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Bacia do Macuco
Quem diria? A Bacia do Macuco e as Casas
Populares do Macuco não estão situadas no bairro que lhes deu o nome, mas no Estuário, bairro vizinho. Santos cresceu, foi
preciso impor maior disciplina, e o Macuco perdeu áreas. Só para a Encruzilhada cedeu 25% de sua extensão, em 1968.
Dizem os mais idosos que houve época, pelas décadas de 30 e 40, que no
mínimo 30% da população santista morava no Macuco. Tinha fama de ser o bairro que mais crescia no mundo e não era para menos:
estendia-se desde o Entreposto de Pesca, na Ponta da Praia, abrangendo áreas na extensão das avenidas Afonso Pena e Pedro
Lessa, até praticamente o Mercado Municipal, acompanhando a linha de armazéns da antiga Companhia Docas.
Este que já foi um dos maiores bairros de Santos hoje está reduzido ao
trecho entre as avenidas Afonso Pena e Siqueira Campos, Rua Almirante Tamandaré, Avenida Rodrigues Alves, Rua Conselheiro João
Alfredo até os muros da Codesp, ruas Xavier Pinheiro e Campos Melo. O mapa de Santos aponta os limites, mas quantos moradores
não consideram as casas populares e a Bacia como parte integrante do Macuco? Afinal, como dissociar esses dois pontos,
particularmente a Bacia, da sua história?
Na última década, o Macuco ganhou pouco mais de mil habitantes. Dos
17.569 moradores registrados pelo Censo de 1970, passou-se para 18.740 em 1980, conforme estimativa do Plano Diretor de
Desenvolvimento Integrado (PDDI), elaborado pela Prodesan (esta é a estatística mais recente de que se dispõe, porque o IBGE
revelou, com base no último recenseamento, apenas a população total do Município, sem especificações por bairros).
A verdade é que a cada dia o Macuco acentua sua característica de
suporte para as atividades do porto. A população procura outras áreas, onde não precise conviver com o trânsito de caminhões,
armazéns, barulhentos depósitos de containers, firmas transportadoras e outras ligadas a reparos de equipamentos
navais.
Para as 3.549 unidades residenciais registradas pelo Censo de 1970,
havia 249 unidades comerciais, 194 de serviços e 102 industriais. Restam pouquíssimos daqueles chalés que dominavam a paisagem
no começo do século, e mesmo os tradicionais sobradinhos geminados, de amplos porões e janelas e portas altas, que começaram a
surgir a partir do final da década de 20, sucumbem aos poucos. As empresas e os corretores não dão sossego.
Sobradinhos da década de 20 resistem
Evasão - Maria Domingues, portuguesa da Ilha da
Madeira, 39 anos de Macuco, afirma que é difícil o dia em que não aparecem corretores, interessados não propriamente no amplo
chalé da Rua Rodrigo Silva, 239, construído há mais de 60 anos, mas no terreno de 15 metros e meio de frente por 50 de fundos.
Já ofereceram até cinco apartamentos em troca. Mas, eles não valem o quintal onde Maria colhe bananas, fruta-do-conde e figo,
cria galinhas e cultiva uma infinidade de plantas.
Deve ser muito lucrativo e conveniente manter-se instalações comerciais ou
de serviços no Macuco, porque as ofertas são sempre altas: o imóvel da Rua Borges, 102, vale três apartamentos, na opinião dos
corretores.
O cônego Ayrton Brummer, morador há 20 anos e pároco da Igreja de São
José, desde 1974, considera o Macuco um bairro condenado. Quem tem terrenos acaba cedendo às pressões e os vende,
desligando-se de tudo que lembre os incômodos contatos com o cais.
A evasão populacional fica patente, novas construções habitacionais ou
reformas de moradias são raras. "Quem se aventura a construir ou reformar nesse clima de pessimismo?", indaga o padre. Novas
construções, só mesmo armazéns e coisas do tipo.
Cônego Ayrton mostra-se constrangido quando aponta a situação. Mais
ainda, ao recordar que muitos foram embora do bairro porque seus imóveis estavam no traçado da Avenida Portuária. Onde
existiam casas hoje há terrenos baldios ou depósitos de containers, e a continuidade da Portuária permanece sem
definição.
Ao mesmo tempo em que fala que o bairro está condenado, não por
decreto, mas por circunstâncias, cônego Ayrton guarda uma esperança: se for levado adiante o projeto de construção de um
terminal de cargas na entrada de Santos, o Macuco ficará livre dos caminhões, possivelmente dos depósitos, e ganhará feições
de zona residencial.
Força no ar - Dá para agüentar os abusos dos caminhoneiros?
Eles estacionam em locais proibidos, em ambos os lados da pista, fazem manobras bruscas, bloqueiam passagens, destroem
calçadas e árvores e trafegam na contramão.
O barulho dos caminhões perdura nas 24 horas do dia e, se não
bastasse, há os depósitos de containers, que operam durante a madrugada e não deixam ninguém dormir. Sem falar nos
inconvenientes armazéns de produtos químicos e inflamáveis, alvos de tanta polêmica.
Reclamar para quem, se providências não são adotadas? Há oito meses os
moradores esperam a instalação de um semáforo na Almirante Tamandaré com Siqueira Campos. Mais antigo é o pedido de melhoria
na iluminação pública e a implantação de um canteiro central na Avenida Rodrigues Alves. Avenida que, aliás, perdeu seu
canteiro central e árvores para dar lugar aos carros.
Da condução, poucos não reclamam. Fora os coletivos que circulam na
Senador Dantas e Afonso Pena, praticamente pontos extremos, só há o trólebus linha 8, que faz ligação apenas com o Centro e o
Boqueirão. Não há áreas de lazer e apenas uma praça - a Palmares - pequena e mal conservada. No mais, há a inconveniente
proximidade da Praça Guilherme Aralhe, junto à Bacia do Macuco, que de praça só tem o nome, pois não passa de um depósito de
lixo e parque de estacionamento de caminhões.
Os moradores desfiam outras questões, como ruas sujas, com lama
acumulada nos cantos, pistas esburacadas e falta de verde. Mas não há como não gostar desse bairro, pelas pessoas que nele
habitam. Tem algo de mais forte no ar do que o cheiro que vem da Refinações de Milho Brasil ou da Citrosuco, nessa área onde
vivem estivadores, ensacadores, portuários, operários enfim. Gente simples, conversadeira e hospitaleira quando o visitante
ganha a sua confiança. Gente como o estivador Waldemírio Malvon, que diz, sorridente: "Eu amo o pessoal daqui. Digo isso e não
sou candidato a vereador".

Há 30 anos, barcaças descarregavam areia na Bacia
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