grande império Cabinda,
de que ainda hoje restam tão vivas tradições em certos
meios negros da Bahia, foi destruído em 1591, por um bando vil de
aventureiros, armados de mosquetes, que desceu do Marrocos,
através do Saara, ao mando
de um renegado espanhol, posto por interesse ao serviço do sultão
de Fez (vide Maurice Delafosse, Les Noirs de l'Afrique - Payot,
Paris, 1922, pág. 78) (N.E.: Fès
ou Fez, em árabe Fas, é um centro religioso, administrativo
e cultural fundado em 793 na região interiorana do Norte do Marrocos,
nas coordenadas 34º00' de latitude Norte e 5º00' de longitude
Oeste).
A migração
negra para os países americanos foi, portanto, o reflexo exterior
de um grande acontecimento político-religioso de caráter
interno ou continental, que abrangendo toda a imensa área que vai
da costa do Atlântico aos desertos, e dos limites do Senegal
ao Oceano Índico, constitui, certamente, um dos dramas mais vastos
e dolorosos da história do homem sobre a terra.
"No produto
daquelas terríveis caçadas ao animal humano, todos se confundiam.
Ricos e pobres, soldados e trabalhadores do solo, sacerdotes e artífices,
príncipes e simples pastores, tudo se amalgamava, a caminho do mar,
na mesma multidão tropeçante e carregada de ferros. As jóias
e os amuletos preciosos, as grandes plumas, os panos vistosos e brilhantes,
tudo quanto estabelecia a distinção visual de classes e condições,
era logo arrebanhado como primeiro lucro. O que se despejava depois no
fundo dos porões era um rebanho torvo e uniforme, inteiramente nivelado
pela desgraça e apenas computável por cabeças [4]."
Eis o panorama
geral, desdobrado por José Maria dos Santos [5],
dos iorubanos ou apanhados no mato, laçados, caçados,
apreendidos e acorrentados, em estado bravio e em momento de revolta, só
amansados à força de sofrimentos, através das distâncias
e dos desertos, em longas caminhadas, criando em cada indivíduo
assim preado, e que conseguia sobreviver a tantas penas, o recalque permanente,
o ódio ao escravizadoR de qualquer natureza, a vontade constante
de fugir, de reconquistar a liberdade, idéias fixas que iriam produzir
assassínioS futuros (contra senhores ou capatazes) ou fugas para
as florestas, formadoras de quilombos.
Eram esses
os atirados ao fundo dos porões de todos os barcos negreiros, como
feras amontoadas, satisfazendo de qualquer modo, e acorrentados, as suas
necessidades fisiológicas, envenenando-se com as suas emanações,
morrendo de fome, de desnutrição, de escorbuto (avitaminose
do tipo C), de cólera, de varíola, de febre amarela, até
de raiva, contaminando os portos onde chegavam.
Haveria distinções
dentro da própria desgraça de ser cativo, e eis o que veremos,
em descrições de caráter científico do grande
Nina Rodrigues, conhecendo melhor a história dos malés
e muçulmis muçulmanizados e judaizados (confrorme
a crença dos doutrinadores e preparadores), que embarcavam em melhores
condições, descansados, bem tratados, vestidos, representando
um capital a zelar, e destinados, por isso, a pontos e regiões conhecidos
pelos judeus traficantes de Lagos,
que preferiam escravos desse tipo e pagavam o que eles valiam, principalmente
os Estados Unidos, a Bahia e Pernambuco, os pontos do mundo onde se localizavam
em maior número os mercadores judeus [6].
O depoimento
do sábio médico e sociólogo baiano Nina Rodrigues,
a respeito destes malés e muçulmis, elaborado
em 1884/1886, foi publicado anos mais tarde (1900) em francês (talvez
para que obtivesse maior difusão no mundo científico internacional).
Para não perder o sabor e a originalidade e também para que
nada se altere no pensamento do mestre, reproduziremos suas passagens como
foram escritas e publicadas [7]:
"La forme par
excellence du fétichisme des africo-bahianais c'est l'animisme diffus,
c'est-à dire "l'attribution à
chaque être et à chaque chose, d'un doube fantôme, esprit,
âme, indépendant du corps où il fait sa residence momentanée".
Mais il est incontestable que pour les plus intelligents, pour ces métis
d'esprit si non de corps, d'ici ou venus d'Afrique, la religiosité
atteint les bornes du polytheisme.
"Comme forme
de culte organisé, je crois qu'il n'existe à Bahia que la
religion des Yorubans et des Yébus [8],
vulgairement appelée de "Saint" ou de "candomblés",
et la religion des nègres convertis à l'islamisme, qu'ils
appellent entre eux "musulmís", mais que d'autres noment
"malés", par mèpris, semble-t'il" [9].
"Les "malés"
ou "musulmís" qui professent un islamisme plus ou moins entaché
de pratiques fétichistes, ne sont aujourd'hui q'une petite minorité
dans l'etat de Bahia. Ils n'ont pas réussi a transmettre leurs croyances
aus créoles qui en sont issus. Un vieil africain, petit commerçant
et prête de sa confession religeuse, me disait que la religion des
nègres de "saint" et même celle des catholiques, sont
beaucoup plus faciles, amusantes et attrayantes que celle des "musulmís",
qui s'imposent une vie austère, astreinte à l'observance
des principes religieux qui ne tolerant ni fêtes ni libations.
C'est porquoi,
me disait'il, les fils de malés ont peu de tendance à
suivre les croyances de leurs pères, et qu'une fois emancipés
ils embrassent facilment la religion yorubane ou le catholicisme [10].
"Les "malés"
constituent une societé africaine tout-à-fait à part
et qui se fait remarquer pas l'austerité de la vie intime, par l'observance
plus ou moins fidèle de ses prèceptes de foi, par la croyance
en un Dieu supérieur et par l'inadmission aux cultes d'images ou
d'idoles. Ou dit qu'ils croient avec ferveur aux talisman "gri-gris"
etc... et passent pour des sorciers consommés. Leur genre de vie
contribue peut-être beaucoup à maintenir la creinte que leurs
associations inspirent auxs autres nègres, qui les croient possesseurs
de secrets magiques et d'envoutement. Les objets, les instruments de précision
des européenes ne constiuerant'ils pas en Afrique des peuves de
supériorite des sorciers blancs?
"Un nègre
employé de la Faculté de Medicine m'a declaré que,
quoique catholique convaincu et n'ajoutant aucune foi aux saints africains
ni aux "candoblés", il avait un profond respect pour les
sorcelleries des "malés" et que toujours il priait Dieu de
l'en préserver.
"Le qualificatif
"malé" rapelle peut-être celui de "malinkés"
employé par les Mendigas, qui sont aussi des musulmans. Le vieux
prêtre "musulmí" m'a assuré que la pluspart
des "malés" de Bahia sont de Haoussa. Cette nation africaine
a été jadis très puissante d'ans l'Etat de Bahia;
elle formait une societé si solidement assise sur la base religieuse
qu''elle a pu provoquer plusieurs fois des séditions d'esclaves
fortes et graves [11].
"Monsieur
le Dr. Francisco Gonçalves Martins, depuis Vicomte de Saint Lourence,
alors chef de police adressa au président de la Province, en 1835,
un rappórt sur la dernière insurrection des "malés",
qui a éclaté pendant la nuit du 24 au 25 janvier, rapport
fort instructif à cet ègard [12].
L'extrait suivant
de ce document officiel donne une idée exacte de l'organisation
religeuse des "musulmís":
"....l'insurrection
etait ourdis depuis longtemps et le secret inviolablement gardé;
le plan en était dressé avec une superiorité que la
brutalité et l'ignorance de ces gens-lá ne permettait pas
d'espérer. En general presque tous savent lire et écrire
en caractères inconnus qui ressemblent auxs caractères arabes
usités chez les Ussas (Haoussa) lesquels paraissent s'être
entendus aujourd'hui avec les nagôs. Cette nation (Haoussa) est celle
qui s'est insurgée jadis plusieurs fois dans cette Province et que
les nagôs ont remplacée depuis. Il y a des maitres qui donnent
des leçons et qui se sont chargés d'organiser l'insurrection
dont faisaient partie beaucoup d'africans affranchis et même riches.
Ou a trouvé un grand nombre de livres; quelquer uns, disent'ils,
renferment les préceptes religieux tirés du melange des sectes,
principalment du Korân. Ce qui est certain c'est que la religion
entrait pour partie dans les causes du soulevêment et les chefs persuadaient
aux misérables que certains papiers (évidemment des talismans
"gri-gris") les préserveraient de la mort, ce qui fait que
dans quelquer recherches que nous avons faites nous en avons trouvé
une grande quantité sur les cadavres et dans les vêtements
riches et étranges qui paraissaient appartenir aux chefs" [13].
"Les documents
qui on été pris et que visait le chef de police existent
encore aujurd'hui dans les archives publiques. Il est probable qu'ils sont
écrits en arabe, car le vieil prêtre "musulmí"
m'a avoué que la religion a été propagée, surtout
par des nègres musulmans venus d'Afrique ou par des affranchís
qui on revenaient après une promenade, et dout un grande nombre
avaient fait le pélerinage religieux de la Mecque. On m'a dit, aux
archives publiques, que des nègres "malés" invités
à déchiffrer les documents, déclarérent, qu'ils
se rapporttaient pour la plupart à des précepts religieux.
Cellas est plus que probable, car chacun sait que des versets du Koran,
ècrits sur des petits morceaux de papier et portés en amulettes
au cou, constituent um "gri-gris" fort estimé chez les nègres
musulmans.
"L'un d'eux,
cependant, s'est refusé à traduire un des documents, sous
prétexte qu'il ne pouvait le faire sans l'autorisation préalable
du chef de la sècte.
"Les mesures
sévères prises par le gouvernement, au nombre desquelles
figurait la déportation en Afrique de tous les "malés" provinciales,
non seulement cruelle et inhumaine des autorités provinciales, non
seulement réduisierant à un chiffre insignifiant le nombre
des nègres mahométans, mais encore les rendirent plus dissimulés
dans les pratiques de leur foi religieuse. Un vieil "malé"
me disait: "Ils nous laisserent à peine
ce que nul ne peut toucher: la foi qui vit au coeur"[14].
"Il ajouta
que les préceptes qui y sont enseignés sont observés
autant que le permettent les autorités civiles et ecclésiastiques
ainsi que les lois du pays. Cependant, malgré les conditions de
l'esclavage, les privilèges de l'ancienne religion de l'Etat et
les persécutions qui suivirent les mouvements séditieux des
africains, l'islamisme, ou dire de plusieur "malés", reçoit
encore un grand nombre de convertís, même des anciens esclaves
de prêtes catholiques qui ne donnaient pas toujours l'exemple de
la sagesse et de la pureté de moeurs que l'on et en droit d'attendre
d'eux [15].
Aqui termina
a transcrição de Nina Rodrigues, em complemento à
outra de José Maria dos Santos. Bem se vê que a questão
do negro e sua influência na vida brasileira é bem mais complexa
do que tem parecido à nossa gente, e que só um estudo realmente
histórico e realmente científico poderá conduzir à
sua exata compreensão, em todo o seu pitoresco e em toda a sua profundidade.
ALém, por detrás de um José do
Patrocínio ou de um Quintino de Lacerda,
pode estar todo um back-ground de heranças que é preciso
compreender.
Gustavo Barroso,
historiador de grande cultura [16],
parece ter sido o único secundador de Nina Rodrigues, na compreensão
do problema e dos fatos descritos, e assim escreveu um interessante trabalho
a que deu o título de "Uma Guerra Maometana no Brasil", com
os subtítulos: "A religião de Maomé na Bahia"
- "Os negros malés" - "Suas revoltas" - "A Guerra
Santa de 1835", de onde respigamos os trechos a seguir: br>"A
religião de Maomé e a civilização árabe
chegaram ao Brasil através dos escravos importados das regiões
africanas de cultura árabe [17].
Tentaram até deflagrar uma gUerra santa na Província da Bahia,
onde eram numerosos. Davam-se a si próprios o nome de "Muçulmis",
muçulmanos, mas os outros escravos negros de origem bantu ou congolesa
os denominavam "malés", isto é, gente do Império
Africano e Maometano do Niger/Mali.
Malé
era uma corrutela da palavra Malinké, gente de Mali [18].
"Esses escravos
muçulmanos pertenciam aos povos haussás ou auçás,
nagôs ou jorubas, tapas, geges, grunas, bornos, cabindas, minas,
calabares, jobus, mendobis e benins. Não seguiam ortodoxamente o
Corão, porém as práticas duma das seitas do Islão,
que se tinham espalhado pela África. Alguns possuíam certa
instrução, muitos sabiam ler e escrever a língua árabe.
Obedeciam a imãs chamados limanos ou alumás (imames), e a
marabutos ou santarrões.
"As primeiras
insurreições desses negros maometanos na Bahia foram preparadas
pelos auçás em 1807 e 1809, sendo esmagadas pelo Governador,
o Conde da Ponte. Durante os anos de 1813 e 1816, o Governador Conde dos
Arcos venceu duas novas rebeldias desses mesmos auçás. Em
1826, 1827 e 1828, os jorubas se levantaram por sua vez, foram vencidos
e duramente castigados pelas autoridades. Em 1830, nova revolta abortou
devido a uma denúncia.
"A guerra
santa [19]
explodiu em 1835. Durante essa época, devido à Revolução
dos Farrapos no Rio Grande do Sul, as províncias do Norte, entre
elas a da Bahia, estavam desprovidas de tropas. Os "muçulmis"
ou "malés" aproveitaram essa circunstância favorável
para um golpe de surpresa que lhes devia entregar a cidade do Salvador,
onde pretendiam chacinar os brancos e proclamar uma rainha negra, a escrava
Sabina, que afirmavam ser uma princesa na sua terra natal. Para se reconhecerem
durante a luta, todos deviam usar uma gandura ou camisola branca com cinta
vermelha. Todos os documentos dessa grande conspiração, escritos
em língua e caracteres árabes, acham-se no Arquivo Nacional.
"O movimento
devia eclodir durante a noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, durante
os festejos tradicionais no arrabalde do Bonfim, a cuja famosa igreja quase
toda a população da cidade costumava ir em peregrinação.
Os escravos marchariam de vários pontos sobre a cidade semideserta
e se apoderariam dos quartéis e pontos estratégicos, semeando
por toda parte a confusão e a morte.
"Tudo fora
minuciosamente preparado em segredo, no seio das djemas ou associações
religiosas que mantinham os escravos em contato, sob a orientação
da sociedade secreta Ohogho. Escravos libertos, enriquecidos no
comércio e pequenas indústrias locais, forneciam armas, munições
e dinheiro. Havia escravos organizados em grupos militares e muito bem
armados. Mulatas e negras libertas serviam de elementos de ligação.
"Duas dessas
mulhares se apavoraram na última hora e denunciaram a conspiração
às autoridades, que tomaram logo providências de caráter
militar".
Após
descrever a revolução, suas marchas e pormenores, continua
Gustavo Barroso, discorrendo sobre o final dos fatos revelados pelos documentos
do Arquivo Nacional:
"Pela manhã,
o movimento rebelde estava inteiramente dominado. Enchiam-se as prisões
de escravos vencidos. Instaurou-se um pRocesso que só terminou nove
anos mais tarde, em 1844. Muitos dos rebeldes presos, condenados à
morte, foram fuzilados ou enforcados; outros receberam penas de prisão
mais ou menos longas; enfim, alguns voltaram para a África, mandados
pelas autoridades, pois não tinham grandes provas contra eles e
os reputavam perigosos, capazes de novas articulações. É
provável que fossem esses, os sacerdotes maometanos da pretalhada,
os chamados alumás ou limanos".
"Esta foi
a Guerra Maometana que houve no Brasil e da qual pouca gente tem notícia.
Ameaçadora e de curtíssima duração. O povo
traduziu a seu modo o nome dos participantes dessa frustrada Guerra Santa:
Malés, gente de má lei, da lei má, más-leis...
A lei má era o Corão, que espiritualmente regia esses pobres
negros trazidos do Benin e do Senegal, que os antigos cronistas lusos chamavam
Canagá" [20].
O mesmo Gustavo
Barroso diria em outro trabalho, "A Maçonaria Negra de Vassouras"
(em 6/10/1951): "Ainda está por ser
devidamente escrita, com todos os pormenores, a história da escravidão
em nosso País" [21].
Até
agora, somente têm sido descritos alguns de seus aspectos; mas inúmeros
existem e dos mais interessantes, completamente ignorados. Um deles é,
sem a menor sombra de dúvida, o das organizações secretas
e religiosas da escravaria, com poderosa atuação em movimentos
insurrecionais, cabendo entre elas o primeiro lugar aos famosos malés
ou negros auçás muçulmanos da Bahia, que várias
vezes se rebelaram do fim do século XVIII à primeira metade
do século XIX. Essas conspirações baianas tiveram
articulações ou repercussões em outras Províncias
do Império, nas quais o desenvolvimento da lavoura implicava na
existência de numerosos escravos.
"Como exemplo
notável disso, basta descrever o que ocorreu no tradicional município
de Vassouras, na província fluminense de grande riqueza agrícola,
ao tempo da Monarquia. Num de seus mais conhecidos distritos, o do Patí
do Alferes, a 13 de novembro de 1938, rebentou uma grande revolta de negros
etc."
Era o drama
de Manuel Congo e sua companheira, a bela Maria Crioula, aclamados, pelos
rebeldes, Rei e Rainha do novo quilombo formado, e desta vez no Sul. O
Governo Imperial entrou em cena, como descreve Barroso, mandando seguir
para Vassouras um destacamento de tropas regulares, para vingar a derrota
das primeiras forças enviadas contra eles, compostas pela Guarda
Nacional de Vassouras, comandada por Laureano Correia e Castro, depois
Barão de Campo Belo, assessorado pelo Major Lourenço Luiz
de Ataíde e outros distintos policiais daquela milícia, como
Antonio Correia e Castro e Carlos Teixeira Leite.
O choque deu-se
a 11 de dezembro de 1838, e os negros foram derrotados, destroçados
em "espantosa matança", presos os seus cabecilhas. Fez-se o processo
da rebeldia, com inquirições de testemumnhas e outras exigências
legais. O Rei Manuel Congo foi condenado à morte, e enforcado na
forma da lei, a 6 de setembro de 1839. Outros negros, como Justino Benguela,
Antonio Magro, Pedro Dias, Belarmino de Tal, Miguel Crioulo, Canuto Moçambique
e Antonio Angola, receberam a pena de 650 açoites parcelados, com
aplicação de gargalheira com haste, por três anos;
Maria Crioula, a bela Rainha efêmera, foi absolvida.
"O mais curioso-
conta Gustavo Barroso - é que, de acordo
com os documentos do processo em questão, descobriu-se a existência
de uma grande sociedade secreta de escravos, dividida em círculos
de diversas categorias, cada um dos quais com cinco membros, cujo chefe
recebia ordens do de categoria imediatamente superior. Essa cadeia hierárquica
ia até o chefe principal" [22].
Bem se vê
como estamos longe de conhecer a nossa própria História,
que repousa, em suas passagens principais, em três tipos de Maçonaria:
a Judaica, do povoamento e colonização; a Francesa, da Independência,
da Liberdade de consciência, da Abolição e da República;
e a Maometana ou Muçulmana, da escravidão ou dos negros classificados,
de Palmares e dos grandes Quilombos dos séculos XVIII e XIX.
Com isso perdemos
o melhor do mistério que ainda hoje envolve, desde um "Bacharel"
Mestre Cosme Fernandes, da fundação da primeira São
Vicente, um João Ramalho do povoamento e fundação
de Piratininga, um Zumbi dos Palmares, um Tiradentes, um José Bonifácio,
um Pedro I, um Visconde do Rio Branco ou um Rui Barbosa.
Mas fiquemos
por aqui. Assim como não devemos considerar como simples e comum
português o homem que veio de Portugal nos séculos XVI e XVII
e até certa altura do século XVIII, para sabermos quem realmente
somos e de quem viemos, da mesma forma e pela mesma razão, não
devemos considerar, genérica e simplesmente, como escravo africano,
como negro da África, o homem de lá trazido para o Brasil,
como se todo ele fosse igual, para não permanecermos na perpétua
incompreensão histórica e sociológica e em seus enganos
conseqüentes, que a pesquisa moderna e a moderna metodologia filosófica
já não mais aprovam ou justificam.
O que vimos
acontecer na Bahia e em Vassouras, no Norte-Nordeste e no Centro-Sul do
Brasil, deve ter acontecido também neste nosso Estado de São
Paulo (antiga Província), em ligação com a nossa História
regional ou santista, e não é fora de propósito que
coloquemos nesse plano o enorme e famoso Quilombo de Jurubatuba e Bertioga,
atacado e destruído em sua maior porção, em 1835 -
naquela mesma época dos fatos muçulmanos da Bahia e de Vassouras
-, que, segundo os relatos daquele tempo, abrigava em seus redutos das
serras virgens (do Quilombo, Jurubabuba e Jaguareguava) alguns milhares
de canhemboras ou jabás, fugidos das fazendas paulistas, das regiões
de Campinas, de São Paulo, do Paraíba (N.E.:
Vale do Paraíba, entre São Paulo e Rio de Janeiro),
de Santos e de Ubatuba.
É pena
que destes nossos fatos ainda não tenham aparecido os documentos
policiais, transmitidos à Justiça.
Os dois grandes
movimentos nacionais, que marcaram, em extraordinária simbiose,
a extinção do escravismo e a terminação do
Império, formando página única na história
geral brasileira, têm sido tratados em dezenas de obras e por dezenas
de autores de capacidade vária e maior ou menor pesquisa própria.
Tais movimentos, porém, em seus aspectos locais e regionais, reservadamente
santistas, nunca tiveram, até 1937 (aparecimento da primeira edição
desta obra), o seu tratadista ou historiador, que, considerando-os em extensão
e em profundidade, pudesse demonstrar à posteridade ter sido aqui,
na terra "da fraternidade e da liberdade", o ponto mais alto, observadas
as proporções, de ambos os movimentos em todo o Brasil.
Isso mesmo
confessaria em Santos, em 1938, o criminalista, orador e historiador Evaristo
de Morais, grande figura da inteligência e da cultura nacionais,
reconhecendo que "ninguém poderia conhecer a história da
Abolição do Brasil, sem conhecer a história do movimento
em Santos, como ele não conhecera até 1937 apesar de possuir
livro sobre aquele magno assunto" [23].
Este capítulo
especialíssimo traz nesta edição algum acréscimo
e alguma alteração, relativamente ao da primeira, de 1937,
como notarão os leitores atentos e estudiosos, reconhecendo, sem
dúvida, o empenho do autor em transmitir um conhecimento ainda mais
completo dos fatos, das circunstâncias e dos homens, sem pretender
contudo esgotar o assunto.
[... ]
Notas:
[1]
As algaras árabes da África se repetiriam no Brasil,
em São Paulo (antiga Capitania de S. Vicente), passando de algaras
a "bandeiras" e de árabes a paulistas (seus derivados étnicos),
com os mesmos característicos e quase com as mesmas finalidades.
Aliás,
o nome "Bandeira", com o sentido paulista ou nacional dos séculos
XVI e XVII, aparece pela primeira vez no século IX, no título
de uma obra do historiador árabe Mahomed Ibn Muça-Ar-Razí,
vindo para a Espanha naquele século, onde viveu muitos anos, falecendo
em 886.
Tal obra intitula-se
"Relação das Bandeiras" e foi encontrada na Biblioteca
de Sevilha, pertencente, segundo julga o Dr. Garcia Domingues, a Al-Radi,
filho do rei sevilhano Al-Mohtâmide, grande poeta. Tratava das expedições
e conquistas árabes, descrevendo os lugares conquistados.
As "bandeiras"
árabes, constituindo as algaras previstas e ordenadas no Alcorão,
obrigatórias no princípio da primavera, foram as inspiradoras
das Cruzadas cristãs, de alguns séculos depois, que tantos
despojos e tantas riquezas proporcionaram a muitos dos seus componentes
e organizadores, além de produzirem, pelos contatos com povos superiores
em cultura e em civilização, o aparecimento das Universidades
européias e toda a base do Renascimento ocidental, cristão.
[2]Malé
era um vocábulo árabe, equivalente a Malí,
do árabe mâl "riqueza" e "i" - adjetivo relativo
ou ético árabe, do masculino, significando ação,
natureza, origem etc. Aludia à qualidade dos negros, educados,
muçulmanizados, preparados em ofícios, selecionados e prontos,
assim, para obter e proporcionar bons ppeços aos seus vendedores.
Constituíam uma riqueza naquele tipo de comércio. Muçulmí
era o mesmo que muçulman, muçulmano, aludindo
ao negro preparado na doutrina de Maomé, religiosamente equiparado
ao branco árabe, protegido, educado, valorizado para todos os efeitos.
Iorubano
era um vocábulo hebraico, de "Ior" - "floresta", "Hu"
- "ele" e "Bana" - "construir, edificar, levantar -
etc." ou "Báan" e Bâan" - "fechar, terminar,
cerrar, encerrar", significando "ele, o indivíduo feito na
floresta, à lei da natureza, primitivo, ignaro, em bruto; ou fechado,
encerrado no mato, na brutalidade" - forma depreciativa, distinguindo
o negro assim determinado do malé ou malí e
do muçulmí - os educados, preparados para a vida e
para o negócio. A importância desses vocábulos, na
definição do negro importado, era grande, como se verifica.
[3]
"A Política Geral do Brasil" e "L'animisme fétichiste
des nègres de Bahia", respectivamente.
[4]
Castro Alves, nos versos maravilhosos do seu "Navio negreiro", dos
seus "Escravos", ou melhor dizendo do seu "Vozes d'África",
dá bem uma idéia da grande tragédia negra. Santos
contaria em seu quilombo libertador de Jabaquara com um desses príncipes
africanos, preado em comum e nivelado aos mais ínfimos dos seus
próprios guerreiros e servidores - que foi Pai Felipe, cujo nome
legítimo se perdeu (por falta de curiosidade e indagação
dos seus contemporâneos), fugiu do cativeiro, refugiou-se nas serras
virgens do Cabraiaquara (mais tarde "do Quilombo") e dali viria então
para o Jabaquara, na grande fase abolicionista de Santos, que se conhecerá
neste
capítulo.
[5]
José Maria dos Santos - "A Política Geral do Brasil"
- Ed. J. Magalhães - São Paulo, 1930, págs. 158/159.
[6]
A Bahia era então um conto de fadas; lugar de riquezas e ostentações,
de festas constantes e bizarras cavalhadas (as alcanzías
mouras), terra de luxo para brancos e para negros, da qual diria o Padre
Manoel Calado (Val. Lucideno, pág. 8), no século XVII:
"Os homês
não aulão adereços custosos de espada & adagas,
nem vestidos de nouas invenções, com que se não ornassem,
os banquetes quotidianos, as escaramuças & jogos de cannas,
em cada festa se ordenauão, tudo erão delícias, &
não parecia esta tenam hum retrato do terreal paraíso".
Os malés
e muçulmís, caídos naquele paraíso,
chegaram a constituir uma sociedade, uma elite de cor, afastada dos outros
negros e mais chegada aos brancos. Até na pele pareciam diferir
um tanto dos iorubanos: eram mais claros e mais avermelhados, de
feições mais finas, e possuíam a distinção
dos gestos. Mais tarde, seus descendentes queriam ser doutores e casar
com doutores.
Em todos os
lugares onde tais malés e muçulmís se
fixaram, os costumes foram sempre mais muçulmanos, arabizados, e
as manifestações musicais, coreográficas e folclóricas
foram mais ricas e superiores.
O "espiritual
negro" da América do Norte, por exemplo, é ainda hoje
uma demonstração viva da influência da música
litúrgica judaica (mosaica), dos cânticos israelitas, por
eles praticados, transmitidos à música popular daquele país.
Bem compreendido
este detalhe histórico da importação do negro, principalmente
após o que se vai ler, da contribuição de Nina Rodrigues,
mais fácil será compreender também outros fenômenos
sociais, principalmente do Norte e Nordeste do País, como por exemplo:
a formação da República dos Palmares, um quisto religioso
(muçulmano-judaico) no coração do catolicíssimo
Brasil, que um profissional da matança coletiva destruiria a soldo
ou sob indenização (processo promovido por Domingos Jorge
Velho).
[7]
Dr. Nina Rodrigues - "L'animisme fétichiste des nègres
de Bahia". Ed. Reis & Cia. - Bahia, 1900, 158 págs. (págs.
14 a 19).
[8]
Já
vimos o significado Iorubano.
Iebú, o mesmo que Iabu,
forma árabe, significa "o que é Pai, ou do Pai
etc.", de "I", adjetivo relativo ou ético árabe, do
masculino, significando "ação, movimento, natureza
etc." e "Abu", "pai, pai religioso, avô".
[9]
Vê-se aqui, delineado e exposto, o panorama religioso dos negros
da Bahia, o mais completo ambiente africano do Brasil. Apenas duas correntes
religiosas - uma inferior (a dos iorubanos e iebus), outra
superior (a dos malés e muçulmís). Venceria
a inferior, como antes se depreende, por seus encantos e sortilégios,
mas principalmente por seus aspectos de magia e liberdade. Daí a
existência, em nossos dias, tanto da Umbanda como da Quimbanda, com
a multidão dos seus centros, tendas e terreiros, já agora
envolvendo e abrangendo negros e brancos, autoridades, intelectuais, parlamentares,
ministros, o Brasil inteiro, sem que a própria Igreja Católica
tenha forças para vencer a onda imensa que empolga as sociedades
e o povo.
[10]
Vê-se bem aqui a razão de ter vencido a corrente iorubana
e iebu e de haver desaparecido totalmente, em nossos dias, a fé
muçulmana (malé e muçulmí) dos
negros brasileiros. Era difícil mantê-la, pelas exigências
que estabelecia, pela disciplina e dignidade moral que impunha. Preferiram
as crenças liberais...
[11]
Esta passagem do mestre nos demonstra, pela alusão aos movimentos
verificados na Bahia, verdadeiras sedições populares, de
fundo religioso, promovidas pelos "malés" e "muçulmis"
(aussás, mandingas e nagôs) e reprimidas violentamente pelo
poder eclesiástico e policial, como se verá a seguir, que
a inquietação muçulmana no Norte e no Nordeste brasileiro
já vinha de longe e já pudera produzir a famosa passagem
dos Palmares, que congregava milhares de crentes negros, fugidos dos seus
ergástulos, para a liberdade da serra da Barriga, onde queriam apenas
ser livres como outrora nas solidões africanas e ser felizes. A
segunda metade do século XVII assistiu à formação
da chamada "república negra", e o ano de 1697 proporcionou ao Brasil
o espetáculo da sua destruição, com os maiores requintes
de brutalidade consciente.
Admira hoje,
quando comemoramos no Brasil, e particularmente em Santos, a maravilha
do movimento abolicionista, o maior espetáculo de Civilização
e Fraternidade proporcionado pelo homem branco - em luta pelo negro e pela
sua própria reabilitação moral - que em nossos livros
didáticos e em nossas escolas se promova ainda e admita a glorificação
dos destruidores de Palmares, de ferozes colecionadores de orelhas de escravos
assassinados, de assassinos vulgares de fujões imbeles que apenas
se defendiam, zelando pelo direito à liberdade conquistada.
[12]
É extraordinário que fatos como estes, com esta importância,
e documentos como este, do Visconde de São Lourenço, não
sejam conhecidos por todo o Brasil e divulgados em seus compêndios
de História, parecendo a sua leitura, assim, ao cabo de tantos anos,
num estudo de caráter científico, algo de fantástico,
de assombroso, de inacreditável, que parece não ter acontecido...
dado o sepultamento total e intencional em que os conservaram aqueles que
deveriam tê-los divulgado.
[13]
Este Relatório é a confissão plena de um assassínio
em massa pela polícia, por um homem de bem... que receberia por
isso o título de Barão do Império.
Pois em Santos,
naquela altura de 1835 a 1837, um quilombo enorme, que se formara entre
as serras do Quilombo (Cabraiaquara), Jurubatuba e Jaguareguava, desde
os anos de 1780/1790, era também destruído por um segundo
Domingos Jorge Velho, a soldo e contrato, sendo o lucro apurado com
a captura dos que não morreram (os mortos foram centenas), dividido
entre o governo da Província e a Câmara Municipal de Santos,
como se verifica pelas sessões (diversas) desta última, em
1837, 1838 e 1839. E quem nos diz que também aqui, no grande quilombo
santista, destruído por Bento José Branco e seus voluntários
de São Bernardo, não se repetia o caso histórico e
religioso dos "malés" e "muçulmís" da
Bahia estudado por Nina Rodrigues?
[14]
Este depoimento do cientista baiano e os vários e dolorosos depoimentos
que ele contém, avivando um drama passado pelos negros que tinham
a dupla desgraça de serem escravos e adotarem uma fé repelida
pelo "meio", repetem, por vias indiretas, aquele drama imenso, mil
vezes maior, dos árabes e judeus portugueses, perseguidos, presos,
saqueados e expulsos ou recolhidos a grandes campos de concentração,
que tinham os nomes de aljamas, alfamas, moreiras, almoreiras, mourarias
e "guetos", para futuras expulsões, principalmente a partir de 1497.
A razão praticamente era a mesma, religiosa, aquela fé que,
no dizer do velho "malé" ou "muçulmi", "vivia
no coração", como um direito que ninguém podia tocar.
[15]
O final do depoimento "malé", dentro do depoimento geral
e científico de Nina Rodrigues, é de uma terrível
eloqüência, e põe em grande relevo, ao mesmo tempo, a
conquista abolicionista e a conquista republicana, com a consagração
do princípio constitucional da liberdade de culto e de consciência
e da igualdade dos homens, bastante para justificar a existência
da própria República.
[16]
Membro da Academia Brasileira de Letras, diretor do Museu Histórico
Nacional por muitos anos. Autor da famosa "História Secreta do
Brasil" e de várias outras obras. Redator de revistas literárias
e científicas. Grande colaborador de O Cruzeiro, para o qual
escrevia apreciados e até notáveis trabalhos históricos,
muito ilustrados, como este ora reproduzido (de 24/2/1951). Gustavo Barroso
faleceu em 1961.
[17]
Não é verdade. A religião e a civilização
árabe-judaica, com a própria língua árabe e
uma contribuição acessória do hebraico, foram introduzidas
no Brasil com os primeiros exploradores, as primeiras Armadas oficiais
e particulares, com os navios do longo Contrato de Fernão de Loronha
(chamado Fernando de Noronha), e com os degredados ou desterrados judios
e "cristãos-novos", durante todo o primeiro século
brasileiro, continuando pelo segundo (XVI e XVII), chegando a língua
a distribuir-se pelo chão de todo o nosso litoral, em centenas de
topônimos.
[18]
Também não é verdade. Malin era uma forma plural
hebraica do árabe Mali. A palavra Malinké,
"gente de Mali", seria, em conseqüência, o mesmo que Malinki
(Malin e Ki, "quem"), significando "gente mali, malin
ou malé". Tratando-se de negros de várias partes da África,
apenas disciplinados, educados e preparados ou melhorados pelos árabes
e judeus da exploração africana, é evidente que não
podia ser considerado de Mali, já explicado que Mâl,
em árabe, queria dizer: "riqueza, fortuna", e Mali,
"aquele que é uma riqueza, uma fortuna, ou vale uma fortuna -
o valorizado".
[19]
Até a expressão "guerra santa" era árabe-muçulmana,
porque o "dijihed" era a guerra santa dos árabes, a Algara,
estabelecida no próprio Alcorão, obrigatória
na entrada da primavera.
[20]
A verdadeira, a grande História do Brasil, está por ser contada,
escondida como tem sido ao estudo e conhecimetno comum dos brasileiros.
Muito antes destes fatos, já a chamada "República dos Palmares"
constituíra uma página "muçulmana" dentro da
História do nosso País. A existência dos Mocamos
corrompidos em Mocambos, significando "capela muçulmana"
ou "mesquita" e "esnoga ou sinagoga", e espalhados por todo
o Norte e o Nordeste do Brasil, proclamavam a existência dessa História,
que o Poder Eclesiástico, evidentemente mais interessado nisso do
que o Político, impediu de figurar em nossos livros, e, conseqüentemente,
de divulgar-se entre o nosso povo e os nossos escritores, desde o século
XVIII.
Mas, por ter
sido escondida e sonegada, não quer dizer que deva continuar escondida
e sonegada neste século de ciência e de cultura em que até
os espaços ignotos vão se revelando, em que o átomo
já não é mais Átomo (N.E.:
a palavra átomo significa "indivisível", já se sabendo
em pleno século XX da existência de prótons, elétrons
e muitas outras partículas subatômicas),
em que o homem viaja na órbita terrestre como um asteróide
dirigido, e em que coisas fantásticas e proibidas outrora vão
se tornando de domínio público, corriqueiras e banais...
Os brasileiros
não podem, em relação à História, à
Ciência e à Cultura, fazer como fizeram com a Abolição
- fechar a raia... chegando depois do penúltimo.
[21]
Gustavo Barroso, o grande revelador de mistérios da nossa
História, ao revelar estes segredos da Escravidão, já
escrevera e publicara a sua História Secreta do Brasil, que
descobria
para os brasileiros uma nova História da sua Pátria, aquela
verdadeira
que jazia sepultada e sonegada ao público comum, prestando com isso
- embora sem o pretender talvez - visto que o fizera apenas por
ódio aos judeus (como bom integralista que era), um grande serviço
à nossa cultura. Devia então dizer como dissemos: "Ainda
está por ser devidamente escrita, com todos os pormenores, a História
do Brasil", e não como disse.
[22]
Se os negros escravos, muçulmanos ou muçulmanizados, possuíam
e integravam a sua Maçonaria, que os conduzia a tais movimentos,
articulando-os de forma tão expressiva, desde o princípio
do século XVIII, é fácil calcular que a Maçonaria
Judaica, reinante em Portugal e na Espanha dos séculos XV e XVI,
organizada em função da defesa de judeus e muçulmanos
perseguidos, expulsos e roubados em seus haveres e fortunas, tenha congregado
(como congregou) os brancos semitas do povoamento brasileiro, que
tinham o seu código e usavam os seus sinais de reconhecimento em
suas próprias assinaturas.
Dentro da realidade
histórica, será mais fácil ao estudioso de hoje compreender
a figura de um "Bacharel" Mestre Cosme, de um João Ramalho ou de
um Diogo Álvares, incompreendidos e indecifrados fora dessa realidade.
[23]
Palavras ditas no Instituto Histórico e Geográfico de Santos,
por ocasião da conferência que ali pronunciou sobre o assunto
o grande criminalista e historiador, que tinha, principalmente no trato
do movimento abolicionista, além de outros interesses e motivos
de aplicação, mais o interesse de originário da raça
implicada. Referia-se Evaristo de Morais à saída da História
de Santos, em 1937, e a este capítulo do livro. |