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CULTURA/ESPORTE NA BAIXADA SANTISTA - ARTACHO - BIBLIOTECA NM
Artacho Jurado (B-3)

Clique nesta imagem para voltar ao índice da obraArquiteto que com suas polêmicas obras marcou a cidade de Santos em meados do século XX, João Artacho Jurado só começou a ter seu valor reconhecido no século XXI.

Mas foi em 1996, no governo do prefeito David Capistrano Filho, que a Prefeitura de Santos determinou a impressão da obra Santos, Jurado: a ilha e o novo, de Paulo Matos e Gegê Leme, com fotos de Ernesto Papa, Gegê Leme e Centro da Memória de Santos. Com 20 páginas mais as capas, a brochura teve projeto gráfico, editoração eletrônica, fotolito e impressão da Prodesan Gráfica:

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Santos, Jurado: a ilha e o novo

Paulo Matos - Gegê Leme

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Detalhe da cobertura do edifício Verde Mar

Foto: Gegê Leme, publicada com o texto

Santos, a ilha e o novo

Gegê Leme e Paulo Matos

Os antigos abrigos de bonde do Boqueirão, construídos nos anos 50 e que hoje passam a conter a "Ilha de Conveniência", foram mantidos por fazerem parte de um complexo arquitetônico, integrado também pela praça da Fonte Vicente de Carvalho, à sua frente, e o edifício Verde Mar, ao seu lado.

Esse conjunto é único na cidade e se destaca na orla da praia por suas formas inusitadas, suas cores fortes e contrastantes, seu desenho livre. Marcando de maneira específica o bairro do Boqueirão.

A linha mestra que costura todo esse conjunto foi dada por João Artacho Jurado, que projetou e construiu o edifício Verde Mar. E irradiou seu revolucionário estilo para estas obras públicas da época, de remodelação viária e urbana.

A expansão urbana ocorrida a partir da reconquista da autonomia política da cidade, concretizada na posse do prefeito eleito Antonio Ezequiel Feliciano, em 1953, foi composta por inúmeros projetos e fartas realizações, tanto da iniciativa privada como da Prefeitura de Santos.

Nessa década dos anos 50 - os "anos dourados", como conhecidos no Brasil -, o Boqueirão ganhava, além do maior cinema da cidade, o Cine Caiçara, o edifício Parque Verde Mar, no número 6 da Avenida Vicente de Carvalho. Uma das mais expressivas obras deste misto de planejador, construtor e homem de marketing João Artacho Jurado.

Jurado construiu o edifício Verde Mar de 1951 a 1960 e o edifício Enseada, na Ponta da Praia - Avenida Bartolomeu de Gusmão número 180 - concomitantemente, de 1951 a 1965. Sua empresa, a Construtora e Imobiliária Monções, era assessorada pela Sociedade Técnica Jurado, integrada por ele e por seu irmão, Aurélio Jurado Artacho.

Por propor variantes sobre a já delineada arquitetura modernista, Artacho Jurado foi fartamente contestado em seu tempo, pela corporação dos arquitetos diplomados advindos da escola de arquitetura fundada em São Paulo em 1948. E hoje é considerado como um marco histórico na arquitetura, que teve em Santos grandes momentos, até hoje elogiados e contemplados nos edifícios Verde Mar e Enseada.


Conjunto Paisagístico do Boqueirão

Foto: Ernesto Papa, publicada com o texto

A "Ilha de Conveniência", implantada hoje no espaço antes reservado aos que esperavam o bonde que passava pela praia, na meta do fortalecimento comercial e turístico, mantém o espírito de evolução decretado nos anos 50. Eram tempos de renovação urbana e impulso imobiliário, prédios nascendo na fase de expansão em direção às praias.

O edifício Verde Mar e o estilo Artacho Jurado nascem em Santos na antiga área ocupada pelo Parque Indígena de Júlio Conceição: eram 22 mil metros quadrados com 200 mil orquídeas, pomares, aves e animais, considerado o maior orquidário ao ar livre do mundo, preparado desde 1909 e inaugurado em 1932. Com o desaparecimento de Júlio Conceição em 1938, em 1944 a área da antiga chácara de Carneiro Bastos, que tomava toda a quadra e parte da outra -, é loteada e começam a surgir os edifícios de condomínios.

Em frente, do outro lado da Avenida Conselheiro Nébias com a praia, um outro marco histórico do Boqueirão tinha sido o Miramar - um centro de diversões que alcançara a dimensão de o maior da América do Sul. Inaugurado em 1896 para estimular a presença de pessoas neste lado da cidade, o Miramar foi um centro de brinquedos, cassinos, shows, cinema, teatro e restaurantes. Lá estiveram, entre outros, Caruso e Gardel. Ele ganharia fama internacional até fins da primeira metade de nosso século (N. E.: século XX). Seria fechado, assim como o Parque Indígena, e sua área loteada na mesma época.

No Boqueirão estivera, em 1876, o imperador d. Pedro II. E o bairro adquirira o hábito de "pensar grande". Por isso nasceram ali o Parque Indígena e o Miramar e depois o Verde Mar - em um estilo arquitetônico que desafiava todos os estilos da moderna arquitetura brasileira.

Os grandes espaços existentes na orla da praia até 1950 foram individualizados a partir de então, com a construção dos edifícios de condomínios, ampliando o acesso ao lazer, nessa época, à classe média, principalmente aos que emergiam economicamente em São Paulo. Jurado ia além e pretendia inverter essa individualização, como fizera em outros edifícios na capital do Estado. Construindo prédios com vida social própria, com largas áreas comuns. A praia foi um dos grandes momentos de Jurado, porque cenário de contemplação dos espaços coletivos por ele criados.

Popularizava formas palacianas, trazendo-as estilizadas. Seus condôminos compravam a preço de custo os apartamentos, adquirindo o luxo e a ostentação a prestações. A classe média trocava casas por apartamentos. Jurado construía edifícios aparentando mansões empilhadas.


Vista da cobertura do edifício Verde Mar

Foto: Ernesto Papa, publicada com o texto

De origem espanhola, João Artacho Jurado cresceu em uma comunidade anarquista em Mogi das Cruzes, de onde absorveu o comunitarismo ideológico.

Como explicar o impacto positivo que ele obteve em Santos com suas construções cinematográficas, segundo testemunhos e depoimentos? Teria a preponderante influência espanhola contribuído para a formação de um veio cultural revolucionário, cujo sentido incorporava Jurado? A imigração espanhola em Santos foi a segunda numericamente, desde fins do século XIX. Mesmo superada pelos portugueses, preponderava ideologicamente. Tinha o maior número de lideranças sindicais nos tempos em que Santos foi a "Barcelona Brasileira".

A Barcelona catalã, na Espanha, era a capital mundial da organização operária anarco-sindicalista. Apontava na direção da autonomia das organizações operárias, substituindo o estado em nome da liberdade. Santos, expressão brasileira na luta dos trabalhadores, recheada de espanhóis e líder na organização anarco-sindicalista, foi por isso reconhecida internacionalmente como a "Barcelona Brasileira". Já em 1885 tinha um jornal da comunidade espanhola, o Santos/Andaluzia, e entidades como o Centro Español, fundado em 1895.

Muitos dos imigrantes vieram deportados, líderes natos. Eles instituíram uma corrente de pensamento e de comportamento que, consciente ou não, representou uma cultura submersa espelhada nas atitudes sociais da comunidade urbana.

Artacho Jurado, trazendo em seu estilo arquitetônico o revolucionário catalão Gaudí, mas também a Broadway, a influência americana que ditava a moda no pós-guerra, elegeu como símbolos, amante do mundo moderno que era, os principais meios surgidos: o automóvel e o cinema.

Construiu espetáculos na forma e no conteúdo. Que encontrou receptores e vive hoje ainda, quase meio século após, instituindo um clima próprio entre os moradores dos edifícios que fez, orgulhosos como caramujos em sua casca, feita com arte.


O Boqueirão nos anos 1930

Foto: Centro da Memória de Santos, publicada com o texto


O Boqueirão nos anos 1930

Foto: Centro da Memória de Santos, publicada com o texto


Cassino Recreio Miramar

Foto: Centro da Memória de Santos, publicada com o texto


Cassino Recreio Miramar

Foto: Centro da Memória de Santos, publicada com o texto