HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS
O incrível
caso dos containers que boiaram...
Quem
acreditaria se lhe contassem que um contêiner (container)
com 18 toneladas de carga, caindo ao mar, não afundaria imediatamente
"como uma pedra"? Pois é, mesmo especialistas em navegação
e transporte de cargas custaram a entender como não só um,
mas dois desses cofres-de-carga, que despencaram do convés de um
navio no mar, durante uma tempestade, conseguiram chegar a uma praia em
vez de afundar no mesmo instante.
Sorte da população,
que imediatamente se apropriou da carga de filmes fotográficos procedente
do México, e que já era dada como perdida definitivamente
pela proprietária Kodak. Por um bom tempo, toda a Baixada Santista
foi abastecida com filmes fotográficos em perfeito estado
- exceto aqueles que alguns inteligentes tiveram a idéia
de estender ao sol para secar...
E como foi possível a flutuação
desses equipamentos, cada um com mais de 20 toneladas de peso bruto? Ora,
os filmes fotográficos estavam acondicionados individualmente em
tubinhos negros herméticamente fechados, e portanto havia certa
quantidade de ar em cada tubinho. Os containers padrão para
cargas secas são hermeticamente fechados, e assim há também
espaço para certa quantidade de ar no interior. Mesmo que se abram,
como aconteceu com um deles, no caso específico dessa carga o ar
no interior dos tubinhos foi suficiente para que tanto a carga como os
containers
flutuassem, como ocorre nas bóias salva-vidas...
Esta é a história,
narrada pelo editor de Novo Milênio no tempo em que assumia
interinamente a editoria de Porto & Mar do jornal A Tribuna
de Santos, na edição de domingo, 7 de setembro de 1980:

| Comandante
explica o caso dos "containers"
Enquanto prosseguia
ontem em toda a região a venda de grandes quantidades de filmes
fotográficos e de filmadoras, por até menos de Cr$ 50,00
uma unidade que no comércio regular valeria Cr$ 400,00, o navio
Maria
da Penha continuava operando no cais do Armazém 31 com a descarga
dos containers empilhados sobre o convés. Foi desse navio
que na noite de quinta-feira, em conseqüência da agitação
do mar na entrada da Baía de Santos, caíram dois containers
carregados com 36 toneladas de filmes, avaliadas em Cr$ 1.369.923,77.
Como explicou
o capitão Eledemar Castro Souza (há seis meses no navio,
depois de ter comandado outro navio da Companhia Marítima Nacional,
o Semiramis), o Maria da Penha havia fundeado às 11h40
de quinta-feira na entrada da Baía de Santos, dentro da Área
de Fundeio nº 7 (cerca de duas milhas e meia a Oeste da Ilha da Moela).
Ao anoitecer,
o mar apresentava-se com vagalhões, balançando bastante a
embarcação. É que esta estava ancorada a favor da
corrente marinha procedente do Estuário, e, em consequência,
de través para o mar. Os balanços chegaram aos 31 graus de
inclinação, até que uma oscilação mais
forte fez com que se arrebentassem os cabos de aço reforçados
que prendiam os containers, bem como uma peça de segurança
usada na amarração dos cofres-de-carga, denominada twist
lock.
Quando isso
ocorreu, às 20h50 de quinta-feira, os containers de números
445727 e 432374 - empilhados na proa em posição boreste -
caíram ao mar, arrebentando parte da amurada. O capitão chegou
a vê-los no mar, um deles partido, com a carga saindo, e outro quase
totalmente submerso, em condições que parecia que ambos estavam
indo a pique.
O fato foi
comunicado à Polícia Naval, sendo feito um alerta às
demais embarcações da área, já que havia mesmo
assim a possibilidade de alguma embarcação ser atingida pelos
cofres-de-carga. Em seguida, a tripulação tratou de proteger
o restante da carga, que também ameaçava desprender-se em
conseqüência das oscilações, e, com o auxílio
do Serviço de Praticagem, o Maria da Penha refugiou-se no
canal do Estuário, fundeando ao largo do porto.
Wilson Silva,
inspetor da Companhia Marítima Nacional, que viajava a bordo, confirmou
o relato, acrescentando que um outro navio (que não conseguiu identificar)
também teve problemas em conseqüência da agitação
do mar, pois o cabo de sua âncora se partiu, e ele ficou aproado
em direção ao Maria da Penha.
Containers
arrebentaram a amurada ao caírem (foto: jornal A
Tribuna)
Os
containers,
ao contrário do que se pensou a princípio, conseguiram boiar
até a Praia do Tombo, em Guarujá, pois a despeito do grande
peso, possuíam ar suficiente para manatê-los semi-submersos.
Em conseqüência, na manhã de ontem os moradores da área
próxima ao Strand Hotel ganharam um inesperado presente, logo avidamente
disputado por moradores de Santos e São Vicente, que acorreram ao
local do achado assim que souberam do fato.
Navio azarado
- Uma história de vários acidentes marca a atividade do navio
Maria
da Penha desde sua incorporação à frota da Companhia
Marítima Nacional, em outubro de 1977, e mesmo o período
anterior, quando, sob o nome de Frotatokio, cumpria a linha do Japão
para a armadora Frota Oceânica.
Ainda com o
antigo nome, ele sofreu avarias de máquinas, e já chegou
a Santos rebocado. Sofreu princípio de incêndio quando se
encontrava no Oriente e, depois de haver mudado de nome, voltou a sofrer
avarias e princípio de incêndios.
Em agosto de
1979, quando se encontrava no Cais do Armazém 29, não fosse
a pronta ação dos bombeiros, talvez ele tivesse avariado
toda a sua praça de máquinas. O fogo começou num tubo
condutor de acetileno que estava sendo reparado, e por sorte não
alcançou os motores da embarcação. As chamas foram
extintas pelos bombeiros e tripulantes, permitindo a partida do navio no
mesmo dia, com destino a Tampico.
E foi no porto
de Tampico que ocorreu o mais grave acidente com o navio, no dia 5 de dezembro.
Como relatou o comandante anterior, João Felipe Torres (que uma
rede de televisão brasileira chegou a dar como morto no acidente),
ao entrar no porto ocorreu um baque "e veio um flash de fogo na
proa, até parecia que algum tanque havia explodido". E o relato
continuava: "Eram 17h10 do dia 5, e vários tripulantes estavam no
convés. Quatro foram praticamente carbonizados, e um quinto sofreu
queimaduras em 15 por cento do corpo. Dez tripulanhtes, em pânico,
jugaram-se à água, e tiveram sorte de a lancha do prático
e alguns barcos de pesca estarem nas proximidades para recolhê-los.
Com o auxílio
da Cruz Vermelha, as vítimas foram levadas para o Hospital de los
Alijadores de Tampico, onde quatro morreram em conseqüência
das queimaduras, e dois por asfixia e gases venenosos.
Um chaveiro
permitiu a identificação da sétima vítima,
encontrada no início de janeiro passado em águas próximas
ao local da tragédia. Quanto às causas do acidente, estabeleceu-se
uma polêmica levada para a área judicial. É que, enquanto
a empresa Pemex - Petróleos Mexicanos afirmava que o navio estava
navegando com âncora abaixada, atingindo assim um gasoduto submerso,
o comandante contra-argumentava que não havia qualquer gasoduto
assinalado na planta de fundeio do Porto de Tampico, dentro da rota de
navegação do navio.
Desde que escalou
em Santos pela primeira vez com o novo registro em outubro de 1977, o Maria
da Penha vem carregando grande variedade de manufaturados, carga frigorificada
e óleos vegetais a granel, além de containers com
destino aos portos do México e da América Central.
Trata-se de
uma embarcação moderna, com 161 metros de comprimento, 9,7
de calado e 12.290 toneladas de porte bruto, podendo navegar a uma velocidade
de 21 nós. |
Um dos
containers,
em foto de 5/9/1980 feita por um fotógrafo particular.
Talvez
feita num desses filmes milagrosamente salvos...
A explicação
para esse fato inédito foi apurada pelo mesmo jornalista, que a
publicou na edição de 19 de setembro de 1980 (uma sexta-feira)
do jornal A Tribuna:
| Carga salva
container
Se os dois
containers que dia 4 caíram do navio Maria da Penha
estivessem vazios, teriam afundado. Porém, carregados cada um com
18 toneladas de filmes fotográficos, puderam flutuar até
a Praia do Tombo, em Guarujá, onde foram encontrados e saqueados
na manhã seguinte pelos moradores da área. Ou seja: a carga
salvou os containers.
A aparente
contradição é todavia explicada pelos funcionários
da firma Dorian Castelo Miguel e Associados - Consultoria e Perícias
de Engenharia Naval, encarregados da recuperação dos containers
(serviço concluído na terça-feira, e que custou à
Companhia Marítima Nacional a importância de Cr$ 250 mil,
aproximadamente).
Na verdade,
os containers numerados 445727 e 432374, medindo 12 metros de comprimento
por 2,4 de altura e largura (40 pés), e pesando vazios pouco mais
de quatro toneladas - foram construídos em aço, material
7,85 vezes mais pesado que a água. Ao caírem do navio, possuíam
certa quantidade de ar no interior, que ajudou a mantê-los em regime
de semi-flutuação.
Com a agitação
do mar - que inclusive foi o responsável pelo acidente - acabaram
batendo em pedras, conforme as marcas encontradas em suas paredes durante
o resgate. Assim, o ar foi liberado, e se o carregamento fosse de outro
tipo, ou não houvesse carga, teriam afundado.
Porém,
em cada container havia cerca de 18 toneladas de filmes fotográficos,
em tubos plásticos hermeticamente fechados. A flutuabilidade natural
do plástico, mais o ar contido no tubo - multiplicados pela grande
quantidade de tubos que compunha a carga - tornaram-nos leves o suficiente
para mantê-los flutuando até a praia, onde encalharam.
Foi em conseqüência
disso que - como explicaram os funcionários da empresa de salvatagem
- ao invés de se estragarem no fundo do mar, os filmes estão
agora espalhados por toda a Baixada Santista, na maior parte perfeitamente
utilizáveis - devido à ação dos que acorreram
ao local e encheram sacas e sacolas com o material, logo revendido a baixo
preço.
O resgate
- Embora previstos para durarem até mais de cinco dias, os serviços
de recuperação dos containers, iniciados na manhã
de sábado, foram concluídos na manhã de terça-feira
coma entrega de um cofre-de-carga em condições de reaproveitamento
e outro com poucas peças aproveitáveis, ao depósito
de Fernando Nunes Cunha, representante da empresa americana CTIU, proprietária
dos mesmos.
Houve necessidade
de retirar cerca de 30 metros cúbicos de areia do interior do container
em melhor estado, e em seguida foi feita uma escavação ao
redor, com o auxílio de uma pá mecânica. Depois, o
terreno foi nivelado para permitir a puxada do cofre para o sopé
do barranco que delimita a praia, de onde foi retirado na terça-feira
por um caminhão-guindaste, que o colocou a bordo de uma carreta
com 16 metros de comprimento.
Para isso,
foi necessário cortar em duas partes um container, enquanto
o outro, totalmente avariado, foi dividido em partes e colocado em seu
interior. É que um deles teve 70 por cento de depreciação,
mas as partes principais - vigas, colunas, cantos e, principalmente, as
portas, entre outras peças estruturais - poderão ser reaproveitadas.
Já o que se apresenta em pior estado teve uma depreciação
avaliada em 95 por cento, permitindo entretanto algum reaproveitamento.
O serviço
de escavação para a retirada da areia ao redor dos containers
foi por três vezes ameaçado, com a ocorrência de maré
alta de até 1,30 metro, e chegou a ser necessário construir
um pequeno dique de proteção, para que a areia do mar não
fechasse os buracos escavados.
Depois, e sempre
em meio à constante curiosidade por parte dos banhistas e moradores
próximos, a praia foi totalmente recomposta, com o fechamento dos
buracos, de acordo com instruções expressas da armadora contratante,
a Companhia Marítima Nacional - proprietária do cargueiro
Maria da Penha, mantido na linha dos portos mexicanos. |
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