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Última modificação em (mês/dia/ano/horário): 01/11/00 13:52:18
A computação e o futuro das profissões

Carlos Pimentel Mendes
Editor

Na sala de aula de uma escola pública do Ensino Médio (antigo ginásio), as carteiras já não têm tinteiros como no início dos anos 60, quando as canetas Bic ainda não tinham chegado ao Brasil. Têm computador, impressora, televisor, videocassete.
Mas, as carteiras continuam dispostas em fila, de frente para a lousa e a mesa do professor, como que para lembrar que o sistema de ensino ainda não superou conceitualmente a era da Revolução Industrial. Atrás da mesa do professor, uma super lata de lixo (com o endereço web do fabricante...) e um cartaz sobre um curso, orientando os alunos a obterem mais informações também pela Internet.

Essas impressões foram registradas durante recente conversa com alunos da escola santista Primo Ferreira, dentro do Projeto Rumos de orientação vocacional promovido pelo Rotary Club de Santos-Porto, quando recebi a incumbência de abordar o tema Informática. Eis um resumo da visão que procurei passar aos estudantes. Corrijam-me, se estiver errado...

Identidade – Comecei lembrando que meu nome, constante num histórico documento (emitido no mesmo ano em que o primeiro satélite deu a volta à Terra transmitindo seus bips) foi mudado há pouco mais de quatro anos para pimentel@pimentel.jor.br. É assim que sou eletronicamente identificado, atualmente. Reflexo de uma revolução que, no Brasil, começou efetivamente em 1995 e, na verdade, mal começou: todas as mudanças já havidas no comportamento social e na economia nada representam, perto do que ainda está por vir.

No final dos anos 70, um moderno profeta, o escritor norte-americano Alvin Toffler escreveu, entre outros, o livro "A Terceira Onda", hoje desatualizado por não prever, por exemplo, o fenômeno Internet, mas válido como análise das mudanças econômicas havidas na história humana e suas implicações. 

Em resumo, a Primeira Onda foi quando os homens, nômades como nossos índios menos aculturados, deixaram de viver apenas do extrativismo e da caça, para se dedicarem à Agricultura. Ao se fixarem na terra cultivada, começaram a dar valor maior à propriedade e à família (braços para a lavoura) - origem menor dos atuais países e suas fronteiras. Alguns milhares de anos depois, começou no século passado o que Toffler chamou de Segunda Onda, a Revolução Industrial. 

Agora, era preciso que as escolas formassem levas de operários para as fábricas, onde trabalhariam horas a fio em funções bem específicas e repetitivas, como apertar um parafuso numa peça, defronte a uma esteira rolante. A família perdeu importância, mesmo porque, desde crianças, as pessoas passavam até dois terços do dia nas fábricas e o tempo em casa mal dava para descansar e se preparar para o dia seguinte. 

Nos últimos anos, começou a se espraiar pelo mundo a Terceira Onda, em que sistemas computadorizados/robóticos substituem com vantagem a mão-de-obra humana nas fábricas. Livres do trabalho mecânico, as pessoas se dedicariam mais ao trabalho intelectual e ao lazer. 

As fábricas automatizadas não precisariam mais de funcionários, mas um novo entendimento capital/trabalho teria de surgir, pois desempregado não consome, e sem consumidor não há para quem vender o produto da fábrica, que portanto iria à falência. França e Alemanha, por exemplo têm experiências em que o trabalhador tem um horário bastante reduzido, mas não perde renda por isso, podendo assim manter seu padrão de consumo. Turismo e serviços entrariam em fase de grande crescimento, atendendo à nova demanda.

Transição – O escritor foi feliz em conceituar as mudanças como ondas, lembrando que não há uniformidade no processo: um país pode ter parte da população em cada uma dessas ondas, abrigando desde o índio caçador e o agricultor até o industrial e o especialista em serviços de turismo. O choque entre essas três ondas cria uma série de conflitos. Por exemplo, fica difícil para um empresário reduzir a jornada de trabalho dos funcionários e manter o salário, se todos os concorrentes não fizerem o mesmo, já que quando menor o custo do produto (e o salário é um dos componentes desse custo), maior o seu potencial de venda. O mesmo vale para os países: quem tiver preço menor obtém maior fatia no comércio internacional. 

Falta portanto um pacto social em nível planetário que resolva o dilema capital/trabalho. Como a crise está chegando ao limite de ruptura, é razoável supor que logo haverá esse desejado pacto (como aconteceu quando o tempo de trabalho foi reduzido para oito horas diárias, em vez das 16 ou mais que prevaleciam no início da Revolução Industrial).

Para complicar essa transição, a computação cresce em importância, mais rápido do que podemos assimilar. O supercomputador que ajudou o homem a chegar à Lua em 1969 tem capacidade de processamento inferior ao da calculadora que o camelô oferece hoje nas esquinas da vida. Já existem geladeiras e fornos microondas com acesso à Internet, já conheci há quase uma década, quando esteve em Santos, um navio mercante dinamarquês com apenas seis tripulantes, que o controlavam (dois marinheiros por turno, três turnos por dia) apenas com câmeras de televisão e um joystick no lugar do timão.

Convivemos com o violento choque entre os estilos de vida e tecnologias das três ondas evolutivas citadas por Toffler, daí a perplexidade, a dificuldade de encontrar rumos. Os jovens, especialmente, sentem isso na pele. Os pais, criados na Primeira ou na Segunda Onda, defendem valores como propriedade material, profissões sólidas. As escolas, salvo exceção, posam de modernas com sofisticados computadores, mas mantêm um sistema de ensino baseado em quociente de inteligência, capacidade maior ou menor de decorar certas informações e obter um diploma (ainda que seja colando na prova!). 

Milhares de estudantes saem com um canudo inútil na mão (quantas empresas ainda pedem realmente que alguém apresente um diploma?) e a perspectiva de trabalhar como lixeiros ou vigias, pois não têm experiência prática para ingressar no mercado de trabalho...

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