HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS
Chegou ao
Brasil remando com os braços
Espanhol
de Valência, Francisco Serrador Carbonell gostava de contar a história
de sua chegada ao Brasil, e as dificuldades por que passou em Santos, antes
de enriquecer vendendo peixe em Curitiba, ingressar no mundo dos espetáculos
e formar seu império no mundo do cinema. A história é
reproduzida do livro Cinelândia - Breve História de um
Sonho, de João Máximo, publicado em 1997 no Rio de Janeiro
pela Salamandra Consultoria Editorial Ltda.:
1910-1919
A visão
do vendedor de peixe
Se
é fato ou lenda, nunca saberemos. Mas há quem diga que Francisco
Serrador Carbonell teve uma estranha visão quando menino em sua
Valência natal: a de que ainda viveria numa cidade de brinquedo,
onde todas as construções, multicoloridas e iluminadas, destinavam-se
a divertir as pessoas. Uma
espécie de Disney antecipando em décadas a Disney de Disney.
Ou em alguns anos a Broadway novaiorquina, que não é exatamente
um parque de diversões, mas quase. Uma e outra, enfim, produtos
de mentes visionárias.
Muito bem.
Pois o menino cresceu não só para fazer da visão um
sonho e do sonho realidade, mas também para construir ele mesmo
sua cidade de brinquedo. Corria o ano de 1884. Francisco Serrador Carbonell,
nascido em 8 de dezembro de 1872, estava com doze anos e ajudava a família
vendendo peixe nas feiras valencianas quando o pai, também Francisco,
morreu de repente.
Se a tal visão
teria ocorrido antes ou depois, é outro detalhe impossível
de precisar. Sabe-se, sim, que se Valência era uma das cidades mais
promissoras da Espanha, especialmente para quem vivia da pesca, não
bastava para Francisco. Seu pensamento estava em Madri, nas oportunidades
que acreditava haver na capital, pouco importa se longe do mar.
Por isso, cheio
de planos e com a aprovação da mãe, o menino trocou
Valência por Madri, onde a sua melhor oportunidade não seria
mais que a de trabalhar como caixeiro num armazém. Decepção.
Passou quatro anos no mesmo lugar, preso à falta de coragem para
voltar a Valência.
Também
não se sabe como ou por quem foi informado de que muitos de seus
patrícios estavam partindo para o Brasil em busca da oportunidade
que a Espanha lhes negava. Não hesitou: juntou a pouca roupa que
tinha, foi despedir-se da mãe, e de Valência mesmo embarcou
num navio de terceira classe, em fins de 1887, para tentar a sorte no outro
lado do Atlântico. Anos mais tarde, entre suas narrativas favoritas,
estava a de seu rocambolesco desembarque no porto de Santos.
- Sabem como
cheguei ao Brasil? - gostava de perguntar para ele mesmo responder: - Remando
com meus próprios braços!
O navio de
terceira classe ancorava a menos de meia milha do cais, de modo que os
passageiros deveriam ir para terra a bordo de uma catraia cujo dono lhes
cobrava dois tostões pela curta travessia. Serrador não tinha
esse dinheiro. Nem ele, nem uma dezena de outros espanhóis que haviam
feito a mesma viagem.
Não
conseguindo convencer o dono do primeiro barco a levá-los na base
do fiado, entraram no segundo barco sem nada dizer. Lá pelas tantas,
já vencidos quatro quintos de milha, o próprio Serrador teria
se aproximado do catraieiro para, em voz baixa, admitir que nenhum dos
passageiros tinha como pagar-lhe. Mas podia contar que ainda o fariam:
- Sino hoy,
ciertamente mañana.
O catraieiro
parou de remar. Ficou algum tempo imóvel até que viu passar
ao lado o barco de um colega. Rapidamente, com os remos nas mãos,
saltou para ele, deixando os espanhóis para trás.
- Remem com
os braços, seus galegos - teria gritado o homem, entre debochado
e desafiador.
Pois foi o
que Serrador e seus companheiros de viagem fizeram: usando os braços
como remos, venceram o quinto de milha que lhes faltava para pisar terra
brasileira. E economizaram, cada qual, dois tostões.
De início,
as oportunidades em Santos não pareciam maiores que as de Sevilha
ou Madri. Na verdade, faminto e sem dinheiro, o melhor que Serrador encontrou
em seu primeiro dia de Brasil foi pior do que tudo que já tivera
em seu país: trabalho pesado numa obra de drenagem.
Por semanas,
descalço, nu da cintura para cima, de manhã à noite,
andou mergulhado em pântanos e lodaçais. Trabalhou pesado,
sofreu muito, contraiu febre amarela, quase morreu, mas ganhou os 800 réis
diários que lhe permitiram comer e morar. Econômico, conseguiu
juntar o bastante para tentar a vida num porto mais ao Sul. Viajou num
cargueiro até Paranaguá, e de lá, por terra, até
Curitiba, onde recomeçaria de onde começara: vendendo peixe.
(...) |
O valenciano progrediu rápido
em Curitiba, com patrícios criou a primeira agência de mensageiros
do Paraná, e o Frontão Curitibano, para um tradicional jogo
basco de pelota. Empresariou a ida de circos e companhias teatrais à
capital paranaense, fundou arena de touros e clube, em 1902 fundou o Parque
Coliseu, com teatro, diversões diversas e... cinema ao ar livre.
Francisco Serrador anteviu as possibilidades
do então recente invento dos irmãos franceses Lumière,
e em 1904 comprou e instalou o primeiro projetor. Aos poucos, expandiu
essa atividade, com novos projetores e filmes, e fundou sua primeira companhia
cinematográfica, a Richembur. Em 1906, mudou para a capital paulista,
onde fundou o primeiro cinema (Bijou Théâtre, na Rua São
João).
Ainda o livro de João Máximo:
"(...) o Bijou acabou sendo a semente de uma cadeia de cinemas que se espalharia
por toda a capital paulista, o Royal, o Radium, o Íris, o Brás
Politheama. E depois por Campinas e Santos, nesta surgindo, com toda a
pompa, o Coliseu Santista".
Em 1910, abriu o primeiro cinema
carioca, o Chantecler. Doze anos depois, comprou os terrenos que em seguida
seriam empregados na criação do famoso complexo da Cinelândia,
no Rio de Janeiro, que depois se tornaria o Bairro Serrador. Mas, essa
é uma outra história...
|