|

Sem áreas de lazer, muitas crianças têm seu mundo limitado aos
quintais
Vejam o que é essa fatia ao longo do cais
Atenção! Cuidado com o trânsito da
Avenida Afonso Pena, vê se não atola na Rua Moema, desvia dos escorregadios trilhos da beira do cais. Estamos chegando ao
Estuário, bairro que se estende ao longo do Estuário-água e abriga boa parcela do famoso Porto de Santos.
Embora muitos santistas nem saibam da existência de um bairro com tal nome, trata-se de um
lugar bem definido, com limites fixados por três grandes avenidas: Siqueira Campos, Portuária e Afonso Pena. E como todo
núcleo grande, apresenta boa diversidade em termos de ocupação.
Em sua área de 124,80 hectares, misturam-se centenas de chalés, casas de alvenaria, prédios
de três ou até nove pavimentos, favelinhas, terras em litígio e casas comerciais. Os depósitos de contêineres se multiplicam e
já são tantos quanto as oficinas de automóveis e bicicletas.
Caminhadas por suas ruas sempre representam descobertas. Não é difícil deparar com
sapatarias, daquelas onde mãos habilidosas transformam calçados velhos em novos. A profissão está em extinção porque o
trabalho de horas se traduz em pouco dinheiro, mas alguns amantes dela, como seu Emílio, da sapataria Aurora, continuam
firmes, tentando vencer sem maiores constrangimentos a época dos calçados com sola e salto de plástico ou palmilhas de
papelão.
Alfaiates dedicados e pacientes como o seu Armindo também vêm conseguindo superar
esses novos tempos em que uma calça velha, azul e desbotada virou sinônimo de liberdade. Olhos fixos na costura, mas sempre
atentos para que nenhum conhecido fique sem o seu bom-dia, seu Armindo é carinhosamente considerado um patrimônio do
bairro. Assim como o são o Bar e Confeitaria Flor, a Drogafarma Torres, o Supermercado Amanda, o Restaurante Portuário, a
Churrascaria e Pizzaria Francisco Alves e o bar conhecido por Bico de Anjo, junto à Bacia do Macuco.
Coisas pitorescas e lama no bairro das escolas Xisnove e Padre Paulo - Se tem algo
que chama a atenção é a casa de número 182 da Rua Rodrigo Silva. Defronte dela ficam penduradas dezenas de puçás, sirizeiras,
redes e malhas para se pescar qualquer animal marinho. O tecelão é seu Oswaldo F. de Carvalho, que há 14 anos lida com
essas coisas. Sua residência já pode até ser considerada um ponto de atração turística.
O que ninguém sabe é que na casa de número 94 da Rua Coronel Raposo de Almeida há uma
criação de guiamuns, azulados e gordos como eles só. Vieram pequenos e sob os cuidados de seu Gouveia e dona Manuela,
do Oswaldo e da Nice, se desenvolveram um bocado. Quando a família não está às voltas com os guaiamuns, se ocupa com os
caracóis de água doce pequenos e reluzentes, que se multiplicam entre as plantas de dona Manuela. Aquela gente parece mesmo
gostar de criações exóticas: já teve em seu quintal um lagarto e uma cobra coral.
Essas coisas fazem parte do lado pitoresco desse bairro de 22 mil habitantes, que abriga em
seus limites as duas escolas campeoníssimas do Carnaval santista, a Xisnove e a Padre Paulo. Graças a elas, o lugar passa
noites em ritmo de samba e se esquece das agruras do dia-a-dia.
Uma das principais características do Estuário são seus chalés quase centenários, com dois
pavimentos e paredes muito altas. Chalés que vão aos poucos desaparecendo porque não falta quem queira comprar dois ou três de
uma só vez, para construir prédios ou instalar pátios de contêineres. Enquanto esperam propostas vantajosas, os proprietários
alugam os casarões para cinco ou seis famílias. São as cenas da habitação coletiva presentes também no Estuário.
Cibele Aparecida Parmentieri considera o bairro bom de se morar e apresenta um aspecto
bastante convincente: seguindo-se por uma de suas avenidas - a Coronel Joaquim Montenegro - se chega à praia. Mas se for feito
um bom balanço da situação, a gente percebe que o lugar anda bem esquecido pela Prefeitura.
Não bastassem as ruas projetadas que nunca foram abertas, é de envergonhar o estado de
outras como a Bernardo Browne, a Tenente Antônio João, a João de Barros, a Coronel Raposo de Almeida, a Otávio Correia e a
Moema. A lama se forma após qualquer chuvinha e se mistura aos sofás velhos, galhos e outros entulhos acumulados nos cantos.
O pessoal já cansou de fazer abaixo-assinados e pedir providências. No dia 13 de novembro, a
Prefeitura espalhou por lá placas enormes anunciando melhorias. Só que, para fazer os melhoramentos, a Prefeitura depende da
aprovação de projeto encaminhado à Câmara. E os vereadores não parecem nada predispostos a autorizá-la a contrair empréstimo
de aproximadamente Cr$ 200 milhões para obras de drenagem, meio-fio e sarjetas. É simples: eles acham que a Prefeitura deve
executar os serviços com seus recursos, ao invés de endividar ainda mais o Município.
Há escolas e indústrias, favelinhas e poucas áreas para recreação - Em termos de
áreas de lazer, o Estuário também anda carente. A única fica na Praça Rubens Ferreira Martins, em meio às casas populares.
Embora não bem equipada, serve para a criançada se divertir e o Wembleing Beach, time de futebol de salão da moçada das
imediações, fazer seus treinos.
Na falta de outras alternativas, as crianças que moram longe desse local brincam no meio da
rua ou em terrenos baldios. Os meninos e meninas das imediações da Praça Visconde de Ouro Preto descobriram um espaço livre e
nele improvisaram um campinho de futebol. Formaram até um time misto, onde jogam a Patrícia, Daniela, Cláudia, Rosemare,
Márcio, Vítor e André, entre outros.
Eles se viram como podem, porque o bairro sequer dispõe de praças que sirvam como pontos de
encontro e descontração. Oficialmente existem seis praças, só que algumas estão situadas em locais de trânsito intenso e
outras nem deveriam levar tal designação. É o caso das praças Conselheiro Sinimbu e Visconde de Ouro Preto. A primeira abriga
o núcleo de Sinalização Náutica da Marinha, e a segunda, o Pronto-Socorro e a EEPG Suetônio Bittencourt Júnior.
Para quem não sabe, a Suetônio Bittencourt Júnior é aquela escola que o pessoal chama de
Maracanãzinho, por ser redonda e se assemelhar a um estádio de futebol. Ficam também no Estuário a EMPG Auxiliadora da
Instrução, o Parquinho da Afonso Pena (EMEI Olívia Fernandes), a antiga EMPG Cidade de Santos e a EPG Adalberto Souza
da Silva, ou simplesmente Colégio Moderno, como as pessoas conhecem a unidade mantida pelo Sindicato dos Estivadores.
Um prédio grande como aquele da EMPG Cidade de Santos só perde em imponência para as
instalações da Cutrale e da Citrosuco, ambas produtoras de suco de laranja. A Cutrale não é muito antiga e a Citrosuco
implantou um sucoduto que continua dando o que falar. Com ele, para se embarcar suco de laranja fica dispensado o
serviço de diversas categorias portuárias. Se a moda pega...
Pois nesse bairro que dispõe de uma indústria do porte da Citrosuco, há várias pequenas
favelas, espalhadas ao longo da Avenida Portuária. Nelas, as crianças brincam em meio a ratos, baratas e outros insetos, ficam
de pé no chão e cara suja o dia inteiro e, quando conseguem sobreviver, muitas vezes se transformam em marginais. Nascem e
crescem sem perspectivas e são capazes de qualquer coisa porque nada têm a perder.

Um time misto e um campinho de futebol num terreno baldio
|