| O esplendor da Marquesa de Santos
J. Muniz Jr.(*)
Colaborador
No decorrer de centúrias e séculos, muito
se escreveu sobre os amores célebres da história da Humanidade, envolvendo famosos personagens, desde Páris-Helena de Tróia,
Marco Antônio-Cleópatra, Napoleão-Josephina, ao Duque e a Duquesa de Windsor, e por que não D. Pedro e Domitília (Marquesa de
Santos)? O romance do último par transcorreu nos tempos do Brasil Imperial, resultando em intrigas políticas, ambições
desenfreadas e escândalos.
As épocas mudam, os fatos se sucedem e os comentários vão correndo de
boca a boca, levados pelo exagero e transformados em lendas. Portanto, não temos a pretensão de descrever pormenores sobre o
palpitante assunto, que não caberiam nos ligeiros limites deste artigo. Limitamo-nos somente a focalizar algumas recordações do
decantado romance entre o príncipe galante e a insinuante e sedutora marquesa.
Não resta dúvida de que uma das figuras mais discutidas do Império foi
dona Domitília de Castro do Canto e Mello, que, embora não fosse santista e não tenha residido em nossa cidade no decorrer de
sua longa existência (1797-1867), foi agraciada com títulos nobiliárquicos de Viscondessa e Marquesa de Santos, respectivamente.
A formosa dama paulistana ganhou fama e popularidade devido ao seu relacionamento com o imperador Pedro I, que ficou
perdidamente apaixonado pelos seus encantos, chamando-a de "Titília, bela...", em seus versos.
Dizem seus biógrafos que era dotada de uma singular beleza, além de
sedutora e faceira. O certo é que o ardor de sua mocidade acabou incendiando o coração volúvel do então príncipe-regente,
através de uma paixão desenfreada. Esse amor ardente veio a abalar seriamente o seu prestígio na corte, quase arruinou o seu
reinado, levando-o a demitir, posteriormente, vários ministros, e a outros gestos impulsivos. Depois que deixou a corte, forçada
pelas circunstâncias, Domitília voltou para São Paulo, onde iniciou vida nova, tornando-se uma senhora devota e caridosa,
procurando socorrer os necessitados e/ou desamparados.
Descendente da nobreza pelo lado materno, Domitília nasceu em São Paulo
de Piratininga, onde cresceu, revelando desde cedo uma atraente beleza, sendo que na adolescência já tinha muitos admiradores.
Acabou casando aos 15 anos de idade, por imposição dos pais, e pouco depois já estava separada. E, apesar dos filhos e dos
dissabores de um matrimônio infeliz, continuou sendo uma bela mulher, chamando a atenção pelo seu porte majestoso.
Quanto ao seu encontro com o príncipe, segundo versões existentes,
ocorreu na chácara do seu pai, o tenente-coronel João de Castro do Canto e Mello, que ficava para os lados da colina do
Ipiranga, no lugar denominado Moinhos. E que tudo aconteceu casualmente, quando D. Pedro retornava de Santos na famosa
tarde setembrina de 1822, ocasião em que se verificou o acontecimento magno da nossa História. Ao fazer uma parada para
descansar da árdua jornada serra acima, deparou com a bela Domitília que vinha carregada numa liteira por robustos escravos, ele
a olhou e ela abriu um sorriso radiante. Foi o suficiente para a flecha do Cupido atravessar o coração do galante cavaleiro.
Coincidência ou não, cabe lembrar que o coronel Canto e Mello fora ao
encontro do príncipe-regente, por ocasião de sua partida da corte para São Paulo, juntando-se à comitiva no caminho. Um outro
detalhe interessante é que o irmão da futura marquesa, o alferes Francisco de Castro Canto e Mello, integrava a Guarda de Honra
do Augusto Senhor, escoltando-o na sua longa viagem pela Província de São Paulo.
Existem comentários de que o príncipe foi induzido a encontrar a beldade
paulistana. Tanto é que uma outra versão diz que Domitília conheceu o nobre mancebo no dia 29 de agosto na propriedade do seu
pai, nos arredores de São Paulo, e que desceu para Santos com ele, onde se encontraram às escondidas. O certo é que, uma vez
fascinado pela beleza de Domitília, o futuro imperador voltou para a corte, onde tomou de imediato as primeiras providências,
visando transferi-la para o Rio de Janeiro, não deixando de comunicar a sua intenção ao coronel Canto e Mello, que se sentiu até
lisonjeado pela atitude do real senhor.
Na corte do imperador - E assim, em junho de 1823, irradiando a
beleza dos seus 25 anos, mudou-se para a suntuosa corte, em São Cristóvão, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro,
instalando-se, primeiramente, numa casa um pouco distante da Quinta da Boa Vista. Todavia, o jovem imperante logo a trouxe para
bem perto, deixando-a alojada num luxuoso palacete na Rua do Imperador, que se tornou conhecido como Solar da Marquesa.
Os comentários começaram a rolar a partir de então, uma vez que D. Pedro I não faltava aos saraus organizados na luxuosa
residência da "bela paulista", que se prolongavam madrugada adentro.
Perdidamente enamorado, o ardoroso imperador fez Domitília a
primeira-dama da imperatriz D. Leopoldina de Habsburgo, em abril de 1825. Causou outra afronta em 24 de maio de 1826,
reconhecendo solenemente como filha a menina Isabel Maria, filha de Domitília, gerando protestos dos palacianos. E com a morte
da primeira imperatriz do Brasil em 11 de dezembro daquele ano de 1826 e ainda devido à demissão do Marquês de Paranaguá - que
não permitiu que Domitília entrasse nos aposentos da imperatriz moribunda -, as coisas pioraram. O imperador furioso demitiu
quase todo o gabinete de ministros.
Mesmo assim, elevou Domitília à condição de viscondessa e,
depois, de marquesa, "com honras de grandeza", através de Carta Régia, passando assim a gozar de todas "as honras,
privilégios, isenções, liberdades e franquias", de acordo com o pergaminho rubricado e selado pelo próprio punho de Sua
Majestade, ganhando uma posição privilegiada na corte.
Ainda por influência do mirabolante amor, por decreto imperial de 4 de
abril de 1827, foi condecorada com a banda da Real Ordem de Santa Isabel de Portugal. Sua influência com o imperador fez ainda
com que seus parentes fossem igualmente agraciados com títulos de nobreza: o pai, os irmãos, o cunhado e por aí afora. Diante de
tais regalias e dos filhos que resultaram do célebre romance, acentuaram-se as discórdias na corte. E, em vista das
circunstâncias, sobreveio o inevitável: em abril de 1829, a marquesa inabalável foi definitivamente afastada da corte, uma vez
que o imperador havia assinado contrato de casamento com a princesa Amélia Augusta Eugênia de Leuchtenberg.
Novamente em São Paulo - Repudiada e ferida em sua vaidade,
Domitília deixou o Rio de Janeiro e regressou para São Paulo, ficando alojada na chácara de Francisco Ignácio de Souza Queiroz
(que estava na Europa), posta à sua disposição pelo seu concunhado, o conde de Valença. Seus bens passaram a ser ministrados
pelo coronel Rafael Tobias de Aguiar, com quem se casou em 1842, em meio à guerra civil sorocabana.
A marquesa e o então brigadeiro (reformado) Tobias de Aguiar continuaram
residindo em São Paulo e, com a morte do marido em 1857, herdou do mesmo bens e escravos. Chegou a integrar a Maçonaria e ainda
por ocasião da guerra do Paraguai, além de doações em dinheiro, deixou à disposição das tropas imperiais brasileiras suas terras
e fazendas (onde eram atendidos quando passavam). Foi a primeira mulher brasileira a fazer doações para a campanha de guerra e o
seu belo gesto repercutiu em todas as classes sociais.
Com o passar dos anos, foi considerada "a dama de maior prestígio e
atividade social de São Paulo", segundo pondera Wanderley de Pinho (Damas e Salões do Segundo Reinado) e chegou a ser
chamada de "Pompadour Sul-americana", pois não havia ainda perdido os hábitos palacianos. Em meados do século XIX, abria
constantemente seus palacetes do Acu e do Carmo para a realização de freqüentes partidas, recepções, reuniões dançantes e bailes
mascarados, onde sentava, toda senhora de si, numa cadeira especial denominada "o trono da Marquesa".
Andava pela imperial cidade de São Paulo num coche brasonado e
luxuosíssimo, alardeando opulência, demonstrando abastança e riqueza, sendo que, ao mesmo tempo, visitava e ajudava aos
necessitados através de doações e obras de caridade. No final de sua existência, ficava vasculhando baús e caixas de jóias e
deleitava-se acariciando afavelmente seus objetos pessoais com o pensamento voltado a um passado distante, quando vivera uma
paixão desvairada e fora a favorita do imperador.
Vivia de memórias e recordações de um passado fulgurante, ao lado dos
seus filhos, netos e sobrinhos, até que cerrou os olhos para sempre no dia 23 de fevereiro de 1867, aos 70 anos de idade, na
mesma cidade que a viu nascer. Ainda em vida pediu um funeral sem ostentação, tendo sido sepultada no Cemitério Municipal de São
Paulo, com a presença do presidente da Província, Saldanha Marinho, e de outras altas autoridades paulistanas. Seus restos
mortais jazem no singelo mausoléu da família no Cemitério da Consolação, encimado pela figura de um anjinho de ar ingênuo
lembrando a figura de Cupido.
Relacionamento com Santos - Quanto ao título de Marquesa de
Santos, lhe foi concedido pelo imperador, pela lembrança do encontro no dia 7 de setembro de 1822, quando ele (então
príncipe-regente), voltava de Santos e a encontrou radiante de alegria. Ainda por ocasião da construção do
Chafariz da Coroação, no Largo da Misericórdia (atual Praça Mauá), inaugurado
pelo imperador Pedro II e pela imperatriz Tereza Cristina em 1846, a cidade recebeu uma doação da senhora marquesa, que estendia
assim sua generosidade, talvez por agradecimento, ao lugar que lhe deu um título nobiliárquico.
Um fato curioso, ligado à Marquesa de Santos, ocorreu nos Outeirinhos,
sítio que fora de José Bonifácio, o Patriarca da Independência, à beira-mar, fronteiro ao canal do Estuário. No local
havia penhascos com risco de naufrágio aos navios veleiros que entravam e saíam do porto e nessa perigosa formação rochosa havia
uma com estranhas características, mais parecendo "um símbolo de antigos cultos obscenos", segundo observa Alberto Rangel (D.
Pedro I e a Marquesa de Santos). E que o povo santista havia consagrado à marquesa aquele penhasco de forma esquisita,
admitindo ainda que aquilo não passava de um "marco escandaloso", pois representava, segundo os comentários da época, as
"armas da Marquesa". Concluindo, que os maldosos encontraram na coincidência e capricho do penhasco a celebração de mais
um de seus "opróbios e chacotas".
Tal penhasco foi totalmente arrasado por ocasião da construção do porto,
naquele trecho. Posteriormente surgiu, um pouco mais além, para os lados da Bacia do Macuco, um bairro chamado de Pau Grande.
(N.E.: o local, que não chegou a se tornar bairro, tem outra explicação
para tal denominação: seria derivada de uma frondosa figueira ali existente).
Nas escrituras ou mesmo no testamento da marquesa não
constava nenhuma propriedade em Santos; entretanto, o povo sempre encontrava um meio de recordar a fabulosa dama. Muitos devem
estar lembrados de um amplo casarão que existiu na Avenida Conselheiro Nébias (entre as ruas 7 de Setembro e Bittencourt), quase
vizinho à antiga Cruzada das Senhoras Católicas. Recordamo-nos, claramente, que nos anos 1940/50 era apontado como Casa da
Marquesa, com portão e gradil à frente, jardim e dois lances de escadas que davam para uma varanda, rodeada por uma
balaustrada.
Em princípios dos anos 50, quando ruiu um velho casarão na Rua Júlio de
Mesquita, entre as ruas Senador Feijó e Comendador Martins, a imprensa noticiou que ruíra "parte de um castelo", nos fundos de
um terreno onde hoje se encontra o Edifício Castelo. Segundo os comentários da época, em tempos passados ali residira a
famosa Marquesa de Santos, surgindo então estórias mirabolantes envolvendo a sedutora dama paulista e o ardoroso
príncipe: que o castelo tinha um chafariz à frente, sendo considerado um dos mais bonitos prédios da Cidade. Hoje, tudo
desapareceu, quase nada restou daquela época de esplendor e fascício.
Bibliografia - Barcelos, Alberto, "A Marquesa de Santos",
Ilustração Brasileira, maio/1926, Rio de Janeiro; "De Quem São as Flores da Marquesa de Santos", Edição Extra,
29/12/1962; Maul, Carlos, A Marquesa de Santos; Monteiro, Tobias, História do Império, F. Briguiet e Cia. Ed., Rio
de Janeiro, 1927; Pinho, Wanderley, Salões e Damas do Segundo Reinado, Liv. Martins Ed., São Paulo, 1942; Rangel,
Alberto, D. Pedro I e a Marquesa de Santos, Liv. Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1916; Ribeiro, R. Mendes, Ilustração
Brasileira, setembro/1921, Rio de Janeiro; "Ruiu parte do Castelo", A Tribuna, Santos, 7/2/1950; Sousa,
Alberto, Os Andradas, CMS, Tip. Piratininga, São Paulo, 1922; Thomaz, Joaquim, "Os dois Testamentos de D. Pedro I",
D. Pedro I e Dona Leopoldina Perante a História, IHGSP, Graf. Mun. De São Paulo, 1972.
(*) J. Muniz Jr. é jornalista e
pesquisador de História e autor de várias obras literárias sobre Santos e região.

Registro do falecimento da Marquesa de Santos, de 1867, encontrado em
7/12/2006 pelo professor e pesquisador Waldir Rueda no Arquivo do Estado de São Paulo
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