Cadeião
fervilha no centro
Palácio
da Polícia, na Av. São Francisco, na fase em que começava
a ser desativada a cadeia Foto: José
Dias Herrera, publicada com a matéria
Cadeião
reativado no centro
A
construção do Presídio Regional e da Casa de Detenção
de São Vicente, em Samaritá, não solucionaram o problema
carcerário da Baixada Santista e parece que está longe disso
acontecer, pois muitas de suas vagas são preenchidas por detentos
de outras regiões, inclusive da Capital.
A desativação
da Cadeia Pública de Santos, ocorrida há pouco menos de um
ano, não alterou por muito tempo o quadro prisional na cidade. Pelo
contrário, em pouco espaço de tempo a situação
que parecia estar sob controle piorou mais ainda. Embora poucas pessoas
tenham conhecimento, o Palácio da Polícia, no centro da Cidade,
continua abrigando presos à disposição da Justiça.
Pior, em condições
mais degradantes, pois dezenas, por vezes mais de uma centena de detentos
ficam amontoados nas celas do antigo correcional do 1º DP (andar térreo
do Palácio da Polícia) por longo tempo.
A situação,
segundo as autoridades da área policial e judiciária, é
constrangedora, mas elas próprias alegam que, por falta de um local
adequado, os presos são encaminhados para o antigo correcional que,
apesar de não oferecer qualquer tipo de estrutura, passou a funcionar
como prisão provisória.
 Amontoados,
presos, inclusive aidéticos, não têm espaço
sequer para deitar e quando acontecem os "corretivos", sobra para todo
mundo Foto: José
Dias Herrera, publicada com a matéria
Prisão
provisória - Embora prevista nos limites da Lei das Execuções
Penais, a prisão provisória é um casuísmo jurídico
que vem sendo extrapolado, na medida em que um acusado é mantido
preso pela polícia, com a aquiescência da Justiça,
enquanto se diligencia para se apurar se de fato ele é culpado.
Entretanto, a lei não prevê situações como as
verificadas nesta cadeia, que é pior do que uma pocilga.
Lá são
mantidos também indivíduos presos em flagrante, e os que
têm contra si decretação de prisão preventiva,
que são os chamados presos em trãnsito, enquanto aguardam
julgamento. Misturam-se entre eles apenados, ou seja, aqueles que já
foram condenados e têm sentença a cumprir.
Conforme admite
o próprio Poder Judiciário, a prisão provisória
deve ocorrer por um período curto e sua aplicação
deve atender às especificações de funcionamento de
uma cadeia pública, o que inclui espaço para banho de sol,
visitas dentro da programação estipulada pela direção,
visitas do advogado e condições mínimas de vida, além
de atendimento médico e o isolamento de presos com doenças
contagiosas.
 Amontoados,
presos, inclusive aidéticos, não têm espaço
sequer para deitar e quando acontecem os "corretivos", sobra para todo
mundo Foto: José
Dias Herrera, publicada com a matéria
Ferida exposta
- O problema carcerário, não apenas da região, mas
do país e do mundo, segundo o delegado regional Manoel Luiz Ribeiro
Júnior, existe para ser administrado e não solucionado, pois
a criminalidade se apresenta como um problema insolúvel.
Quando se fala
na situação carcerária, há que ser ladino,
pois a situação é tão complexa que parece se
estar mexendo numa ferida exposta. Pelo que se observa nada está
bom, mas as autoridades afirmam o contrário. Santos, sem uma cadeia
pública, reúne presos de várias cidades à disposição
da Justiça no depósito que era o antigo correcional.
Amontoados,
presos com Aids dividem o mesmo espaço com outros detentos. Em conseqüência,
há três semanas José Vicente, conhecido como Feijoada,
morreu de Aids, dentro da detenção provisória de Santos.
Mais recentemente, José Olegário de Oliveira, também
recolhido à disposição da Justiça, morreu de
broncopneumonia, que é uma das formas atenuadas de se designar o
óbito pela Aids.
Para o promotor
de Justiça Octávio Borba de Vasconcelos Filho, nada há
de anormal na cadeia provisória. "Isso faz parte do próprio
sistema carcerário, embora o correto seria trabalharmos dentro de
condições adversas, pois situações lamentáveis
como as relacionadas com a superlotação da cadeia de Guarujá
e outras deixam as autoridades constrangidas por não terem alternativas.
É como se estivéssemos com a dama de espada sobre nossas
cabeças, pois o crime é como uma luta de interesse do criminoso
(interesse individual) e do interesse da sociedade. A nossa expectativa
está no investimento do Governo".
O juiz corregedor
José Henrique Arantes Theodoro ressalta que as vagas existentes
nas cadeias tornaram-se irrisórias diante do crescimento da criminalidade
e da produção policial. "Não existe ilegalidade e
sim o problema de equacionar remoções. Se antes o preso esperava
dois ou três dias, hoje, em virtude do grande número de detentos,
aguarda na cadeia provisória, às vezes, mais de um mês".
A questão
fica mais complicada quando se fala nas vagas existentes no complexo penitenciário
de Samaritá. O Presídio Regional conta com 250 vagas, podendo
chegar a 300. A Casa de Detenção comporta até 750
presos. Em Mongaguá (regime semi-aberto), o presídio foi
projetado para 520 vagas, comporta 770 presos e tem uma população
carcerária de apenas 400. Tanto no presídio como na Casa
de Detenção, existem presos já em condições
de serem transferidos para o regime semi-aberto, mas as remoções
não se dão a contento.
Discurso
único - Tanto o delegado seccional Edgard Aparecido Lázaro,
como o responsável pela cadeia provisória do 1º DP,
Paulo Fernando, Felipe e o delegado regional Manoel Luiz Ribeiro júnior,
a prioridade desses complexos penitenciários é para Santos,
mas só são atendidos dentro do possível, pois não
há vagas.
Assim como
o juiz corregedor, não vêem ilegalidade na manutenção
da cadeia provisória, sob a alegação de que é
preferível ter o marginal confinado do que nas ruas praticando os
mais horrendos crimes. Com a conclusão das obras na cadeia pública
do 3º DP e a construção do novo prédio para o
5º DP, o regional acredita que haverá um paliativo, pois tem
a promessa da Secretaria de Segurança de que serão construídas
mais duas cadeias na região.
 Juiz José
Henrique, delegado regional Manoel Luiz Ribeiro, ...
 ... promotor
público Octávio Borba Vasconcelos e o delegado Paulo Felipe: "a prisão
provisória não é ilegal, apenas inadequada" Fotos: José
Dias Herrera, publicadas com a matéria
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