Participantes
da festa junina, vestidos a caráter, na década de 40 Foto: acervo
de Alzira dos Santos Oliveira
O passado e
o presente das festas juninas
Alzira dos
Santos Oliveira (*)
Festa
junina
do passado eram momentos ternos de união entre os vizinhos, ruas
e até bairros, enquanto que atualmente é uma congregação
de interesses comerciais a até beneficentes.
Nos anos 40,
as festas eram programadas. Vizinhos se reuniam, dividindo as tarefas.
Cada família participava com aquilo que podia. Escolhíamos
o vizinho que tivesse o quintal maior para ser montado o arraial. Começava
então a preparação da festa. Balões, bandeirinhas,
lanternas eram confeccionadas em diversas noites de reuniões. Decidíamos
então quem seria o noivo, a noiva, padrinhos, padre etc.
As guloseimas
ficavam por conta das mães e moças casadoiras. O mastro de
São João era feito pelos pais e jovens. Montavam também
a fogueira com os galhos de árvores que recolhiam das matas. Na
feira, comprava-se a batata-doce e os pinhões que iam ser assados
na fogueira.
Quem tocasse
violão, cavaquinho e sanfona participava do espetáculo, e
as melhores vozes eram escolhidas para cantar: São João,
Lua do Sertão, Cai cai balão, No meu pé de Serra.
Era ensaiada a quadrilha, cada um escolhia a sua dama, até os pais
participavam da dança.
Havia 3 grandes
festas: Santo Antônio, São João e São Pedro.
Todas elas comemoradas com muita alegria e quentão. Nas ruas, em
cada portão de casa havia uma fogueira. O céu ficava coalhado
de estrelas e balões.
Os meninos
corriam com paus para pegar os balões que caíam. Isto era
perigoso. Era a parte negativa da festança. As mães ficavam
rezando para que seus filhos não se machucassem e que balões
não caíssem em casas e dessem início a incêndios.
Os bombeiros ficavam de plantão 24 horas para que não caíssem
balões na Ilha Barnabé, aqui em Santos,
o que seria um desastre muito grande. Graças a Deus, até
hoje isto não aconteceu.
Passadas as
festas juninas, já se pensava como seria a festa do próximo
ano. Tudo era deixado em ordem, para que não houvesse reclamação
do dono da casa. Faziam aquilo com enorme prazer.
As festas de
hoje em dia já vêm com tudo pronto. Tudo empacotado e pronto
para comer. Não há união, vizinho não conhece
vizinho. Nas ruas não se pode mais fazer fogueira. Balões
são proibidos de soltar. As festas são organizadas por clubes,
escolas e entidades assistenciais. Faz-se shows de pagode, convidam-se
grandes astros para incrementarem as festas e assim ganharem mais dinheiro.
São festas comerciais. Não há mais inocência,
romantismo, cooperação e fraternidade.
Como seria
bom se pudéssemos voltar àquelas festas de antigamente. Foi
numa festa de São João que casei com meu marido; eu era a
noiva e ele insistiu em ser o noivo. Casamos na vida real 4 anos após
aquela belíssima festa. A reportagem da festa foi noticiada no jornal
O
Diário de Santos. Até hoje relembro com saudade aquele
dia.
(*)
Alzira dos Santos Oliveira prestou este
depoimento à Universidade
da Terceira Idade, da Unisantos, dentro do programa Resgate
da Memória da Baixada Santista na Perspectiva de seus Cidadãos
da Terceira Idade, coordenado pela professora Teresa Cristina Tesser. |