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Nesta foto, do início do século XX, vê-se o bonde e o famoso hotel
Internacional
Prédios na faixa de areia, só mesmo lá!
Não há o que errar: aqueles enormes
prédios instalados em plena faixa de areia são a certeza de que se está na praia e no Bairro do José Menino. Não existe nada
semelhante em toda a extensão da orla da praia, pois felizmente a moda não pegou. Já imaginaram tudo aquilo tomado por
arranha-céus?
Bom. Mas o José Menino não se limita aos tais prédios, embora eles sejam uma das principais
referências do bairro. Há muito mais no trecho compreendido entre as avenidas Presidente Wilson (a partir da divisa Santos-São
Vicente), Bernardino de Campos e Rua Alfredo Ximenes, até a Euclides de Campos, já nos contrafortes do morro. Foi-se o tempo
em que tudo não passava do bonito sítio do José Honório, que recebeu o apelido de José Menino por ser grandalhão e
forte. Pioneiro por aquelas bandas, acabou dando nome ao bairro.
Ele habitou no lugar no século XIX e na certa nunca imaginaria que, pouco mais de 100 anos
depois, lá viveriam cerca de 15 mil pessoas. A maioria dessa gente toda está confinada nos inúmeros arranha-céus que tomaram
conta de todas sa ruas, inclusive da poética Rua Barão de Penedo, uma das mais bonitas de Santos, com seus jamboleiros enormes
formando uma espécie de túnel sobre o canal.
Um verde tão vistoso, só mesmo no Orquidário, com seus cerca de 22 mil metros quadrados de
muitas árvores, folhagens, flores e aves. Lá se pode fazer um dos melhores passeios de Santos, num contato gostoso com as
coisas boas da Natureza.
As araras disputam a atenção dos visitantes com os lagos cheios de patos, garças e outras
aves. E, na saída ou na entrada, as crianças sempre pedem para os pais um doce ou um saco de pipocas vendidos pelos
ambulantes, que se tornaram praticamente um patrimônio do Orquidário.
Seu João Severino dos Souza, que há 30 anos faz ponto lá em frente, não esconde a
satisfação quando os pequenos o reconhecem, o cercam e o chamam carinhosamente de tio. Chega até a chorar de alegria. São
momentos de satisfação na vida desse homem que não agüenta mais pagar as taxas necessárias para poder exercer a profissão.
Este ano, a Prefeitura levou dele e dos companheiros quase Cr$ 30 mil, sendo que a quantia precisa ser paga toda de uma só
vez.
Por quanto tempo mais será que os ambulantes resistirão à pesada taxação? Sabe como é: num
mês de chuva como dezembro não se fatura nada. Com tudo cada vez mais caro, muitos podem desistir. E as crianças correm o
risco de ficar sem os seus vendedores de guloseimas.
A luta contra o cheiro de esgoto no bairro das pensões e muitos hotéis - Vejam só a
ironia. Na mesma Praça Washington do tão requisitado Orquidário está instalada a Estação de Pré-Condicionamento de Esgotos,
que por muito tempo perturbou os moradores devido ao forte mau-cheiro que espalhava por todo o bairro.
O pessoal cansou de reclamar e a Sabesp tentou de diferentes formas eliminar o odor
desagradável. Agora, graças a um moderno sistema de oxigenação dos detritos, inédito no Brasil, praticamente conseguiu acabar
com o problema. Só de vez em quando um cheirinho esquisito volta a ser sentido.
O sobe e desce com coisas na cabeça, uma rotina
Também, já imaginaram o que seria do José Menino se o mau-cheiro continuasse a
fazer parte do dia-a-dia? Afinal das contas, trata-se de um dos bairros mais requisitados pelos turistas, pois tem bons hotéis
e inúmeras pensões espalhadas pelas ruas de acesso à praia, como a Cira e a Newton Prado.
E é no bairro que fica o Universo Palace, edifício considerado de linhas ultramodernas, com
seus 484 apartamentos, todos com vista para o mar. Há ainda salões recreativos, lojas comerciais, piscinas e a não menos
famosa Boate Pink Panter, cujos shows sempre atraem multidões de curiosos.
O que ninguém gosta é de ver que bem perto uma enorme faixa de terra invadiu o mar. Sob os
protestos dos ecologistas, a plataforma implantada para permitir a construção do emissário submarino não foi remanejada,
modificando bastante o aspecto da praia que o pessoal aprendeu a amar.
Os preservacionistas indagam o que poderá ocorrer em conseqüência da manutenção da
plataforma e da quebra de todo um equilíbrio natural. Mas a Prefeitura insiste em ficar com a área, embora até agora não tenha
decidido o que fazer dela.
Dizem alguns que essa plataforma tem pelo menos algo de bom: permite que se observe a Ilha
Urubuqueçaba mais de perto. Quase intocada, a ilha permite que se faça uma idéia do que era a Ilha Porchat, antes que a
especulação imobiliária a transformasse em um amontoado de edifícios.
Duas igrejas e um estilo esquecido pela gente que vive no corre-corre - Se há algo
que deixa muito morador do José Menino orgulhoso é a Igreja da Pompéia. Não bastasse o templo imponente de quase 60 anos de
idade, o pároco, monsenhor Benedito Vicente dos Santos, cativa qualquer um com seu jeito manso de falar, sua cultura e
disposição para o trabalho. Introduziu diversas melhorias na igreja, construiu a torre e o salão paroquial.
Quem mora mais para os lados do morro muitas vezes assiste missas na Igreja de São Paulo
Apóstolo, que fica no Marapé, mas atende boa parte do José Menino. Gente dos dois bairros se envolveu na tarefa de arrecadação
de fundos para a compra do terreno e construção do templo.
Depois de muitas quermesses e corre-corre, o pessoal conseguiu inaugurar a obra. E a
movimentação continua, porque se pretende criar junto à paróquia uma creche e uma escolinha para a criançada do morro, que
muitas vezes assiste missa na Igreja. Como a Prefeitura nunca abriu efetivamente a Rua Gaspar Ricardo até a altura do templo,
o antigo proprietário da área entrou com uma ação de reintegração de posse e venceu a questão. Como fica agora esse caso da
Rua Gaspar Ricardo?
Pois é. A urbanização do trecho ao redor da São Paulo Apóstolo se destaca como uma das
reivindicações do bairro, que pede também, por meio da sociedade de melhoramentos: abrigos para os pontos de ônibus,
iluminação da praia até a Divisa, melhor policiamento nas imediações do Orquidário, e a instalação de um semáforo na Avenida
Presidente Wilson, entre as ruas Cira e Newton Prado, apenas na pista Cidade-Bairro. Naquela altura, são comuns os
atropelamentos, devido ao grande movimento de carros e pessoas.
Tanto vaivém só se compara com aquele da Rua Euclides da Cunha, nos horários de entrada e
saída das faculdades São Leopoldo. E essa gente que anda de um lado para o outro, muitas vezes nem desconfia que bem perto
dali, na Avenida Francisco Glicério, o Asilo dos Inválidos luta com muitas dificuldades para manter o atendimento a dezenas de
velhinhos sem ninguém no mundo. A entidade existe há 79 anos e ainda precisa de ajuda da comunidade para sobreviver. O auxílio
oficial, sabe como é, não dá para nada.

Os prédios invadiram um bom espaço e encobrem o mar e o
horizonte, na praia do José Menino
O morro precisa de obras, mas a Prefeitura não faz nada
Costurar sentada na porta, uma cena comum no morro
Se tem algo que não falta no Morro do José Menino são problemas. Há tempo
a Prefeitura não faz nada por aquela gente que vive no morro mais alto - 220 metros de altitude - e que assinala o extremo do
território de Santos.
Até os primeiros metros da subida, tudo bem. Trata-se de uma área nobre, com seus edifícios
pomposos e bem cuidados. A partir da EMPG Irmão José Genésio, a coisa complica. Multiplicam-se os barracos precários, à espera
das obras de contenção das encostas, capazes de amenizar o perigo de desbarrancamentos. Dia desses, uma pedra desabou lá do
alto, sem chuva forte sem nada, e matou uma criança que brincava tranqüila em um dos quintais da Rua Santa Catarina. Quem é o
responsável pela tragédia?
As crianças não têm onde brincar e se espalham pelos caminhos escorregadios, que nunca
souberam o que significa um serviço de melhoria por parte da Prefeitura. Além do desemprego, da fome e dos baixos salários, o
pessoal enfrenta coisas como essas e fica indagando para que servem os impostos que se paga.
O Morro do José Menino só ganha um colorido diferente quando rapazes percorrem aqueles
caminhos com suas asas-delta, para saltarem do pico. Que contraste entre aquele morro e o vizinho Santa Terezinha, com suas
mansões para ninguém botar defeito. |