| Dois anos após a primeira transmissão de
rádio, efetuada nos EUA - a 2 de novembro de 1920 -, foram realizadas no Brasil as primeiras irradiações (em circuito fechado),
na Exposição do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro. No ano seguinte, em 1923, era instalada na Av. Rio Branco, 109,
6º andar, na então capital brasileira, a Rádio Clube do Brasil. Essa primeira emissora brasileira começou com broadcasting
regular a 20 de abril e foi definitivamente inaugurada a 7 de setembro do mesmo ano, transmitindo por aparelho Pekam, ofertado
pela firma Ketzener & Cia., de Buenos Aires. Em 1923, Paulo
C.Suplicy e Frederico Magalhães Hafers construíram um receptor, aqui em Santos, que causou grande admiração, especialmente ao
amigo comum Roberto Simonsen, que logo aventou a idéia de fundar-se uma sociedade, que recebeu o nome de
S/A Rádio Industrial e cujos aparelhos receberam a denominação de Rádio Rex, premiados com medalha
de ouro. Entretanto, para maior difusão dos receptores estava faltando uma emissora local, pois a recepção exterior ainda era
muito deficiente.
Assim surgiu a idéia de fundar-se uma emissora. Paulo C. Suplicy,
Frederico Magalhães e Max Valdez fundaram a Rádio Clube de Santos, que logo se tornaria realidade com a valiosa cooperação do
sr. Domingos Fernandes, proprietário do Miramar, que ali cedeu um dos seus salões, onde foram instalados os primeiros
apetrechos, para a efetivação dessa arrojada iniciativa. Durante as primeiras experiências, acompanhavam e orientavam os testes
de transmissão, com audição em São Paulo, os engenheiros Amaral Cezar, Jorge Corbisier e Leonard Jones. A Rádio Clube de Santos
começou a funcionar com 50 watts de potência, através de um transmissor Pekan.
O técnico Jovino de Melo foi o grande precursor da radiofonia
santista
A fundação da Rádio Clube de Santos deu-se a 26 de dezembro de 1924, na forma de um clube, cujo
objetivo era recrear seus associados e ouvintes - em verdade bem poucos, pelas deficiências técnicas dos transmissores e dos
receptores. Era, realmente, uma iniciativa relevante, considerando-se que, naquele momento, apenas a Rádio Clube do Brasil, no
Rio de Janeiro, e a Rádio Educadora de São Paulo funcionavam com relativa regularidade.
Os primeiros prefixos da nascente emissora santista foram: SQLI, SQAI,
PRAS e depois RCS. E a Rádio Clube, com muitas dificuldades, funcionava apenas no horário das 20 às 22 horas, ainda instalada no
Miramar, por gentileza de seu proprietário. Pouco depois passou a funcionar com dois horários
diários, sendo o outro das 10 às 12 horas.
A emissora santista, constituída na forma de clube, era mantida por seus
próprios associados, que pagavam mensalidades. Grande parte deles eram radioamadores. Toda a parte técnica da rádio estava sob a
responsabilidade de Jovino de Melo, e os sócios auxiliavam na programação, fazendo a seleção dos discos e os anunciando no
microfone.
Sua inauguração oficial deu-se a 4 de abril de 1926,
(N.E.: a data correta é 4 de abril
de 1925) sendo, então, a primeira emissora do litoral
paulista e a terceira ou quarta emissora brasileira, dentre as pioneiras, Rádio Clube do Brasil, Rádio Educadora Paulista, Rádio
do Ministério da Educação, Rádio Clube de Pernambuco e Rádio Hertz de Franca. Sua primeira licença oficial, sob o prefixo SQAI,
foi assinada a 30 de novembro de 1926.
Foi seu primeiro presidente o sr. Antenor da Rocha Leite. O discurso
inaugural da emissora foi proferido pelo dr. João Carvalhal Filho.
A rádio enfrentou grandes dificuldades financeiras, durante todo o seu
primeiro ano de funcionamento, e para tentar tirá-la dessa crise sua diretoria convidou o radioamador Hermenegildo da Rocha
Brito para ocupar uma função na diretoria, sendo logo depois, ainda em 1927, guindado à presidência da sociedade.
O novo dirigente começou por substituir o transmissor, que havia sido
doado pela Cia. Construtora de Santos, passando a utilizar um de sua própria fabricação, bem mais potente. Introduziu a
propaganda comercial, até então inexistente, como forma de faturamento e receita. Contratou um locutor, para exercer
profissionalmente essa importante função, e a escolha recaiu em Paulo de Afonseca Faria - que foi, de fato, o primeiro
speaker oficial de Santos, pois anteriormente a locução vinha sendo feita pelo próprio Jovino de Melo, que até então
acumulava todas as funções na rádio, onde era o seu técnico, operador, discotecário, locutor, programador etc.
Já em 1930 a Rádio Clube inaugurava um novo e possante
transmissor de marca Phillips, especialmente importado da Holanda.
Hermenegildo da Rocha Brito prosseguia modificando e criando, e dentro
desse espírito empreendedor passou a apresentar às sextas-feiras, ao vivo, a retransmissão da Orquestra do Cassino
Miramar, que iniciou suas audições com o tango Noche de Reys.
9 de Julho - Em abril de 1932, com o auxílio do comércio de
Santos, conseguiu adquirir a primeira parte de seu atual terreno, na Rua José Cabalero, 60, e com uma rifa de um bilhete de
Natal, da Loteria da Espanha, conseguiu recursos para construir a primeira etapa de seu prédio próprio, nesse local, onde a 9 de
julho desse mesmo ano iria instalar-se, chegando a despedir-se do Miramar em sua programação do dia 8 de julho. A eclosão da
Revolução Paulista de 1932, no dia 9 de julho, fez com que a mudança definitiva se processasse no dia 16
desse mês.
A Rádio Clube de Santos desempenhou uma extraordinária função na
preparação psicológica do povo santista para a Revolução Constitucionalista de 1932, através de uma seqüência de vibrantes
palestras cívicas proferidas pelo padre João Batista de Carvalho, Ibraim Nobre e outros notáveis oradores, durante os seis meses
que antecederam o memorável 9 de julho. Durante a Revolução, a PRB-4 liderou a campanha do sabonete e do agasalho, entrosada com
a Cruz Vermelha Brasileira, seção de Santos.
No estúdio do Gonzaga logo desenvolveu uma programação ao vivo, para
isso constituindo um conjunto regional e uma orquestra sob a regência do maestro José Vetró.
Quando o Governo Federal proibiu as emissoras de funcionarem como
agremiações amadoras (clubes), Rocha Brito transformou a Rádio Clube de Santos numa sociedade comercial, por ações, que dividiu,
proporcionalmente, entre os 96 remanescentes do quadro associativo.
Programação pioneira - A primeira emissora santista de rádio,
também, foi iniciadora de vários programas, que depois se difundiram pelo país. A primeira retransmissão externa, de grande
repercussão, foi a solenidade inaugural do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, cuja missa foi transmitida pela Rádio Clube de
Santos.
Em 1928, a professora Renira Catunda - a vovó Barnabé - lançava o
primeiro programa infantil, apresentado em conjunto com o sr. Francisco Duarte (pai de Raul Duarte, da Administração da Record).
Desse programa, onde as crianças apresentavam seus dotes artísticos, através de cantos e esquetes, saíram grandes revelações,
como o Conjunto Calunga, com os irmãos Maurício e Maurici Moura, Nestor Pires e muitos outros.
Essa programação, sob a denominação Hora Infantil, se manteve
durante muitos anos, com verdadeiro estouro de audiência. Foi criada em 1928, pelo próprio Rocha Brito, e atingiu o auge sob a
direção da sra. Alayde Camargo (Dindinha Sinhá), assistida por Alayde Ratto e Maria Ismênia de Oliveira. Pelo seu êxito, passou
a ser imitada por muitas emissoras brasileiras. Até o final da década 40 foi mantida com marcante sucesso. Depois, sentiu a
concorrência da televisão.
Posteriormente, surgiu o Programa Feminino - um horário
exclusivamente para mulheres, com cursinhos de beleza, de modas, de culinária, de etiqueta e decoração, em cuja programação
também foi pioneira no Brasil.
Gagliano Neto transmitiu em rede
de rádio
a terceira Copa do Mundo, também para Santos
Em 1938, a Rádio Clube fez parte da Cadeia
de Emissoras Nacionais, que irradiou, com exclusividade, o III Campeonato Mundial de Futebol, que se realizou na Itália, e cujo
locutor foi Gagliano Neto, de grande renome, na época. Essa cadeia - integrada também pela Rádio Cruzeiro do Sul, de São Paulo,
e Rádio Clube, de Juiz de Fora -, denominada de Rede Verde e Amarela, foi a primeira a ser formada, no Brasil, pois, pela
primeira vez, algumas emissoras se uniam para transmissão, em conjunto, de um evento externo.
A 26 de janeiro de 1939, a Rádio Clube de Santos comandou as irradiações
oficiais da Hora do Brasil, em cadeia nacional, retransmitindo as solenidades do 1º Centenário da
Elevação de Santos à Categoria de Cidade.
Personalidades - Muitos artistas, locutores e programadores de
rádio e televisão iniciaram suas carreiras na Rádio Clube de Santos, como Raul Duarte, Renato Macedo, Renata Fronzi, Cacilda
Becker, Mota Neto, Ribeiro Filho, Ermindo Peruzzi, Leny Eversong (Hilda Campos), Silvino Neto (ainda como cantor, antes de se
tornar humorista), Manuel Reis, Romilda Simões, José Ferreira, Plínio Ferraz, Toledo Duarte, Vicente Leporace, Zezé Lara, Araken
Patusca e Luiz Américo, além de muitos outros de longa enumeração.
Leny Eversong começou na Rádio Clube
uma grande carreira internacional como cantora
Outros
artistas de projeção nacional e internacional, também se apresentaram na Rádio Clube de Santos, em suas memoráveis audições, em
seu magnífico auditório, que chegou a ser um dos melhores, maiores e mais bonitos auditórios das rádios brasileiras. Entre
esses, lembramos Gregório Barrios, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Dircinha e Linda Batista, Vicente Celestino, Manoel de
Nóbrega, Ronald Golias, Hebe Camargo, Chocolate, Alberto Ribeiro, Walter Forster, Lamartine Babo, Carmem Miranda, Sílvio Caldas,
Heleninha Costa, Lolita Rodrigues, Antônio Marcos, Ronie Von e Sérgio Reis.
No auge das radionovelas, a Rádio Clube de Santos apresentou uma
sequência de consagrados autores, como Raimundo Lopes, Octávio Augusto Vamperi, Clímaco Cesar, Dilma Libon, Talma de Oliveira,
Oduvaldo Vianna e Ivany Ribeiro, entre outros.
Entre os seus locutores mais antigos, podemos lembrar de Raul Duarte,
Dr. Archimedes Bava, Querubim Correa, Ary Falconi, Ary Ferraz, Olavo Martins, Rubens Vasconcelos, Arnaldo Alfaya e José Luiz
Lopes.
Entre outros muitos que iniciaram suas atividades na Rádio Clube,
citamos alguns como Arnaldo Gonçalves, Bartolomeu Ramos, Horácio Guimarães e Ernesto Ribeiro Júnior.

Programa Cherubim Correia - Patrocínio da Manteiga Aviação
Publicado no jornal santista A Tribuna em 8
de fevereiro de 1934
A prestigiosa PRB-4, agora ZYK-653, teve seus transmissores de 10
quilowatts de potência, localizados no Bairro da Areia Branca - Jardim Rádio Clube - em cuja área pantanosa, de difícil acesso,
relativamente distante do transporte coletivo, há 40 anos (N.E.: em 1955) foi instalada a nova torre da emissora, que pelo aumento de potência não pode ser mantida junto à sua sede na
Rua José Cabalero nº 60, e cuja instalação e assistência técnica, no final dos anos 50, ainda foi feita pelo próprio Jovino de
Mello, que por mais de 30 anos foi um baluarte na Rádio Clube de Santos (a principal avenida do Jardim Rádio Clube tem o seu
nome, em homenagem ao seu pioneirismo, enfrentando, diariamente, um grande charco a pé).
A Rádio Clube de Santos permanece na Rua José Cabalero nº 60, com sua
bela sede, onde, além do auditório (transformado e arrendado para um cinema, há alguns anos),
(N.E.: o antigo cine Alhambra) mantém seu estúdio completo, todas as dependências administrativas,
departamento comercial e instalações de sua diretoria. Na presidência da sociedade permaneceu, desde 1927, ininterruptamente,
Hermenegildo da Rocha Brito, até a sua morte - um grande nome, não apenas do rádio santista, mas um valoroso pioneiro do rádio
brasileiro. O controle acionário da sociedade passou a Édison Arantes do Nascimento (Pelé), que se
fazia representar por seu irmão, dr. Jair Arantes do Nascimento, que ocupava o cargo de diretor-secretário, cuja diretoria era
completada pelo dr. Luciano Arias Filho, que exercia as funções de diretor-tesoureiro, tendo ainda permanecido na presidência,
como homenagem, Hermenegildo Rocha Brito.
Há alguns anos, Édison Arantes do Nascimento vendeu a emissora para a
Sra. Maria Alice Antunes Affonso. Ultimamente, a Rádio Clube de Santos está arrendada à Igreja Universal do Reino de Deus. A
sede jurídica da rádio mudou-se para a Rua General Câmara nº 5 - cj. 1.104. Seu diretor, pela arrendatária, é o sr. Roberto Luiz
de Oliveira. Sua torre foi transferida para uma área na Rodovia Pedro Taques. A antiga área dos transmissores e torre instalada
no Jardim Rádio Clube (que deu nome ao bairro), permaneceu como propriedade de Édison Arantes do Nascimento. A emissora
transmite em AM em 1.240 quilociclos com a mesma potência de 10 quilowatts.
Indiscutivelmente, a Rádio Clube de Santos tem uma extraordinária folha
de serviços prestados à radiofonia brasileira.

Instalações da emissora na Rua José Cabalero, já com o teatro transformado em
Cine Alhambra
Foto: História de Santos/Poliantéia Santista, de Francisco Martins dos
Santos e Fernando Martins Lichti, Ed. Caudex Ltda., São Vicente/SP, 1986
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