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HISTÓRIAS E LENDAS DE SANTOS - SEU BAIRRO/mapa
Vila Matias, bairro que tem de tudo um pouco (4)

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Publicado em 24/2/1983 no jornal A Tribuna de Santos

 Leda Mondin (texto) e equipe de A Tribuna (fotos)


Os velhinhos procuram a sombra das árvores...

A praça que não é só dos aposentados

Mal a tarde se anuncia, eles começam a se aproximar: se o tempo está nublado, não falta um guarda-chuva na mão; se o sol bate forte, o chapéu para proteger a cabeça é um acessório indispensável. Às 17 horas, a Praça Belmiro Ribeiro está tomada por velhinhos, que procuram a companhia de amigos e a tranqüilidade de algumas horas de conversa despretensiosa.

"A gente vem aqui para se distrair, para não aborrecer a mulher e a filha em casa", comenta seu Manoel Leitão, freqüentador da praça há 12 anos. Por todo esse tempo, ele vem cumprindo a rotina de toda tarde: ir até aquele recanto, onde as árvores proporcionam vento e sombra sempre muito gostosos. Os parentes de fora que vêm para visitá-lo já sabem: vão direto para a praça, na certeza de encontrá-lo.

Como seu Leitão, há muitos outros aposentados viciados na tal pracinha. Lá é ponto de gente como seu José Francisco Rosa, seu Waldemar Batalha e seu Antônio Lopes. Seu Fernando Plaza, imaginem, conhece a Belmiro Ribeiro desde a década de 30, mas a freqüenta, "como efetivo mesmo", há uns 23 anos.

Sentados nos bancos, que antes eram de madeira e hoje são de cimento, os velhinhos viram muita coisa mudar. A praça propriamente dita ganhou alguns metros a mais, mas perdeu seu chafariz e sua piscininha: como o pessoal costumava lavar cachorros justo lá dentro, a Prefeitura acabou com a festa.

O trânsito ao redor se tornou muito barulhento e louco, e como não existe mais ponto de táxi fixo junto ao canal, desapareceu a companhia sempre agradável dos motoristas, que gostavam de disputar partidas de dominó. Sem contar que o bairro, antes tipicamente residencial, passou a ter que conviver com casas comerciais e perdeu muito da poesia de outros tempos. Que foi feito dos bate-papos, todo fim de tarde, em frente aos portões?

Mas os velhinhos estranham mesmo a mudança de hábitos e costumes. Não se conformam com o "abuso das mocinhas e dos mocinhos", que fazem cada uma de deixá-los vermelhos e sem graça. Por causa da "falta de respeito e da vagabundagem", eles nem se atrevem a ficar na Belmiro Ribeiro até um pouco mais tarde.

De uns anos para cá, desocupados passaram a fazer parte do dia-a-dia da praça. Trazem uns trapos amarrados, se jogam pelos bancos e jardins e quase sempre estão acompanhados de uma garrafa de pinga. Não molestam os velhinhos, mas estes deixam transparecer que preferiam que eles não estivessem ali.

Não parece ser nada agradável dar de cara a todo instante com aquelas figuras esfarrapadas e com ar doentio. São restos de gentes que todos se apressam em chamar de marginais, mas às vezes nada mais representam do que um migrante em busca de uma vida melhor, ou lutando para superar uma situação difícil.

É o caso de Rafix Francisco de Lima, filho de índios e motorista profissional, que nos últimos tempos morou na praça. Ele vinha de Goiás com o caminhão da firma, viajando três dias seguidos sem dormir e sem descansar. Na serra enfrentou neblina, aumentou o cansaço. Cochilou. Acidente.

" aqui na praça. Para onde é que eu vou? sujo, só com essa roupa, mas nunca fui de pedir nada a ninguém. Tomo banho em torneira de obra, passo fome". Rafix fala, lembra-se da família que ficou numa cidadezinha perdida no Nordeste e seus olhos se enchem de lágrimas. Ao seu redor, há muitas outras pessoas na mesma condição de miséria. Na rua, homens e mulheres passam apressados. Uma mistura de medo e desprezo estampados no rosto.


...para conversar e passar o tempo

Veja as partes [1], [2] e [3] desta matéria
Veja Bairros/Vila Mathias

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