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Reisados
e cheganças
Na
generalidade das províncias do Norte, a véspera de Reis é
um dos maiores dias do povo, que recorda com as suas danças, os
seus cantos e uma variedade imensa de autos as tradições
poéticas dos tempos coloniais.
As cheganças
e os reisados no Norte preenchem em muitas localidades as indicações
da noite.
Completamente
distintos, independentes uns dos outros, esses divertimentos públicos
revelam naquela gente uma característica nacional, um sentir à
parte, um traço acentuado de diferenciação entre o
Norte e o Sul.
Perguntai por
aí alguma coisa a respeito das festas do Natal, e obtereis a seguinte
resposta: - "Quem sabe disso são os nortistas".
E que quer
isto dizer? Que por perto de quatro séculos o trabalho das raças
nesta metade do Brasil apenas serviu de proveito aos senhores e ao estrangeiro,
que nos vão reconquistando dia a dia, sem barulho, sem matinada.
E tanto estamos
na verdade, que a escravidão no Sul foi sempre infinitamente mais
bárbara, jamais podendo ser comparado o engenho à fazenda
- o Cáucaso e o Inferno dos pobres cativos.
E a nossa poesia
popular, derivando do português e do negro, este último elemento
aniquilava-se no Sul nas torturas da senzala, no martírio forçado
da escravidão.
Daí
a tristeza que se nota no mestiço destas bandas do Brasil, o desânimo,
o acabrunhamento, em contraposição à alegria franca
da mulatada de lá, dos crioulos, reconhecidamente inteligentes,
patriotas, inclinados à música, à poesia, às
belas-artes.
Sendo o nosso
povo assim constituído, claramente se vê que os costumes tradicionais
daquelas terras são a resultante da liberdade que ali gozavam os
escravos, embora restrita, relativa.
Dos reisados
e cheganças, a classe popular a que nos referimos e a gente
pobre eram e são os donos.
Ninguém
há que não se divirta nas províncias, armando presepes,
assistindo a serenatas, passando nos engenhos ou nos arrabaldes as festas
do Natal.
Na véspera
de Reis é que a folia recrudesce, e desde o meio-dia começam
as cantorias nas ruas e praças, a freqüência das multidões
aos palanques à porta das igrejas e nos pátios das matrizes.
Eis senão
quando, aos pandeiros que arrufam e aos chocalhos que tinem, ouve-se um
alarido.
É o
cordão de marinheiros, que, puxando um navio, conduzindo
uma âncora, um mastro etc., anuncia nas ruas a chegança
dos Marujos.
Caboclos, cabras,
crioulos e pardavascos, lindos, ágeis, vestidos à maruja,
fardados, fantasiados com propriedade, incumbem-se de seus papéis,
indo desempenhar a chegança numa praça.
Imitando o
balanço de bordo, seguidos das figuras principais, lá passam
cantando uma canção, que prenuncia o combate:
Ó
nau-fragata, ó nau-fragata,
Marcha para
a guerra!...
Ê lô...
Se não
for por mar
Há
de ser por terra!...
Ê lô...
E o Patrão,
o Piloto, o Mar-de-Guerra, o Calafatinho, o Surjão, o Padre-capelão,
o Gajeiro, o Guarda-marinha, o Capitão, o Rei Mouro, o Embaixador
etc... ostentam-se garbosos com as suas vestimentas agaloadas, seus distintivos,
seu trajar próprio.
As moças
chegam às janelas para vê-los, a meninada chusma a cada canto,
o préstito popular avulta sempre, cresce por todo o caminho.
O Piloto, com
a espada desembainhada, exibe-se em atitude belicosa, cercado de tocadores
de pandeiro, dos outros personagens, da maruja entusiasmada:
Ó
nau-fragata, ó nau-fragata,
Marcha para
a guerra!...
Ê lô...
Se não
for por mar
Há
de ser por terra!...
Ê lô...
E vão,
e vão cantando e tocando, simulando as manobras nos navios, até
chegarem a seu destino - aos palanques ou casas para as quais receberam
convite - representar os Marujos ou os Mouros, conforme o
terno.
Esses espetáculos
principiam e terminam a qualquer hora e repetem-se até o carnaval.
As cheganças
podem ser de mulheres. Então as belas tabaroas, vestidas de branco,
com chapéus de palha enlaçados de fitas e flores, comparecem
nos tablados iluminados, armados, conquistando afetos, palmas, ovações...
E isso bem
pode compreender quem uma vez teve a fortuna de admirar aqueles semblantes
tisnados, aquelas formas arredondadas, aquelas vozes cadentes como o sussurrar
da aragem nas lagoas e nas matas.
E as tabaroas
requebram-se nas danças, puxam a feira, descantam à porfia
os versos de Reis, inspirados pelos sertões aos poetas nativos:
Avistei..
Avistei terras
de França,
Avistei!
Em Portugal
avistei,
Avistar...
É esta
a derradeira cantilena dos marujos encaminhando-se para os tablados que
distinguem ao longe, resplandecentes de tigelinhas acesas, de arandelas
e de flores selvagens.
Simultaneamente,
nas salas dos presepes, nas varandas dos engenhos, o Reisado do Zé
do Vale é esperado com ânsia, as famílias para
isso preparam abundantes ceias, e a escravatura, ao mesmo tempo que festeja
o Natal, batucando e cantando ao fogo das fogueiras, não deixa de
aguardar impaciente a Maria Teresa e o Boi, que dançam a encantar.
O Reisado
do Zé do Vale é um dos mais graciosos da véspera
de Reis. Variadíssimo em personagens, dialogado, cantado, entremeado
de danças populares, este auto dos nossos sertanejos entretém
a noite, não sendo menos original que o da Cacheada.
Nos reisados,
os violões, rabecas, flautas, pandeiros, cavaquinhos, violas etc.
perfazem a orquestra em afinação alta, em tons transportados
ou lisos.
Os lugares
das representações já estão previstos, os donos
da casa fazem as honras aos seus convidados, o presepe fica aceso, os meninos
e as crias despertos.
A um instante
a porta da rua fecha-se, ficando as janelas desertas, mas escancaradas.
É isto logo que um clarão esfolha nas trevas rosas de fogo,
e umas harmonias e vozes ritmadas entornam-se débeis nos ares longínquos.
E os rumores avolumam-se e o bando chega-se mais perto.
Os figurantes
do Zé do Vale são a Sereia, a Caninana, o Besuntão
da Lagoa, o Engenho, o velho Tondoró, a velha Tondoró, o
Caboclo, a Cativa, o Pica-pau, o Madu, a Maria Teresa, o Sarameu, a Mariquita,
o Zé do Vale, dois soldados, o Presidente, o Pai do Zé do
Vale, duas irmãs, a Mãe e uma infinidade de tipos extravagantes,
não sendo dispensados o Boi, o Vaqueiro, a Caiporinha e outros,
que tomam parte na cena, para a conclusão do brinquedo.
Serve de prólogo
ao entremês uma tropa de meninas, vestidas de acordo com os seus
papéis, que, depois das saudações do estilo, da banda
de fora, entram com as figuras do reisado, menos o Boi, Vaqueiro,
Tia Catarina, Cambrainha etc.
Logo que a
música transpõe os umbrais da sala, os circunstantes arredam-se
para os lados, deixando espaço bastante para a exibição
folgada da peça.
E o reisado
principia...
Sereia
(dançando):
- Deus lhes dê
boas-noites, senhores e senhoras.
Todos:
- Bravo da Sereia,
como dança bem!
Sereia
(cantando):
Vocês todos
se admiram
De me ver
assim cantar,
Quanto mais
se vocês vissem
A Sereia lá
no mar.
A essas palavras
salta no meio o Besuntão da Lagoa, que é acolhido do seguinte
modo:
Coro:
O Besuntão
da Lagoa,
Ele é
besuntão!
Quer queiram,
quer não,
Ele é
besuntão.
Esse personagem,
que aparece com um jacaré, provoca o Madu, de cabeça grande,
e esperneiam juntos, dançam e retiram-se, entrando após uma
menina perseguida por um velho.
Menina:
Quem me dá
por aqui novas
De um amor
que já foi meu?
Quero saber
a quem amo
E que trato
foi o seu.
Velho:
Aqui'stá
seu menininho
Com todos
a rebolá,
Quem não
gosta disto
Do que gostará?...
(Dança)
Menina:
Vá-se embora,
sinhô velhinho,
E não
me venha atentar,
Pois eu sou
menina e moça
'Stou no tempo
de casar.
Velho:
Sou também
menino e moço,
'Stou no tempo
de pular...
Menina:
Vá-se embora,
sinhô velho,
E não
venha me atentar,
Eu gosto dos
ioiozinhos
Com dinheiro
pra gastar.
Velho:
E chegue pra lá,
Qu'eu chego
pra cá;
Somos dois
amantes,
Queremos casá.
A este diálogo
cantado sucedem-se outros, que findam com o fadinho, os peneirados, as
chulas, vitoriados sempre entre gargalhadas dos assistentes.
As figuras,
no correr das cenas, vão dando o seu recado, desempenhando seus
papéis. O Caboclo, por exemplo, que é o palhaço, jamais
retira-se, fazendo momos, dizendo graças.
Reclamados
pelo auditório, o Tondoró e a Tondoró apresentam-se,
caracterizados esquipaticamente, sendo recebidos com uma roda de palmas.
A
Tondoró:
Marido que Deus
me deu...
Coro:
Tondoró!
A
Tondoró:
Marido chega pra
lá...
Coro:
Tondoró!
A
Tondoró:
Marido, dá
cá um abraço...
Coro:
Tondoró!
A
Tondoró:
Olhe a cara do
assassino...
Coro:
Tondoró!
A
Tondoró:
Marido, dá
cá boceta...
Coro:
Tondoró!
E os dois velhos,
ao som da chula, sapateiam, palmeiam, gritam, dão umbigadas, abaixam-se,
levantam-se do chão, requebram-se, fazem proezas, ao entusiasmo
frenético da reunião, que desata as mais gostosas risadas.
Pequena pausa,
ligeiro intervalo para o afinar dos instrumentos procede a entrada do Zé
do Vale, que vem algemado e preso por dois policiais, com o Presidente,
o Pai, a Mãe, as duas irmãs, que se agrupam no centro, isolados
das demais figuras.
A recepção
do Zé do Vale, o herói do reisado, é estrepitosa,
entusiasta.
A família,
vestida como no sertão, o Zé do Vale descalço, de
calça arregaçada chapéu de couro e acorrentado, é
empurrado pelos guardas para junto do Presidente.
O Pai, autoridade
do lugar, ifca surpreendido diante do preso, e diz:
Pai:
Grande novidade
Anda por aqui,
É chegado
um preso
Lá
do Piauí.
Mãe:
Sinhô presidente,
Se dinheiro
vale,
Tome lá
dez contos,
Solte o Zé
do Vale.
Presidente:
Vá-se embora,
dona,
Qu'eu não
solto não,
Pois o Zé
do Vale
É um
valentão.
As
irmãs:
Sinhô
presidente
De minha estimação,
Solte o Zé
do Vale,
Pela Conceição.
Mãe:
Tenho meu cavalo
De estimação,
Pra seu
presidente
Não
tem preço não.
Presidente:
Vá-se embora,
dona,
Qu'eu não
quero não,
Que o Zé
do Vale
Tem mau coração,
E fez muitas
mortes
Lá
no meu sertão.
Pai:
Conta lá,
meu filho,
Que isto não
faz mal,
Como foste
preso
No canavial.
Zé
do Vale:
Ó sinhô
meu pai,
Capitão-tenente,
Cada pé
de cana
Era um pé
de gente.
Seria um nunca
acabar a reprodução desses versos, desses monólogos,
desses diálogos da véspera de Reis nas províncias
do Norte.
Aqui são
os ranchos dos pastores nas tradicionais serenatas:
Ó
de casa, nobre gente,
Escutai e
ouvireis,
Que das bandas
do Oriente
São
chegados os três reis...
Ali a chegança
dos Marujos no intermédio das lutas com os Mouros:
Entrega-te,
rei mouro,
À nossa
santa religião,
Que no fundo
desta nau,
Há
um padre capelão.
E aqui, além,
mais longe, a estréia dos bichos no tablado dos presepes,
o soar dos chocalhos e dos pandeiros, o sinal para a entrada do Boi, que
põe remate aos reisados:
Ó
ioiô, ó iaiá,
Oia o boi
que te dá!...
Ora, entra
pra dentro,
Ó meu
boi Marruá!...
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