HISTÓRIAS
E LENDAS DE SANTOS Incêndio
na capela das Neves

Os
escravos fugidos das fazendas paulistas, no século XIX, costumavam
se reunir em quilombos, e um dos principais no município de Santos
(além do Quilombo do Jabaquara, quase
no centro de Santos) foi o existente na área continental de Santos,
tanto que o local ficou conhecido como Serra do Quilombo. Por essa época,
ali também existiu o sítio Nossa Senhora das Neves (que deu
nome ao lugar e no final do século XX foi explorado como pedreira),
próximo ao limite com Guarujá pelo acesso da estrada SP-55
(Piaçaguera-Guarujá).
 O Sítio
das Neves, em 2002, após ser explorado como pedreira Foto: Reinaldo
Ferrigno/Decom-Prefeitura Municipal de Santos)
Conta Olao Rodrigues, em sua Cartilha
da História de Santos (Gráfica A Tribuna, 1980, Santos/SP),
com ilustração de J. Watson Rodrigues reconstituindo o incêndio:
 O incêndio,
em bico-de-pena de J.Watson Rodrigues
Na Serra do
Quilombo, às margens do Rio Jurubatuba, existiu o sítio Nossa
Senhora das Neves, que dispunha de capela sob a invocação
dessa santa, no outro lado do Estuário.
No dia 8 de
julho de 1884, por volta das 10 horas, veio a saber-se na Cidade que a
Capela de Nossa Senhora das Neves estava presa das chamas. O fogo foi extinto
por pessoas do Valongo, que, de imediato, seguiram para o lugarejo, de
difícil acesso.
Segundo o Diário
de Santos - o jornal que depois de A Tribuna teve maior vivência
em Santos -, o incêndio ter-se-ia verificado durante a madrugada,
destruindo por inteiro o templo. A imagem de Nossa Senhora das Neves, que
havia tombado do altar em chamas, foi trazida para a Cidade por pessoas
compassivas. Nossa Senhora das Neves era padroeira dos escravos.
Todos os cativos
que trabalhavam na área, inconformados com a destruição
do pequeno templo, teriam também ateado fogo no feitor do Engenho
de Cabralaquara (N.E.: SIC. A grafia conhecida
é Cabraiaquara), de nome Antônio
Joaquim, apontado como autor do incêndio proposital da capelinha,
embebendo-lhes as vestes com querosene e ateando-lhes fogo.
É que
os escravos freqüentavam amiúde a capelinha, orando e rogando
a intercessão de graças - circunstância que teria sempre
desagradado ao feitor, que via no ato de unção católica
dos escravos execrável fuga ao trabalho comum. |
O mesmo pesquisador Olao Rodrigues
já havia contado antes essa história onze anos antes, no
Almanaque de Santos - 1969, citando o nome indígena do sítio
- Cabraiaquara - e usando o ano de 1850 como data para o incêndio,
corrigido depois para 1884. A primitiva publicação foi entretanto
usada como referência por outras, disseminando o erro de data. Este
é o texto de 1969:
 Da capela
incendiada, restaram apenas ruínas Clique na
imagem para saber mais. (Foto: equipe A
Tribuna, publicada em 28/10/1982)
A rebelião
dos escravos
Em
1850, à entrada de Jurubatuba, no outro lado do Estuário,
havia a capela de Nossa Senhora das Neves, onde os negros escravos permaneciam
por alguns momentos, em preces e invocações por melhores
dias, pois não podiam suportar as asperezas da jornada brutal de
trabalho, de trabalho escravo, que iam além de suas forças
físicas.
Era de vê-los,
esquálidos e estropiados, ajoelhados diante da imagem da santa de
sua devoção, em súplicas e rogos não para uma
vida restauradora, de descanso e paz, mas pelo menos para evitar-lhes uma
tarefa intensa e maldosa, que contrariava as suas condições
humanas, sem tempo sequer para a tranqüilidade de uma oração,
que era feita sempre à pressa, com momentos contados.
O feitor do
engenho de Cabraiaquara, um português de má índole,
perverso e muito subserviente aos patrões, não dava sossego
aos pobres negros e quando eles, extenuados, se reuniam, por momentos,
na igrejinha, o vigia lusitano, qual cérbero, os maltratava, por
não lhes admitir um momento sequer de repouso.
- "Um dia acabarei
com a regalia desses negros, pois eles aqui vêm para fugir ao trabalho
do canavial", foi o que dele ouviu, certa feita, um grupo de circunstantes,
lá no pequeno templo.
Um dia, a capelinha
de Nossa Senhora das Neves foi presa das chamas. Alguém, por perversidade,
ateara fogo àquela casa de Deus. De nada valeram os esforços
dos negros escravos, que, com água e areia, tentaram dominar o fogo.
O templozinho ficou totalmente destruído e, com ele, a imagem de
Nossa Senhora das Neves.
Houve o revide.
Certos de que a ocorrência fora determinada pelo português,
na ânsia de pôr fim aos escassos momentos de sua folga, os
escravos se amotinaram e, aos gritos, como que feridos em sua condição
de figuras humanas, afluíram ao sítio e puseram fogo na propriedade,
cujos donos, por coincidência, se haviam dirigido para Santos.
Tudo ficou
à prova do fogo. Antônio Joaquim, prevendo o fim trágico
de sua vida, tentou fugir e chegou a mergulhar numa cachoeira, mas um escravo,
forte, seguindo-lhe os passos, subjugou-o e levou-o para as proximidades
do sítio, onde foi amarrado e submetido ao fogo.
O feitor português,
homem forte, ainda tentou salvação nas águas do estuário,
mas as pernas não o ajudaram. E ficou ali mesmo, como tocha humana,
sucumbindo aos poucos, enquanto lá de cima, do outeiro, um coro
de tamborins e gargalhadas festejava pateticamente a morte do algoz dos
escravos de Cabraiaquera (N.E.: SIC: nas demais
ocorrências do nome, o autor usou a palavra Cabraiaquara). |
A origem do topônimo Neves
e os primórdios dessa região são relatados pelo pesquisador
Francisco Martins dos Santos, em sua História de Santos,
republicada em 1996 junto com a Poliantéia Santista de Fernando
Martins Lichti (Editora Caudex Ltda., São Vicente/SP, 2º volume):
 O Sítio
das Neves, em 2002, após ser explorado como pedreira Foto: Reinaldo
Ferrigno/Decom-Prefeitura Municipal de Santos)
NEVES
- Ponto histórico e pitoresco do município, no arrabalde
de além-estuário, junto à enseada de Santa Rita, à
entrada do rio Jurubatuba.
Neste lugar,
Pero de Góis instalou o seu sítio da "Madre de Deus",
em 1532, no próprio ano da chegada de Martim Afonso - o primeiro
sítio denominado, que se conhece na história paulista e na
própria história brasileira. Ausentando-se de Enguaguaçu
para tomar posse da sua Capitania e continuar suas andanças de guerreiro
e insatisfeito, Pero de Góis entregou o sítio ao irmão
Luiz de Góis, o qual, em 1546, nele fundou o famoso Engenho "da
Madre de Deus", o terceiro que teve a antiga Capitania de São
Vicente.
Em escritura
daquele ano, datada de 20 de março de 1546, Luiz de Góis,
um dos mais importantes fundadores de Santos, prevendo a velhice ou a sua
própria saída do lugar, já doava ao filho - Scipião
de Góis - o Engenho "que estava fazendo", e, ao cunhado Aleixo de
Avelar, uma parte no Engenho, associando-o ao filho.
A invocação
Nossa
Senhora das Neves, que permaneceria como topônimo tradicional
na geografia santista e litorânea, apareceu exatamente em 1702, quando
dona Ambrósia de Aguiar (filha de Custódio de Aguiar, falecida
no estado de solteira em 1706), em parceria com suas irmãs Ana e
Catarina de Aguiar (herdeiras de quinhões) fundaram a Capela da
Santa, entregando-a aos cuidados e responsabilidade do Capitão Francisco
e do reverendo Cristóvão de Aguiar Daltro (que nos documentos
aparece também como de Altero), com as obrigações
institucionais por elas criadas.
A devoção
a Nossa Senhora das Neves cresceu muito, principalmente a partir de 1730,
e mais ainda entre os negros escravos de toda a região, que a tomaram
como protetora e padroeira, depois que o sargento-mor Manoel Gonçalves
e Aguiar conseguiu criar a sua procissão aquática - uma festa
notável e pitoresca, que se realizava desde então, todos
os anos, no dia da mesma santa, e de que participou sempre toda a cidade.
Ainda hoje,
existem no lugar alguns restos e ruínas do antigo engenho e da velha
capela, duas vezes incendiada e duas vezes reconstruída, até
cair em completo abandono.
Ao tempo dos
aguadeiros em Santos, que vendiam água potável pelas ruas
da vila, a água de Nossa Senhora das Neves, ou simplesmente das
Neves, era a mais procurada e aceita pelas famílias.
O sítio
das Neves, em 1817, no levantamento geral das terras do município
de Santos, ordenado por D. João VI, aparecia como patrimônio
da Capela, administrado pelo capitão José Francisco de Menezes,
que o cultivava com oito escravos.
 O Sítio
das Neves, em 2002, após ser explorado como pedreira Foto: Reinaldo
Ferrigno/Decom-Prefeitura Municipal de Santos)
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