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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - VISITANTES
Anatole France, em 1909

Nas páginas do jornal santista A Tribuna, o pesquisador, historiador e cronista Costa e Silva Sobrinho incluiu inúmeros textos, alguns dos quais foram mais tarde republicados como parte de sua obra Romagem pela Terra dos Andradas. Como este, na série Santos noutros Tempos, publicado na edição de 10 de maio de 1953, nas páginas 21 e 20 do segundo caderno (ortografia atualizada nesta transcrição):


Imagem: reprodução parcial da matéria original

Uma visita de Anatole France

Costa e Silva Sobrinho

No dia 18 de maio de 1909 passava pelo nosso porto, a bordo do paquete inglês Amazon, o insigne homem de letras francês Anatole France, de viagem para a Argentina, onde iria realizar uma série de conferências. Vinham em sua companhia o seu secretário particular, Jean-Jacques Brousson, o escultor J. Badin e o pintor Calmette.

Logo que o navio atracou, subiram a bordo Jacques Dupas, cônsul da França em São Paulo; a comissão da Câmara Municipal de Santos; L. Grumbach, presidente da Sociedade 14 de Julho; Maurice Grumbach, do Cercle Français; o dr. José Luís de Almeida Nogueira, lente da Faculdade de Direito de São Paulo; Adolfo Nardi FIlho, representante da comissão promotora da recepção; e vários estudantes.

Apresentadas as boas vindas ao notável escritor, deu ele os seus agradecimentos, sendo logo convidado para visitar a cidade. Saltando em terra, dirigiu-se em seguida para a Rua 15 de Novembro, onde se demorou cerca de meia hora na Leiteria Modelo, em cavaco desestudado com os membros da sua comitiva.

Dali partiu, com alguns artistas da Comédie Française, seus companheiros de viagem, para o Parque Balneário. Foi-lhe oferecido, então, um esplêndido almoço.

Via-se na ampla sala do "Parque" uma grande mesa em forma de tê, profusamente ornamentada de flores, na qual tomaram lugar o ilustre visitante, as autoridades locais, várias pessoas vindas de São Paulo, representantes da imprensa etc.

Ao espumar do champanhe falaram Jacques Dupas, cônsul francês; o dr. Benedito Moura Ribeiro, vice-presidente da Câmara Municipal, em nome do povo de Santos; e finalmente o dr. Almeida Nogueira, pelos intelectuais paulistas. Foi alegre e animado o festim. No jardim do hotel, toda reluzente de metais, tocou a banda de música municipal.

Anatole France florescia nesse tempo na plenitude da vida e da sensibilidade artística. Levantando-se, agradeceu ele numa elegante síntese as provas de simpatia e de afeto que vinha recebendo no Brasil, as quais o repassavam de imensa gratidão, e arrematou, fazendo os melhores votos pela prosperidade e pelo geral progredimento do grande país sul-americano.

Às 14 horas tomavam de novo o bonde especial. E, às 15 horas, quando o vapor estava prestes a zarpar, já se encontravam todos de volta a bordo.

Dessa breve permanência de Anatole France em nossa cidade, apenas um episódio divertido ficara na lembrança dos coetâneos. Ouvimo-lo narrado mais de uma vez.

Dera-se o caso que um dos estudantes, pretendendo à viva força ser o primeiro de todos em cumprimentar o autor de Le petit Pierre, depois de procurá-lo por todos os cantos do navio, deu na sala de música com um homem de barba à Guise e barrete de seda preta, sentado ao lado de uma mulher na madura pujança dos cinqüenta.

No alvoroço da sua curiosidade, aproximou-se dele o rapaz e indagou:

- Êtes-vous monsieur Anatole France?

O homem, levantando para o jovem uns olhos surpreendidos, prontamente respondeu:

- Non, non, mom jeune ami! J'ài nom Bergeret, pére de Thais...

Desapontado e com um grande desalento na alma, encontrava-se o estudante alguns minutos depois com um dos colegas e lhe dizia:

- Qual, o homem não veio. O único que encontrei com uns ares dele, está ali no salão, aninhado sobre um amplo sofá e perto de uma comediante que parece uma tartaruga. Mas é um tal monsieur Bergeret Perez de Thais.

Quando foram vê-lo, já Anatole France recebia os cumprimentos do cônsul de seu país em São Paulo e de muitas outras pessoas.

Era assim que o imortal autor de Thais (pére de Thais) chasqueava risonhamente do próximo, hilarizando os círculos dos seus íntimos.

Mas não era apenas dessa maneira que ele entretinha o espírito. Refere Brousson, no livro intitulado Anatole France em chinelas, que um dos divertimentos prediletos do admirável estilista eram os elogios hiperbólicos.

"Não regateia, conta o indiscreto secretário, os ilustres, nem os gloriosos.

"Como vai seu ilustre pai? - perguntara enfaticamente à filha do desenhista S..., que tem sete anos e chupa o dedo.

"Quando nada sabe a respeito das pessoas, contenta-as com as comparações. E não se preocupa com o trabalho de imaginação. Todo advogado é um Cícero ou, pelo menos, um Berryer. Os médicos são ou Hipócrates ou Galeno. O seu médico - e ele muda freqüentemente de médico - é sempre 'o meu salvador', 'o homem que me tirou das portas da morte'. Depois de ouvir um discurso, o orador mais trôpego da língua é sempre um Mirabeau. Qualquer pinta-monos converte-se em rival de Apeles: - Olá! Meu querido Rubens!... Brousson, permita-me que lhe apresente o Ingres de nosso tempo, a pintura feita homem.

"Conforme a hora e a distribuição, os poetastros são uns Virgílios e uns Vítor Hugos. E o mais curioso é que eles recebem sem pestanejar tão maciços elogios". (ob. cit., pg. 63).

Isso, de fato, aconteceu no Rio de Janeiro, onde o príncipe dos prosadores franceses foi excessivamente pródigo de gabos e de flamejantes ironias.

Deixou-nos a esse respeito o mesmo Brousson, no seu livro Itinerário de Paris a Buenos Aires, algumas passagens muito aprazíveis.

No desembarque ali de Anatole France, quando chegou o momento das apresentações, faz, por exemplo, o leviano secretário, desfilarem diante do escritor diversos homens importantes. E começa então:

"- O almirante J..." (todas as iniciais são imaginárias).

France, com voz marcial, encaracolando as guias do bigode, diz a este primeiro:

- Almirante, sois um herói...

O lobo do mar inclina-se e segue para a frente. M. Bergeret murmura ao ouvido do secretário, afiando as palavras com um sorriso irônico: - Por definição, uma almirante é um herói... e um general, também...

Continuam, destarte, as apresentações:

- O romancista brasileiro V. P.

- Oh! sim, senhor! Enfim posso estreitar nos meus braços o Balzac do Brasil!

Depois acotovelou o secretário e segredou-lhe: - Não parece este sujeito um mono caído do alto de um coqueiro ou de outra árvore semelhante?

- O pintor M., autor de quadros célebres.

- Aperto com entusiasmo, diz Anatole France, a mão do Apeles do Novo Mundo...

- O professor G., nosso grande filósofo.

Nos lábios do novelista francês voeja agora uma ponta de ironia impiedosa. Pois diz ele:

- Não se admire, ilustre mestre, de virmos buscar aqui lições de sabedoria!

Segue-se outra personagem. E agora um cultor das musas:

- O poeta I...

- Pedi que me traduzissem e recitassem alguns dos vossos versos... Tive a impressão de estar ouvindo a Homero, a Virgílio e a Vítor Hugo...

Chega a vez de um cultor da música:

- O maestro M...

Recebido com ademanes de extrema cortesia, cabe-lhe a dicacidade desta louvaminha:

- Renovastes os milagres de Orfeu...

Tal qual nas distribuições de prêmios: cada um sai com o seu pequenino accessit e a respectiva comparação. O engenheiro da Câmara Municipal é Vitrúvio; o professor de matemáticas é Condorcet; o mestre de dança é Vestris; e assim por diante. A ninguém deixa de brindar com um símile histórico ou mitológico.

Nota-se que Brousson juntou no seu livro alguns lanços inventados com outros verossímeis. É digna, enfim, de traslado a seguinte página, que damos traduzida:

"Dia 17 de maio.

"Recepção na Academia Brasileira de Letras. Alocução do seu presidente Rui Barbosa. Cumula a Anatole France de honras. Mas com os louros e as flores mistura algumas urtigas. Elogia a pureza da forma e censura a impureza do fundo. Seu discurso tem algo de homília.

"A sala é simples, parecia com a de uma escola. Entra pelas janelas uma luz imperiosa que ofusca os nossos olhos ocidentais e, ao mesmo tempo, os grasnidos de um quintal vizinho repleto de patos.

"France responde. Desta feita não lê, improvisa. Fala durante um quarto de hora. Distribui elogios a todo mundo. Cada qual recebe o seu epíteto. Chega depois a vez do hino ao Brasil. E começa:

"- O brasileiros, deveis estar orgulhosos da vossa juventude, assim como nós estamos da nossa velhice...

"Prediz ao Brasil um futuro maravilhoso. É no Rio de Janeiro, proclama ele, onde está refugiada Palas-Atenéia.

"Visita a Biblioteca Nacional. É muito rica, nota agora Brousson. Nela foi incorporada a biblioteca particular de d. Pedro.

"Há ali uma das Bíblias de Gutenberg. Mas os livros velhos europeus sofrem muito aqui. Faz demasiado calor. Nuvens de insetos os danificam. Nas lombadas, nas margens, à volta toda do texto deixam as suas mordeduras.

"Por que saboreiam o branco e deixam o preto? - interroga alguém.

"- É que eles também são críticos, observa France.

"Mostram, enfim, ao Mestre o Marco Aurélio, de Renan, com uma dedicatória autógrafa ao imperador, nestes termos: 'Ao Marco Aurélio do Brasil, Ernesto Renan'.

"- Esta é boa! diz Anatole France, temos aí o ex-seminarista a desfazer-se em genuflexões!

"Quando enfim lhe perguntaram se iria fazer muitas conferências em Buenos Aires, respondeu o Mestre:

"- O nosso programa é Rabelais: tenho que fazer doze conferências acerca de Rabelais. Esse é o meu compromisso! Conheceis o Credo do padre-cura de Meudon? - Ei-lo aqui: 'Falar sempre bem do prior; ficar a seu lado na mesa; e deixar que o mundo marche, apesar das suas fantasias".

As recordações do ex-secretário Brousson, tachadas por vezes de infiéis, fizeram, entretanto, certo ruído quando saíram a lume em 1923.

São reminiscências dos dias extintos desse estilista prodigioso, que, na frase de Georges Dumas, "falava muito à vontade, evitando com cuidado repetir-se a si próprio e evocar o passado"; mas que, apesar disso, escreveu A vida em flor e outros livros de maviosas recordações.

Há, sem dúvida, no recordar, um enlevo inspirador que só não o sentirá quem não tiver passado.

Recordar! Recordar! Como faz bem à gente recordar!


Anatole France, caricatura de Ribs

Imagem: bico-de-pena de Lauro Ribeiro da Silva (Ribs), publicado com a matéria