| Há uns 30 anos, muita gente dizia que não queria um terreno na
Caneleira nem de graça. Também, pudera: tirando a parte de ocupação mais antiga, entre o Caminho São Jorge e o morro, o bairro
não passava de um lugarejo cheio de mato, cortado por braços de rio, com áreas de mangue. Enfim, sem nenhum atrativo, muito
pelo contrário. Mas, enquanto alguns olhavam
aquilo tudo com ar de desdém, outros resolveram aceitar o desafio e compraram lotes. Não desanimaram diante da falta de
perspectiva, derrubaram mato, abriram caminhos, limparam valas, implantaram tubulações de água e enfrentaram tudo mais que foi
preciso.
Passados pouco mais de 25 anos, a Caneleira se destaca como um dos
melhores bairros da Zona Noroeste. Um terreno vale entre Cr$ 3 e 7 milhões, e não se pode negar que a valorização da área se
deve também ao fato de o Jabaquara AC, o velho Leão do Macuco, de muitas tradições, ter-se mudado para lá.
Mas ainda há muito o que se fazer pela Caneleira, principalmente
pelo morro. Segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), algumas casas encontram-se imediatamente abaixo de encostas
instáveis e é preciso realizar obras para prevenir desbarrancamentos. A Prefeitura não se interessou em executar os serviços
recomendados, e nem atende a outras antigas reivindicações, como a abertura de ruas, criação de áreas de lazer e a melhoria da
iluminação pública.

Os moradores desta rua ainda aguardam a realização
de obras de segurança recomendadas pelo IPT
Cinco horas. As patadas espaçadas e os
mugidos quebram o silêncio da manhã que nasce. Ninguém se assusta ou estranha o barulho. A boiada segue seu destino de morte
certa. Vai para o Matadouro, abafa a cantoria dos galos e anuncia para os moradores do Caminho São Jorge que está na hora de
levantar.
Pelo menos duas vezes por semana, a cena se repetia. E enchia de movimento aquela vereda que
contorna a faixa de morros e é a mais antiga rua da Caneleira. Até hoje mantém a designação de caminho e isso combina muito
bem com o chão de terra batida, os quintais com cercas vivas que se enchem de flores na primavera e os chalés emoldurados
pelas árvores que crescem ao redor.
A gente até poderia dizer que o tempo parou naquele recanto, não fosse o maquinário da
Pedreira São Jorge, que se movimenta rápido, faz barulho, destrói o morro e indica a chegada de uma nova época. Não fossem
também os sulcos que se abriram no rosto de Elídio Jardim e os cabelos brancos que insistem em aparecer.
São 61 anos de vida, pelo menos 50 deles passados no Caminho São Jorge. O avô mudou-se para
lá, os pais fizeram o mesmo e estão entre os pioneiros na ocupação daquele trecho que, há muitos séculos, fora palmeado por
grupos de colonizadores. Os portugueses desbravadores partiram, deixaram esquecida aquela região da Zona Noroeste, mas restou
como prova da presença deles o Engenho de São Jorge dos Erasmos, que fica quase na divisa com a Caneleira, em área da vizinha
Vila São Jorge.
André, Mário e Manoel: muita luta
Entre as lembranças da infância, o trabalho pesado e as pescarias
- Aqueles recantos todos são bem conhecidos por Elídio Jardim. Moleque ainda, andava por aquilo tudo, deparava com pastos,
mangues e braços de rio hoje desaparecidos. Pescou muito camarão na Cachoeira da Nova Cintra: bastava aparar as quedas de água
com um balde para pegar dezenas dos pequenos crustáceos de uma só vez.
Também pescou muito bagre e tainha no Rio São Jorge. Às vezes saía sozinho de canoa rio
afora, remava por horas, forrava o fundo do barco de peixes e retornava carregando lata cheia nas costas.
Empinar papagaio, brincar de pega-pega, rodar pião? Não, seu Elídio não tinha tempo
para nada disso. Os pais, portugueses severos, não davam moleza e punham os filhos para trabalhar. Seu Elídio ia de
manhã para a escola e sabia que, ao voltar, muitas tarefas o esperavam, entre elas, se embrenhar no mato para cortar lenha.
Seu Elídio aponta as poucas casas que havia por ali no seu tempo de infância. Uma
delas é o enorme chalé, com uns 40 metros de comprimento, que se destaca entre as casas próximas à encosta do Morro da
Caneleira. Só que, naquele tempo, era coberto com telhas de folha de zinco. Depois, passou por uma reforma, ganhou cozinhas e
hoje vivem em seus cômodos oito famílias.
Quem conhece bem a história dessa casa é Sabino Dias, caseiro desde que aquele pedaço da
Caneleira, entre o Caminho São Jorge e as encostas do morro, pertencia a portugueses. Ele, português também, veio tentar a
sorte com a mulher, Conceição, e os três filhos. Desde que chegou ao Brasil, sempre morou naquele lugar tranqüilo.
O casal não teve medo de enfrentar as dificuldades próprias de uma região erma, escondida,
sem água, luz elétrica ou perspectiva de melhorias. Lutaram muito e aos poucos conquistaram o que precisavam. Das coisas
garantidas pelo progresso só recusam água encanada da Sabesp: preferem o líquido cristalino que nasce embaixo de uma pedra
enorme, na encosta do morro. A nascente fornece uma água leve, fresquinha e só não ganhou a mesma fama da bica existente no
Caminho São Jorge.
Nunca faltou trabalho para seu Sabino e dona Conceição: enquanto ele se virava para manter a
propriedade em ordem, ela cuidava da casa, dos três "portuguesitos" e do "brasileirinho". Mesmo cansada, varava madrugadas
bordando. "Com o dinheiro que eu ganhava, dava para comer", conta dona Conceição, satisfeita por tudo que construiu e por ver
os filhos bem de vida.
A luta contra o mangue, o mato e por melhorias - Dona Conceição só fica triste quando
se lembra das vaquinhas que criava, e das quais o dono da terra resolveu se desfazer. Certo dia, chegou um caminhão para levar
os três animais, que se multiplicariam em seis nos próximos dias, pois estavam para dar cria.
Usar água da bica, uma tradição que se mantém
Seguiram para uma cidade do Interior e perderam os filhotes no caminho, de tanto sacolejarem e esbarrarem umas
nas outras. Não estavam acostumadas a viverem soltas no pasto e, por isso, não procuravam água para beber, não comiam, botaram
para emagrecer. Uma morreu após algum tempo. Tentaram trazer as restantes de volta, mas outra morreu no caminho. A terceira
não parava de berrar ao reconhecer a casa, o estábulo, o homem que lhe dava de comer.
Há que ver dona Conceição contando tudo isso, com seu sotaque português e muita
gesticulação. Contadora de histórias como poucos, faz as cenas se reproduzirem diante do ouvinte, que se vê transportado para
um outro mundo.
Outro que conta histórias de um jeito todo especial é seu José André, com sua fala
mansa e gestos largos. É o mais antigo morador da chamada Caneleira-cidade, ou seja, do núcleo urbano propriamente dito. Logo
se interessou em comprar um daqueles lotes que José Carlos de Assunção, Joaquim Fernandes e Jorge Gomes Pereira puseram à
venda. O lugar não dispunha de nenhum atrativo, mas melhor do que aquele não poderia conseguir com seu salário de doqueiro.
Aos poucos chegaram seu Luís, seu Mário e tantos outros. A força dos braços
dos moradores aos poucos vencia os mangues, os braços de rio e os matagais, que predominavam há 25 ou 27 anos. Seu
André relembra: "A Caneleira era melindrosa como ela só. Não tinha melhoria nenhuma. Mas foi crescendo. É o mesmo que uma
criança quando nasce. Primeiro fica no pé da mãe, e aos poucos vai se formando, até chegar no tamanho de gente".
Se hoje a Caneleira é um bairro valorizado, onde um terreno custa de Cr$ 3 a 7 milhões, isto
se deve à valentia e à disposição de luta de seus primeiros ocupantes. Eles não desistiam e largavam tudo de lado, nem mesmo
quando a água subia mais de metro, invadindo casas e destruindo tudo o que havia dentro delas. O atual secretário da sociedade
de melhoramentos, Manoel Eduardo Garcia, lembra-se de ter carregado uma vizinha nas costas até um lugar seguro, porque a
inundação foi grande a ponto de haver riscos de afogamentos.
O bairro cresceu e não se sabe que fim teve o antigo pé de canela - Sair de shorts
e vestir a roupa só quando chegava à Avenida Nossa Senhora de Fátima era rotina na vida daqueles homens. Nas horas de folga,
lá estavam seu André, seu Mário, seu Luís, aterrando, limpando valas. Também estiveram unidos na hora de
reivindicar luz elétrica e água, melhoramentos que o bairro só ganhou no começo da década de 60.
Para conseguir luz, pagaram uma taxa extra de Cr$ 750,00. Pagaram outros Cr$ 4,00 para
conseguir o cano geral de água. Sempre entrava dinheiro do bolso deles. No final das contas, valeu a pena, já que moram em um
dos melhores bairros da Zona Noroeste. Seu André se dá até ao luxo de ter um quintal cheio de pés de milho e cana.
Nessa história toda, só não se sabe que fim teve a antiga caneleira, árvore de casca
perfumada que servia como ponto de referência e acabou dando nome ao bairro.

No Caminho São Jorge, um casarão quase centenário onde vivem oito
famílias
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