ROTA DE OURO E PRATA Navios: o Cap Norte
 1922-1955 - depois Sierra Salvada e Empire Trooper
Ao se
iniciarem as hostilidades que em 1914 seriam o ponto de partida da Grande
Guerra Mundial, a companhia alemã Hamburg-Süd
(HSDG) possuía uma frota de 56 navios em
atividades e outros cinco em fase de construção.
Estes 61 vapores representavam cerca
de 350 mil toneladas, excluídos porém os 181 navios-auxiliares
que a companhia possuía nos diversos portos de sua rota principal,
a de Ouro e Prata.
O primeiro conflito mundial seria
fatal não só para as ambições da Alemanha Imperial
como também para a HSDG, pois - no decurso ou logo após a
guerra - seus navios teriam sido ou afundados, ou apreendidos após
internamento, ou capturados, ou consignados como compensação.
Em 1920, a Hamburg-Süd renasceu
das cinzas da guerra. Utilizando seis navios alugados, sua bandeira voltou
a flutuar nos mastros, reabrindo a linha para o Brasil e o Prata. No ano
seguinte, o vapor Argentina, construído para a HSDG em 1918,
tornou-se o primeiro navio de propriedade da armadora a retomar o rumo
dos mares do Atlântico Sul, sendo seguido pelo Espanha, também
construído sob as ordens da empresa, em 1921.
Outros cinco navios (entre os quais
o Cap Polonio) foram readquiridos pela HSDG a autoridades da Grã-Bretanha
e reintegrados à frota em 1921.
Esta evoluçao gradual levou
os dirigentes da empresa à decisão de construir dois transatlânticos
de passageiros, destinados à Rota de Ouro e Prata. Estes dois navios
receberiam os nomes de Antonio Delfino e Cap Norte, seriam
construídos pelo mesmo estaleiro A.Vulkan, de Hamburgo (Alemanha),
e lançados ao mar com poucos meses de diferença um do outro,
respectivamente em 1921 e 1922.
 O Antonio Delfino foi lançado na mesma época do Cap Norte, pelo mesmo estaleiro
Austero - Relativamente lento,
o Cap Norte tinha características de construção
que visavam sobretudo a sobriedade de emprego em tempos difíceis:
linhas austeras e compactas, espaço ocupacional pequeno, mas racional,
grande número de passageiros em relação à tonelagem
(o que explica também a existência de nada menos do que 24
botes salva-vidas a seu bordo) e economia no consumo de combustível.
Sua viagem inaugural para o Brasil
e o Prata iniciou-se no dia 14 de setembro de 1922, com saída de
Hamburgo, e nessa linha permaneceria por 17 anos.
Nesse longo período, o Cap
Norte realizava viagens redondas (de ida e volta) entre Alemanha e
os portos do Rio da Prata em 38 dias, escalando em Vigo, Lisboa, Pernambuco,
Bahia, Rio de Janeiro e Santos. Enquanto se dirigia para o Hemisfério
Sul, seu irmão gêmeo Antonio Delfino procedia em sentido
oposto, numa rotação operacional articulada, o que permitia
saídas mensais dos principais portos de escala.
Em 1922, o volume de carga transportado
pelos vários navios da HSDG na linha alcançava 170 mil toneladas,
e o número total de passageiros embarcados em viagens redondas realizadas
por todos os seus navios foi de 35 mil.
Em 1927, já contando com outros
três grandes navios de passageiros, a Hamburg-Süd realizava
62 viagens redondas, representando 200 mil toneladas de carga e 40 mil
passageiros anuais. Eram também realizados alguns cruzeiros de turismo,
no Mar do Norte e no Mediterrâneo e até mesmo com saídas
de Buenos Aires em direção das águas gélidas
da costa patagônica.
Racionalização
- Cinco anos mais tarde, o governo da Alemanha decidiu impor um programa
de racionalização do transporte marítimo das companhias
daquele país, e a HSDG foi obrigada a vender algumas de suas unidades.
No decurso de 1932, registraram-se
dois acontecimentos que provocariam uma forte diminuição
do tráfego sul-americano: de um lado, fracassaram as negociações
para a renovação do acordo da Conferência de Fretes
para a Linha do Prata, e os preços sofreram, como conseqüência,
uma forte queda: do outro lado, a Revolução Constitucionalista,
em São Paulo, obrigou o fechamento do porto de Santos e a perda
de carga naquela escala aumentou as dificuldades financeiras da empresa.
Assim, os dois gêmeos Cap
Norte e Antonio Delfino foram cedidos à Norddeutscher
Lloyd (NDL), que os rebatizou com os nomes de Sierra Salvada e Sierra
Nevada, respectivamente. Apesar da mudança de nome e de proprietário,
ambos foram mantidos em serviço na Rota de Ouro e Prata.
Em 1934, a Hamburg-Süd recuperou
seus dois navios, e os nomes foram mudados, revertendo aos originais. No
entretempo, modificações estruturais haviam dado ao Cap
Norte a capacidade de transportar 1.600 passageiros, ao invés
dos originais 1.886. Em 1938, tal capacidade era de somente 1.125 passageiros.
 O Cap Norte, nesta foto feita em Hamburgo, era um navio compacto e sólido
Segunda Guerra - Setembro
de 1939. Estoura a Segunda Guerra Mundial. O Cap Norte encontra-se
em pleno Atlântico Sul no dia 3 daquele mês, navegando em direção
Norte. Havia zarpado de Pernambuco algumas horas antes da eclosão
da Segunda Guerra Mundial, com 171 tripulantes a bordo e algumas dezenas
de passageiros. Seu comandante recebe instruções de desembarcar
todos os passageiros no porto de Lisboa.
Isto feito, o transatlântico
recebe ordens de tentar alcançar a Alemanha, navegando pelo Norte
das Ilhas Britânicas, procurando assim furar o bloqueio imposto pela
Royal Navy (Marinha Real Inglesa).
O Cap Norte, então
disfarçado no navio sueco Ancona, encontrava-se no dia 9
de outubro a Noroeste das Ilhas Faröe, quando apareceu no horizonte
o HMS Belfast, cruzador da Marinha Britânica, que patrulhava
aquelas águas.
Devido ao mar agitado, o comandante
alemão hesitou em dar ordem de implodir seu navio, e, assim, os
marinheiros britânicos puderam subir a bordo do transatlântico
e capturá-lo intacto.
O Cap Norte, levado para a
base naval de Scapa Flow, foi, em 1940 e em Newcastle, transformado em
navio-transporte-de-tropas com o novo nome de Empire Trooper. No
dia de Natal daquele mesmo ano, o Empire Trooper, navegando no comboio
WS-5A em direção Oeste no Atlântico Norte, cai na mira
dos canhões do cruzador pesado alemão Hipper e recebe
um projétil de grosso calibre na altura do porão nº
2. A explosão provoca um buraco no casco e o navio-transporte-de-tropas
(que viajava vazio) aderna de proa (frente) e a boreste (estibordo, lado
direito).
Apesar do dano e do adernamento,
o Empire Trooper consegue alcançar o porto de Ponta Delgada,
nas Ilhas Açores. Mais tarde, ele seria escoltado até a base
naval inglesa de Gibraltar, onde seria reparado.
Subseqüente emprego como transporte
de tropas veria o Empire Trooper navegando em várias missões
no Atlântico Norte, no desembarque para a conquista de Diego Suarez
e Majunga (Oceano Índico) em 1942, e no ano seguinte, nos desembarques
das tropas aliadas na Sicília e em Salerno.
Anos finais - Antes do término
do segundo conflito mundial, o desgastado navio foi levado novamente a
Newcastle para uma reforma geral, da qual sairia em 1944, com capacidade
de transportar 1.500 pessoas em beliches e 350 passageiros em cabinas,
e, por uma coincidência, voltaria a serviço entre Tílburi
e Cuxhaven, transportando familiares de soldados britânicos (estacionados
nos territórios conquistados da Alemanha) ao lado de seu irmão
gêmeo ex-Antonio Delfino, também transformado em trooping
(transporte de tropas), com o nome de Empire Halladale.
Em 1949, mais uma vez, o Empire
Trooper vai para doca seca, desta vez em Falmouth (Sul da Inglaterra)
para modernização. Tonelagem aumentada para 14.106 toneladas
e capacidade diminuída para 1.000 soldados.
Mais cinco anos de utilização
militar até o dia 12 de abril de 1955, quando atracou em Southampton
(Inglaterra) proveniente de Hong Kong, com 1.100 pessoas a bordo. Seria
sua última viagem oficial.
Em outubro daquele ano, foi entregue
aos demolidores no porto de Inverkeithing, onde, antes de ser desmontado
a maçarico, sofreria um incêndio, afundando nas águas
baixas da Baía Garelock.
O Empire Trooper, ex-Cap
Norte, nos 33 anos de sua existência, transportou - entre civis
e soldados - mais do que um milhão de pessoas.
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Cap
Norte:
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Outros
nomes: Sierra Salvada, Empire Trooper
Bandeira:
alemã
Armador:
Hamburg Südamerikanischen D.G.
País
construtor: Alemanha
Estaleiro
construtor: A.G.Vulkan (porto: Hamburg)
Ano da
viagem inaugural: 1922
Tonelagem
de arqueação (t.a.b.): 13.615
Comprimento:
152 m
Boca (largura):
19,5 m
Velocidade
média: 13 nós
Motores:
2, de tríplice expansão, de 6.300 HP cada um
Chaminé:
1
Passageiros:
1.896 (originalmente)
Classes:
três
(originalmente)
Tripulação:
211 homens |
Artigo publicado no jornal A
Tribuna de Santos em 21/5/1992
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