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Anchieta
- 1533-1597
Um
bando de araras corta a mata com suas cores e seus gritos; dois macaquinhos
enfurecidos guincham em luta; um grupo de homens volta da pescaria, mas
nada consegue perturbar aquele grupo de meninos índios, uns cinqüenta,
em volta da batina negra de José de Anchieta. No ar há cheiro
de tempestade.
Os garotos
estão com os olhos presos a um tablado enfeitado de folhas de bananeira.
Lá, três de seus companheiros representam uma cena de conversão:
um, de blusa branca, é o Bem; outro, de blusa vermelha, é
o Mal; e o terceiro, de blusa azul, puxado ora por um, ora por outro, é
o jovem a dar os primeiros passos no caminho da conversão.
Nem os relâmpagos
que riscam o céu os intimidam; nem os trovões com seus estrondos
os assustam; nem a ameaça de chuva grossa os amendronta. Eles estão
todos muito interessados, fazendo teatro, e o espetáculo não
pode parar.
O Bem puxa
de cá, o Mal puxa de lá. O indiozinho de azul parece que
vai ceder às tentações do pecado, mas ainda resiste.
E ouve o que lhe diz o garoto de branco, que fala do céu e dos santos,
e das maravilhas da virtude. O Bem vence. O jovem, antes indeciso, abraça-o.
O menino de vermelho finge raiva e grita.
Chega, então,
o clímax: entre palmas e gritos agudos dos assistentes, o Bem derruba
o Mal e conquista o jovem para Cristo. O Mal foge para o mato e, previdente,
volta sem a blusa vermelha, sua marca. Anchieta, sorridente, abraça
os pequenos atores. Seu teatrinho é um sucesso. Os indiozinhos pedem
bis, ele promete:
- Amanhã
tem mais.
Aquele homem
era baixo, moreno, muito magro e meio torto, por causa de um desvio na
coluna. Tinha a testa larga, nariz comprido, pouca barba e os olhos meio
azulados. Em suas andanças, caminhava sempre descalço, a
barra da batina arregaçada. E andou grande parte do Brasil: professor,
catequista, poeta, lingüista, teatrólogo, médico, cozinheiro,
sapateiro, padre, diretor de colégio, pregador, confessor, provincial,
diplomata e fundador de cidades.
Anchieta veio
para o Brasil em 1553, na frota que trouxe o segundo Governador Geral,
Dom Duarte da Costa. Era, então, apenas noviço da Companhia
de Jesus, um moço de dezenove anos, Irmão José de
Anchieta. Nos 65 dias de travessia, cozinhava e ensinava catecismo para
os marinheiros. Alegre e amável, não tinha, entretanto, nenhuma
marca especial que deixasse entrever nem o pioneiro, nem o apóstolo.
Mas era ativo, de espírito forte.
Ativo como
os pioneiros, de espírito forte como os apóstolos, José
de Anchieta é uma das figuras mais constantes nos acontecimentos
históricos da segunda metade do século XVI. Presente na fundação
de São Paulo, presente na expulsão dos franceses do Rio,
presente na pacificação dos índios, ora estava no
litoral paulista, ora no do Espirito Santo, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco,
em toda parte.
Casa
em Tenerife onde José de Anchieta nasceu e passou seus primeiros
anos Imagem: enciclopédia
Grandes
Personagens da Nossa História, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969,
vol. I
Um poeta,
o "Canário de Coimbra" - José de Anchieta nasceu a 19
de março de 1533, em San Cristóbal de La Laguna, na ilha
de Tenerife, arquipélago as Canárias, pertencente à
Espanha. Era o terceiro filho do segundo casamento de Dona Mência
Dias de Clavijo Llerena, descendente dos conquistadores de Tenerife.
Seu pai, João
Lopez de Anchieta, um fidago basco originário do vale da Urrestilha,
na Espanha, refugiara-se nas Canárias, em 1522, depois de participar
de uma rebelião, pelo que fora condenado à morte. Mas, graças
à interferência do Capitão Inácio de Loyola,
seu amigo, consegue ser anistiado e vai tentar vida nova em Tenerife.
Na ilha, João
Lopez de Anchieta, em uns poucos anos, conseguiu alguma posição
e fortuna e se fez respeitado e estimado. E assim conheceu Dona Mência,
a viúva com quem se casou.
Entre os cuidados
de Dona Mência e de João Lopez, José de Anchieta teve,
ao lado dos irmãos, uma infância protegida. Segundo o costume
da época, aprende as primeiras letras ainda em casa. E só
depois é que possivelmente freqüenta a escola dos dominicanos,
bem próxima à sua moradia, onde recebe os primeiros conhecimentos
de gramática latina.
Já tem
catorze anos, quando, em companhia de Pedro Nuñez, seu irmão
mais velho, vai a Portugal para continuar os estudos. Lá, matricula-se
no Real Colégio de Artes, onde estuda humanidades e filosofia. E
logo se distingue pela facilidade com que faz versos em latim, o que lhe
vale mesmo o apelido de "Canário de Coimbra".
Da religiosidade
de sua família e do seu misticismo extrai a vocação
de sacerdote, que se aviva quando trava conhecimento com a Companhia de
Jesus, ordem religiosa fundada pelo mesmo Inácio de Loyola que salvara
seu pai da pena de morte.
Corre o ano
de 1550 e o jovem José de Anchieta se candidata ao Colégio
da Companhia de Jesus, em Coimbra.
Com dezessete
anos de idade, em 1551, José de Anchieta é recebido como
noviço. E passa a ajudar de cinco a dez missas todos os dias, dividindo
o seu tempo entre a meditação, a oração e o
estudo de retórica e filosofia.
O ritmo intenso
da vida no colégio lhe abala a saúde. Um ano depois está
doente: uma violenta dor nas costas que aumenta com o tempo. É um
moço de dezoito anos. Mas a doença o faz velho, a coluna
vertebral, quase um S, obriga-o a usar faixas que não conseguem
disfarçar o defeito.
Teme, então,
ter que deixar tudo: o estudo, a Companhia, a vocação. Mas
vai se agüentando, com suas costas encurvadas, e até é
capaz de brincar com a própria desgraça:
- A natureza
me preparou para carregar fardos.
1553, um alvoroço
no colégio: alguns vão ser escolhidos para as missões
no Brasil. Anchieta é alegremente surpreendido com a indicação
do seu nome. Aceita, e é entre surpreso e alegre que vive os 65
dias da longa viagem. Enquanto cozinha ou descansa das aulas de catecismo,
o moço sonha com o Brasil, terra de que ouvia falar desde sua admissão
na Companhia de Jesus.
Coimbra,
no tempo em que Anchieta lá estudou Imagem: enciclopédia
Grandes
Personagens da Nossa História, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969,
vol. I (Reprodução
de Civitatis Orbis Terrarum, vol. V, de Hoefnegel, Biblioteca Municipal
de S.Paulo)
A difícil
tarefa dos jesuítas - Os primeiros jesuítas tinham vindo
para o Brasil em 1549, e Anchieta aprendera que eram importantes os dias
em que chegavam cartas do Brasil, com notícias dos missionários,
da conversão de índios, de guerras entre tribos e dos primeiros
sucessos da colonização daquele mundo novo.
Do descobrimento,
em 1500, até o estabelecimento do primeiro Governo Geral, em 1549,
o Brasil viveu meio esquecido e meio abandonado pela corte portuguesa,
que vivia embalada pelo sonho de fortuna representado pela exploração
da Índia.
Nessa primeira
metade do século, só se conhecia estreita faixa do imenso
litoral onde foram estabelecidas as primeiras povoações.
Entre 1532 e 1549 surgiram pequenos núcleos de população
na Bahia, Espírito Santo, São Vicente e Pernambuco, vivendo
de uma agricultura de subsistência e de uma incipiente produção
de cana-de-açúcar, resultado do trabalho de índios
aprisionados.
Isso era tudo,
quando, quase na metade do século, Dom João III, acordando
do seu sonho com as Índias e alarmado com as ameaças estrangeiras
de ocupar o Brasil, passa a se preocupar com a Colônia e decide enviar
um governador geral para verificar a administração e organizar
a defesa, prestando auxílio às capitanias que antes viviam
isoladas.
Tomé
de Sousa é nomeado, e com ele vêm os primeiros jesuítas
que, nem bem chegados, dedicam-se de corpo e alma ao trabalho de educação
dos filhos dos colonos e conversão dos índios.
Esse primeiro
grupo de jesuítas traz como chefe o Padre Manuel da Nóbrega
e é composto dos padres Leonardo Nunes, João de Aspilcueta
Navarro e Antônio Pires, além dos irmãos Vicente Rodrigues
e Diogo Jácome. Segundo carta de Manuel da Nóbrega, os mil
expedicionários de Tomé de Sousa não encontraram mais
do que uns quarenta ou cinqüenta moradores na Bahia.
O Padre Leonardo
Nunes e o Irmão Diogo Jácome são imediatamente enviados
às aldeias de Ilhéus e Porto Seguro, em missão de
catequese. Depois, o Irmão Vicente Rodrigues vai substituir o Padre
Leonardo Nunes, que segue para São Vicente.
Apóstolos
para o novo mundo - É o início da catequese. Nem um segundo
grupo de jesuítas, que chega de reforço no ano seguinte,
permite a execução do programa de Nóbrega, um homem
disposto a estender a ação missionária a toda a gente.
O apostolado
dos jesuítas não era fácil. Os brancos que viviam
na Colônia, reduzida minoria diante dos índios, em muitos
lugares se deixaram absorver pelos usos da terra, afastando-se dos costumes
cristãos. E, além disso, havia um clima de guerra, com a
franca revolta dos índios contra as tentativas de os fazerem escravos.
A dificuldade
do trabalho e a amplidão dos projetos forçam o Padre Manuel
da Nóbrega a insistir em cartas aos seus superiores de Portugal:
quer novos padres e irmãos para levar avante seus propósitos.
E insiste com o Provincial Simão Rodrigues, ressaltando que não
havia nem muita necessidade de seleção: que mandasse para
o Brasil os "fracos de engenho" e os "doentes do corpo".
Doente do corpo,
José de Anchieta foi um dos escolhidos. Seu grupo veio chefiado
pelo Pare Luís de Grã, ex-reitor do Colégio de Coimbra
da Companhia de Jesus.
No caminho
de São Vicente, um desastre - A 8 de maio de 1553, na esquadra
do segundo Governador Geral, Duarte da Costa, parte essa terceria leva
de jesuítas. A viagem se prolonga até 13 de julho, mas se
faz calma e sem acidentes. O Irmão José de Anchieta, apesar
da doença, parece disposto, mostrando seu entusiasmo. Já
na viagem deixava entrever o missionário que seria, adaptando-se
a todo trabalho: cozinhava, pregava, planejava. Algumas semanas após
a chegada, Manuel da Nóbrega, provincial jesuíta do Brasil,
distribui os padres pelos colégios que já começam
a se espalhar pela terra. Com o Padre Leonardo Nunes, que os viera esperar,
um grupo seguiu para o Sul, em direção a São Vicente.
Nele, Anchieta.
Primitivo
barracão de taipa que serviu como origem da cidade de São
Paulo, em 21/1/1554 Imagem: enciclopédia
Grandes
Personagens da Nossa História, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969,
vol. I
Uma choupana
com o nome de São Paulo - Leonardo Nunes e seu grupo seguiram
em dois naviozinhos que rumavam para São Vicente. Na altura do Rio
Caravelas, uma forte tempestade desgovernou os barcos. Um deles, o que
levava os jesuítas, aproximou-se do litoral. Ao tentar se afastar
da terra, a tripulação foi surpreendida: o navio roçou
o fundo, o leme saltou e um choque mais forte confirmou o encalhe. Muitos
dos viajantes ficaram aterrorizados. É o Padre Lourenço Brás,
um dos presentes, quem conta:
"Começou
a grita no navio e nos pusemos todos a rezar uma ladainha e a chorar nossos
pecados. E saímos com as relíquias que ali trazíamos.
Quis Nosso Senhor que foi o navio resvalando um pouco, até que deu
em quatro braças de água, o qual quantos ali vinham tiveram
por milagre. Trataram logo de lançar âncora e arriaram o batel
fora, indo observar por onde derivava a corrente. E acharam logo grande
profundidade, menos onde nós nos achávamos, e que dali não
poderíamos sair senão por uma boca estreita. Ordenaram então
que eu recolocasse o leme. E nisto se fechou a noite e ficamos ali para
sair pela manhã. E quando já parecia ser uma hora da noite,
sobrevém uma fortíssima tormenta de vento contrário."
E continua
a descrever a cena: "Sai a esse tempo o piloto
fora, que estava debaixo da coberta repousando (e a gente a gritar e a
dizer que estávamos mortos), e tomou ele mesmo um machado e cortou
os mastros, enquanto outros sustentavam a amarra. E todos gritando. E ao
redor de nós rebentavam os marouços..."
Náufrago
por dez dias - Só na manhã seguinte os viajantes conseguiram
chegar em terra. Nas proximidades, destruído, estava o outro navio.
Não tiveram outra alternativa senão ficar, por cerca de dez
dias, entre os índios, alimentando-se de abóboras e
de farinha.
Anchieta convivia
com os índios pela primeira vez. Encontrou as mangabas, que achou
parecidas com as sorvas de Portugal; e as pitangas, que lhe lembraram amoras.
Foram dias duros, à espera de que com os restos do navio destruído
se reparasse o outro barco. E, com o naviozinho remendado, seguiram para
São Vicente, onde chegaram às vésperas do Natal.
A ação
dos jesuítas se estendia de São Vicente aos Campos de Piratininga,
que o Padre Leonardo Nunes já visitara e onde iniciara a catequese
das principais tribos.
Naquele mesmo
ano de 1553, por não querer a penetração no território
e desejoso de concentrar suas atenções no litoral, Tomé
de Sousa mandou reunir no planalto piratiningano os portugueses que já
começavam a afundar interior adentro.
Os projetos
de Manuel da Nóbrega - Nessa ocasião, como em outras,
foi de grande utilidade, tanto para o governo quanto para os jesuítas,
a ação de um português chamado João Ramalho,
possivelmente um náufrago, que morava no lugar há muitos
anos e era casado com a índia Bartira, filha do cacique Tibiriçá.
Com a ajuda de Ramalho, fundou-se Santo André da Borda do Campo.
Entre os projetos
do Padre Manuel da Nóbrega, estava o de alcançar o Paraguai
e catequizar os índios carijós. Para lá chegar, precisava
de uma base no planalto e por isso ordenou a construção de
um barracão para abrigo dos padres da Companhia. E, nos primeiros
dias de 1554, um grupo de religiosos, entre os quais Anchieta, sobe a serra
do Mar rumo ao planalto, onde vão se instalar.
É nessa
dura viagem a pé que o Irmão José de Anchieta tem
o seu primeiro contato com a floresta tropical. A trilha aberta pelos tupis
era tortuosa e Anchieta, que tão bem viria a conhecer a rudeza desses
caminhos, chegou a se espantar com as densas matas.
Fundação
de São Paulo, tela de Oscar Pereira da Silva, acervo do Museu Paulista Foto-reprodução:
Rômulo Fialdini, em História do Brasil, ed. Folha
de São Paulo, 1997, S.Paulo/SP
Nasce uma
cidade - O preparo do barracão do planalto, junto a uma aldeia
de índios, deu-se no dia 24 de janeiro. É o próprio
Anchieta, em carta, quem conta o que aconteceu:
"A
25 de janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima
e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão
do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa
casa".
Nascia a cidade
de São Paulo. Seus fundadores, sob a inspiração de
Manuel da Nóbrega, haviam sido os treze jesuítas chegados
de São Vicente. O grupo fundador, chefiado pelo Padre Manuel de
Paiva, era formado, além de Anchieta, por Pero Correia, Manuel de
Chaves, Gregório Serrrão, Afonso Brás, Diogo Jácome,
Leonardo do Vale, Gaspar Lourenço, Vicente Rodrigues, Lourenço
Brás, João Gonçalves e Antonio Blasquez.
Mal haviam
instalado o barracão do colégio, imediatamente passaram ao
trabalho de catequese, como nos conta Anchieta:
"Nesta
aldeia, 130 de todo sexo foram chamados para o catequismo e 36 para o batismo,
os quais são todos os dias instruídos na doutrina, repetindo
orações em português e na sua própria língua".
Os primeiros
tempos foram difíceis. O barracão inicial servia de dormitório,
enfermaria, escola, refeitório, cozinha e até capela. Anchieta
mesmo retrata a situação, após alguns meses:
"Este
aperto era ajuda contra o frio que na terra é grande, com muitas
geadas. As camas são redes, que os índios costuram; os cobertores,
o fogo que os aquenta, para o qual os irmãos, acabada a lição
da tarde, vão, por lenha, ao mato e a trazem às costas para
passar a noite; o vestido é mui pobre, de algodão, sem calças,
nem sapatos. Para a mesa usavam algum tampo de folhas de banana em lugar
de guardanapos; que bem se escusavam toalhas, onde por vezes falta o comer;
o qual não tinham donde lhes viesse, se não dos índios,
que lhes dão alguma esmola de farinha e às vezes algum peixinho
de rio e caça do mato. Fazem alpercatas de cardos bravos, que lhes
servem de sapatos; aprendem a sangradores, barbeiros e todos os mais modos
e ofícios que podem ser de préstimo a todos os próximos
neste desterro do mundo".
Uns moços
bem atrevidos - Em redor do colégio dos padres foi-se formando
a nova povoação. Junto do primeiro barracão surgem
outros, onde são instaladas oficinas de carpitaria e sapataria,
tudo de pau-a-pique e sapé.
Por ser o mais
adiantado nos estudos, Anchieta desde logo foi designado para ensinar gramática
latina aos seus companheiros e aos meninos mais estudiosos do colégio.
E o jovem irmão faz logo uma triagem entre os alunos, separando-os
em três turmas, de acordo com o que já sabiam. Inteiramente
entregue ao trabalho das suas três classes, lutando contra a falta
de livros, Anchieta passava horas inteiras copiando em cadernos o que queria
ensinar aos estudantes, dando-lhes por escrito as lições.
Enquanto isso,
os índios iam aprendendo catecismo e se alfabetizando. Pero Correia,
um dos inhtegrantes do grupo, é quem descreve:
"Temos
agora um lugar de indios convertidos, dez léguas pela terra adentro,
onde temos igreja e estão sempre dois padres e muitos irmãos.
Todos os dias da semana têm doutrina duas vezes na igreja e no mesmo
lugar há escolas de meninos. Um irmão tem cuidado de ensiná-los
a ler e a escrever, e alguns deles a cantar; e quando algum é preguiçoso
e não quer ir à escola, o irmão que tem o encargo
deles o manda buscar pelos outros, os quais o trazem preso e o tomam ás
costas com muita alegria. Os seus pais e suas mães folgam muito
com isso; e são alguns destes moços tão vivos e tão
bons e tão atrevidos que quebram as talhas cheias de vinho (cauim)
aos seus, para que não bebam. Vai a coisa muito bem principiada".
Com tanto trabalho,
as costas doentes, o corpo franzino, Anchieta poderia ter desistido. Mas
é ele mesmo quem revela a força do seu ânimo:
"Até
agora tenho estado em Piratininga. Ocupo-me em ensinar gramática
em três classes diferentes. E, às vezes, estando eu dormindo,
me vêm a despertar para fazer-me perguntas; e em tudo isto parece
que saro; e assim é, porque, em fazendo conta que não estava
enfermo, comecei a estar são; e podeis ver minha disposição
pelas cartas que escrevo, as quais parecia impossível escrever em
Coimbra".
A nova aldeia
faz rápidos progressos - O Colégio de São Paulo
ia crescendo, com os jesuítas transformados em construtores e carpinteiros.
Índios vinham do sertão atraídos pela novidade; colonos
portugueses foram se integrando ao novo núcleo. Logo se fechou o
Colégio de São Vicente, cujos professores e alunos foram
transferidos para São Paulo, aumentando a população
da vila que ia aos poucos progredindo.
Ensinando às
crianças índias os princípios da fé cristã,
Anchieta e seus companheiros sentiam que esse era o caminho da conversão
das tribos. Muito mais curiosas, vivas e interessadas que os adultos, as
crianças aprendiam tudo com grande facilidade e, além disso,
por vezes ainda eram capazes de levar os ensinamentos aos mais velhos.
As aulas de
catecismo, leitura, escrita e canto eram movimentadas. E a vida do colégio,
intensa. As construções de pau-a-pique aumentavam, já
se formava a primeira rua, havia até uma nova igreja de taipa.
Durante esses
anos, Anchieta aprendeu a língua tupi, que usaria para o resto da
vida. Mais tarde, seus conhecimentos permitiriam que escrevesse a Gramática
da Língua Mais Falada na Costa do Brasil, que viria a ser usada
em todas as missões jesuíticas do Brasil.
O crescimento
do Colégio de São Paulo passou a exigir cada vez maiores
contatos com o litoral, por onde vinham mercadorias, víveres e notícias
da Metrópole. Para facilitar a ligação do planalto
com São Vicente, jesuítas, índios e colonos melhoraram
o caminho, alargando a antiga trilha dos tupis.
Na época
das chuvas, caíam árvores e barreiras, o caminho ficava intransitável
e as aulas tinham que ser suspensas para que professores e alunos fossem
desobstruir a serra.
A vida no planalto
seguia neste ritmo, só alterado devido à presença
dos franceses no litoral brasileiro.
Uma ameaça
nova: os franceses - Em 1555, a baía da Guanabara se tornara
um reduto francês. Lá se instalara, com seus comandados, o
almirante Nicolau Durand de Villegagnon, que conseguira uma aliança
com os índios da região, os tamoios, inimigos tradicionais
dos tupiniquins. As rotas portuguesas pelo litoral ficam sob constante
ameaça e, durante cinco anos, nada se fêz contra os franceses.
É Mem
de Sá, terceiro governador-geral do Brasil, quem, em 1560, se dispõe
a combater o inimigo. E, ao lado das primeiras tentativas para desalojar
o invasor, intima a população da vila de Santo André
a se unir ao aldeamento de São Paulo, elevado então à
condição de vila. É uma tentativa de reforçar
a defesa do planalto diante das ameaças dos tamoios, estimulados
pelos franceses.
Não
fora difícil aos franceses conquistar os tamoios, homens altivos
que há tempos lutavam contra portugueses que pretendiam escravizá-los.
E no começo da década de 60 estremecia o planalto diante
das ameças dos tamoios, quando algumas tirbos tupiniquins, dos arredores
de São Paulo, unem-se a eles.
As coisas ficaram
difíceis a ponto de obrigar até a transferência dos
jesuítas e seu colégio para São Vicente. São
Paulo já era uma região cobiçada, onde se assentavam
muitas hortas, pomares, lavouras de mandioca, milho, trigo e alguma cana.
A 3 de julho
de 1562, um antigo aluno do colégio chega às carreiras para
contar que a vila ia ser atacada. Dado o alarma, João Ramalho, nomeado
capitão pelo conselho da vila, assume o comando; ajudado por Tibiriçá,
seu sogro e cacique tupiniquim, fica com toda a responsabilidade de defesa
da vila e do colégio. Tribos das vizinhanças foram chamadas
para ajudar, assim como muitos colonos do litoral. Com reforços
de Santos e São Vicente, acorreu outro pioneiro, Brás Cubas.
A defesa estava preparada.
O ataque veio
na manhã de 10 de julho. Milhares de inimigos, todos pintados e
enfeitados de penas, fazendo uma barulheira infernal. As lutas foram terríveis,
com mortos e feridos de ambos os lados. Mas os atacantes não conseguiram
tomar a vila e se retiraram.
Mesmo assim
resolveu-se construir fossos e muros e manter vigilância permanente
para evitar ataques de surpresa.
Por todo o
fim de 1562, e começo de 1563, os colonos revidam. Há muitas
notícias de ataques a tabas e de perseguições aos
indígenas. A esta altura, os franceses, que em 1560 haviam sido
derrotados pelas dez naus comandadas por Mem de Sá, reassumem suas
posições na baía da Guanabara, animados com o regresso
do governador-geral à Bahia.
A presença
dos franceses, aliada aos saque que colonos faziam às aldeias dos
índios, acabou por estimular uma aliança entre as tribos
de Bertioga a Cabo Frio, que reunia também tribos do interior e
do vale do Paraíba: era a Confederação dos Tamoios.
As investidas dos confederados se multiplicam. É quando intervém
a experiência do Padre Manuel da Nóbrega, que desde 1561 se
encontrava em São Vicente, vindo da Bahia.
Nóbrega,
inimigo da escravização do índio, sente desde logo
que há razões de justiça ao lado da confederação
das tribos. E que só uma missão de paz poderá aplacá-la.
Decide, pois, ir em pessoa tentar a paz. Para a missão, convida
Anchieta.
Anchieta
escreve o poema à Virgem nas areias de Iperoig (de Cândido
Portinari, óleo sobre madeira, 0,56 x 0,46, acervo do Banco Itaú) Imagem: Grande
Enciclopédia Larousse Cultural, Ed.Nova Cultural Ltda., S.Paulo/SP,
1998, vol. 2
Missão
de paz junto aos tamoios - Os dois pacificadores partem de São
Vicente em 21 de abril de 1563, no navio de José Adorno, um genovês,
que morava na vila. E rumam para Iperoig. Ao se aproximarem de seu destino,
Nóbrega e Anchieta são certados pelos tamoios, que se mostram
hostis. Mas Anchieta, no mais puro tupi, os saúda com promessas
de paz e de amizade.
As palavras
de Anchieta convencem os índios. E eles os acompanham até
a praia, onde Caoquira, um chefe tamoio, os hospeda em sua própria
casa. O navio regressa a São Vicente, mas o genovês Adorno
fica com os dois jesuítas.
Imediatamente
se iniciaram as conversações de paz, com Anchieta servindo
de intérprete, pois Nóbrega não flava a língua
dos índios. Antes de mais nada, Caoquira, como porta-voz de seu
povo, enumerou todas as queixas da sua tribo contra os portugueses. Contou
e tornou a contar, durante dias e dias, todos os feitos dos bravos guerreiros
tamoios. Glorificou os antepassados, enalteceu os companheiros vivos.
Tudo isso,
o rosário de queixas e a apologia dos companheiros vivos e mortos,
fazia parte dos costumes indígenas. A Nóbrega e Anchieta
cabia apenas escutar.
Ao mesmo tempo,
Caoquira mandara emissários chamarem todos os chefes confederados
para um encontro com os jesuítas. Enquanto ouvem e esperam, os dois
jesuítas missionários conseguem sensibilizar os índios
que os hospedam. Armam até uma capela. Ali, ajudado por Anchieta
e todo paramentado, Nóbrega celebra missa todos os dias. Os índios
se encantam com a beleza da cerimônia. Após cada missa, Anchieta
explica em tupi a doutrina da Igreja. E com muito barulho anda em volta
dos índios, bate o pé, gesticula e faz pausas nos momentos
mais dramáticos de suas falas. Cunhambebe e Pindobuçu, dois
caciques, já haviam chegado. E com suas tribos inteiras também
vinham para a missa.
Logo Anchieta
começa a ensinar às crianças os hinos religiosos que
compusera em tupi. A cantoria faz a criançada muito feliz e atrai
os adultos, que vão ouvir os missionários.
Quando melhor
iam as coisas, surge perigosa ameaça na pessoa do cacique Aimberê,
que logo ao chegar convoca um conselho de caciques, do qual os missionários
não tiveram possibilidade de participar.
No conselho,
Aimberê criticou seua aliados por terem acolhido os jesuítas.
Acreditava ser impossível um acordo com os colonos, e queria evitar
que se caísse naquilo que lhe parecia mais um engano. Matar Nóbrega
e Anchieta e partir para o massacre final dos portugueses era a sua solução.
No entanto, outros caciques tinham uma posição mais moderada
e, afinal, em nome de todos, Aimberê leva a Nóbrega e Anchieta
uma proposta: só aceitariam as conversações de paz
se os portugueses lhes entregassem os três caciques de São
Vicente que, por serem inimigos dos tamoios, deveriam ser sacrificados.
O mais calmamente
possível, Anchieta tenta mostrar a inviabilidade da proposta. E
a situação se agrava. Aimberê não cede. Nem
os jesuítas. É quando Pindobuçu, mais velho e ponderado
que Aimberê, intervém, conciliador. Mas nada vai conseguir.
Nóbrega procura ganhar tempo: propõe que se consulte as autoridades
de São Vicente. O próprio Aimberê se oferece como emissário.
E segue viagem, com José Adorno, levando carta em que Nóbrega
recomenda duas coisas às autoridades: que o tratamento dado a Aimberê
fosse o melhor possível e que a proposta de entregar os índios
amigos, naturalmente, não deveria merecer cogitação.
Aimberê
e sua comitiva são recebidos em São Vicente com todas as
honras. E seguem-se conversações por semanas a fio.
Enquanto Aimberê
negociava em São Vicente, Nóbrega e Anchieta continuavam
em Iperoig, onde os índios se dividiam em pró e contra a
paz. Certo dia, estando os dois na praia, aproximam-se algumas canoas com
índios comandados pelo cacique Paranapuçu. Traziam a intenção
de matar os religiosos e, com gritos irados, anunciam seu objetivo.
Nóbrega
e Anchieta, sem outra defesa, apelam para as pernas. E correm o quanto
podem até um riacho próximo. Nòbrega, bem mais velho,
não agüenta a carreira. E Anchieta tem que ajudá-lo.
No meio do riozinho, um tombo desastrado dá um banho no provincial.
Anchieta auxilia-o, carrega-o nas costas e, com os perseguidores nos calcanhares,
vão se refugiar na casa de Pindobuçu. Mas o amigo Pindobuçu
não está, os índios já vêm chegando com
a sua ameaça. Nóbrega e Anchieta se põem de joelhos
e começam a rezar.
Chegados à
cabana de Pindobuçu, os índios deparam com os dois jesuítas
abraçados, rezando em voz alta. E se espantam. Hesitam. Anchieta
aproveita-se do momento e toma a iniciativa. Começa a pregar em
tupi, aos gritos, até que os assaltantes, entre intimidados e surpresos
pela cena que não compreendem, deixam as armas e não querem
mais matar.
Como nada se
resolvesse em São Vicente nas intermináveis conversações
com Aimberê, Nóbrega decide voltar sozinho, deixando Anchieta
em Iperoig, pois o retorno de ambos acabaria de vez com as conversações
e esperanças de paz.
Iperoig:
nas areias nasce um poema - Sem a companhia de Nóbrega, Anchieta
passa a enfrentar solitário os problemas da convivência com
os índios, cercado de zombarias ao recusar as moças que lhe
ofereciam como prova de amizade. A queixa é sua:
"Estou
tão mal acompanhado, entre tantas ocasiões de pecado e morte,
cercado de bárbaros, nos quais a natureza não conhecia pejo
e a honestidade não era conhecida".
Volta e meia
surgiam perigos, como este: um cacique o ameaçou de morte, culpando-o
ela ausência de caça nas armadilhas; Anchieta mandou, então,
que voltasse a examinar as armadilhas e o cacique e seus índios
as encontraram carregadas de caça. Um dia, há um perigo mais
grave, com a chegada de um mensageiro que traz a notícia do assassínio,
em São Vicente, de um dos integrantes da comitiva de Aimberê.
Irados, os índios chegam a decidir a morte de Anchieta, quando,
providencialmente, surge das matas, mais vivo que nunca, o tal índio
sumido. O suposto assassinado havia apenas fugido.
Depois disso,
Cunhambebe resolve que o missionário deveria voltar a São
Vicente para evitar futuras discórdias. É o próprio
cacique quem o conduz de regresso. Em São Vicente são recebidos
com grandes festas. Na sua longa missão de sete meses entre os índios,
os jesuítas tinham conseguido restaurar a paz, pelo menos com as
tribos cujos chefes foram a Iperoig, para onde voltam Cunhambebe e Aimberê.
Foi nas longas
semanas de Iperoig, nas intermináveis horas passadas na praia, que
Anchieta, com seu bordão, escreveu na areia o poema De Beata
Virgine Dei Matre Maria (Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus).
Logo que se recolheu ao Colégio de São Vicente, Anchieta
tratou de passá-lo para o papel: eram, ao todo, 4.172 versos em
latim, rabiscados na praia e decorados um a um.
Com
o crescimento de São Paulo, surgiram as casas e a antiga igreja
matriz (Sé de 1588) Imagem: enciclopédia
Grandes
Personagens da Nossa História, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969,
vol. I
Guerra do
Rio de Janeiro - A paz com os tamoios, porém, não foi
durável. O poder de persuasão dos jesuítas não
podia atingir senão as tribos mais próximas. A Confederação
dos Tamoios voltou a se reagrupar e houve novas escaramuças, até
que no ano seguinte, 1564, uma esquadra comandada por Estácio de
Sá, sobrinho do Governador Geral Mem de Sá, chega a Santos.
Estácio,
dias antes, tentara desembarcar na baía da Guanabara e fora duramente
repelido pelos tamoios. Tão numerosos e decididos eram os índios
que Estácio não pudera enfrentar e desistira de aportar no
Rio. Na capitania de São Vicente desejava obter reforços.
Nóbrega
e Anchieta, influentes em toda a região, conseguem recrutar muita
gente para reforçar a armada de Estácio. Em 20 de janeiro
de 1565, a esquadra de Estácio parte para o Rio, onde chega no começo
de março. E com ela, no comando de nove canoas de índios
e de mamelucos, lá estavam o Irmão José de Anchieta
e o Padre Gonçalo de Oliveira, aos quais se uniram mais índios
vindos do Espírito Santo.
Junto ao Pão
de Açúcar, ergueram fortificações e fizeram
fossos. Gritos, rufar de tambores e cânticos de guerra prenunciam
a batalha. O mar em redor se cobre de tamoios que, encorajados pelos franceses,
vêm para o ataque. A 6 de março ocorre a primeira batalha:
a vitória é dos tamoios e dos franceses. Dias depois, nova
luta: dessa vez a vitória é dos portugueses. Anchieta, a
esta altura, é enfermeiro de campanha. Em terra e no mar os combates
vão se desenrolando por dias, semanas e meses.
Já no
início de 1566, o Irmão José de Anchieta parte para
Salvador com a missão de levar a Mem de Sá um relato da situação.
Para o religioso, entretanto, a viagem encerra um significado ainda maior.
Anchieta vai aproveitar a oportunidade para se ordenar sacerdote. Após
longos preparativos e depois de um retiro, é ordenado em agosto,
por Dom Pedro Leitão, bistpo de todo o Brasil, seu antigo colega
de estudos em Coimbra. E é ali, na Bahia, aos trinta anos de idade,
que Anchieta reza a sua primeira missa, ele que na sua humildade a si se
referia como o "pobre e inútil José".
Três
meses depois, o Padre José de Anchieta está incorporado à
esquadra preparada por Mem de Sá para auxiliar seu sobrinho Estácio
na conquista definitiva do Rio. Todas as forças e recursos estão
mobilizados. Seguem, também, com a esquadra que se desloca para
o Sul, o Bispo Dom Pedro Leitão e o novo provincial dos jesuítas,
Luís da Grã.
Chegam ao Rio
em 18 de janeiro de 1567. Estácio e suas tropas recobram o ânimo
com a vinda de Mem de Sá. Os combates se acirram até a vitória
portuguesa, com os tamoios subjugados e os franceses expulsos. Para garantir
a posse da terra, Mem de Sá estimula a implantação
de um núcleo de povoamento bem fortificado: é São
Sebastião do Rio de Janeiro que vai nascendo.
Nóbrega
e Anchieta decidem voltar a São Vicente. Querem transferir o colégio
para o Rio. As casas de Piratininga, São Vicente, Santos e Vitória
permanecem sob jurisdição administrativa e eclesiástica
de Nóbrega. No Rio, para onde vão - Nóbrega como reitor
do colégio e Anchieta como auxiliar -, são recebidos em meados
de 1567 por Mem de Sá, que ainda lá se encontrava, supervisionando
a construção da cidade no Morro do Castelo.
O governador
logo indicou gente para auxiliar na construção do colégio.
Finalmente instalados, todo o trabalho administrativo ficou com Anchieta,
que ainda encontrava tempo para se dedicar à catequese em São
Lourenço, a atual Niterói.
A morte
do padre Anchieta, em detalhe do quadro Glorificação de
Anchieta, de Lucílio
de Albuquerque, pertencente ao acervo do Museu da Cidade, em Niterói Imagem: enciclopédia
Grandes
Personagens da Nossa História, Ed. Abril, S.Paulo/SP, 1969,
vol. I
Um homem
que não pára - Em 1570, com a doença e morte do
Padre Manuel da Nóbrega, Anchieta assume o cargo de reitor do colégio
do Rio, onde permanece até 1573, quando é substituído
pelo Padre Lourenço Brás. Nessa ocasião segue para
a Bahia, em companhia do Padre Vicente Rodrigues.
Durante a viagem,
no Espírito Santo, junto à foz do Rio Doce, um naufrágio
os lança na praia. Os dois padres seguem então a pé
para Vitória, onde chegam após 15 dias de marcha forçada.
Em Vitória, erguem a igreja de São Tiago. Dali, após
meses, partem para a Bahia, de onde Anchieta retorna ao Rio e reassume
a reitoria do colégio, voltando assim ao seu trabalho predileto:
catequese e aulas.
Em 1574, sempre
inquieto, vai à capitania de São Vicente e inicia a catequese
dos tapuias, ajudado por um índio que no passado salvara da morte.
Junto com o Padre Manuel Viegas, Anchieta consegue estabelecer uma reunião
de aldeamentos tapuias no lugar onde hoje está Guarulhos, perto
de São Paulo, e entrega-se ao trabalho.
Três
anos depois, em 1577, outro provincial, Inácio Tolosa, pede a Anchieta
que o acompanhe até a Bahia. Tolosa queria nomeá-lo reitor
do colégio da Bahia. Mas, uma carta vinda de Roma, assinada pelo
padre-geral da Companhia, tem outro e mais importante desígnio:
Anchieta é nomeado provincial do Brasil, em substituição
ao próprio Inácio Tolosa. É o mais alto cargo da Companhia
de Jesus na Colônia.
Com 43 anos
de idade, dos quais 24 passados como religioso no Brasil, o Padre José
de Anchieta assume o importante cargo. Agora é obrigado a visitar
todas as casas jesuíticas do Brasil, missão que cumpre com
alegria. Mesmo como provincial, continuou a fazer suas viagens a pé
e descalço, despreocupado com a aparência e sem aceitar que
o carregassem, como era costume na época.
Foi ao colégio
de Olinda, em Pernambuco, de onde volta à Bahia, seguindo mais tarde
para o Espírito Santo em visita a Reritiba. Depois, toma o caminho
do Rio; a seguir Santos, São Vicente, Itanhaém e São
Paulo.
Em São
Paulo, entusiasma-se com o que vê: ao redor do primitivo barracão
que conhecera há 25 anos, floresce a vila, com o colégio
já instalado num grande casarão e muitas casas espalhadas
em ruas bem traçadas.
Durante dez
anos Anchieta não fez outra coisa senão viajar num tempo
de maus e vagarosos navios e de difíceis caminhadas a pé.
A doença que o acompanha desde a mocidade se agrava e, em 1584,
doente e cansado, escreve ao padre-geral em Roma:
"Como
a minha doença começou há muitos anos e agora, com
a idade e os trabalhos, apertou mais, existe pouca esperança de
saúde; e assim espero que o padre visitador me tirará o cargo
da Província, se a morte não tiver cuidado de o fazer".
Só três
anos depois, entretanto, é que consegue substituto. Seu sucessor,
Marçal de Beliarte, querendo lhe dar maior conforto, pretende transferi-lo
para o Rio. Mas Anchieta prefere suas aldeias de índios, prefere
continuar seu trabalho humilde de catequese e vai para Reritiba, no Espírito
Santo.
No final de
1591 é chamado mais uma vez à Bahia, para opinar sobre questões
da Companhia. De lá, volta a Reritiba e, dois anos depois, é
nomeado superior do colégio da vila de Vitória e das quatro
aldeias de catequese a ele subordinadas. Só em 1595 consegue dispensa
de suas tarefas e retorna a Reritiba. Está enfraquecido e doente
e, pela primeira vez, permite que o carreguem numa rede. Mas ainda uma
vez se recupera, chega a voltar ao cargo de superior de Vitória.
Em 1497, está
de novo em Reritiba quando, no mês de junho, seu estado de agrava.
No dia 9 pede a extrema-unção. Pesa sobre a aldeia de Reritiba
a dor de perder o amigo, que morre nesse mesmo dia, com 63 anos de idade
e 44 anos de serviços prestados ao Brasil. A dor de Reritiba espalha-se
por toda a colônia. Mais de 3 mil índios acompanharam o enterro
de Anchieta pelos 90 quilômetros que separavam Reritiba de Vitória.
O longo cortejo crescia a cada passo. Todos choravam a morte de um homem
que só teve uma ambição na vida: a cristianização
do Brasil. |