 Peter J.
McGuire, o idealizador do Dia do Trabalho
Comemorações
do 1º de Maio no País tiveram início em Santos
O
Dia do Trabalho é comemorado a 1º de maio na maioria das nações
do mundo, porém alguns países o festejam em data diferente:
nos Estados Unidos, os operários reúnem-se na primeira segunda-feira
de setembro; na Inglaterra ocorre no primeiro domingo após o 1º
de maio; no Japão, a 23 de setembro; na Espanha, em 18 de julho;
e na Nova Zelândia, em 18 de outubro.
No Brasil,
a primeira tentativa de se festejar a data deu-se em 1893, porém
houve repressão do Governo. Todavia, segundo alguns historiadores,
a partir de 1895 as festividades passaram a realizar-se sem problemas,
mas a primeira comemoração no País realizou-se em
Santos, na sede do Centro Socialista. Para outros pesquisadores, todavia,
o 1º de Maio começou a ser considerado feriado nacional depois
da aprovação, pelo Congresso, de um projeto de lei do deputado
Sampaio Ferraz, em 1902, mas para diversos estudiosos isso só ocorreu
em 1949, quando o dia foi declarado oficialmente feriado nacional, pela
Lei 662.
Origem do
1º de Maio - Em 1882, Peter J. McGuire, um dos líderes
da Federação Americana do Trabalho, solicitou que um dia
do ano fosse preservado como feriado nacional para os trabalhadores de
todos os níveis. A idéia começou a vingar a partir
do dia 5 de setembro daquele ano, quando pela primeira vez o trabalhador
foi homenageado, após uma passeata de 10 mil operários, portando
cartazes, que se reuniram na Praça dos Sindicatos, em Nova Iorque,
e rumaram em direção à Broadway. Por isso, Peter McGuire
é considerado o idealizador do Dia do Trabalho, porque o movimento
começou a estender-se ao mundo todo.
Todavia, na
época a jornada de trabalho era muito intensa e os operários
dos Estados Unidos estavam há tempos reivindicando um período
de oito horas diárias de serviço. Assim, em 1º de maio
de 1886, 200 mil trabalhadores, organizados pela Federação
dos Trabalhadores dos Estados Unidos e do Canadá, resolveram entrar
em greve na cidade de Chicago. A polícia travou violento choque
com os grevistas, causando a morte de muitos deles e apreendendo oito de
seus principais líderes: Augusto Spies, Michael Schwab, Samuel Fielden,
Adolfo Fischer, Jorge Engel, Luiz Lingg, Oscar Neebe e Albert Parsons.
Por decisão
judicial, quatro desses dirigentes foram, em novembro do ano seguinte,
enforcados. Dos que sobraram, um - Luiz Lingg - suicidou-se na cadeia,
esmagando entre os dentes uma cápsula com fulminato de mercúrio,
e os demais foram condenados a prisão perpétua. Assim, o
Dia do Trabalho passou a ser comemorado mais intensamente nos Estados Unidos
depois do movimento de Chicago.
A luta é
antiga - Contam os historiadores que o primeiro movimento grevista
de que se tem notícia foi desfechado pelos construtores de uma das
pirâmides do Egito. Os grevistas nada recebiam para fazer as suntuosas
obras dos faraós porque eram escravos, presas de guerra com povos
vizinhos. Esse primeiro movimento deu-se, entre outros motivos, devido
aos maus tratos recebidos dos capatazes e feitores, que os fustigavam com
bastões e relhos tendo nas pontas objetos pesados e cortantes. Os
homens eram surrados até a morte, caso esboçassem reação.
Há diversos
hieróglifos em monumentos egípcios ou em papiros que mostram
o espancamento dos escravos. Os grevistas, além disso, protestavam
também contra a fome, já que os encarregados pela construção,
embora recebessem a quantidade necessária de grãos, alhos
e cebolas para distribuir entre os empregados, não entregavam os
alimentos para eles, preferindo negociar o lote. A exploração
dos homens chegou a tal ponto que, famintos, em certa ocasião, cruzaram
os braços. Por isso foram barbaramente castigados, segundo o costume
da época, mas conseguiram triunfar, com o desmascaramento dos carrascos.
Elite da
escravidão - Os romanos aperfeiçoaram, até o mais
alto grau, a utilização de escravos, e os levantes eram violentamente
castigados nos calabouços. No começo do império, os
grandes senhores não se envergonhavam de cuidar de seus campos.
Porém, com a extensão do poder romano pelo Mediterrâneo,
os proprietários estabeleceram-se na capital, e no campo ficaram
os escravos, que eram administrados e vigiados por libertos, os quais,
guindados repentinamente à posição de mando, se tornaram,
por despreparo e para terem mais segurança, os piores carrascos
de seus antigos colegas. Na cidade, o que interessava aos governantes era
dar ao povo pão e circo.
Os senadores,
cônsules, tribunos, edis e magistrados possuíam em sua corte
libertos e clientes, além de escravos altamente especializados que
lhes serviam de cozinheiros, condutores de carros, secretários,
professores e guarda-costas. Na cidade, tudo se esbanjava, enquanto no
campo os escravos que lidavam com a terra eram cada vez mais explorados.
Essa situação
deu origem a muitos movimentos e levou os cidadãos mais eslarecidos
a tentarem a reforma administrativa, visando proteger os menos favorecidos
- os quais, desde os primeiros anos de Roma, ao se tornarem inúteis,
eram levados para o templo de Esculápio, para que o deus da Medicina
cuidasse deles. Dentre os reformadores, destacaram-se os irmãos
Graco, e entre os líderes das lutas dos escravos é lembrado
o nome de Espártaco.
Idade Média
- Apesar de todas as lutas pelos direitos do homem, o escravagismo prosseguiu.
Durante a Idade Média, a par da intolerância religiosa - um
dos fatores da ignorância e da opressão dos camponeses -,
imperou o feudalismo. De acordo com esse regime, os próprios senhores,
por vezes, nada mais eram que simples protegidos de grandes proprietários,
aos quais rendiam obediência. Com as lutas travadas entre senhores
medievais - que usavam servos e camponeses para enfrentar os rivais -,
começou a surgir a idéia da emancipação do
homem, que trabalhava a terra sem praticamente nada receber em troca.
Depois da Idade
Média, continuaram ainda as explorações, com o recrudescimento
do comércio escravagista. A muito custo o homem do campo começou
a entender que era uma força viva da sociedade, que se tornara um
dos seus princiapis esteios.
Essa evolução
teve seu ponto culminante na França, dando origem à Grande
Revolução, em 1789, que arrastou consigo não apenas
a aristocracia intocável, mas velhos preconceitos tidos, na época,
como básicos da civilização. Assim, depois da Revolução
Francesa os trabalhadores começaram a pensar seriamente na possibilidade
de terem uma jornada de trabalho menos estafante, que ia de sol a sol,
chegando em certas ocasiões a 16 horas diárias.
Da Revolução
Francesa advieram a República e o Império, e depois outras
transformações políticas, tudo em função
dos direitos adquiridos com o movimento de 1789. A luta pela diminuição
da jornada de trabalho, iniciada no Velho Mundo, só veio concretizar-se
em 1832, nos Estados Unidos, quando os operários puseram-se a discutir
o assunto. O resultado positivo só surgiu em 1853, quando alguns
setores conseguiram o estabelecimento da jornada de 10 ou 11 horas, de
acordo com a natureza do serviço.
Oito horas
diárias - Após essa primeira conquista, os trabalhadores
começaram a perseguir uma jornada de oito horas. A luta que se seguiu
entre empregados e empregadores redundou na mais longa e penosa e atingiu
o clímax em 1860. Nesse ano surgiram as primeiras organizações
proletárias, inicialmente de fundo anárquico, querendo resolver
tudo do modo mais rápido, usando para isso de violência e
atentados terroristas, principalmente no Velho Mundo. Dentre as organizações
que mais se destacaram citam-se a Liga dos Cavaleiros do Trabalho, a Liga
das Oito Horas e a Seção Norte-Americana da Associação
Internacional dos Trabalhadores, que surgiram na década de 1870.
Esses grupos,
que nem sempre se entendiam direito, especialmente do ponto de vista político,
abraçavam um ideal comum, ou seja, a diminuição da
jornada do trabalho para oito horas diárias. O movimento, com altos
e baixos, destacando-se uma greve ocorrida em Nova Iorque, com a paralisação
de 200 mil trabalhadores, arrastou-se até 1877, ano que marcou a
vitória das oito horas, beneficiando os operários das indústrias
norte-americanas.
O movimento
interessou aos operários de todo o mundo, principalmente os do Canadá,
mais próximos do meio reivindicador. Assim, em 1º de maio de
1886, depois de uma assembléia na qual tomaram parte representantes
de várias organizações, ficou resolvida a deflagração
de uma greve, tendo em vista a jornada de oito horas, em todo o território
dos Estados Unidos e do Canadá.
Com o início
do movimento, que paralisou grande parte das indústrias, a repressão
policial se fez presente. Os trabalhadores resistiram com todas suas forças,
e a luta se tornou sangrenta, com mortes dos dois lados. A repressão
mais séria deu-se em Chicago, onde se reuniam importantes núcleos
industriais e onde o proletariado era mais organizado.
Após
diversos encontros entre grevistas e policiais, os patrões resolveram
ceder em parte às aspirações dos empregados. Na luta,
porém, os principais líderes dos trabalhadores foram presos.
Contar os grevistas foi instaurado processo que acabou condenando uns à
morte e outros à prisão perpétua. Dos condenados à
morte, quatro foram enforcados e um suicidou-se na prisão. Todavia,
em 1890, o governador do estado de Illinois - onde se deu o massacre -,
John Altgeld, determinou fosse feita uma revisão do processo, que
concluiu pela inocência dos condenados. Assim, com a restituição
dos líderes à liberdade, reabilitou-se a memória dos
que haviam sido executados.
 Passeata
dos trabalhadores marítimos em 1959, na Rua General Câmara,
defronte a A Tribuna Foto: Fundação
Arquivo e Memória de Santos (FAMS), no Diário Oficial
de Santos de 30/4/2004
Santos lidera
o 1º de Maio - Passados dois anos das execuções
de Chicago, em 1888, o Congresso Socialista Internacional aprovava a instituição
do dia 1º de maio como o Dia do Trabalho. Tal decisão foi adotada,
em caráter mundial, em 1919, pela Liga das Nações,
que a incorporou ao Tratado de Versalhes. Nesse mesmo ano, o Brasil adotava
também a jornada de oito horas, isso depois de greve levada a efeito
em São Paulo, por trabalhadores que, a exemplo do que ocorreu em
Chicago, tiveram como líderes integrantes do movimento anárquico
brasileiro, no qual se destacaram operários da construção
civil, gráficos, sapateiros, serventes de obras e marmoristas.
Porém,
muito antes, em 1895, trabalhadores de Santos, filiados ao Centro Socialista,
comemoraram a data em sua sede, com discursos e explanações
sobre a igualdade de direitos. O ato, por mais simples que haja sido, prova
que a Cidade sempre esteve à frente nos movimentos que visam à
melhoria das condições de vida dos operários. Anos
após o gesto pioneiro dos trabalhadores santistas, no Rio de Janeiro
houve a primeira manifestação pública do 1º de
Maio, organizada por associações de classe dos marítimos
- que levaram, em 1903, à Praça Mauá aproximadamente
12 mil manifestantes. Em 1917 fez-se outra comemoração, também
no Rio de Janeiro, mas foi o Estado de Santa Catarina que, em 1920, oficializou
o Dia do Trabalho, reconhecido pelo Governo Federal somente em 1922.
Em Santos,
os últimos a obterem os benefícios das oito horas foram os
marítimos, isso depois de luta árdua, em 1920. Os embarcadiços,
dentre os quais se encontravam estivadores, tiveram que ir à greve
para obter o que os demais trabalhadores brasileiros já haviam conseguido
em 1919. Porém, mesmo com a lei das oito horas em vigor, diversas
empresas, principalmente as ligadas aos chamados serviços de utilidade
pública, como transportes e comunicações, continuaram,
durante muito tempo, a exigir de seus empregados pelo menos 10 horas diárias
de trabalho.
Os primeiros
a obter as oito horas de serviço, também graças a
um movimento grevista ocorrido em 1907, foram os pedreiros de Santos e
São Paulo, enquanto os gráficos, após uma paralisação
que se estendeu por vários dias - durante a qual a polícia
depredou a sede da União Gráfica, na Capital - conseguiram
a jornada de oito horas e meia. Graças a esses lutadores, aos poucos
os demais operários do País chegaram às oito horas,
às férias, à Previdência Social e ao livre sindicalismo
que durante muito tempo esteve nas mãos de verdadeiros pelegos. |