O sr.
Lindolfo (de chapéu e paletó branco, último à
direita) observa
o avião que fez um pouso forçado em Ubatuba Foto publicada
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SAINT-EXUPÉRY A incrível
história de sua passagem por Ubatuba
Uma viagem
imaginária
Reportagem
de Edmar Pereira
Uma
tarde luminosa do mês de junho de 1933 em Ubatuba, época de
tanto peixe que as tainhas podiam ser apanhadas na praia, apenas com as
mãos. Época em que os parcos 800 habitantes da cidade viviam
ainda o espanto do seu primeiro contato com um automóvel, ocorrido
poucas semanas antes. Mas nessa tarde o espanto seria maior: sem qualquer
aviso ou preparação na praia de Itaguá, centro da
cidade - cujas árvores haviam sido cortadas exatamente para uma
emergência desse tipo na Revolução de 32, mas nunca
sucedida -, desceu um avião. Um teco-teco da Cia. Gènèrale
Aero-Postale, que fazia a linha aérea regular entre França
e Argentina. Nos 11 mil quilômetros do percurso passava pela costa
atlântica brasileira e teria descido em Santos, na base aérea
da Praia Grande, não fosse por uma panne no motor.
O avião
era pilotado por um certo Antoine, que naturalmente não falava português,
assim como os de Ubatuba não sabiam francês. No máximo
um "vous voulez quelque chose?" dos rudimentos ginasianos, recordado oportunamente
por Washington Oliveira, o Filinho, que mais tarde ocuparia duas vezes
a prefeitura da cidade e se tornaria seu principal historiador.
52
anos depois, o sr. Lindolfo aponta o local do pouso, hoje transformado
em um jardim, em Ubatuba Foto publicada
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Filinho foi
também, sem qualquer má intenção, uma espécie
de cultor e divulgador de um mito que Ubatuba teve como verdade durante
52 anos. O de que, após a visita do alemão Hans Staden mais
de quatro séculos antes, a cidade recebera outro visitante internacionalmente
célebre. Antoine foi imediatamente dado como Antoine de Saint-Exupéry,
o famoso aviador e autor de O Pequeno Príncipe, livro que
provocaria erupções de sensibilidade banal em vários
cantos do mundo, incluindo as passarelas por onde desfilavam as candidatas
a miss Brasil - embora nessa área venha nos últimos anos
perdendo terreno para Feliz Ano Velho, de Marcelo Paiva.
Antoine, como
esclarece hoje, após mais de 20 anos de pesquisa o jornalista, museólogo
e pesquisador de cultura popular Luiz Ernesto Kawall, 58 anos de idade,
não era um prenome. Tratava-se do piloto Léon Antoine, também
um dos grandes ases da aviação francesa em todos os tempos,
com mais de 21 mil horas de vôo, recordista mundial de vôo
livre com um tempo de oito horas e 20 minutos, detentor da Legião
de Honra e hoje em dia, aos 84 anos, aposentado e vivendo num bonito sítio
em Javari, no Estado do Rio. Mas disso só se sabe agora. Tanto no
folclore quanto na história de Ubatuba, o visitante que caiu do
céu naquela tarde de 1933 acompanhado de um telegrafista chamado
Chauchat, era mesmo Saint-Exupéry, embora em nenhum de seus livros
se encontre uma única palavra sobre tal aventura.
Kawall:
fim do mito Foto publicada
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Kawall
começou sua pesquisa a partir de uma notícia publicada em
9 de novembro de 1964. "Essa história foi criada como um conto de
fadas. Em 1933, Ubatuba, isolada no Litoral Norte, onde só se chegava
por mar ou então pelo céu - e aí só por acidente
- estava reduzida a 110 casas, todas mais ou menos em ruínas, e
em dez anos poderia acabar. Matava-se peixe a pau e apanhava-se milhares
de tainhas cujos cardumes vinham dar à praia e eram enterrados como
sobras. Quando o aviãozinho desceu, um grupo logo correu ao Itaguá
e cercou a nave. Hélice parada, os tripulantes desceram, foram guiados
por um agitado cortejo popular até a casa do radiotelegrafista da
Aero-Postale, Gilberto Nogueira Brandão. Léon Antoine e Chauchat
queriam ficar hospedados em sua casa, mas o telegrafista não tinha
acomodação suficiente e isto chegou até a causar um
pequeno desentendimento".
A partir daí,
Antoine e Chauchat foram considerados hóspedes oficiais da cidade
pelo então prefeito Deolindo dos Santos (aliás, tio do historiador
Filinho) e levados para o Hotel Felipe, de pau-a-pique, porém de
linhas coloniais, hoje já demolido. Nas lembranças de Antoine,
levado a Ubatuba 52 anos depois por Kawall, ele e Chauchat viveram uma
noite memorável, regada por duas garrafas de um inesquecível
vinho Sauternes, raro e caro até mesmo na França.
Após
o justo sono, os franceses, bem cedinho, no dia seguinte, voltaram à
praia, com o propósito de retirar do avião uma parte do combustível,
exatamente 200 litros de querosene, ofertados à população.
Antoine se lembra de que chegaram com todo o tipo de vasilhame, de latas
até penicos. Depois todos, com compreensível entusiasmo,
ajudaram a empurrar o pequeno avião (um Latecoère) pela praia,
até que o aparelho adquirisse velocidade suficiente para pegar e
decolar. "Tomou rumo Sul, após uma suave evolução
sobre a baía de Ubatuba". A cena jamais seria esquecida, incorporou-se
ao folclore local. A crônica ubatubense registra ainda dois outros
casos de ruidosas descidas de aviões em suas praias, mas nada que
provocasse o mesmo frisson.
 Antoine
e Filinho: reencontro Foto publicada
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Tornada pública
a partir de 64 por uma série de reportagens do jornalista Ewaldo
Dantas Ferreira, a inusitada visita de Saint-Exupéry passou quase
que imediatamente a ser pesquisada por Luiz Ernesto Kawall. Que nesses
20 anos leu toda a obra do autor de O Pequeno Príncipe, "embora
sem ficar particularmente impressionado por sua qualidade literária,
acho tudo um pouco piegas demais, acho até que prefiro O Pequeno
Príncipe do filme exibido pela Globo do que o do livro".
Kawall tornou-se
então conhecedor da obra e da vida deste francês nascido em
1900 e cujo avião desapareceu sobre o Mediterrâneo no dia
31 de julho de 1944, entre Grenoble e Annecy, depois de haver partido de
um campo de pouso na Córsega. "Não encontrei na obra do escritor
nenhuma referência ao acidente de Ubatuba, suas maiores referências
ao Brasil estão contidas no capítulo 13 de Vôo Noturno,
onde fala sobre as montanhas 'recortadas com nitidez no céu brilhante',
das florestas 'sobre as quais brilham incessantemente, sem lhes dar cor,
os raios do luar', e de 'uma lua sem desgaste: uma fonte de luz'".
 O avião,
alvo da curiosidade Foto publicada
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Sabe-se, comprovadamente,
de Saint-Exupéry em Natal (onde se hospedava no hoje também
já demolido Grande Hotel, que abrigou também Bing Crosby
e o, na época, príncipe Feisal), na Praia Grande, em Pelotas
e Porto Alegre. Mas a descida em Ubatuba tornou-se um mito tão forte
que envolveu, ou foi corroborado, até por uma especialista imbatível
na biografia do escritor-piloto-aventureiro, a dominicana irmã Rosa
Maria. Ela ficou nacionalmente conhecida ao responder sobre Saint-Exupéry
no programa O Céu É o Limite, tendo depois disso escrito
um livro sobre ele. No prefácio, fazia referências a pousos
forçados em Santos, Praia Grande e Ubatuba. Mas, Kawall explica,
irmã Rosa Maria foi das primeiras a alertá-lo de que Ubatuba
tinha poucas possibilidades de ter sido pelo menos uma vez incluída
em seus roteiros.
Kawall, entre
muitas outras pessoas, foi ouvir em Ubatuba - onde criou o Museu do Bairro
Tenório, para preservação da memória, história
e paisagem da cidade - dona Isabel de Oliveira Santos, a viúva do
prefeito Deolindo, que considerou os acidentados franceses hóspedes
oficiais. O raro vinho Sauternes servido a Antoine e seu companheiro foi
possível por ser Deolindo "um comerciante, que tinha em sua casa
vinhos de várias partes do mundo, especialmente franceses e portugueses,
importava das casas de São Paulo e Rio..." Dona Isabel não
se lembra bem dos aviadores no depoimento, tomado em agosto de 1973 (ela
já faleceu), mas conta que "eles devem ter se hospedado no hotel
Felipe, que ficava defronte da nossa casa, na Rua Maria Alves, e era o
melhor e mais antigo de Ubatuba".
 Saint-Exupéry
(de terno) e Léon Antoine (de chapéu), em Cap Juby Foto publicada
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A saga exuperyana
foi confirmada pelo historiador e ex-prefeito Filinho: "Quanto o avião
desceu houve aquele burburinho, o aparelho foi cercado pela população.
Um húngaro, Julio Kertz, tentou falar com o piloto em alemão,
mas ele não entendeu". Ele lembra que "no dia seguinte os franceses
ainda passaram a pé pela frente de casa, junto à praça
da Matriz, se despediram com um au revoir e foram embora. Não
sei se passaram telegrama no correio, acho que não, pois se a própria
Air France (nome da Aero-Postale de 1933 em diante) tinha estação
telegráfica não precisariam disto". Filinho informou que
não há mais registro dos livros do hotel, porque seus proprietários
morreram. Mas conseguiu descobrir o telegrafista Gilberto Brandão,
da Air France, morando em Niterói, e este confirmou numa carta "a
estada de Saint-Exupéry entre nós", embora sem conseguir
precisar exatamente a data.
A "estada"
de Saint-Exupéry está fartamente documentada em fotografias.
Umas foram feitas pelo próprio piloto Léon Antoine e outras
por um alemão (aliás, nascido na Guatemala), Herman
Porcher, também já falecido mas ouvido por Kawall. O alemão
estava na cidade como turista e mais tarde compraria "metade da praia de
Santa Rita".
"Localizei
esse Porcher morando em Santo Amaro, me diziam que ele gostava de freqüentar
os bares do bairro e levei tempo até encontrá-lo. O garçom
de uma choperia me deu o telefone dele, marcamos um encontro em seu escritório
de numismática - ele trocara a fotografia pelo comércio de
moedas. Que descoberta! Porcher não só relatou o caso dos
aviadores como, depois de me descrever o jantar na companhia deles, mostrou
quatro fotografias batidas na manhã de sua partida. Em Ubatuba,
onde se hospedava no Hotel Idalina e planejava caçadas nas matas
vizinhas com alguns amigos, usando culotes, perneiras e capas sobradas
da Revolução de 32, o alemão lembrou-se de
que eram por volta de cinco horas e já começava a escurecer
quando o avião desceu na praia. Falou com os tripulantes em francês,
ouviu deles que vinham de Natal, fazendo várias escalas e levando
malas postais até Santos".
- Quando os
franceses pediram vinho o prefeito foi buscar. O mais alto, ao ver a garrafa,
exclamou: 'Mas onde o senhor arranjou isto? Na França este vinho
custa um dinheirão!' Conversamos sobre aviões e a linha aérea
francesa para a América do Sul e também sobre os vôos
do Zeppelin, que eu tinha fotografado em São Paulo naquele mesmo
ano. Depois do jantar fomos ver o avião na praia, um caiçara
entrara na cabine e estava divertindo-se. "Cuidado, João, o avião
pode levantar vôo", alguém gritou, e ele saiu correndo de
medo".
 Antoine,
relatando suas lembranças do pouso em Ubatuba Foto publicada
com a matéria
Porcher contou
também que, "por volta de 50 e poucos, quando Saint-Exupéry
começou a ficar falado e famoso, eu soube que aquele homem alto
e gentil que descera em Ubatuba era ele". O fotógrafo morreu antes
de ver desfeito o equívoco. Mas com as fotos na mão, Kawall
foi em frente. Uma das primeiras pessoas que procurou foi a dominicana
Rosa Maria, que não pôde dizer com certeza se nas fotos estava
ou não seu amado Saint-Exupéry. Talvez no lugar do escritor-piloto
estivesse outra celebridade, o grande pioneiro da aviação
e grande herói Jean Mermoz, que também pilotara para a Gènèrale
Aero-Postale. Kawall tentou Joseph Halfin, da Air France, escreveu cartas
para a França, mas nada de levantar com certeza a indentidade dos
dois franceses que pernoitaram em Ubatuba.
A verdade começou
a aparecer em setembro do ano passado, quando se comemorava a travessia
do Atlântico por Mermoz e a TV Globo entrevistou o jornalista francês
Jean-Gérard Fleury, correspondente da revista Le Point. Ao
vê-lo falar sobre o heroísmo pioneiro de Mermoz, Kawall intuiu
que poderia ter dele um esclarecimento definitivo. Tinha razão.
Fleury, que foi amigo de Saint-Exupéry, imediatamente se interessou
pelo assunto, a partir de uma conversa telefônica.
Viajou para
a França e lá recebeu uma carta do jornalista brasileiro,
com várias perguntas. Entre as respostas, a de que "as fotos enviadas
não são de Saint-Exupéry" e "Saint-Exupéruy
nunca teve acidente no Brasil". E completava: "Achando muito simpática
sua pesquisa sobre um episódio acontecido em Ubatuba, tenho grande
prazer em completar as informaçoes solicitadas. O avião que
pousou naquela cidade em 1933 era pilotado pelo veterano comandante Léon
Antoine, acompanhado pelo radiotelegrafista Chauchat. Hoje ainda Antoine
se lembra da triunfal acolhida tanto pelo prefeito como pelo povo da cidade
e evoca sempre com emoção um vinho Sauternes de admirável
paladar, assim como suas conversas com o prefeito e um cidadão alemão
que falava francês. Quando lembrei a Antoine este episódio
ele se comoveu e falou de sua grande vontade em rever o lugar do acidente
e as pessoas que lhe prestaram tão fraternal assistência".
 O já
demolido hotel Felipe, em guache de João T. Leite Foto publicada
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A pesquisa
estava terminada, ou quase. Luiz Ernesto Kawall decidiu então que
tudo só ficaria completo depois de um encontro com o próprio
Leon Antoine, sobre quem Fleury informara estar vivendo no Brasil desde
que se aposentara na Air France. Antoine, casado, pela segunda vez, com
Célia Regina, uma bela negra brasileira, de fato mora num sítio
em Barão de Javari, no interior fluminense. Aos 84 anos, pai de
dois filhos, tem cinco netos e dois bisnetos. Adora o Brasil e permanece
um admirador de bons vinhos. Reconheceu imediatamente as fotografias feitas
em Ubatuba do seu avião Late 26. Já pilotou todos
os tipos e avião, do primitivo Brequet-14 até o Super
G Constellation. Seu relato sobre o episódio:
- Nossa próxima
parada seria Praia Grande, mas na altura de Ubatuba a cerração
impediu o vôo visual. Nós nos guiávamos por cartas
da Marinha do Brasil, sempre observando os faróis, e os homens da
empresa acendiam fogueiras nos pousos de Praia Grande, Florianópolis
e Pelotas para nos orientar. Com a cerração fechando o visual,
baixamos um pouco e avistamos a torre da igreja de Ubatuba. Fizemos um
vôo em círculo, escolhemos uma praia onde a vegetação
era rala e decidimos descer. Fomos imediatamente cercados pelo povo, alguns
nos olhavam como se fôssemos extraterrestres.
Antoine, entre
muitas lembranças, conta que na hora da partida o dono do Hotel
Felipe lhe ofereceu a compra do estabelecimento, "por seis mil contos,
em moeda da época. Deve ter sido por causa do meu nome, Léon
Antoine, que mais tarde se passou a acreditar que Saint-Exupéry
teria dormido na cidade. Eu era mesmo parecido com ele. Não apenas
nas feições, mas também pela altura. Só que
ele andava mais curvado do que eu. Além disso, Saint-Exupéry
nunca fez regularmente a linha para a América do Sul, mas como passou
dois anos em Buenos Aires certamente andou por aqui. Não foi meu
amigo íntimo mas eu o conheci bem, era um pouco do mundo da lua..."
O piloto falou a Kawall de sua vontade de rever Ubatuba.
 Na velha
fotografia, o testemunho de um equívoco que durou 52 anos Foto publicada
com a matéria
O capítulo
final desa história que remete a memória aos tempos heróicos
da aviação, à lembrança de homens como Saint-Exupéry,
Mermoz, Guillaumet e Dumesnil, foi encenado há algumas semanas:
Léon Antoine, após 52 anos, retornando a Ubatuba. Revendo
os mesmos cenários hoje muito mudados, impossibilitado de hospedar-se
no colonial Hotel Felipe, que não existe mais, para abrigar-se sob
as sofisticadas quatro estrelas do Palace Hotel. As testemunhas da época
são também poucas.
Mas lá
estava Filinho, o historiador, farmacêutico, ex-prefeito. O homem
que ajudara a cimentar um mito e que assistia à definitiva destruição
do seu atraente mistério. Ubatuba, cujas areias receberam escritos
do Anchieta, cujos índios foram introduzidos pelo padre Nóbrega
aos rudimentos do que o Ocidente chama de civilização, cujas
paisagens extasiaram o alemão Hans Staden, teria de abrir mão
de sua mais palpitante história contemporânea: o Pequeno Príncipe
jamais passou uma noite no Hotel Felipe. |