Thomas
Maack que acabou se exilando nos Estados Unidos Foto: reprodução/1965
- publicada com a matéria
MEMÓRIA Thomas Maack,
médico e preso do Raul Soares
De Nova
Iorque, após 39 anos, pesquisador relata fatos vividos no navio-presídio
Lídia
Maria de Melo Editora
Local
Santos,
1964. Com revólver em punho, um oficial da Marinha pára diante
da cela. Há uma emergência noturna no navio Raul Soares.
Um prisioneiro acaba de cortar os pulsos, para tentar se matar. O jovem
médico de cabelo vermelho e nome alemão é levado para
prestar os primeiros-socorros.
Depois de constatar
que o corte é superficial, faz a sutura e aconselha a remoção
do ferido para a Santa Casa. A partir daquela noite, quando os presos adoeciam,
eram tratados por ele, Thomas Maack, um prisioneiro também.
Nos relatos
que depois surgiram sobre a embarcação que serviu de presídio
político no porto, de abril a outubro daquele ano, o médico
era sempre mencionado. Ninguém, porém, sabia precisar o seu
paradeiro. Assim, ele se tornou apenas um nome, uma lembrança para
alguns poucos.
Hoje, faz exatamente
39 anos que o Raul Soares foi rebocado das cercanias da Ilha Barnabé
para virar sucata no Rio de Janeiro.
No próximo
mês, completará a mesma quantidade de tempo que Thomas Maack
deixou o Brasil, aos 29 anos, com a mulher, a professora Isa Tavares Maack,
e a filha Marisa, de 18 meses. Se ficasse, voltaria a ser preso pelos militares
que comandavam o País desde 31 de março daquele mesmo ano
de 1964.
Por coincidência
(que não sera a única em sua vida), foi com idade idêntica
que seu pai, Hans Maack, saiu de Insterburg, na Alemanha, com destino ao
Brasil, no início de 1936, para proteger a família do nazismo.
A mãe, Kate Maack, era de origem judia e Thomas tinha poucos meses
de nascido.
Em agosto último,
consigo localizar Thomas Maack nos Estados Unidos. Depois de tomar conhecimento
de que meu pai, Iradil Santos Mello, também esteve no navio-presídio,
aceita de pronto conceder entrevista, com exclusividade. Numa longa conversa,
por e-mail, durante mais de dois meses, ele conta os motivos de
sua prisão, sobre o período de isolamento no Raul Soares,
a fuga do Brasil e as dificuldades de adaptação em um país
para onde a vida o levou.
"Algumas lembranças
são duras, mas, em geral, lembrar é quase uma catarse para
mim", sintetiza o médico, que se tornou pesquisador de renome internacional
e professor titular de Fisiologia da Weill Cornell Medical College (Escola
Médica da Universidade de Cornell), da cidade de Nova Iorque.
Exílio
- Quando decidiu ir embora, em dezembro de 1964, após ser libertado,
achou que logo voltaria. O regime militar, no entanto, durou 25 anos e
ele foi expulso do País por decreto do Governo, perdendo o direito
de se naturalizar brasileiro.
Após
a assinatura da Lei da Anistia, em 1979, retornou. Mas a família,
já acrescida de mais uma filha, Márcia, não se adaptou.
"Essa é uma história importante de exílio", analisa.
"Não se fica fora do País por 15 anos, para depois voltar
como se nada tivesse acontecido". O regresso para os Estados Unidos foi
inevitável. Em 1982, Thomas Maack naturalizou-se norte-americano.
Mesmo vivendo
em Nova Iorque há quase quatro décadas, o cientista de 68
anos, completados em 17 de julho, ainda torce para o Corinthians e tem
o coração fincado em São Paulo: "Continuo a me considerar
um paulistano típico". Esse sentimento se explica, a seu ver, porque
foi na capital paulista que ele passou a infância, a juventude e
o início da fase adulta.
Ao Brasil,
costuma vir para compromissos profissionais e, ocasionalmente, em férias.
À Baixada Santista, nunca mais voltou. Mas daqui ele guarda recordações
melhores do que as dos meses em que esteve preso no navio e na cadeia do
Palácio da Polícia, na Rua São Francisco, no Centro.
"Conheço
Santos e a Baixada desde criança, quando eu ia passar as férias
com meus pais. Lembro da Praia do Gonzaga, em Santos; de Itanhaém,
onde eu ia namorar a Isa; de Bertioga, onde passamos a lua-de-mel e choveu
o tempo todo, e de Guarujá. Nunca associei minha prisão,
no Raul Soares e na cadeia, com Santos".
Prisão
ocorreu na Faculdade de Medicina da USP
Thomas Maack
foi preso na manhã de 8 de junho de 1964, uma segunda-feira, por
agentes do Departamento da Ordem Pública e Social (Dops) e militares
à paisana.
Estava em seu
laboratório, na Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo (FMUSP), onde se formara em 1961 e depois se tornara auxiliar de
ensino no Departamento de Fisiologia.
Era acusado
de subversão e de planejar a implantação do regime
comunista no País, por ter participado dos movimentos estudantil
e trotskista. "Os militares sabiam que eu tinha um conhecimento grande
das atividades, inclusive de nomes de militantes". Ele ressalta, porém,
que já havia rompido com o trotskismo quando foi preso. Mesmo assim,
a seu ver, essa ex-militância foi o motivo principal de sua prolongada
prisão.
Também
pesou o fato de ter se oposto ao golpe militar dentro da FMUSP, já
como professor. Acabou delatado por outros docentes e funcionários
da faculdade.
Na tarde do
mesmo dia 8, seu apartamento foi invadido. Levaram livros e papéis,
desatarraxaram lâmpadas, esvaziaram gavetas e armários. Buscavam
provas para as acusações que lhe imputavam. "Como fui absolvido
pela Justiça Militar nos dois processos em que figurava, essas acusações
deviam ser patentemente falsas".
Algumas eram
mesmo grotescas. "Disseram que encontraram uma bala de arma do Exército
no nosso apartamento. Nunca peguei uma arma ou bala de espécie alguma
em minha mão. Disseram que tinham uma fotografia minha, vestido
de sargento no Nordeste, fomentando a revolução comunista.
Nunca tinha ido ao Nordeste brasileiro".
Da USP, foi
levado para a sede do Dops. E, após algumas horas, para o Quartel
do Exército de Quitaúna, em Osasco, onde ficou por cerca
de três semanas. Era submetido a extensos interrogatórios
comandados pelo tenente-coronel Sebastião Alvim, que mandou invadir
também seu laboratório na FMUSP.
Nessa ação,
os militares pegaram seus livros de protocolo, onde estavam anotadas as
experiências que realizou de 1962 a 1964. "Os livros de protocolo
são o que há de mais precioso para um pesquisador". Mas eles
achavam que as anotações escondiam códigos secretos
de atos subversivos e nomes de guerra de outros militantes.
O cientista,
que já é avô de Marcelo e Lucas, cita outro exemplo
de avaliação equivocada de seus atos. Em uma das sessões
de interrogatório, o coronel alertou-o sobre o caráter comprometedor
da cesta vermelha em que ele carregava Marisa, ainda bebê, de casa
para a creche do Hospital das Clínicas (HC), que era, e ainda é,
vinculado à FMUSP.
Na visão
do militar, que morreu em janeiro de 1998, e de alguns delatores da FMUSP,
a cor era uma prova irrefutável de sua ideologia comunista. Thomas
Maack rebateu com humor a interpretação. Alegou que seu cabelo
ruivo, quase da tonalidade de um tomate, já seria suficiente para
simbolizar suas idéias. Ainda assim, a cor da cesta figurou em um
de seus processos na Justiça Militar como indicativo de sua culpa.
 Os presos
que adoeciam eram atendidos por Thomas Maack Foto: reprodução
- 16/9/1964 - publicada com a matéria
Quatro meses
de confinamento
No final de
junho de 1964, Thomas Maack foi trazido para Santos e confinado no Raul
Soares, sem que a família soubesse. Ele estima que no navio,
supervisionado pela Marinha, houvesse cerca de 150 presos políticos.
A maioria era do movimento sindical santista e de outras regiões
do Estado. Havia ainda militares, jornalistas, estudantes e lideranças
de várias áreas.
O cientista
se lembra de poucos nomes. Sabe que muitos adoeciam e deveriam ser acompanhados
por um médico da Marinha, que quase não aparecia. Quando
passou a assistir esses doentes, apontava aos oficiais a necessidade da
transferência para a Santa Casa, se havia gravidade. "Eles sempre
acatavam, porque temiam que houvesse morte entre os prisioneiros e uma
rebelião".
O estudante
Tomoshi Sumida era um dos que estavam com a saúde fragilizada. "Constantemente,
ele era encarcerado nos chamados quarto quente e quarto frio. Mandei avisá-lo
de que deveria ser visto por um médico, no caso, eu, que daria um
jeito de dizer que sua saúde não suportaria aquele tipo de
exposição. Mas Sumida era corajoso e resolveu mostrar aos
militares que as punições não o iriam quebrar. Não
era a melhor decisão, mas eu respeitava".
Após
a leitura de meu livro, Raul Soares, Um Navio Tatuado em Nós,
que pediu a um amigo para comprar no Brasil, o pesquisador relata: "A narativa
de seu pai evocou muitas memórias. A descrição sobre
o caso do Zeca da Marinha me fez relembrar com clareza um episódio".
No final de
uma tarde, um integrante da Polícia Marítima e um oficial
da Marinha levaram à sua cela um prisioneiro com alto grau de agitação
e incoerência mental. O oficial achava que o homem estava fingindo
ser louco. Thomas Maack garante que nada havia de encenação
no comportamento do preso.
"A agitação
era incontrolável e poderia se transformar em violência. Quando
estava tentando dizer isso ao oficial, o prisioneiro tirou a sua aliança
do dedo e a engoliu".
O oficial e
o policial ficaram impressionados e se retiraram, deixando o prisioneiro
na cela por cerca de duas horas. Ele acredita que esse preso era Zeca da
Marinha. "Ele não falava. Às vezes, andava de um lado para
o outro. Outras, sentava com as mãos na cabeça. Depois, foram
buscá-lo e o liberaram não sei para onde".
Tratar dos
doentes era a única maneira de Thomas Maack ter contato com outros
presos. Ele ocupava uma cela individual que o mantinha isolado, ao contrário
do que ocorria com a grande maioria que estava alojada em péssimas
condições no porão.
"O meu isolamento
não me permitiu conhecer os trabalhadores da orla marítima,
de saber de suas angústias, de seus castigos, de seus desesperos,
mas também de seu companheirismo".
Mesmo assim,
conseguiu que a liderança dos sindicalistas desse um jeito para
que um policial transmitisse um recado seu a Isa na Capital. "Aproveitei
que alguns tinham boas relações com policiais marítimos".
Após
mais de três meses no navio, ele recebeu a primeira visita. Foi a
de sua mãe, que levou Marisa. Isa só obteve autorização
quando faltavam poucas semanas para a desativação do presídio
flutuante. Na primeira vez, ela foi sozinha. Na segunda, estava com a filha.
Em outubro
de 1964, o governador Adhemar de Barros expurgou Thomas Maack da FMUSP.
Depois, a direção da creche do HC expulsou Marisa, já
que o pai não era mais professor da universidade. O castigo ao bebê
foi revogado após protestos e repercussão na imprensa.
Em tempo:
os ex-presos políticos Zeca da Marinha, Tomoshi Sumida e Iradil
Santos Mello já são falecidos.
 O cientista
Thomas Maack é professor titular de Fisiologia e Medicina Foto: Andrew
Suhl/especial para A Tribuna, publicada com a matéria
Exílio
foi a única alternativa para evitar perseguições
O Raul Soares
foi desativado no dia 23 de outubro de 1964. Nessa data, a maioria dos
presos foi libertada e processada, além de ter os direitos políticos
cassados por dez anos. Junto com alguns prisioneiros militares, Thomas
Maack foi transferido para a cadeia do Palácio da Polícia,
de onde só saiu no dia 15 de dezembro por força de um habeas
corpus concedido pelo Supremo Tribunal Federal.
Três
dias depois, nova prisão preventiva foi decretada. Dessa vez, ninguém
mais conseguiu prendê-lo. Com o auxílio de pessoas que ajudavam
perseguidos políticos, conseguiu um passaporte alemão e foi
até Curitiba com a mulher e a filha.
De lá,
os três viajaram de avião para Assunção, no
Paraguai. A intenção era seguir para o Canadá, mas
não havia vôos diretos. Seria preciso um visto norte-americano.
Permaneceram uma semana na capital paraguaia antes de partir para Nova
Iorque.
Nos Estados
Unidos, ficaram com familiares em Siracusa. Amigos desaconselharam a ida
para o Canadá. Ele, então, falando um inglês que mal
dava para ser entendido, foi conhecer o Departamento de Fisiologia da Faculdade
de Medicina da cidade.
Por outra grande
coincidência, encontrou o renomado fisiologista renal William Kinter,
que havia conhecido durante um congresso na Argentina, em 1959. "Contei
a Kinter minha história e ele imediatamente me ofereceu uma posição
de pós-doutorado em seu laboratório. Assim, uma semana depois,
havia conseguido um emprego. Logo, Isa foi aceita na pós-graduação
de História. Ficar nos Estados Unidos não foi uma decisão
racional. Foi aonde a vida nos levou".
A prática
médica de Thomas Maack terminou no Raul Soares. Nunca mais
atendeu a pacientes. Não por falta de vontade, mas porque sua carreira
nos Estados Unidos o direcionou exclusivamente à pesquisa e ao ensino
médico.
"A minha contribuição
para o Brasil está na formação dos diversos brasileiros
que foram treinados aqui nos Estadoos Unidos. A maioria desses meus estudantes
brasileiros, hoje, ocupa posições de liderança profissional
no País".
 Reportagem
de A Tribuna de 17 de setembro de 1964 menciona o médico Imagem publicada
com a matéria
Saiba Mais
Thomas Maack
lecionou na Faculdade de Medicina da USP, de 1962 a 1964, e na Universidade
Estadual de Siracusa (NY/EUA) de 1965 a 1969. Nesse mesmo ano, foi contratado
como professor pela Escola Médica da Universidade de Cornell (NY/EUA),
onde mais tarde se tornou titular dos departamentos de Fisiologia e de
Medicina. Também integrou a comissão que implantou o sistema
de reserva de vagas para negros. Membro da Academia Brasileira de Ciências
desde 14 de junho de 2000, dedica seu trabalho à pesquisa e à
formação de médicos.
Nos últimos
20 anos, sua pesquisa vem sendo centrada em estudos pioneiros sobre um
hormônio produzido pelo coração, chamado fator natriurético
atrial, que regula a excreção de sal do organismo e a pressão
arterial. Publicou mais de 100 artigos em revistas científicas,
além de capítulos de livros. Desde 1979, é convidado
para realizar atividades como professor visitante em universidades públicas
brasileiras. Foi consultor da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes), órgão ligado
ao Ministério da Educação (MEC), em 1999 e 2001. De
1998 a 2001, participou da reforma curricular em cursos de Medicina, como
o da Universidade Estadual de Campinas.
O navio,
na época em que foi usado como prisão militar Foto cedida à autora em 1986 pelo proprietário do Museu Naval de São Vicente, Carlos Hablitzel, e incluída no livro Raul Soares, um Navio Tatuado em Nós, publicado em 1995
Memória
O navio Raul
Soares foi construído em 1900 pela empresa alemã Hamburg-Sud
e batizado de Cap Verde. Tinha capacidade para 587 passageiros.
Pesava 5.909 toneladas. Transportava imigrantes da Europa para a América
do Sul. Em 1919, foi vendido para a Grã-Bretanha. Em 1922, teve
o nome trocado para Madeira. Três anos depois, comprado pelo
Lloyd Brasileiro, passou a ser chamado de Raul Soares, em homenagem
ao político que governou Minas Gerais e dá nome a uma cidade
mineira. Trouxe para Santos muitos migrantes do Norte e Nordeste do País.
Estava inativo
no cais da Ilha de Mocanguê, no Rio de Janeiro, quando foi rebocado
pela embarcação Tridente, da Marinha, até o
Porto de Santos, onde chegou no dia 24 de abril de 1964. Na semana seguinte,
começou a receber prisioneiros políticos, acusados de subversão,
por se oporem ao Governo MIlitar que havia deposto o então presidente
da República, João Goulart, no dia 31 de março. Depois
de desativado como prisão flutuante no dia 23 de outubro, o Raul
Soares foi levado de volta para o Rio, na manhã do dia 2 de
novembro de 1964. Acabou virando sucata, mas será sempre lembrado
como um símbolo da repressão em Santos. |