No
ar de Cubatão, o produto químico que está causando
das malformações é
encontrado em grande volume Foto: publicada
com a matéria
Dióxido
de enxofre é a causa das malformações
CUBATÃO
- Os estudos do cientista Reinaldo Azoubel já isolaram um produto
químico existente em Cubatão que provoca malformações
congênitas. Trata-se do anidrido sulfuroso, um dos nomes do dióxido
de enxofre, substância das mais comuns existentes em Cubatão.
O cientista
ainda está na fase inicial das experiências, e submeteu ratas
engravidadas, no quarto dia da gestação, a gases de anidrido.
Resultado: a primeira ninhada nasceu com malformações congênitas.
Azoubel não adiantou maiores detalhes da experiência, nem
autorizou a divulgação, pois teme ser chamado de alarmista.
"Sou um homem de ciência, mas considero importante alertar as autoridades.
É necessário fazer estudos urgentes para completar as pesquisas
iniciadas por Paulo Naum, que apontou a presença de dióxido
de enxofre no sangue dos moradores da Vila Parisi. Os estudos para apontar
a causa não podem ser genéticos, pois a razão é
ambiental e não hereditária", disse ele.
As pesquisas
de Azoubel em Ribeirão Preto foram inicialmente reveladas pelo vereador
Romeu Magalhães, PDS. Este vereador vem lutando, há dois
anos, para que a Prefeitura contrate os serviços de Azoubel, sem
sucesso. Há um mês, com exclusividade, A Tribuna verificou
na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, unidade da USP, as primeiras
experiências de Azoubel. Ele submeteu ratas engravidadas a monóxido
de carbono. Agora, pretende continuar as experiências com dióxido
de enxofre. A segunda ninhada vai, certamente, comprovar o primeiro teste.
Na atmosfera de Cubatão são lançadas 4.090 toneladas
de dióxido de enxofre por mês.
Geneticista
- O vereador soube ontem que a Prefeitura vai contratar hoje o geneticista
Antônio J. Brussolo da Cunha, da Escola Paulista de Medicina. O contrato
será assinado pelo prefeito José Osvaldo Passarelli, às
14 horas, na presença dos cientistas Roque Monteleone e Décio
Brunoni.
"Nada tenho
contra esse cientistas. Mas, achava melhor contratar um morfologista, depois
das descobertas de Reinaldo Azoubel. Na opinião de técnicos,
Azoubel é o morfologista indicado. Ainda assim, se a Prefeitura
preferir um geneticista, a Organização Mundial de Saúde
considera Fernando Arena o melhor deles", disse Romeu. Hoje, o cientista
Paulo Naum estará às 10 horas com Romeu Magalhães
e, às 20 horas, fará palestra na Associação
das Vítimas da Poluição.
O que faz
esse gás - O anidrido sulfuroso também é conhecido
como dióxido de enxofre, SO2, e se encontra com abundância
em Cubatão. Usa-se para a fabricação de ácido
sulfúrico. Decompõe-se pela luz, fazendo-se incidir um raio
de luz através de uma proveta contendo o gás. Inicialmente,
ele se torna límpido e transparente. Porém, ao fim de alguns
minutos, todo o tubo de ensaio onde ele é injetado se torna cheio
de névoa, proveniente da decomposição do dióxido
de enxofre. Deixando-se permanecer algum tempo na escuridão, o gás
torna-se novamente limpo devido à combinação do enxofre
com trióxido de enxofre (outro produto encontrado em abundância
no ar de Cubatão), ou à condensação de produtos
sólidos sobre as paredes da redoma de vidro.
Essa descrição
pode ser encontrada no livro Química Inorgânica Moderna,
de J. W. Mellor. Ele afirma que o anidrido sulfuroso é um gás
incolor, um veneno violento para o sangue, nocivo à vegetação,
e constitui um dos vapores perniciosos que dão lugar a reclamações
nas regiões em que o gás está presente.
Essa descrição
explica o fenômeno da "chuva que morde" que ocorre com freqüência
no Jardim São Marcos e na Vila Parisi. Foram os moradores daqueles
bairros que deram esse nome ao orvalho que cai de manhã, próximo
ao parque industrial de Caubatão. Trata-se de uma chuva ácida,
composta de anidrido sulfuroso. Em contato com a pele, a chuva arde, queima,
e por isso o povo diz que ela "morde".
Esse gás
é duas vezes mais pesado do que o ar. Isso significa que o gás
fica à flor da terra. Em conseqüência, o gás pode
ser recolhido por deslocamento ascendente do ar. A solução
de anidrido é fortemente ácida e apresenta propriedades gerais
características dos ácidos.
Fábricas
que o produzem - Conforme levantamento feito pela Sociedade Brasileira
para o Progresso da Ciência, as fábricas qus se seguem produzem
o dióxido de enxofre: Refinaria Presidente Bernardes, da Petrobrás;
Ultrafértil, na fábrica do Jardim São Marcos; Copebrás
(derivados), Union Carbide e Estireno.
Ao todo, são
lançadas quatro mil toneladas por mês de dióxido de
enxofre na atmosfera de Cubatão. Somada aos derivados - ácido
sulfúrico, gás sulfídrico e trióxido de enxofre
- essa quantidade chega a perto de cinco mil toneladas mensais.
A SBPC conseguiu
isolar efeitos do dióxido: destruição da mucosa nasal,
danos ao sistema respiratório e, agora, segundo Reinaldo Azoubel,
malformações congênitas.
Segundo a SBPC,
quase todas as indústrias de Cubatão lançam no ar
dióxido e trióxido de enxofre, os poluentes emitidos em
maior volume na Baixada Santista, e que chegam a cerca de 7 mil toneladas
por dia. São gases produzidos pela queima de petróleo de
alto teor de enxofre, impróprio para o uso em regiões urbanas.
Impróprio
para a vida - Ontem, o Grupo de Estudos de Poluição do
Ar, formado por cientistas da Universidade de São Paulo/Instituto
de Física, divulgou o relatório final da Avaliação
Preliminar da Qualidade do Ar de Cubatão. Os dados são aterradores.
Eles usaram
dados fornecidos pela Cetesb e também o Laboratório do Acelerador
Pelletron, do Departamento de Física Nuclear do IFUSP - Instituto
de Física da USP -, que favoreceu a utilização, em
caráter extraordinário, do acelerador, para possibilitar
a realização de estudos com a utilização de
computadores.
O trabalho
é assinado pelos cientistas Paulo Artaxo Neto, Manfredo H. Tabknics,
Vera L. Soares, Tarsis M. Germano e coordenado pelo cientista Celso M.O.
Orsini.
Uma das conclusões
dos técnicos: "Em Cubatão, armou-se grave problema de poluição
do ar, fruto da inconsciência e imprevidência dos homens, na
busca ansiosa do lucro e do 'progresso' (aspas no original) a qualquer
custo. Por ironia, o que se conseguiu, porém, foi uma inequívoca
demonstração de que esse tipo de progresso, traduzido num
processo de industrialização maciço, distorcido e
indiscriminado, não traz, necessariamente, o bem-estar das comunidades
mais envolvidas. Pelo contrário, o efeito é o inverso".
Os cientistas
concluíram que os níveis de Material Particulado Inalável
Fino são moderadamente elevados em Cubatão-Centro e na Vila
Parisi.
Nessa mesma
região da Vila Parisi, são extremamente elevados os índices
de particuladas de material em suspensão fino, inalável pelas
vias respiratórias, em conseqüência das reações
da mistura de gases e de rochas fosfáticas, com a presença
do dióxido de enxofre. Em quantidades elevadas, foram encontrados
os seguintes elementos: cromo, níquel, zinco, cobre, zircônio
e estrôncio.
"Praticamente
todos os elementos detectados na Vila Parisi apresentam-se em concentrações
médias relativamente elevadas, em comparação com a
Capital e outras áreas urbanas", revelam os sientistas.
E concluem:
"Episódios graves de poluição do ar, a nível
de Estado de Emergência, segundo a legislação paulista,
devem estar ocorrendo com alta freqüência (talvez mais de duas
dezenas) anual, em Vila Parisi". |