| Movimento Constitucionalista completa 60 anos
Valdete Silva
Da Editoria Local
O 60º aniversário da Revolução
Constitucionalista de 32 será comemorado amanhã e, com certeza, o dia 9 de julho proporcionará, especialmente aos
ex-combatentes, lembranças da epopéia paulista de maior repercussão nacional. Alguns recordarão os civis que foram para as
trincheiras, ou os soldados que tombaram no combate à ditadura, da Campanha do Ouro para o Bem de São Paulo, ou das
mulheres que se revezavam na confecção de fardas.
Outros ainda poderão recordar os poemas de um dos intérpretes do movimento
constitucionalista, Ibrahim Nobre (delegado de polícia em várias regiões do Estado, inclusive em Santos, também promotor de
Justiça na Capital), que, pelo seu idealismo e atuação na Revolução de 32, se encontra representado em uma estátua de bronze,
nos jardins do Parque Ibirapuera (SP), próxima ao monumento onde estão seus restos mortais.
E, entre as pessoas que viram a Revolução de 32 acontecer, estavam o atual
presidente da Associação dos Ex-Combatentes de Santos, Mário Amélio Humberto Fiore, o vice-presidente da entidade, Nelson
Noschese, e Otto Gottelieb Ewald.

Otto Ewald, Mário
Humberto e Nelson Noschese guardam duras recordações da Revolução de 32
Foto: Roberto Konda,
publicada com a matéria
Lembranças - Na época, Mário Fiore estava no 6º Batalhão de Caçadores,
em São Paulo, onde era instrutor de soldados que iam para o front; Noschese era escoteiro em Santos, e Otto Gottelieb
Ewald estava ao lado de vários santistas, nas trincheiras, em Silveiras, onde viu companheiros como Pérsio Souza Queiroz e
Ivampa Lisboa tombarem.
Emocionados, Mário, Otto e Nelson relembraram ontem, na Associação dos
Ex-Combatentes de Santos, instalada na Casa da Cultura do Litoral, cenas que presenciaram durante a revolução - o movimento que,
segundo afirmam, jamais teve a intenção de separar São Paulo do resto do País.
"Ao contrário do que pregavam os oposicionistas, a revolução não era um
movimento separatista, era um movimento por uma Constituição. E até hoje nós, ex-combatentes, conservamos os mesmos ideais",
desabafou Mário Fiore.
Evitando fazer comentários sobre o abalo por que passa o Governo Federal
atualmente, Fiore disse: "O melhor regime de governo é o constitucionalista. Embora a Constituição apresente falhas, o certo é
consertá-las e não rasgar a Carta, não fazer guerras". O presidente da Associação dos Ex-Combatentes entende que essa foi a
lição deixada pela Revolução de 32.
A morte - Ao recordar um momento inesquecível da guerra de 32, Otto
Ewald, 82 anos, disse: Ivampa Lisboa estava ao meu lado em uma trincheira, em Silveiras, ele levantou a cabeça e foi atingido
com um tiro no meio da testa. Ele era um homem forte, e eu e outros três companheiros o carregamos até o posto de socorro mais
próximo, que ficava distante da colina onde estávamos lutando. Ivampa não resistiu".
"Recordo-me também do entusiasmo da juventude, dos companheiros de Santos que
se alistavam, prontos para lutar pela causa da Constituição. Foi lindo o movimento de solidariedade das pessoas que estavam na
retaguarda, longe do front. Homens e senhoras da sociedade nos mandavam alimentos, biscoitos, roupas e tudo o que nos
fizesse lembrar das coisas boas da vida".

O monumento da Praça
José Bonifácio faz homenagem a santistas
Foto: Roberto Konda,
publicada com a matéria
Monumento exalta a participação santista
Em Santos, na Praça José Bonifácio, está o
monumento ao Soldado Constitucionalista, onde consta uma relação de santistas que tiveram importante
atuação na revolução, como Dagoberto Gasgon, Ivampa Lisboa, Emílio Ribas.
Além desses, Godofredo Fraga, Alfredo Albertini, Alfredo Shammas, Henrique
Soller, que integravam tropas de combatentes, também tiveram seus nomes dados a algumas das principais ruas de Santos.
Entre outros ex-combatentes e voluntários, Mário Fiore citou Giusfredo Santini
(ex-diretor-presidente de A Tribuna), o ex-vereador e ex-deputado Athié Jorge Coury; Polydoro Bitencourt - esse esteve no
comando do embarque de tropas de Santos para São Paulo; Mário Romitti, José Leite Amorim, Idel Bava, Sílvio Feliciano, Nélson
Serra e Olímpio Requião.
Atos de solidariedade são destaque
O movimento de 32 contou com atos de solidariedade e também com a contribuição
de mulheres. Entre os que acompanharam a revolução, fora do front, também se incluem Hélio Alves Vasques, 75 anos, e sua
esposa, Luíza de Castro, residentes no Boqueirão.
"Aos 16 anos, no Alto de Sant'Ana, eu estive no Armazém de Abastecimento às
Famílias de Soldados, instalado num dos depósitos da antiga Estrada de Ferro Cantareira. "Ali, por alguns dias, pude prestar
minha modesta colaboração", recorda-se Hélio Alves.
Enquanto que sua companheira, Luíza de Castro, na época aluna da Escola Normal
de Cruzeiro (SP), foi requisitada para trabalhar na Casa do Soldado. Junto com outras normalistas ela ajudava na confecção de
fardas, preparo de material de socorro, e alimentação de soldados.
"A cidade de Cruzeiro se tornou uma verdadeira praça de guerra", completou
Hélio Alves, ao mostrar com carinho a obra intitulada A Revolução de 32, de Hernani Donato.
Para ele, os revolucionários de 32 não imolaram suas vidas em vão. "Para mim,
São Paulo não foi vencido e, como disse Menotti del Picchia: "No seu martírio de hoje, nas bocas abertas de suas feridas, no seu
majestoso sofrimento, há uma voz que fala à consciência do País, com o mesmo ardor com que suas armas falaram nas trincheiras:
Dai-nos a lei". E com ela veio a Constituição de 1934 e a nomeação de Armando Salles Oliveira à interventoria em São Paulo.
"E Getúlio Vargas, ao assinar o decreto, enfatizou: "Quero que compreendam a
extensão e o significado deste ano, pois com esse decreto entrego o Governo de São Paulo aos revolucionários de 32".
Os ex-combatentes destacam a valiosa colaboração das mulheres. Em Santos, na
Rua Pindorama, existe uma constitucionária e expedicionária brasileira, nascida e criada em São Paulo: Emília Pacheco Mendonça,
79 anos, que participará amanhã do desfile, na Capital.
Técnica em Telefonia e Rádio, Emília Pacheco acompanhou de perto a Revolução
de 32, no recebimento de mensagens que deveriam ser distribuídas aos soldados que estavam nas trincheiras. Orgulhosa por ter a
medalha de Constitucionalista e dezenas de outras pelos serviços que prestou ao País, Emília Pacheco diz ser feliz.

O livro mostra como a
cidade de Cruzeiro se tornou praça de guerra
Foto: reprodução,
publicada com a matéria |
| Ditadura inspirou revolução
Pesquisa A Tribuna
No dia 23 de maio de 1932, a conspiração de grupos civis dispostos a lutar contra aqueles que
haviam imposto aos paulistas um governo, que contrariava suas aspirações e ideais de liberdade e democracia, deixava de ser uma
reunião clandestina para tornar-se no movimento popular contra a ditadura e que resultaria na Revolução Constitucionalista de
1932.
Não foi um movimento de apenas um estado da União. O descontentamento crescia em vários
estados de oposição ao regime vigente então. Era uma manifestação que partia, quase sempre, da classe estudantil, reprimida, em
alguns casos, pela polícia. A insatisfação contra o regime do então presidente Getúlio Vargas ficava cada dia mais evidente.
Em São Paulo, os partidos políticos tinham formado uma frente única, com a finalidade de
defender os princípios violados pela ditadura. Os paulistas receberam, em seguida, o apoio de outra frente política estadual, a
gaúcha, também decepcionada com os rumos do regime.
No dia 23 de maio iniciou-se a batalha, com uma série de manifestações populares, culminando
com conflitos entre o povo e legionários que apoiavam o Governo central. Morreram quatro estudantes: Miragaia, Martins, Dráusio
e Camargo. As iniciais de seus nomes (MMDC) passaram a ser o próprio símbolo da Revolução.
Depois de várias semanas, no dia 9 de julho começava a batalha armada. O general Isidoro Dias
Lopes assumiu o comando das forças revolucionárias. Juntaram-se a ele Bertoldo Klinger, comandante das tropas de Mato Grosso, e
ainda Euclides Figueiredo, do Rio de Janeiro, para lutar contra a ditadura de Vargas.
Mas outros governos estaduais não aderiram a São Paulo como era esperado. O governador do Rio
Grande do Sul, Flores da Cunha, não manteve sua palavra de colaborar com a oposição, enquanto Minas Gerais, dividida, acabou
apoiando Vargas. Apenas em Mato Grosso instalou-se um governo revolucionário.
Os paulistas chegaram a ocupar áreas de outros territórios, mas a luta principal foi
desenvolvida em duas frentes - no Sul, especialmente no setor de Itararé, e no Vale do Paraíba. As tropas fiéis à ditadura eram
numericamente superiores e os constitucionalistas enfrentavam ainda a falta de armas e munições.
São Paulo contava com 10 a 12 mil soldados da Força Pública, 8 a 10 mil homens da guarnição
federal e um voluntariado estimado em 50 mil. O fim da luta era apenas questão de tempo e, se foi prolongada por quase três
meses, deveu-se ao esforço dos combatentes e à mobilização da população paulista.
No dia 2 de outubro foi assinado o armistício. O general Valdomiro Lima é designado para ficar
governando o Estado em nome da ditadura. São Paulo estava batido. Autores, simpáticos à causa constitucionalista, afirmam que
São Paulo perdeu em 32, mas venceria coma convocação da Constituinte e a edição da Carta de 1934. |
| Expedientes não se alteram na cidade Amanhã, aniversário da Revolução Constitucionalista, embora tenha sido decretado ponto facultativo no Estado, em
Santos não haverá alterações nos expedientes dos serviços públicos municipais, segundo informou a Assessoria de Comunicações da
Prefeitura.
As empresas estatais, Eletropaulo, Cesp, Sabesp, Comgás, Ceagesp e metrô
funcionarão normalmente, inclusive nos serviços rotineiros de atendimento ao público.
Nos postos de Saúde e hospitais da rede estadual, funcionarão normalmente
todos os serviços de pronto-atendimento. Serão interrompidos apenas os serviços de rotina, como as consultas médicas
ambulatoriais e os setores de vacinações.
Data tem programação festiva
Para comemorar o sexagésimo aniversário da Revolução, amanhã, a Prefeitura e a
Câmara e a Associação dos Ex-Combatentes de 32 de Santos elaboraram vasta programação, que começa às 8h30, com concentração na
Praça José Bonifácio, junto ao Monumento do Soldado Constitucionalista, onde haverá hasteamento das bandeiras Nacional, Paulista
e Santista. Às 9 horas acontecerá desfile dos veteranos de 32, acompanhado pela Banda Militar do 6º BMP/I.
O Movimento de Arregimentação Feminina (MAF) participará da solenidade.
Falará, em nome da entidade, Renato Leite Sant'Anna. Oswaldo Franco Domingues fará o discurso em nome da Associação dos
Ex-Combatentes.
O aniversário da Revolução Constitucionalista ainda será comemorado com missa
solene na Catedral, às 9h30. E, em cumprimento do Decreto Legislativo 21/92, a Câmara fará entrega de
placa à Associação dos Ex-Combatentes de Santos, às 10 horas.
Após a sessão solene está prevista deposição de coroa no Mausoléu do Soldado
Constitucionalista, no Cemitério da Areia Branca. E, às 18 horas, arriamento das bandeiras pelos Escoteiros de Santos.
São Vicente - A Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo da Prefeitura
de São Vicente realiza amanhã, às 8 horas, na Praça Heróis de 32, no Gonzaguinha, hasteamento das bandeiras em comemoração ao
aniversário da Revolução de 32. Às 9 horas haverá missa na Igreja Nossa Senhora do Amparo, na Avenida Capitão-mor Aguiar.
Às 10 horas, será feito o translado dos restos mortais do soldado Mário
Augusto dos Santos Lopes, para o Mausoléu dos Heróis de 32, no Cemitério Municipal.
São Paulo - Na Capital, a Polícia Militar reverenciará a memória dos
que tombaram heroicamente em 32, pela democratização do País. Como parte das festividades, autoridades civis e militares e
oficiais da Corporação serão agraciados com a Medalha Constitucionalista.
Com a presença do governador Luiz Antônio Fleury Filho, a programação começará
às 9 horas, na Av. Pedro Álvares Cabral, em frente ao Mausoléu do Soldado Constitucionalista; às 10 horas haverá desfile
cívico-militar. |